Podcast Economistas: O Sistema Cofecon/Corecons na COP30 

Kleber Mourão, Michele Aracaty e Frednan Bezerra falam sobre sua participação no evento e mostram como a ciência econômica contribui para uma transição ecológica justa e inclusiva 

Está no ar mais um episódio do podcast Economistas e o tema desta semana é a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que acontece em Belém nos dias 10 a 21 de novembro. Vários economistas do Sistema Cofecon/Corecons estiveram presentes e conversamos com três deles sobre o assunto. O podcast pode ser ouvido na sua plataforma favorita ou no player abaixo. 

Receber a conferência no Brasil, e especialmente em uma cidade amazônica, é algo que tem seu simbolismo, tanto pela urgência da crise ambiental, que afeta populações vulneráveis como indígenas e ribeirinhos, quanto pelo potencial de soluções sustentáveis que podem ser criadas com a floresta em pé. Nesse contexto, a participação dos economistas ganha uma importância especial, com diagnósticos, projeções, modelagens de políticas públicas, avaliação de investimentos verdes, entre outras atividades. Num momento em que o mundo busca redefinir seus padrões de produção, consumo e financiamento, os economistas são fundamentais para a promoção de um debate de elevado nível técnico, com responsabilidade e inclusão social. 

Desafios da sede da COP 

O presidente do Corecon-PA/AP, Kleber Mourão, comentou as dificuldades que o estado do Pará tem para transformar as vantagens ambientais em desenvolvimento econômico. Existe uma pressão econômica sobre os recursos naturais que, em muitas situações, põe a necessidade de curto prazo à frente da conservação ambiental. Apesar disso, ele destaca o potencial que o estado tem dentro da transição baseada na conservação e na inovação sustentável.  

“Com a realização da COP30 em Belém, o Pará se posiciona no centro do debate global sobre o clima e a bioeconomia. Temos trabalhado com políticas públicas para viabilizar a valorização da floresta viva e posso citar alguns exemplos”, menciona Mourão. “O primeiro, talvez mais importante, diz respeito à atuação do Estado com austeridade no combate à extração ilegal de madeira, ao garimpo ilegal, à grilagem de terra e à biopirataria. O Estado se faz forte e presente no combate a todo tipo de ilegalidade no território paraense. Essa iniciativa, que é o dever de casa, vem sendo feita”. 

“Outro bom exemplo é que o Pará assinou um acordo de quase R$ 1 bilhão em créditos de carbono, tornando-se o primeiro estado a garantir financiamento da coalizão LEAF, uma iniciativa pública e privada internacional que inclui grandes corporações e os governos da Noruega e Reino Unido, entre outros. A floresta viva vale mais do que derrubada”, comemora Mourão. “O Pará também tem estimulado a aquisição de carros elétricos com isenção de IPVA para modelos que custem até R$ 150 mil. Com estes exemplos, ele consolida sua posição na agenda climática internacional”. 

Mourão também trouxe suas impressões sobre o evento como um todo, que tem 56 mil participantes, cerca de 11 mil organizações não governamentais e 3.920 veículos de imprensa inscritos. “Belém, a capital do Brasil no período da COP30 abraçou o evento e seus participantes, mostrando nossa riqueza ambiental, cultural, social e a nossa culinária”, afirmou Mourão. “Belém se preparou para receber o evento. Em dois anos, recebeu investimentos em infraestrutura de saneamento básico, mobilidade urbana e turismo. São obras que talvez levassem 20 ou 30 anos para ser realizadas. A cidade melhorou, e esse também é um legado importante da COP30 para a população”. 

Presidenta do Corecon-AM/RR participou de mesa redonda 

A presidenta do Corecon-AM/RR, Michele Aracaty, participou de uma mesa redonda na qual discutiu a importância da inovação econômica para o desenvolvimento regional. “Tive a oportunidade de levar parte de uma pesquisa aplicada que é muito ampla, onde acompanho diversos projetos, produtos e estratégias que possibilitam a identificação de oportunidades dentro do que chamamos de bem-estar social e econômico, principalmente para quem vive da floresta, os amazônidas”, mencionou Michele. 

“Um dos destaques que apresentei foi a distribuição de motores elétricos a pescadores. Eles são mais eficientes e silenciosos e menos poluentes. O impacto é muito menor quando falamos de biodiversidade”, conta a economista. “Outro projeto foi o uso de ecobarreiras, que servem para recolher resíduos sólidos flutuantes, especialmente garrafas PET, que são destinadas de forma incorreta sobre os igarapés e os rios da Amazônia”. 

“O terceiro projeto foi o uso da fibra do curauá, que é uma fibra regional, como substituta do plástico na fabricação de partes de produtos que são produzidos no Polo Industrial de Manaus. A ideia é gerar emprego e renda sustentável e reduzir o impacto sobre o meio ambiente quando o produto for descartado”, cita Michele Aracaty. “Este projeto permite fazer uma ligação entre o Polo Industrial de Manaus e a biodiversidade que vem a partir das riquezas da floresta”. 

Perguntamos à presidenta do Corecon-AM/RR que oportunidades ela vê na região para que esta se destaque como laboratório de inovação em políticas climáticas e de economia circular. “A partir da apresentação dos planos estaduais de bioeconomia, há uma centralização de investimentos, além da ampliação dos parques de bioeconomia e de inovação”, responde Michele. “Temos diversos contratos de redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, não somente no Amazonas e Roraima, mas nos demais estados da região Norte. A partir desta política, vamos receber investimentos públicos e privados, nacionais e internacionais, buscando manter a floresta em pé e gerar empregos para quem vive da floresta”. 

“O Amazonas é um estado único, que concentra os principais exemplos de bioeconomia e cadeias sustentáveis, mas também sofre uma pressão muito grande nos aspectos social e ambiental. As parcerias com comunidades tradicionais podem conciliar os conhecimentos ancestrais e científicos”, aponta a economista. “Também gostaria de destacar a necessidade de identificação das atividades econômicas ligadas à economia verde, de forma a desestimular atividades predatórias e trabalhar com a floresta em pé”. 

Conselheiro federal exalta Cúpula dos Povos 

O conselheiro federal Frednan Bezerra participou da Cúpula dos Povos, que reúne diversos representantes da sociedade civil, comunidades tradicionais, organizações ambientalistas, sindicatos, movimentos sociais, coletivos urbanos, universidades e grupos de pesquisa, além de ter recebido mais de 3 mil indígenas. O objetivo do encontro é dar voz à sociedade civil e construir propostas alternativas às que são discutidas na esfera oficial da organização das nações unidas.  

Na COP30, a Cúpula dos Povos ganhou destaque especial porque a Amazônia é palco de inúmeras lutas históricas de populações tradicionais. “Foi um momento ímpar no meu processo contínuo de formação enquanto profissional, acadêmico, docente e pesquisador. Este é o momento de ouvir, de contribuir com o debate, com os movimentos sociais e os povos que estão na floresta”, conta Frednan. “É uma oportunidade extremamente rica de participar deste diálogo que ultrapassa as nossas fronteiras e entender as dinâmicas territoriais e socioambientais em termos ampliados. A carta que foi produzida é uma síntese importante, mas o debate e a vivência vão muito além”. 

O economista, que já foi presidente do Corecon-MA, também falou sobre o importante papel que o Sistema Cofecon/Corecons desenvolve ao promover um diálogo qualificado com a sociedade. Naquele estado, o Conselho Regional de Economia tem construído espaços de discussão e reflexão sobre sustentabilidade, mudanças climáticas e desenvolvimento territorial. “O último Encontro Maranhense de Economia pautou questões relativas a mudanças climáticas e o próximo irá dialogar com as temáticas da sustentabilidade. Não podemos deixar de contribuir com este debate”, argumenta Frednan.  

O conselheiro federal também falou sobre como diferentes setores da economia maranhense podem se adaptar a uma economia de baixo carbono. “O Maranhão tem uma base de agricultura familiar muito extensa, mais de 200 mil estabelecimentos. Temos uma alta capacidade de avançar em práticas agroecológicas, produção orgânica e cadeias de comercialização”, explica Frednan. “No campo da energia renovável há o potencial da energia eólica, solar e da biomassa. O grande desafio do Maranhã é dar escala para essas experiências. Temos também o setor extrativista e agroindustrial, pensando na cadeia do babaçu e do açaí, com vários produtos da sociobiodiversidade que podem ser o carro-chefe deste processo, com o protagonismo das mulheres do campo e da floresta. Todos estes debates estiveram na Cúpula dos Povos”. 

Manifesto 

No XXVI Congresso Brasileiro de Economia, realizado em Porto Alegre nos dias 6 a 10 de outubro, o Sistema Cofecon/Corecons aprovou um manifesto para ser divulgado na COP30. O texto reafirma o papel do Brasil como protagonista na agenda climática global, destacando a importância da Amazônia e a urgência de uma transição ecológica que uma justiça social e responsabilidade ambiental.  

O documento foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, italiano e para a língua indígena magüta, também conhecida como tikuna. A tradução para uma língua indígena reconhece a diversidade cultural brasileira e a presença ancestral dos povos originários na construção de um futuro sustentável. A disseminação dessas traduções reafirma que a mensagem dos economistas, baseada em justiça social, competitividade sustentável e soberania, não se encerra nas fronteiras nacionais, mas está integrada a uma agenda de transformação planetária.  

O texto do manifesto pode ser lido clicando AQUI.

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