Tarifas e Pix: Gustavo Pessoa analisou novos instrumentos de poder na economia internacional 

Economista realizou palestra no dia 13 de agosto em solenidade realizada na Câmara Legislativa do Distrito Federal 

A relação entre geopolítica, comércio internacional e infraestrutura financeira esteve no centro da palestra do economista Gustavo Pessoa durante a solenidade de comemoração do Dia do Economista e dos 75 anos de regulamentação da profissão, realizada no dia 13 de agosto na Câmara Legislativa do Distrito Federal. A partir dos impactos das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e das discussões em torno do Pix, o economista analisou como a crescente interdependência entre as economias pode deixar de ser apenas uma fonte de integração e prosperidade para também se tornar ferramentas de disputa de poder no cenário internacional. 

Pessoa propôs uma análise afirmando que sua tese é simples: tarifas e Pix parecem temas distintos, mas pertencem ao mesmo fenômeno. Segundo ele, “a interdependência econômica, antes vista apenas como fonte de prosperidade, foi convertida em instrumento de poder”, o que exige dos profissionais da área a responsabilidade de “transformar choques externos complexos em escolhas públicas inteligíveis”. 

Ao abordar os impactos tarifários impostos pelos Estados Unidos, o palestrante enfatizou a necessidade de cautela “para não exagerar nem minimizar o problema”. Pessoa detalhou que a incidência desses impostos é concentrada em bens com emprego, aprendizado produtivo e encadeamento, como máquinas, móveis e calçados, alertando que “a média agregada, portanto, esconde uma distribuição extremamente desigual do dano”. Para ele, o impacto macroeconômico pode ser administrado, mas “o dano microeconômico e regional mostra-se muito severo”. 

Para lidar com esse cenário, Pessoa defendeu uma estratégia baseada em quatro pilares: negociar, ajustar, diversificar e defender juridicamente. Ele reforçou que “a negociação internacional não é capitulação, mas gestão de interdependência”, e que o uso da lei de reciprocidade deve ser proporcional, direcionado e reversível. O economista pontuou ainda que “soberania não é recusar diálogo, é criar condições para dialogar entre iguais”, alertando que “firmeza sem cálculo vira gesto”. 

O palestrante esclareceu que “Pix e pagamentos eletrônicos aparecem entre os temas usados pela USTR para justificar a ação comercial. A tarifa de 25% incide sobre bens. A USTR não atribuiu uma parcela da alíquota ao Pix. Portanto, não sabemos quanto dos 25% corresponde a cada alegação”. Ele explicou também que o Pix “amadureceu como infraestrutura de varejo”, mas reconheceu que “quanto maior a escala, maior a obrigação de demonstrar governança, segurança e acesso isonômico”.  

Encerrando sua intervenção, Gustavo Pessoa enfatizou que o papel do economista, diante da fragmentação global, é “não apenas descrever o choque, mas ampliar o conjunto de escolhas do país”. E concluiu com um alerta estratégico: “Não se protege o Pix congelando nem brandindo como arma. Protege-se tornando sua neutralidade demonstrável e sua arquitetura interoperável”. Ele reforçou a necessidade de o Brasil conectar sua infraestrutura financeira ao mundo “sem prometer atalhos geopolíticos”. 

Lacerda comenta transição para a pós-globalização 

O conselheiro federal Antonio Corrêa de Lacerda elogiou a precisão da palestra e contribuiu com uma análise sobre a transição do paradigma de globalização para o que chamou de pós-globalização. Segundo Lacerda, “eventos como a pandemia e a crise climática forçaram o mercado a priorizar a segurança de fornecimento”, substituindo a lógica neoliberal onde apenas o preço determina as escolhas da localização industrial. Ele argumentou que “o insumo mais caro é aquele que você não tem”. 

O economista também destacou que a disputa em torno do Pix envolve interesses profundos sobre o comportamento do consumidor, explicando que “dominar transações financeiras significa também você ter um domínio sobre o comportamento do consumidor, o que se torna um valor na definição dos algoritmos”. Ele observou que o Pix rompe a hegemonia de operadoras financeiras internacionais, que tradicionalmente cobram taxas elevadas, transformando o sistema brasileiro em um ponto de atrito por quebrar uma receita própria que estaria perdida. 

Lacerda finalizou afirmando que “é necessária uma postura estratégica do governo ou dos poderes para tratar o assunto com habilidade, porque a questão é muito mais complexa do que parece”, exigindo um olhar atento tanto para a soberania nacional quanto para as inovações tecnológicas. 

A palestra de Gustavo Pessoa e os comentários de Antonio Corrêa de Lacerda podem ser vistos no player abaixo. 

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