Educação financeira: conhecimento, autonomia e cidadania 

Por Tania Cristina Teixeira*

Em uma economia cada vez mais complexa, compreender riscos, crédito e escolhas financeiras tornou-se parte essencial do exercício da cidadania

A Semana de Educação Financeira promovida pelo Conselho Federal de Economia, por meio da Comissão de Educação, em parceria com o Conselho Regional de Economia de São Paulo, chegou ao fim depois de uma programação dedicada a um tema que se tornou incontornável no Brasil. Mais do que o êxito da iniciativa, os debates realizados reforçaram uma percepção que considero fundamental: em uma sociedade na qual o crédito, o consumo, os meios digitais e os serviços financeiros ocupam espaço crescente na vida das pessoas, educação financeira deixou de ser apenas um conhecimento conveniente e passou a constituir um instrumento de autonomia e cidadania. 

Os números ajudam a explicar essa urgência. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mostrou que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em junho de 2026. Quase três em cada dez — 29,9% — tinham contas em atraso, enquanto 12,2% declaravam não ter condições de pagar suas dívidas. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, a situação é ainda mais delicada: o endividamento alcançava 84,7% e a inadimplência, 38,3%. 

Esses dados, porém, não autorizam uma leitura simplista segundo a qual o endividamento seria consequência apenas de falta de disciplina ou planejamento. As decisões financeiras das famílias são tomadas dentro de determinadas condições econômicas, e não em um ambiente abstrato. Renda, emprego, inflação, custo de vida e acesso ao crédito condicionam a capacidade de escolha. Em abril deste ano, segundo o Banco Central, a taxa média do crédito livre destinado às pessoas físicas chegou a 63% ao ano, cinco pontos percentuais acima do observado doze meses antes. No cartão de crédito rotativo, dependendo da instituição, as taxas anuais ultrapassavam com grande margem os 300%. 

É justamente por isso que reduzir a educação financeira a orientações sobre cortar despesas ou montar uma planilha doméstica significa tratar apenas uma pequena parte do problema. Evidentemente, conhecer o próprio orçamento, planejar gastos e compreender os efeitos dos juros é indispensável. Mas a educação financeira que a realidade atual exige precisa permitir que as pessoas entendam também o ambiente econômico no qual estão inseridas, avaliem criticamente as ofertas que recebem e reconheçam os riscos de decisões que podem comprometer sua renda por meses ou anos. Como destacou a OCDE em seu Consumer Finance Risk Monitor 2026, consumidores enfrentam hoje um ambiente financeiro dinâmico e complexo, marcado simultaneamente por pressões sobre o custo de vida, endividamento, baixa alfabetização financeira, fraudes e novos riscos decorrentes da transformação dos serviços financeiros. 

Há ainda uma dimensão relativamente nova dessa discussão. O ambiente digital tornou o acesso ao crédito, aos investimentos, às compras e às apostas praticamente instantâneo. A mesma facilidade que ampliou possibilidades também reduziu o tempo entre o impulso e a decisão financeira. Ao mesmo tempo, as redes sociais multiplicaram discursos sobre enriquecimento rápido, fórmulas de investimento supostamente infalíveis e oportunidades apresentadas sem qualquer referência adequada aos riscos envolvidos. Nesse ambiente, saber calcular é importante, mas saber desconfiar tornou-se igualmente necessário. 

O crescimento das apostas de quota fixa é um exemplo eloquente. O tema adquiriu tal dimensão que o Ministério da Fazenda ampliou, em julho, as exigências para publicidade das chamadas bets. Entre as advertências que passaram a ser obrigatórias está uma mensagem cuja simplicidade diz muito sobre o desafio que enfrentamos: “Aposta não é investimento”. O governo também vem reforçando mecanismos de combate ao mercado ilegal e implementou instrumentos de proteção ao apostador, como a plataforma centralizada de autoexclusão. São medidas importantes, mas a necessidade de adotá-las revela como a fronteira entre entretenimento, consumo e decisão financeira pode se tornar perigosa quando não há informação suficiente. 

O mesmo vale para as fraudes. O Sistema Cofecon/Corecons tem se deparado com tentativas de golpe nas quais criminosos utilizam indevidamente o nome dos Conselhos Regionais de Economia para oferecer falsos empréstimos, geralmente associados à promessa de condições muito mais vantajosas do que aquelas disponíveis no mercado. Na abertura da Semana, chamei atenção para essa contradição: diante de um ambiente de juros elevados, uma oferta de crédito extraordinariamente barato, proveniente de fonte desconhecida, deveria despertar imediatamente uma pergunta sobre sua plausibilidade. Esse tipo de raciocínio é talvez um dos exemplos mais concretos do que significa educação financeira: desenvolver condições para comparar informações, identificar incoerências e tomar decisões menos vulneráveis à manipulação. 

Há, portanto, uma responsabilidade individual envolvida nas escolhas financeiras, mas há também uma responsabilidade coletiva. Poder público, instituições de ensino, sistema financeiro, entidades profissionais e organizações da sociedade precisam contribuir para ampliar o acesso a informações de qualidade e para tornar a linguagem econômica compreensível. Não é razoável exigir decisões financeiras cada vez mais sofisticadas de cidadãos que convivem com produtos complexos, publicidade agressiva, crédito caro e um volume crescente de informações sem lhes oferecer instrumentos adequados para interpretar essa realidade. 

Para nós, economistas, essa é também uma reflexão sobre a função social da profissão. Conhecimento econômico não deve servir apenas para interpretar indicadores, elaborar projeções ou orientar grandes decisões empresariais e governamentais. Ele tem valor igualmente quando ajuda uma família a compreender o custo de uma dívida, um jovem a avaliar uma promessa de investimento, um trabalhador a identificar uma fraude ou um cidadão a entender de que maneira juros, inflação, emprego e renda interferem em sua própria vida. 

Foi essa compreensão que orientou a Semana de Educação Financeira e é ela que deve permanecer depois de encerrada a programação. O objetivo não pode ser criar a ilusão de que informação, sozinha, resolve as dificuldades econômicas das famílias. Educação financeira não aumenta salários nem elimina desigualdades, tampouco substitui políticas econômicas capazes de ampliar renda, emprego e proteção social. Mas ela pode aumentar a capacidade de compreensão e de escolha das pessoas diante da realidade que enfrentam. E, em uma economia cada vez mais complexa, ampliar essa capacidade é também ampliar cidadania.

*Presidenta do Conselho Federal de Economia (Cofecon)

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