Seminário Nacional da Mulher Economista e Diversidade – Mesa 4: Questões de gênero, meio ambiente e raça à luz da economia feminista

Kellen Carvalho de Sousa Brito e Janine Alves destacam como gênero, raça e crise climática se articulam no aprofundamento das desigualdades

As relações entre gênero, raça e meio ambiente foram o eixo central das reflexões apresentadas por Kellen Carvalho de Sousa Brito e Janine Alves, que trouxeram a economia feminista como lente analítica para compreender as desigualdades estruturais aprofundadas pela crise climática. Com abordagens diferentes, ambas chamaram a atenção para o impacto desproporcional das mudanças climáticas sobre mulheres, especialmente mulheres negras, apontando que a crise climática aprofunda desigualdades já existentes. Ambas falaram na Mesa 4 do Seminário Nacional da Mulher Economista e Diversidade, realizado em Manaus nos dias 18 e 19 de junho.

Kellen, pesquisadora na área de economia feminista, mencionou que “gênero, raça e meio ambiente estão profundamente interligados, e as consequências das mudanças climáticas recaem de forma muito mais intensa sobre as mulheres, especialmente as mulheres negras”. Ela relatou o caso do Quilombo Lagoas, no Piauí, onde observou iniciativas como quintais produtivos e cozinhas comunitárias. Segundo ela, as mulheres dessas comunidades acumulam funções produtivas e reprodutivas: cultivam a terra, cuidam dos animais, administram a produção e, simultaneamente, são responsáveis pelo cuidado das crianças, idosos e pessoas com deficiência. “Elas não querem sair de lá nem receber ajuda humanitária. O que elas estão pedindo, e que é o mesmo que nós pedimos, é melhores condições de trabalho”, ressalta.

Para a economista, essas mulheres desempenham um papel essencial na manutenção da vida, da biodiversidade e da segurança alimentar, prestando um verdadeiro serviço público sem qualquer reconhecimento ou remuneração. Kellen também chama atenção para as desigualdades no acesso ao crédito e aos recursos públicos. Ela destaca que apenas cerca de 1% do crédito rural no Piauí chega aos pequenos produtores, enquanto mais de 96% do total é destinado aos grandes empreendimentos agrícolas. “A gente trata quem extrai valor como indústria e trata quem preserva valor como se estivesse fazendo caridade”, criticou. Ao final, faz um apelo para que economistas e instituições se aproximem das comunidades tradicionais: “Precisamos desenhar políticas com as pessoas, e não para as pessoas”, afirmando que somente a partir desse diálogo será possível construir políticas públicas mais justas, eficazes e conectadas às realidades locais.

A conselheira federal Janine Alves apontou que “a crise climática não é neutra: ela aprofunda desigualdades que já existem”. Ela também afirmou que os efeitos de eventos extremos, como o El Niño, atingem de forma mais severa as populações vulneráveis, especialmente mulheres, populações negras, indígenas e comunidades periféricas. “Quem mais emite gases de efeito estufa é quem menos sofre suas consequências”, observa.

Ao abordar o conceito de racismo ambiental, a economista chama atenção para a distribuição desigual dos riscos ambientais, que recai de forma mais intensa sobre populações negras, indígenas e moradores de periferias, geralmente submetidos a condições mais precárias de infraestrutura. Nesse contexto, defende a economia feminista como uma ferramenta analítica capaz de revelar dimensões invisibilizadas pela abordagem econômica tradicional. “Economia feminista não é apenas incluir mulheres nos dados. É redefinir o que a economia mede, valoriza e protege”, afirma. Para ela, essa perspectiva permite evidenciar o valor do trabalho não remunerado, a desigualdade de renda, a divisão sexual do trabalho e a centralidade do cuidado na reprodução da vida social.

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