Pagnussat defendeu manutenção do ciclo de quedas da Selic
Copom reduziu os juros para 14,25% nesta quarta-feira. Conselheiro federal apontou que inflação de maio veio de fatores sazonais que devem ser amenizados nos próximos meses
O conselheiro federal José Luiz Pagnussat concedeu uma entrevista ao programa Economia Direta, da Rádio e TV Câmara, analisando a inflação do mês de maio e as perspectivas para a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Ele defendeu que a instituição mantenha a redução gradual da taxa Selic – o que, de fato, aconteceu nesta quarta-feira (17), com a queda de 14,5% para 14,25% – diante de uma perspectiva de queda na inflação nos próximos meses.
O economista explicou que a inflação de maio impacta mais fortemente as famílias de baixa renda. “Tanto a alimentação, que subiu 1,33%, quanto a habitação, que subiu 1,22%, e o grupo de saúde e cuidados pessoais (0,9%); esses três impactam a inflação dos mais pobres”, comentou Pagnussat. “No caso da alimentação, obviamente é uma questão sazonal, que certamente vai ter uma trajetória diferente daqui para a frente. Quando olhamos os preços do setor agropecuário, há muitos produtos em queda. Mas alguns acabaram puxando esse índice ao consumidor lá no supermercado, especialmente tomate, cenoura e batata. Há outros em queda, como o café, o arroz. O feijão subiu um pouquinho. Mas o consumidor vai perceber que o custo da cesta dele aumentou”.
Pagnussat também comentou o preço dos combustíveis, que vem passando por um movimento de queda após uma alta no início do conflito entre Estados Unidos e Irã. “A tendência, no caso dos combustíveis é cair ainda mais. No mês passado os combustíveis já haviam tido uma inflação muito baixa e no mês de maio, uma queda de 0,46%. Eles tiveram uma redução de preços, mas ainda estão altos em relação ao que estava antes da guerra”, analisa o conselheiro federal. “Num primeiro momento houve um aumento de preços exagerado na bomba, não havia um aumente de custos que justificasse uma alta. Agora teremos um ajuste de preços e, se houver acordo (entre Estados Unidos e Irã), vamos ter uma volta dos preços, o que vai reduzir fortemente a inflação”.
Consultado sobre a decisão do Copom, ele defendeu o prosseguimento do ciclo de reduções – o que acabou se confirmando nesta quarta-feira (17). “Se eles estiverem olhando com cuidado os dados, tendem a manter a estratégia da redução gradativa de juros. Há uma incerteza muito grande com o Oriente Médio, mas o cenário é de redução de preços naturalmente. Há espaço, sim, para a redução da taxa de juros. O Banco Central tem um quadro viável de revisão da taxa de juros”, avaliou o conselheiro federal. Ele contestou a ideia de que há uma inflação devido ao mercado de trabalho aquecido: “O índice de desocupação tinha sido de 5,1% no final do ano passado, mas agora está em quase 6%. A massa salarial cresceu, mas não é mais a razão principal da pressão inflacionária. Hoje ela vem dos problemas de oferta e da guerra no Oriente Médio”.
A participação do conselheiro federal José Luiz Pagnussat no programa Economia Direta pode ser ouvida clicando AQUI
Segundo o IBGE, a inflação oficial do país desacelerou para 0,58% em maio, vinda de 0,67% no mês anterior. Apesar do recuo mensal, o índice acumulado em 12 meses atingiu 4,72%, superando o teto da meta estabelecida para o ano, que é de 4,5%. O centro do objetivo inflacionário é de 3%, contando com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O grupo de alimentação e bebidas liderou a pressão inflacionária com alta de 1,33% no mês, impactando especialmente o orçamento das famílias de renda mais baixa.
José Luiz Pagnussat discorda dessa visão, destacando que o índice de desocupação subiu de 5,1% para 5,8% do ano passado para cá. Além disso, o analista pondera que o fenômeno climático El Niño deve se intensificar no Sul e provocar secas no Nordeste, mas a safra recorde projetada de 350 milhões de toneladas garante a segurança da oferta.
“Hoje a pressão inflacionária vem de problema de oferta, essa zonalidade e também dos choques externos. Isso não justifica uma política de juros mais altas,” afirmou.
