Sistema Cofecon/Corecons realizou seminário sobre economia solidária e sustentabilidade
Evento aconteceu em São Paulo e reuniu especialistas para debater alternativas econômicas voltadas à inclusão, trabalho digno e preservação ambiental
O Conselho Federal de Economia e o Conselho Regional de Economia de São Paulo realizaram nos dias 21 e 22 de maio, na capital paulista, o seminário “Economia Solidária: Caminho para um equilíbrio socioambiental”. O evento teve três mesas de debates principais, intituladas “Territórios que sustentam a vida”, “Produzir, circular e consumir sem destruir” e “trabalho digno, renda e meios de vida”, reunindo diversos economistas e outros especialistas.
A palestra de abertura foi realizada pelo economista Marcio Pochmann (leia mais AQUI ) e, ao final dos debates, foi aprovada uma carta (clique AQUI ). Os vídeos dos dois dias de evento podem ser vistos ao final desta matéria.
Tania Teixeira: “Participação democrática é o bem mais caro que devemos preservar”
Em sua fala de abertura, a presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira, destacou que a realização do evento reúne diferentes comissões em torno de um tema comum. “Esta é uma iniciativa de gestão diferenciada, que gostaríamos de manter e aprofundar. Juntos somos mais fortes. Se defendemos protagonismo, diversidade e participação, estes valores precisam estar garantidos no planejamento e ação”, mencionou a economista. Ela também afirmou existe um hiato importante para que a sustentabilidade deixe de ser uma palavra de ordem e seja transformada em política.
Ela também citou a encíclica Laudato Si’, na qual o Papa Francisco se referia ao planeta como nossa casa comum. “Há que se mencionar os movimentos ecológicos que surgiram no Século XX, discutindo a escassez. Temos uma realidade que nos coloca a cada dia os problemas climáticos que vamos enfrentar, inclusive neste ano, com o El Niño”, comentou.
Tania Teixeira também observou que “muitas pessoas ainda acreditam que a economia solidária é uma economia que não é politicamente defensável e que não deve haver nenhuma política ativa, mesmo sabendo que vivemos num país com um dos maiores mercados informais”. E, ao falar sobre as formas coletivas de organização, mencionou que a participação democrática “é o bem mais caro que devemos preservar. Sem democracia, não podemos sequer manter a discussão sobre a economia solidária”. E terminou citando uma canção que diz “tu não podes comprar o vento, tu não podes comprar o sol”.
Haroldo da Silva, presidente do Corecon-SP, destacou a presença do economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, para a palestra de abertura do evento. “Todo o arcabouço de pesquisas do IBGE é fundamental para o exercício da cidadania e da profissão de economista. Num ambiente em que as fake news têm sido o grande mote, precisamos estar embasados em dados para desmentir questões colocadas para proveito próprio e contrário aos interesses do País”, argumentou.
A conselheira federal Elis Braga Licks, coordenadora da Comissão Sustentabilidade Econômica e Ambiental do Cofecon, mencionou que a realização do seminário demonstra que existe, cada vez mais, uma mobilização coletiva em torno de um futuro socialmente justo, ambientalmente responsável e economicamente sustentável. “Vamos falar sobre a importância da preservação, de termos atitudes com as quais possamos evitar esta transformação climática que estamos vivendo. Para este ano há previsão de um El Niño muito forte, com diversas catástrofes”, mencionou. “Por que falamos de reciclagem? Muitas vezes pensamos nos resíduos que jogamos fora – mas não existe fora. Estamos pondo no nosso planeta. É aí que entra a economia circular”.
A conselheira federal Fabíola Andréa Leite de Paula mencionou a visita realizada à Cooperativa Justa Trama no ano passado. “É um exemplo de sucesso da economia solidária. Durante as enchentes em Porto Alegre, ela trabalhou para garantir às pessoas daquela região o que o Estado não pôde”, afirmou. Ela também mencionou que “não se pode trabalhar economia solidária num país tão grande sem prestar atenção aos recursos ambientais”.
A conselheira federal Lucia dos Santos Garcia abordou a economia solidária no contexto das transformações que acontecem no mundo do trabalho. “Nosso tema central é a questão da economia solidária, que, para nós, é vista como um elemento de resistência produtiva, gerando renda e sustentabilidade para um grupo cada vez mais numeroso da sociedade”, manifestou Lucia. “Temos uma preocupação com o trabalho em transformação. Essa transformação tem um centro mobilizador, que é o capital, e não a organização dos trabalhadores. E em todos os momentos que tivemos uma profunda transformação do trabalho, tivemos a estruturação de resistências produtivas”.
Lucy Aparecida de Sousa, coordenadora da Comissão de Economia e Meio Ambiente do Corecon-SP, afirmou que nos territórios as pessoas vivenciam os desafios do desenvolvimento da economia solidária e das questões ambientais. “Ubatuba é linda, mas tem desafios ligados à expansão do turismo predatório e ao negacionismo ambiental. Em Ubatuba tentamos combater esta visão negacionista”, comentou. E recordou a ocasião em que Paul Singer esteve na cidade para falar sobre a economia solidária. “O apoio é fundamental para o efetivo desenvolvimento sustentável, porque ele implica a inclusão social, a justiça climática e o engajamento da população simples nas questões ambientais”.
O conselheiro regional Carlos Cordeiro mencionou que, quando falamos em economia, as pessoas associam o assunto a dinheiro. “A economia não é neutra. Quando tomamos uma decisão do que vamos fazer, temos que perguntar quem se beneficia disso. A economia precisa estar a serviço das pessoas e não o contrário”, comentou. “São Paulo tem 600 mil imóveis vazios. Isso corresponde a vinte vezes o número de pessoas em situação de rua. A economia está no caminho errado. Tenho orgulho de ser economista e precisamos colocar a economia a serviço das pessoas”.
O presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo (Sindecon-SP), Carlos Eduardo Soares de Oliveira Junior, relembrou sua trajetória em movimentos comunitários e experiências de economia solidária, ressaltando o papel dessas iniciativas na promoção da inclusão social e do desenvolvimento humano. Segundo ele, experiências locais de cooperação e organização comunitária demonstram a capacidade da sociedade de construir alternativas econômicas voltadas ao bem-estar coletivo. “Foi uma grande escola para mim, que me incentivou e incentiva ainda hoje a participar destas questões que envolvem sociedade e inclusão. E sem a atuação dos economistas, dificilmente estes processos irão se sustentar por vários períodos”, refletiu.
Debates
As mesas de debates do evento podem ser assistidas nos vídeos abaixo.
