Podcast Economistas: Janile Soares fala sobre o minimalismo financeiro

Economista explica que o consumo consciente pode gerar liberdade financeira e emocional, além de qualidade de vida e propósito

Começa hoje uma nova temporada do podcast Economistas! Nesta semana o tema abordado é um conceito que vem ganhando força e propõe uma relação mais consciente com o consumo e com o estilo de vida: o minimalismo financeiro. Mas, ao contrário do que muita gente pode imaginar, ele não tem a ver com viver com pouco ou se privar de conforto. É sobre viver com sentido. Quem fala a respeito é a economista Janile Soares, consultora, educadora financeira, perita judicial e editora do blog A Economista de Batom. Há mais de dez anos ela trabalha para ampliar o acesso das mulheres ao conhecimento financeiro e fortalecer a participação delas na economia. O podcast Economistas pode ser ouvido na sua plataforma favorita ou no player abaixo.

No mundo contemporâneo, o ser humano tem uma enorme quantidade de estímulos ao consumo. Ofertas, promoções, parcelamentos, crédito fácil, compras com um clique: nunca foi tão fácil gastar. Ao mesmo tempo, é difícil parar e pensar por que é que estamos gastando. Quando se fala em corte de gastos, muita gente associa a privação, sofrimento, restrições e abrir mão de tudo. É neste contexto que surge o minimalismo financeiro.

O minimalismo financeiro é um conceito que procura alinhar o uso dos recursos com os valores, sejam eles pessoais ou familiares. Desta forma, o dinheiro passa a ser uma ferramenta para servir à vida que você quer construir, e não o contrário. A acumulação de coisas é substituída pelo investimento em bem-estar, segurança, experiências e qualidade de vida. Dentro desta lógica, liberdade, propósito e tranquilidade financeira caminham juntos.

“O foco é viver com menos coisas e com mais propósito, eliminando o excesso para dar mais importância ao que é essencial”, explica a economista Janile Soares. “O minimalismo financeiro foca na simplificação da gestão do dinheiro, eliminando gastos supérfluos para priorizar o que realmente agrega valor à vida, como experiências, segurança e bem-estar. Não se trata só de viver com o mínimo, mas fazer escolhas conscientes, alinhadas aos seus valores, usando o dinheiro como ferramenta e reduzindo o estresse financeiro”.

“Quando falamos de cortar gastos, há uma conotação de privação. O minimalismo tem uma essência que é o contrário: propósito e liberdade financeira. Não é gastar menos como objetivo m si mesmo, mas gastar melhor, de forma alinhada com os seus valores, com o que traz bem-estar verdadeiro”, menciona a economista. “A ideia é distinguir o que é realmente necessário do que são desejos passageiros ou gastos por impulso”.

Ela menciona que o dinheiro tem duas utilidades: dar tranquilidade e segurança e proporcionar bem-estar e qualidade de vida. “O minimalismo financeiro sugere substituir compras por experiências mais significativas. Sair do automático no consumo e entrar num modo mais consciente”, observa Janile. “Pode ser complicado para algumas pessoas, porque nunca tivemos tanto crédito e estímulo para gastar da forma mais rápida possível. Então o minimalismo é uma forma de enxergar o dinheiro como ferramenta de liberdade, e não de aprisionamento ou simples corte de gastos. É uma forma de otimizar recursos – que é um conceito central na economia”.

Consumo consciente

Quando se fala em consumo consciente, muitas pessoas pensam apenas no conceito de poupar dinheiro, mas o impacto vai muito além disso. Consumir de forma consciente muda a forma como as pessoas se relacionam com o mundo. “A liberdade aparece em várias camadas. Primeiro, a financeira, porque a pessoa deixa de ser refém do cartão de crédito e das compras por impulso. Depois, vem uma parte igualmente poderosa e importante, que é a liberdade emocional”, explica a economista. “Você começa a se libertar das comparações e pressões sociais e do medo de estar fora de um grupo, uma comunidade, um momento ou uma nova trend – o chamado FOMO (do inglês fear of missing out, medo de ficar de fora), que é um viés cognitivo que distorce o julgamento e a tomada de decisões. As pessoas superestimam o valor das experiências dos outros e subestimam as próprias, o que gera um sentimento de privação”.

“Abraçar o consumo consciente abre espaço para um estilo de vida mais leve, onde o dinheiro é uma ferramenta de realização e não de ansiedade. Um estilo de vida mais frugal nos ensina a diferenciar o que é necessidade real daquilo que é desejo passageiro”, observa Janile. “Quando alguém entende esta diferença, descobre que viver com menos não é perder, é ganhar tempo, presença, clareza, autonomia e experiências. É a liberdade que o dinheiro, sozinho, não compra, mas que uma boa relação com ele te proporciona”.

Do ponto de vista econômico, consumir menos reduz o custo de oportunidade. “O que você deixa de gastar pode ser usado em investimentos, reservas de emergência ou experiências que aumentam teu capital humano e social. Isso gera liberdade financeira e abre espaço para escolhas mais estratégicas, que é o que a economia chama de maximização da utilidade”, aponta a consultora. “Além disso, evita a armadilha do consumo e o endividamento, problemas que a teoria econômica relaciona diretamente à diminuição do bem-estar no longo prazo”.

Nem todo desafio financeiro começa no bolso. Muitos começam no emocional. Numa sociedade na qual o consumo é símbolo de status, as redes sociais amplificam esse modelo. “É um desafio emocional desapegar da ideia de que o consumo e o ter muitas coisas é sinônimo de sucesso. Se abrirmos vídeos de influenciadores, veremos casas que parecem imóveis decorados para venda ou armários com muitos sapatos e bolsas. Essa não é a realidade da maioria das pessoas, mas faz com que muita gente deseje isso”, questiona Janile. “Culturalmente, fomos ensinados a medir o valor não pelo que somos, mas pelo que temos – como o carro ou o smartphone. Adotar um estilo de vida mais simples é ir contra essa corrente”.

“Do ponto de vista psicológico, o consumo também tem papel de compensação emocional e válvula de escape. Por isso, minimalismo financeiro não é só sobre dinheiro em si, é sobre autoconhecimento”, pontua a economista. “É sobre entender o que está por trás dos hábitos de consumo e ressignificar o prazer que vem de comprar para um prazer que vem de viver de forma coerente com o que eu acredito”.

Cuidados com o minimalismo

Nem tudo o que é simples é, necessariamente, leve ou libertador. Quando o minimalismo se torna uma regra rígida ou uma autoexigência permanente, ele perde o sentido. Cuidar das finanças deixa de ser um ato de consciência e passa a ser um sacrifício, fazendo com que o planejamento se torne uma culpa e a pessoa queira se punir por gastar.

“A ideia nunca foi viver com culpa por gastar, mas sim gastar com consciência que é justamente o contrário disso. A palavra-chave aqui é objetivo”, conta Janile. “É importante ter objetivos de vida que vão guiar nossa estrutura financeira e a criação de um orçamento com mais propósito”.

E quando se trata de objetivos, a economista afirma que não há certo ou errado, mas sim o que faz sentido para cada um. “Para algumas pessoas, é essencial morar num espaço pequeno e simples; para outras, um espaço maior, com mais lazer; há pessoas que preferem investir em viagens, uma boa refeição, um curso que alargue horizontes. Tudo depende do momento de vida, do orçamento disponível, das estratégias e dos objetivos”, afirma Janile. “E isso é importante porque há pessoas que começam a cortar gastos e acabam exagerando e se perdendo nisso. O que parece restrição deve vir com consciência e liberdade de escolha, e não como uma punição. O dinheiro e o prazer podem coexistir, desde que este prazer não custe a tua paz”.

Cinco passos para a transformação financeira

A transformação financeira não começa com fórmulas prontas de como cortar gastos. Ela começa com consciência. Antes de qualquer planilha ou estratégia, há um passo fundamental, que é o autoconhecimento. Cada pessoa tem seus próprios gatilhos e padrões. Por isso mesmo, não existe uma receita única que sirva para todos. Mas existem passos que podem ser seguidos para quem quer alcançar seus objetivos.

“O primeiro é o autoconhecimento financeiro. Entender para onde o dinheiro está indo. Fazer um diagnóstico, mas sem querer encontrar culpados”, explica Janile. “Há pessoas que simplesmente não podem ter cartão de crédito; outras não conseguem lidar com o limite do cheque especial; outras possuem recursos financeiros, mas têm medo de gastar. Esse autoconhecimento é essencial”, menciona a economista. “Um segundo passo é a clareza de valores. Saber o que realmente importa, o que tem trazido satisfação genuína e o que traz a segurança financeira. Quando os gastos refletem esses valores e conseguimos responder a estas perguntas, as escolhas referentes a dinheiro começam a fluir de forma mais leve”.

O terceiro passo é a organização prática. “É entender o que é essencial e o que é supérfluo, criar metas simples de organização financeira, revisar gastos e simplificar escolhas, como automatizar boletos. Funciona também com a aplicação financeira: muitas pessoas não conseguem investir porque não sobra, então é preciso automatizar”, aponta Janile. “Outra questão é olhar para possíveis riscos financeiros e planejar os próximos períodos. Se acontecer alguma coisa, você está preparado?”, pergunta.

“Também é importante ter metas de vida e acompanhá-las ao longo do tempo, aplicando um planejamento intertemporal. Assim é possível enxergar os custos e benefícios ao longo do tempo – o que também é importante para equilibrar consumo presente e planejamento futuro”, observa a economista. “O quinto passo é a consistência – o que inclui revisitar as escolhas financeiras continuamente, para otimizar as decisões. Não é uma mudança que acontece do dia para a noite, mas um processo”, finaliza.

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