Ana Cláudia Arruda: “Juros de 15% inviabilizam qualquer estratégia de desenvolvimento”
Conselheira federal falou ao programa Debate da Super Manhã, da Rádio Jornal, de Recife, e abordou os impactos da inflação e da taxa de juros
A conselheira federal Ana Cláudia Arruda participou nesta quinta-feira (27) do Debate da Super Manhã, que vai ao ar pela Rádio Jornal, em Recife, numa edição voltada a explicar temas econômicos fundamentais para quem não é especialista na área. Ela abordou temas como a inflação, a política monetária e o emprego, destacando como as decisões do Banco Central afetam diretamente a população.
“No Brasil, temos uma cultura de juros altos, e há grupos no poder que se beneficiam deles, que são detentores da dívida pública”, criticou a conselheira. “Nossas taxas de juros são semelhantes à de um país em guerra, como a Rússia, ou de países não democráticos. O Banco Central persegue uma meta de 3% e usa um único instrumento, que é a taxa de juros, e ele não está interessado em outros instrumentos. O Estado foi capturado por uma elite que detém o poder econômico e o controle da dívida e do sistema financeiro”.
A taxa básica de juros (Selic) é a ferramenta utilizada pelo Banco Central para o controle da inflação. “Temos uma inflação próxima de 4,5%, com o centro da meta em 3%. Qualquer coisa que saia da meta faz o Banco Central considerar que a economia não está caminhando bem e que é preciso, portanto, políticas conservadoras e restritivas, e o controle se dá fundamentalmente nas taxas de juros”, apontou Ana Cláudia. “Mas, para uma meta de 3%, temos uma taxa de juros de 15%. Isso inviabiliza qualquer estratégia de desenvolvimento da economia”.
“Qual é o empresário que quer contratar empregados, abrir uma loja ou uma pequena fábrica, sabendo que pode aplicar seu recurso no mercado financeiro e viver de juros? Os ativos financeiros rendem mais do que a economia real. Grande parte dos empregos gerados hoje são por aplicativos, com gente trabalhando 14 horas por dia”, questiona a economista. “O governo tem tomado algumas medidas, como a isenção do imposto de renda para quem recebe até R$ 5 mil, mas são medidas que não atingem o andar de cima. Uma alíquota de 10% para quem ganha acima de R$ 50 mil ainda é algo muito pontual, uma política muito pouco agressiva”.
A conselheira também apontou para as consequências de médio e longo prazo de uma taxa de juros tão alta. “Estamos contratando mais recessão e desemprego. No Cofecon temos feito um trabalho forte em cima do debate das taxas de juros. Precisamos diminuí-la para ter uma economia mais saudável”, argumentou. “O mercado de trabalho tem problemas sérios. Embora a taxa de desemprego esteja caindo, mais de 40 milhões de pessoas estão na informalidade e grande parte da população ganha até um salário mínimo. Mas o Banco Central considera que há pressão de demanda”.
No caso da inflação brasileira, Ana Cláudia Arruda aponta que as principais pressões são localizadas e vieram dos alimentos e da energia. “Isso é dito por todos os analistas. Os alimentos têm uma estrutura de produção oligopolizada. É preciso, para baratear, um programa mais ativo de produção familiar. E esses produtos chegam carregados de impostos e juros: quem contrata recursos caros no setor financeiro repassa esses preços ao consumidor final”, comenta a conselheira federal. “Nas décadas de 1980 e 1990 tínhamos as centrais de abastecimento e era possível chegar de forma mais barata à mesa dos consumidores – lembrando que grande parte deles ganham até dois salários mínimos. Grande parte da população brasileira no mercado de trabalho apenas sobrevive”.
O programa Debate da Super Manhã que foi ao ar no dia 27 de novembro, com participação da conselheira federal Ana Cláudia Arruda, pode ser acessado clicando AQUI.
