Afinal, o que os Economistas Entendem por Economia?
Por Hélio Afonso de Aguilar Filho*
A comunidade dos economistas tem várias maneiras de abordar a Economia1 enquanto ciência, sendo três delas as mais destacadas: elas tratam respectivamente da Economia como método, objeto e campo. Na prática, contudo, tais perspectivas se revelam menos estanques e mais entrecruzadas.
A primeira considera a Economia como “a ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos com usos alternativos”. Nesta definição, não há referência ao objeto ou assunto da disciplina, mas ao método de estudo, ou seja, a aplicação do instrumental da otimização condicionada para explicar os fenômenos humanos. Trata-se, portanto, de avaliar a escolha dos meios mais “eficientes” para se atingir fins desejados, procedimento típico dos métodos quantitativos que abrangem a modelagem econômica e a econometria. Vale ressaltar que, apesar de não explicitados por seus praticantes, tais procedimentos pressupõem tanto a noção de sistemas fechados, na qual a causalidade é interpretada como conjunção constante de eventos, quanto o de agentes econômicos atomizados e em estado de isolamento.
A segunda forma de abordar a Economia, como objeto, recebe mais a atenção dos economistas heterodoxos, que são aqueles em desacordo com a tradição de pesquisa vigente. A heterodoxia tende a ver a Economia de forma mais substantiva, seja como a ciência que estuda a atividade econômica voltada para a produção de bens materiais, ou como comportamento derivado das instituições da economia de trocas individualistas (mercado). A primeira forma recebe a crítica dos economistas convencionais por ser restrita e não incluir os serviços e os bens intangíveis; a segunda é criticada por tratar apenas do intercâmbio em mercados formais ou de trocas envolvendo dinheiro.
Já para os economistas convencionais, se existe um objeto da Economia, é a própria escassez. Esse é o enfoque adotado em vários manuais da disciplina, o qual promove a fusão de um conceito lógico a uma noção substantiva de Economia. Com isto, os problemas econômicos básicos, a saber, “o que?”, “por que e como?” e “para quem produzir?” (todos substantivos), passam a existir apenas em razão de os recursos serem escassos (em quantidade limitada para satisfazerem fins múltiplos). O conceito é lógico porque a escassez não é um dado do mundo, mas depende da relação entre meios e fins, sendo estes últimos baseados em preferências subjetivas, as quais variam de pessoa para pessoa. O que existe, no dizer de Karl Polanyi, é insuficiência de meios (este sim, um conceito operacional, passível de verificação). Para entender o porquê, faça o
seguinte experimento mental: perfile determinados meios um a um para cada objetivo eleito dentro de uma ordem de preferências; se os meios não forem suficientes para atender a todos os fins, eles serão considerados insuficientes, mas não escassos.
Autores convencionais como Gary Becker e George Stigler aceitam a sugestão de que os fenômenos de mercado são o objeto da Economia; contudo, ampliam o escopo de seus estudos com uma visão bastante elástica desta instituição. No dizer de Polanyi, tal tratamento visa a igualar o mercado (Economia) à economia (atividade), e essa última à sociedade. Isso se torna possível, primeiro, pela pressuposição de que tudo tem um preço implícito (preço sombra), mensurado em termos de oportunidades perdidas (custo de oportunidade); em segundo lugar, pela substituição da racionalidade onisciente pela racionalidade limitada e informações incompletas e assimétricas. Concebe-se, assim, que os agentes buscam maximizar seus interesses, mas precisam emitir sinalizações e construir certa reputação para assegurar a viabilidade de suas transações. O resultado da aplicação desse instrumental teórico é o avanço das fronteiras da Economia em direção aos domínios de outras ciências sociais e humanidades, possibilitando tratar de questões como vício, casamento, eleições, discriminação e criminalidade.
Com a sociedade de mercado permeando todos os aspectos da vida e validando análises em termos de custos e benefícios, vale a pergunta: o que o “dinheiro” não compra? Um problema com abordagens tão amplas como essa é que elas se ajustam a qualquer situação observada: explicam tudo, e aquilo que explica tudo pode acabar explicando nada! Para ilustrar, é possível a alguém dizer que prefere sorvete de chocolate ao de morango, e consumir o último. Tal decisão é compatível com a teoria de muitas maneiras diferentes, seja porque o preço do sorvete de morango é baixo em relação ao orçamento do consumidor, seja por a outra opção não estar disponível, ou porque o consumidor mudou de preferências, e assim segue. Nesse sentido, diz-se que a teoria é não falseável, pois inexiste condição de mundo independente dela própria para testar suas hipóteses.
Outro problema é que o “dinheiro”, ou mercado, altera o valor dos bens negociados. Dito de outro modo, o mercado não é neutro; ele pode “corromper” o valor dos bens. É possível negociar pão e manteiga, mas não se negocia amor, amizade, paternidade ou sentimento nacional. Como salienta Michael Sandel, “sinalizar” amor não é a mesma coisa que expressá-lo, é presumir equivocadamente que o amor é uma informação particular transmitida por uma parte à outra, quando na verdade é uma maneira de estar com outra pessoa e reagir a ela (envolve vínculo e intimidade). Caso análogo ocorre quando alguém tenta pagar para ter um amigo: o resultado final será qualquer coisa, menos amizade, pois as práticas sociais que sustentam tal compromisso estão baseadas mais em normas, atitudes e virtudes do que em vantagens estritamente pecuniárias.
A última forma de abordar a Economia é considerá-la um campo, estruturado por meio de normas e regras institucionalizadas de práticas (profissão, periódicos, prêmios etc.). Nessa perspectiva, não é a natureza que define o objeto e os limites
da ciência, mas o interesse da comunidade científica por meio de convenções negociadas. As lutas internas e as pressões externas na Economia são tão intensas que dificultam a autonomia para arbitrar sobre o que é real, prejudicando também a compreensão dos próprios motivos e da natureza das divisões entre os economistas. Para alguns, elas decorrem de opções metodológicas ou procedimentos substantivos internos ao próprio campo; para outros, dizem respeito a questões externas, relativas à ideologia e à influência das clivagens políticas da sociedade.
Abordar a Economia a partir da noção de “campo” ajuda a reconhecer os interesses em disputa na produção do conhecimento. Isso impede que as convenções científicas abstratas (o conceito lógico de escassez) se sobreponham à prática real e material da sociedade (o conceito substantivo). Esse entendimento evidencia que a economia concreta não é um reflexo de modelos teóricos, mas deve ser compreendida em sua dimensão institucional e histórica, ou seja, como organização da sustentação humana a partir da interação com um meio natural. Atualmente, esse processo material encontra-se subsumido às instituições da propriedade privada e do mercado, onde a valorização abstrata da riqueza dita o ritmo da atividade econômica.
Em suma, é impossível produzir uma definição de Economia que contemple a totalidade dos economistas. Isso ocorre porque, diante das divisões internas da profissão, as várias perspectivas revelam-se inconciliáveis nas três dimensões apresentadas. Não obstante, o enfoque sustentado aqui se inclina mais no sentido de reconhecer os limites das explicações baseadas em técnicas e métodos da Economia convencional, contrapondo-lhes a aceitação da “régua do dinheiro” como objeto da Economia. Nesse sentido, a Economia é mais bem vista como uma parcela da divisão do trabalho nas ciências sociais, voltada ao estudo dos aspectos da ação humana mais intimamente ligados à produção, à distribuição e ao uso da riqueza, articulada com a avaliação de cenários alternativos realmente possíveis.
Bibliografia:
FINE, B.; MILONAKIS, D. (2009). From Economics Imperialism to Freakonomics. The shifting boundaries between economics and other social sciences. London-New York: Routledge.
IOANNIDES, S.; NIELSEN, K. (2007). Economics and the Social Sciences: boundaries, interaction and integration. Cheltenham, UK-Northampton, MA, USA: Edward Elgar Cheltenham.
LAWSON, T. (2003). Reorienting Economics. Routledge: London-New York.
MAKI. U. (2000). “Imperialismo da Economia. Conceitos e Restrições”. Econômica, v. 7 junho, p. 5-36.
POLANYI, K. (2012). A Subsistência do Homem. E ensaios correlatos. Rio de Janeiro: Editora Contraponto.
ROBBINS, L. (2012). Um Ensaio Sobre a Natureza e a Importância da Ciência Econômica – Col. Clássicos da Economia. São Paulo: Editora Saraiva.
SANDEL. M. (2012). O Que o Dinheiro não Compra. Os limites morais do mercado. São Paulo: Editora Civilização Brasileira.
STIGLER, G. J.; BECKER, G. S. (1977) “De Gustibus Non Est Disputandum”. Pittsburgh: The American Economic Review, v. 67, n. 2, p. 76–90.
*Hélio Afonso de Aguilar Filho é Doutor em Economia pela UFRGS. Professor Associado da UFRGS
