O custo das bets para a sociedade brasileira
Avanço das apostas movimenta bilhões de reais, mas desvia renda do consumo, da poupança e do investimento, gerando custos para as famílias e para o Estado
Por Tania Cristina Teixeira
O debate sobre as apostas online voltou a ganhar força a partir da notícia de que o governo federal prepara uma Medida Provisória para restringir ou proibir determinados modelos de apostas – as chamadas bets. A proposta surge depois de uma série de iniciativas adotadas para reduzir o acesso de pessoas em situação de vulnerabilidade às plataformas e diante de evidências cada vez mais claras sobre os efeitos econômicos e sociais desse mercado.
O tema é tão relevante que foi mencionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, no dia 22/09. Ao criticar as grandes empresas de tecnologia, afirmou que a indústria das bets transforma o vício em lucro e que sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares.
De acordo com dados do Ministério da Fazenda, são 43,8 milhões de brasileiros inscritos em bets; a cada mês, 8,5 milhões deles fazem depósitos que chegam a um total médio de R$ 14,75 bilhões. Nos primeiros seis meses, os apostadores tiveram saldo negativo de R$ 20,2 bilhões (R$ 88,5 bi em depósitos contra R$ 68,3 bi em prêmios pagos). Este dado revela a dimensão de uma atividade que passou a disputar um espaço relevante na renda das famílias brasileiras.
O debate cresceu nacionalmente a partir do momento em que um levantamento do Banco Central do Brasil, referente ao mês de agosto de 2024, revelou que aproximadamente 5 milhões de beneficiários do Bolsa-Família transferiram cerca de R$ 3 bilhões para casas de apostas. Quando recursos que deveriam contribuir para a segurança de famílias vulneráveis passam a disputar espaço com apostas, estamos diante de uma questão que ultrapassa a esfera individual e alcança o campo da política econômica e da proteção social.
Mais recentemente, os mecanismos de proteção criados pelo próprio Estado passaram a revelar outra dimensão do problema. Em agosto de 2026, mais de 800 mil pessoas que haviam renegociado dívidas estavam impedidas de apostar nas plataformas autorizadas – número que se soma aos beneficiários de programas sociais (cerca de 3 milhões) e às pessoas que solicitaram autoexclusão (1,2 milhões).
A questão central vai muito além de saber quanto dinheiro as apostas movimentam. Estamos falando de recursos que poderiam cumprir outras funções dentro da economia: pagar contas, adquirir bens e serviços, quitar dívidas, formar poupança ou financiar investimentos. Precisamos discutir quais custos econômicos surgem quando parte da renda das famílias é direcionada para as apostas.
Um real destinado a uma aposta é um real que não será direcionado, naquele momento, à compra de alimentos, ao pagamento de uma conta, à educação, ao lazer, à formação de uma reserva financeira ou à quitação de uma dívida. Existe, neste comportamento, um custo de oportunidade. E quando o comportamento ocorre de forma recorrente, o efeito deixa de ser individual e passa a ter um custo para toda a sociedade, retirando renda das famílias, ampliando situações de endividamento e gerando novas demandas para o poder público. O debate sobre proibição, restrição ou aperfeiçoamento da regulamentação deve considerar, portanto, não apenas a liberdade de apostar ou a arrecadação gerada pelo setor, mas também o custo econômico de suas consequências – o que podemos chamar de custo/benefício social.
O Brasil já possui indicadores elevados de endividamento das famílias. Na pesquisa mais recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o número de famílias endividadas (82,0%) manteve-se num patamar recorde, enquanto o número de famílias inadimplentes chegou a 29,9% em agosto e o comprometimento médio da renda com dívidas foi de 29,5%.
Nesse ambiente, não podemos analisar as apostas como se elas existissem em um vácuo econômico. Elas disputam renda com outras necessidades. Podem utilizar recursos que seriam destinados ao consumo ou à poupança, agravar situações de vulnerabilidade financeira e, em determinados casos, produzir custos que acabam sendo parcialmente absorvidos pelo conjunto da sociedade.
Uma economia saudável depende da transformação da renda em consumo produtivo, poupança e investimento. As apostas, por sua própria natureza, não criam bens ou serviços correspondentes ao dinheiro movimentado. Elas redistribuem recursos entre apostadores e operadores, ao mesmo tempo em que podem produzir custos adicionais para as famílias e para o Estado quando surgem problemas de endividamento, saúde mental e vulnerabilidade social.
Estudo recente do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP) estima que as bets tenham retirado até R$ 141 bilhões da atividade econômica do país no ano passado, reduzindo o consumo. Mesmo a arrecadação para os cofres públicos gerada pelo mercado das apostas (em torno de R$ 9 bilhões ao ano) é insuficiente para cobrir os tributos que deixam de ser recolhidos em função da queda do consumo, numa perda de arrecadação que pode alcançar R$ 46 bilhões.
Além disso, para fiscalizar o setor, o Sistema de Gestão de Apostas processa aproximadamente 500 milhões de registros por dia. Estamos falando de uma atividade que passou a exigir uma infraestrutura pública sofisticada de monitoramento, cruzamento de CPFs, proteção financeira, fiscalização e prevenção.
Tudo isso tem custos: o Estado precisa mobilizar servidores, sistemas de tecnologia da informação, fiscalização tributária, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, estruturas de proteção ao consumidor e até mesmo serviços de saúde para lidar com os efeitos potencialmente adversos da atividade. Apenas para dar um exemplo desde último efeito, o Sistema Único de Saúde passou a oferecer até 100 mil teleatendimentos por mês para pessoas que enfrentam problemas de saúde mental relacionados às apostas.
As apostas online são desenhadas de modo que suas cotações e probabilidades assegurem vantagem econômica à casa, fazendo com que o conjunto de apostadores perca. Este fator é particularmente importante porque, devido à falta de educação financeira, muitos brasileiros ainda tratam as bets como se fossem um investimento. A expectativa de obter ganhos rápidos, a promessa de multiplicar o dinheiro e a exposição constante a resultados e estratégias podem criar a percepção de que apostar é uma forma de buscar uma rentabilidade que, na prática, não pode ser tratada como um investimento.
O debate sobre a proibição das bets envolve, ainda uma resistência dos clubes de futebol – e, inclusive, discute-se a possibilidade de proibir apenas os cassinos online, mas não as apostas esportivas. Este é um exemplo de como o setor de apostas criou uma dependência econômica no futebol brasileiro, já que muitos clubes estampam anúncios de bets em suas camisetas. Eles próprios estimam que a eventual proibição de publicidade (aprovada no dia 02/09 na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado) pode ter um impacto de R$ 1 bilhão apenas com os patrocínios.
A decisão não é simples e envolve interesses econômicos. Mas, acima de tudo, precisa olhar para o conjunto da economia e perguntar quem ganha, quem perde e quem arca com os custos quando uma parcela crescente da renda das famílias é direcionada para apostas. A decisão, qualquer que seja ela, precisa considerar não apenas o dinheiro que circula nesta atividade, mas também o que deixa de circular em outras e os impactos sobre o endividamento e o consumo. Em outras palavras, deve considerar o custo econômico e social para os brasileiros.
*Tania Cristina Teixeira é economista, contadora, professora da PUC Minas e doutora em Economia Aplicada pela Universidade de Valência, Espanha. Pesquisadora nas áreas de desenvolvimento econômico e sustentabilidade, foi presidenta do Corecon-MG (2020–2022) e, desde 2025, preside o Conselho Federal de Economia (Cofecon).
