Conhecer a profissão para construir seu futuro 

Cooperação entre Cofecon e IPEA abre nova agenda de estudos sobre os economistas e o uso de evidências na profissão e nas políticas econômicas 

Por Tania Cristina Teixeira

Uma profissão que pretende contribuir para a compreensão e transformação da realidade brasileira precisa conhecer a si mesma e saber quem são os profissionais que integram esse campo. Com este pensamento, o Conselho Federal de Economia firmou uma parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).  

A aproximação entre ambos possui um significado que ultrapassa os limites das duas instituições. O IPEA tem uma trajetória de produção de estudos e pesquisas voltados à compreensão da realidade brasileira e à formulação e avaliação de políticas públicas. O Cofecon, por sua vez, reúne uma rede nacional de Conselhos Regionais e milhares de economistas que atuam em diferentes áreas, instituições e territórios. A cooperação entre essas capacidades pode aproximar pesquisa, profissão e realidade concreta. 

Outro aspecto importante da parceria é a possibilidade de transformar seus resultados em espaços de debate. Isso significa que a cooperação não precisa terminar na produção de um documento. O conhecimento ganha valor quando circula. O protocolo prevê seminários, workshops, encontros técnicos e eventos acadêmicos, além da elaboração de relatórios, estudos e publicações conjuntas. 

O protocolo de intenções prevê esforços conjuntos em três frentes. A primeira é conhecer melhor quem são os economistas registrados no Sistema Cofecon/Corecons, a partir de um estudo sobre seu perfil sociodemográfico e profissional. A segunda é compreender como evidências científicas, dados e conhecimento econômico são utilizados na prática profissional e na formulação de políticas. A terceira é produzir diagnósticos e análises que contribuam para fortalecer uma cultura de governança baseada em evidências. Para isso, estão previstas pesquisas, levantamentos amostrais, estudos técnicos, seminários, workshops e publicações conjuntas. 

A primeira frente é uma oportunidade para identificar tendências e necessidades da profissão, que completou 75 anos de regulamentação no Brasil no dia 13 de agosto de 2026. Poderemos compreender melhor quais áreas demandam maior qualificação, quais regiões apresentam determinadas características e como a formação acadêmica dialoga com o mercado de trabalho. Esse conhecimento contribui para a atuação dos Conselhos Regionais e a ampliação do diálogo com universidades e instituições de pesquisa, inclusive fortalecendo iniciativas de formação continuada. Também pode ajudar o Sistema a pensar políticas para a valorização profissional a partir de uma compreensão mais concreta da realidade dos economistas. 

A segunda frente prevista no protocolo talvez seja a mais ampla: compreender como os economistas utilizam evidências, dados e conhecimento científico em sua prática profissional e na formulação de políticas econômicas. Hoje temos uma grande quantidade de dados, mas que precisam ser colocados em contexto, a fim de que a informação seja transformada em conhecimento, e o conhecimento em capacidade de decisão.  

A preocupação com o uso de evidências diz respeito diretamente às políticas públicas. Decisões governamentais envolvem recursos escassos e produzem consequências que podem se prolongar por muitos anos. Governar com base em evidências não significa, entretanto, acreditar que os dados, sozinhos, sejam capazes de responder a todas as questões. Toda política pública envolve escolhas, prioridades, recursos e valores. A evidência não substitui o debate plural, tão característico da profissão; ela o qualifica. 

A terceira frente do protocolo (produção de diagnósticos e análises para fortalecer a governança baseada em evidências) aproxima-se de uma questão que ocupa um lugar central na atualidade: como transformar conhecimento em capacidade institucional. O Brasil possui universidades e centros de pesquisa qualificados, com uma produção acadêmica relevante. O desafio está, muitas vezes, em aproximar esse conhecimento dos processos de decisão.  

O protocolo prevê, inclusive, a possibilidade de colaboração dos Corecons nas atividades. Isso é particularmente importante porque o Brasil não possui uma realidade homogênea. As diferenças regionais, setoriais, sociais e produtivas precisam estar presentes na produção e na interpretação do conhecimento econômico, bem como no exercício da profissão. Um diagnóstico nacional ganha qualidade quando consegue enxergar também as especificidades dos seus territórios. Este debate é de tão grande importância que foi tema da edição de setembro da revista Economistas (disponível AQUI).

A assinatura do Protocolo de Intenções entre IPEA e Cofecon representa, portanto, um ponto de partida. Temos, diante de nós, a oportunidade de construir uma agenda de conhecimento sobre a própria profissão e sobre o papel das evidências na Economia, produzindo informações para os economistas e contribuindo para que o conhecimento econômico seja cada vez mais útil ao Brasil. Essa é uma das maiores responsabilidades da economia: estudar a realidade para compreendê-la melhor, compreender para poder transformar e transformar tendo como horizonte uma sociedade menos desigual, com mais oportunidades e desenvolvimento, com uma economia que serve à vida e ao bem-viver. 

*Tania Cristina Teixeira é presidenta do Conselho Federal de Economia (Cofecon).

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