André Roncaglia aponta janelas estratégicas para o Brasil diante da nova ordem global
Palestra magna do SINCE analisou as transformações comercial, macroeconômica, tecnológica e financeira e os caminhos para o desenvolvimento nacional
A primeira palestra magna do XXIX Simpósio Nacional dos Conselhos de Economia (SINCE), conduzida pelo economista André Roncaglia, trouxe uma análise profunda sobre as transformações da economia mundial e os desafios estratégicos impostos ao Brasil. Diretor-executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), Roncaglia articulou um diagnóstico complexo sobre a reconfiguração da ordem global, instigando os economistas presentes a repensarem o desenvolvimento nacional diante de um cenário de fragmentação e instabilidade.
Roncaglia iniciou sua fala conectando o momento atual ao pensamento de Celso Furtado. Ele ressaltou que a economia é estável apenas enquanto a geopolítica permite, e que a atual mudança radical no cenário internacional exige uma adaptação urgente do pensamento econômico: “O conhecimento econômico é estável enquanto a geopolítica permite. Quando a geopolítica muda radicalmente, vemos o pensamento econômico tendo que se adaptar”.
Para estruturar sua análise, o palestrante dividiu a crise da ordem global em quatro dimensões principais: comercial, macroeconômica, tecnológica e financeira. “Todas elas se transformando rapidamente colocam um desafio monumental para os economistas”, apontou Roncaglia. Ele mencionou o multilateralismo em fragmentação, a volta do protecionismo, os países ricos com grandes desafios fiscais e choques inflacionários, a automação combinada com a inteligência artificial e a erosão da centralidade do dólar como exemplos de desafios presentes nas dimensões citadas. Christopher Waller, diretor do FED, afirmou que o privilégio que os Estados Unidos tinham de emitir um título considerado seguro pagando juros muito baixos já não existe mais, e a demanda dos países pelo ouro como reserva tem crescido.
Ao abordar a situação fiscal do Brasil, Roncaglia contrapôs visões alarmistas, defendendo que as decisões de política econômica devem ser integradas a uma trajetória de desenvolvimento, e não apenas uma reação aos mercados: “A situação fiscal brasileira é tudo, menos uma singularidade; e ela é tudo, menos o penhasco fiscal que muitas vezes se alardeia no debate público brasileiro com a intenção de encontrar um atalho para as urnas para implementar o seu projeto”, argumentou Roncaglia, mostrando como outros países também se encontram onerados pelas taxas de juros. “Temos uma discussão muito importante a ser feita, mas ela deve ser encaixada no debate sobre desenvolvimento econômico, e não com base nos soluços dos mercados”. Ele apontou também riscos para o País de volatilidade no curto prazo e de custo de financiamento de médio prazo.
Ao analisar o cenário global atual, Roncaglia apontou que as transformações nas dinâmicas internacionais oferecem ao Brasil janelas estratégicas de posicionamento. Para o economista, o desafio reside em utilizar esses ativos para fortalecer a resiliência nacional, superando a dependência de fluxos especulativos: “Primeiro, a diversificação de reservas globais que, ao reduzir a concentração no dólar, pode abrir frentes de expansão e de canalização de investimento para países que conseguem oferecer uma estrutura estável para investimento de longo prazo; depois, o fluxo de ativos para mercados emergentes. Os países emergentes têm mostrado mais cuidado com suas contas, apesar da pressão global no sentido climático, que aumenta o gasto”.
Para aproveitar estas janelas, o economista apontou três caminhos para o Brasil: credibilidade fiscal como pré-requisito de diversificação; cadeias de valor sofisticadas sobre o capital natural; e autonomia de política via reforma multilateral. “Hoje estamos vendo um processo chamado power shoring, em que as empresas vão até as fontes de energia. Isso abre a possibilidade de o Brasil criar segmentos mais sofisticados nas suas cadeias de produção, vendendo produtos mais caros para o exterior não só para gerar receita, mas também para gerar emprego e renda”, pontuou.
Roncaglia encerrou falando de três grandes movimentos: a transição monetária global como um risco e uma oportunidade (“nada de medo, nada de desespero”), a credibilidade fiscal como pré-requisito e não como fim em si mesmo (“países que só pensam em estabilidade vão ficar para trás na corrida tecnológica”) e a transformação do capital natural numa plataforma produtiva. E citou Celso Furtado: “Quando uma sociedade consegue permitir que o indivíduo se desenvolva plenamente em suas capacidades, seu potencial, a isso nós chamamos de desenvolvimento”.
A fala de Roncaglia pode ser vista no player abaixo.
