As contradições do presente e os caminhos do futuro: reflexões sobre a economia baiana na transição para 2050
Em artigo de opinião, economistas Gustavo Casseb Pessoti* e Reinaldo Dantas Sampaio* apontam transição energética, inovação, infraestrutura e conhecimento como vetores para o futuro da Bahia
Há momentos na história econômica em que os indicadores deixam de contar toda a história. A Bahia parece viver exatamente um desses momentos. Se alguém observasse apenas os resultados recentes do Produto Interno Bruto, poderia concluir que o estado finalmente reencontrou uma trajetória de crescimento depois das dificuldades enfrentadas ao longo da década passada. A conclusão, entretanto, seria apressada. Da mesma forma, seria igualmente equivocado afirmar que a economia baiana permanece aprisionada ao quadro de estagnação que marcou grande parte dos anos compreendidos entre 2011 e 2020.
A realidade é mais complexa. A economia baiana encontra-se, hoje, entre dois recentes tempos históricos. O primeiro ainda projeta os efeitos de uma década caracterizada pela perda de dinamismo, pela redução da competitividade relativa, pelo enfraquecimento de setores tradicionais da indústria e pela dificuldade de constituir novos motores de crescimento. O segundo começa a revelar oportunidades inéditas decorrentes das profundas transformações em curso na economia mundial: a transição energética, a reorganização das cadeias globais de produção, a valorização dos minerais estratégicos, o avanço da inteligência artificial, a digitalização da economia, a crescente preocupação ambiental e a redefinição da geopolítica internacional.
Poucas vezes a Bahia reuniu, simultaneamente, tantos ativos econômicos capazes de impulsionar seu desenvolvimento. Também poucas vezes foi tão evidente que possuir ativos não significa, necessariamente, produzir desenvolvimento. É justamente nessa tensão entre potencial e realidade que reside a principal contradição da economia baiana contemporânea.
Essa contradição não nasceu recentemente. Ela foi construída ao longo dos séculos XIX, XX e durante as três primeiras décadas do século XXI. Mas, em particular para os propósitos desta curta análise, o período compreendido entre 2011 e 2020 representou uma inflexão na trajetória econômica recente do estado, com um quadro de taxas acumuladamente negativas do PIB e com perda de participação da Bahia no PIB da região Nordeste e do Brasil. Depois de décadas marcadas por importantes ciclos de industrialização e expansão da infraestrutura, a economia baiana experimentou um período de decrescimento econômico, perda de competitividade e enfraquecimento de sua capacidade de gerar valor agregado. Não se tratou apenas dos efeitos da recessão nacional iniciada em 2015 ou da pandemia da Covid-19. Esses acontecimentos agravaram um processo que já vinha sendo desenhado por transformações estruturais da economia estadual.
A perda gradual de participação da indústria de transformação na geração de riqueza, a dificuldade de renovação tecnológica de segmentos industriais tradicionais, a expansão de serviços pouco intensivos em produtividade e a crescente dependência de atividades vinculadas ao setor público em grande parte dos municípios revelaram limitações importantes do modelo de crescimento que predominou nas décadas anteriores.
Durante muito tempo, a Bahia construiu sua dinâmica econômica apoiada na implantação de grandes complexos industriais, especialmente a partir da segunda metade do século XX. Esse processo alterou a estrutura produtiva estadual, consolidou uma base industrial moderna para os padrões brasileiros da época e permitiu importantes ganhos de renda e urbanização no estado. Entretanto, as mudanças ocorridas na economia mundial ao longo das últimas décadas reduziram parte das vantagens competitivas desse modelo, exigindo novos mecanismos de diversificação produtiva, inovação tecnológica e inserção em cadeias globais de maior valor agregado.
Enquanto isso, outras economias estaduais passaram a disputar investimentos, ampliar sua competitividade e diversificar suas estruturas produtivas. A Bahia permaneceu atraindo importantes projetos de investimento, mas esses empreendimentos, embora relevantes, não foram suficientes para alterar significativamente a trajetória do crescimento econômico. A economia continuou crescendo abaixo de seu potencial, perdendo participação relativa no contexto nordestino, permanecendo estagnada em média em 4,0% do PIB nacional durante todo o período do século XXI.
Talvez a maior contradição do período 2011-2020 tenha sido justamente essa: um estado reconhecido historicamente por sua capacidade de planejamento terminou a década convivendo com indicadores que revelavam perda de dinamismo econômico. Os projetos existiam. As potencialidades permaneciam presentes. Mas a economia encontrava dificuldades para transformar essas potencialidades em crescimento sustentado.
Os primeiros anos da década de 2020 trouxeram sinais mais favoráveis. A recuperação da atividade econômica após a pandemia, o bom desempenho de parte da agropecuária, a expansão da mineração, o crescimento da produção de energias renováveis e a retomada gradual dos investimentos públicos e privados produziram um ambiente econômico mais otimista. Entre 2021 e 2024, a Bahia voltou a registrar crescimento econômico positivo, recuperando parte das perdas acumuladas durante o período anterior.
Entretanto, interpretar essa recuperação como evidência de um novo ciclo de desenvolvimento seria precipitado. Crescer após uma “década perdida” é diferente de inaugurar um novo padrão de crescimento. Em boa medida, a expansão observada nos últimos anos representa uma recomposição do nível de atividade econômica, mas ainda não configura, por si só, uma transformação estrutural da economia baiana.
Essa distinção é fundamental. Crescimento econômico é condição necessária para o desenvolvimento, mas nunca foi condição suficiente. O verdadeiro desafio permanece sendo ampliar a distribuição de renda, aumentar a agregação de valor da produção e a especialização do trabalho, fortalecer os encadeamentos produtivos e construir uma economia territorialmente mais integrada, tecnologicamente mais sofisticada e socialmente mais justa.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre o futuro da Bahia ganha relevância.
O mundo que emerge na segunda metade da década de 2020 é profundamente diferente daquele que existia quando o Plano de Desenvolvimento Integrado Bahia 2035 foi concebido. As transformações tecnológicas aceleraram-se em velocidade inédita. A inteligência artificial passa a alterar processos produtivos, cadeias logísticas e modelos de negócios. A transição energética tornou-se prioridade global. A preocupação com a descarbonização da economia deixou de ser apenas uma agenda ambiental para transformar-se em estratégia econômica. As cadeias internacionais de produção estão sendo reorganizadas. Novos minerais estratégicos ganham importância crescente. A economia digital redefine formas de produzir, comercializar e inovar.
Todas essas mudanças alteram profundamente o conjunto de oportunidades disponíveis para a Bahia.
Poucos estados brasileiros possuem condições naturais tão favoráveis para inserir-se nesse novo contexto internacional. A liderança nacional na produção de energia eólica e solar, o potencial para produção de hidrogênio verde, a riqueza mineral, a expansão do agronegócio, a posição geográfica estratégica, os investimentos em infraestrutura logística, a presença de universidades públicas e centros de pesquisa e a diversidade territorial constituem um patrimônio econômico raro.
O desafio passa a ser transformar essas vantagens comparativas em vantagens competitivas permanentes.
A experiência internacional demonstra que recursos naturais, isoladamente, não produzem desenvolvimento. O que diferencia economias bem-sucedidas é sua capacidade de transformar esses recursos em conhecimento, tecnologia, inovação e cadeias produtivas capazes de gerar elevado valor agregado.
Essa talvez seja a principal mudança de paradigma colocada para a Bahia nas próximas décadas.
Durante boa parte do século XX, o desenvolvimento estadual esteve associado à industrialização pesada e à implantação de grandes projetos estruturantes. Hoje, embora esses investimentos continuem importantes, eles já não são suficientes. O crescimento econômico passa a depender cada vez mais da capacidade de integrar diferentes setores produtivos, estimular a inovação, fortalecer a pesquisa científica, ampliar a qualificação da força de trabalho e construir ecossistemas de desenvolvimento regional.
Nesse contexto, o agronegócio deixa de ser apenas um segmento exportador para tornar-se potencial indutor da agroindustrialização, da biotecnologia, da bioeconomia e da agregação de valor à produção agrícola. A mineração deixa de representar exclusivamente a extração de recursos naturais para assumir papel estratégico na nova economia mundial, impulsionada pela demanda por minerais críticos utilizados na transição energética e na indústria de alta tecnologia. As energias renováveis deixam de ser apenas uma vantagem ambiental para converter-se em elemento central da competitividade industrial.
Da mesma forma, grandes investimentos em infraestrutura, como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste, o Porto Sul e a Ponte Salvador-Itaparica, quando concluídos, transcenderão sua condição de obras públicas. Seu verdadeiro significado econômico reside na capacidade de reorganizar fluxos produtivos, reduzir custos logísticos, ampliar mercados consumidores e estimular novos investimentos privados em diferentes territórios do estado.
Entretanto, talvez o maior diferencial competitivo da Bahia nas próximas décadas não esteja apenas nesses ativos físicos. Estará, sobretudo, na capacidade de produzir conhecimento.
As universidades públicas baianas, os institutos de pesquisa, os centros tecnológicos e os ambientes de inovação podem desempenhar papel decisivo na construção de uma economia mais intensiva em tecnologia. Em um cenário internacional marcado pela inteligência artificial, pela digitalização e pela crescente sofisticação tecnológica da produção, conhecimento deixa de ser um fator complementar para tornar-se um dos principais ativos econômicos de qualquer território.
É exatamente nesse ambiente de transformações que surge o Plano de Desenvolvimento Integrado Bahia 2050.
Mais do que uma atualização temporal do antigo PDI 2035, o novo plano representa uma mudança importante na forma de pensar o desenvolvimento estadual. Seu maior mérito talvez não esteja na definição de metas ou projetos específicos, mas na incorporação de uma visão prospectiva capaz de reconhecer que o futuro será marcado por incertezas crescentes e mudanças estruturais profundas.
Ao incorporar temas como mudanças climáticas, inteligência artificial, transição energética, transformação digital, demografia e reorganização das cadeias globais de valor, o PDI 2050 aproxima o planejamento baiano das principais experiências internacionais de prospectiva estratégica. Planejar deixa de significar apenas definir objetivos futuros e passa a representar a capacidade de preparar o território para diferentes cenários possíveis.
Essa mudança merece ser destacada. Durante décadas, o planejamento público brasileiro esteve excessivamente condicionado aos ciclos políticos de curto prazo. Pensar a Bahia em horizonte de vinte e cinco anos representa um importante avanço institucional. Evidentemente, nenhum plano produz desenvolvimento por si só. O crescimento econômico continuará dependendo da capacidade de mobilização de investimentos, da qualidade das instituições, da estabilidade das políticas públicas e do dinamismo do setor produtivo. Mas bons planos reduzem incertezas, organizam prioridades e constroem convergência entre diferentes atores sociais.
Talvez seja exatamente disso que a Bahia necessite neste momento histórico: menos iniciativas isoladas e mais capacidade de articulação.
A grande questão já não consiste em descobrir novos vetores de crescimento. Eles já existem e são amplamente conhecidos. A transição energética, a agroindustrialização, a mineração de maior valor agregado, a economia do mar, a infraestrutura logística, a economia criativa, a inovação tecnológica e a economia do conhecimento desenham um horizonte de possibilidades bastante promissor.
O verdadeiro desafio passa a ser conectar esses vetores em uma estratégia integrada de desenvolvimento. Uma estratégia capaz de ampliar os encadeamentos produtivos, fortalecer os territórios do interior, reduzir desigualdades regionais, aumentar a produtividade e transformar crescimento econômico em desenvolvimento social.
Essa talvez seja a principal encruzilhada da economia baiana.
A década de 2010 encerrou um ciclo histórico sem que outro estivesse plenamente consolidado. A recuperação observada nos primeiros anos da década seguinte demonstra que a estagnação não constitui um destino inevitável. Ao mesmo tempo, evidencia que a simples retomada do crescimento não será suficiente para alterar, de forma duradoura, a posição da Bahia na economia nacional.
As próximas décadas provavelmente não perguntarão se a Bahia possui potencial para crescer. Essa resposta já está dada pela combinação de seus recursos naturais, sua localização estratégica, sua infraestrutura em expansão e sua capacidade científica instalada.
A verdadeira pergunta será outra.
O estado conseguirá transformar esse extraordinário conjunto de potencialidades em um projeto consistente de desenvolvimento?
Responder positivamente a essa questão exigirá muito mais do que investimentos ou bons indicadores conjunturais. Exigirá visão estratégica, continuidade institucional, inovação permanente e capacidade de integrar conhecimento, infraestrutura, sustentabilidade, tecnologia e produção.
Essa trajetória exige ainda que se façam presentes os fatores estruturantes de produção, cuja insuficiência tem sido uma das principais causas do atraso relativo do estado. Evidencia-se a baixa capacidade financeira endógena, pública e privada, para dotar a Bahia das infraestruturas e institucionalidades necessárias, cuja magnitude exige a ação do governo central para garantir a sua realização.
A história econômica da Bahia demonstra que suas grandes transformações nunca ocorreram apenas porque novos recursos surgiram ou porque grandes investimentos foram anunciados. Elas aconteceram quando esses investimentos alteraram a estrutura produtiva, criaram novos encadeamentos econômicos e redefiniram a capacidade de geração de riqueza dos territórios.
Outra questão importante, que não poderia passar despercebida nesse breve ponto de vista, refere-se ao fato de que as transformações ocorridas ao longo de todo o decurso do século XXI, ainda que significativas, não foram capazes de superar o elevado grau de desigualdades sociais da Bahia, refletido no significativo número de famílias no Programa Bolsa Família (2,3 milhões, segundo dados do MDS, 2026) e na renda “per capita”, invariavelmente em torno de 50% da renda nacional.
Talvez seja exatamente essa a oportunidade que se apresenta agora. A Bahia chega à segunda metade da década de 2020 carregando, simultaneamente, o peso de uma década de baixo dinamismo e a possibilidade concreta de inaugurar um novo ciclo de crescimento com possibilidades de interiorização e desconcentração de renda. Essa é sua maior contradição. Mas pode ser, também, sua maior oportunidade.
O futuro da economia baiana dependerá menos da existência isolada de novos vetores econômicos – eles já estão postos – e muito mais da capacidade de articulá-los em um projeto de desenvolvimento capaz de transformar potencial em competitividade, crescimento em desenvolvimento, inovação em riqueza e expansão econômica em melhoria efetiva da qualidade de vida da população. É nessa passagem entre um modelo que se esgota e outro que começa a se desenhar que reside, provavelmente, a questão econômica mais importante da Bahia nas próximas décadas.
*Gustavo Casseb Pessoti é Economista (UFBA) e Mestre em Desenvolvimento Regional (UNIFACS). É professor universitário e funcionário público da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG), atualmente respondendo como Coordenador de Avalição Institucional da UESB. Foi presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia por cinco mandatos (2014, 2015, 2017, 2022 e 2023) e atualmente é conselheiro federal de economia do COFECON, respondendo como vice coordenador da Comissão de Desenvolvimento Regional. É também vogal da Junta Comercial do Estado da Bahia (JUCEB).
*Reinaldo Dantas Sampaio é Empresário, Economista, com especialização em economia mineral, Presidente Executivo da ABIROCHAS – Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais. É membro do Conselho Temático Permanente de Política Industrial e Desenvolvimento Tecnológico da CNI-Confederação Nacional da Indústria; membro do Conselho Temático de Mineração da CNI e do Fórum Nacional da Indústria – Conselho Consultivo da CNI, membro do Conselho de Representantes e do Comitê de Comercio Exterior da FIEB – Federação das Indústrias do Estado da Bahia e Conselheiro do Conselho Regional de Economia da Bahia – CORECON e atual Presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Politécnico da Bahia.
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