Novas tarifas e os desafios para a economia brasileira
Por Tania Cristina Teixeira*
A decisão dos Estados Unidos de aplicar tarifas de até 37,5% sobre parte das importações provenientes do Brasil reafirma uma nova etapa nas relações comerciais entre os dois países, marcada pelo aumento das barreiras à entrada de produtos brasileiros no mercado norte-americano e pela necessidade de intensificação do diálogo diplomático e das negociações econômicas. As tarifas de 25% e 12,5% entraram em vigência nos dias 22 e 24 de julho, respectivamente, e alcançam parcela significativa dos produtos brasileiros, embora preservem exceções como carne bovina, suco de laranja, aeronaves e componentes aeronáuticos e determinados produtos energéticos.
A análise dessa medida deve considerar seus possíveis efeitos sobre a produção, as exportações e o mercado de trabalho em uma economia globalizada, na qual empresas e fornecedores estão conectados por cadeias produtivas internacionais. Quando um produto brasileiro enfrenta uma tarifa adicional para ingressar em outro mercado, perde competitividade diante de fornecedores locais ou de outras economias. A manutenção prolongada dessas barreiras também pode influenciar decisões empresariais sobre a localização da produção e a escolha de fornecedores. Esse processo, contudo, não é imediato nem irreversível. A qualidade dos produtos brasileiros, a integração já existente entre as empresas dos dois países e a atuação do governo na negociação comercial, no apoio aos setores afetados e na abertura de novos mercados são fatores decisivos para preservar a presença brasileira nas cadeias globais.
Os Estados Unidos ocupam uma posição relevante no comércio exterior brasileiro. O Brasil exportou US$ 42,3 bilhões em bens para o mercado norte-americano em 2024 e US$ 39,9 bilhões em 2025. Além disso, diferentemente de outros grandes parceiros comerciais, os EUA adquirem uma parcela expressiva de produtos brasileiros de maior valor agregado, como máquinas, equipamentos, produtos químicos, artigos de metal e outros bens industrializados. Trata-se, portanto, de uma relação comercial com impacto direto sobre setores intensivos em tecnologia, investimento e geração de empregos qualificados. Uma redução das encomendas externas não afeta somente a empresa exportadora: os efeitos podem alcançar fornecedores de matérias-primas, componentes, serviços especializados, transporte e logística, além de pequenos e médios empreendimentos integrados a essas atividades.
Os impactos também não são uniformes. Os grandes números, quando observados isoladamente, muitas vezes ocultam onde as perdas efetivamente se concentram e quem suporta seus custos. Do ponto de vista regional, os efeitos podem ser mais significativos em estados cuja estrutura produtiva mantém forte integração com aquele mercado. São Paulo, principal polo industrial do País, concentra parcela expressiva das exportações brasileiras de bens manufaturados. Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina também apresentam elevada participação de produtos metalmecânicos na pauta exportadora para os Estados Unidos. Espírito Santo e Bahia podem registrar efeitos sobre cadeias ligadas à siderurgia, celulose, produtos químicos e mineração. Em todos esses casos, eventuais reduções nas exportações podem repercutir sobre o emprego, a renda, a arrecadação e a atividade econômica local, exigindo acompanhamento permanente e políticas direcionadas aos setores mais vulneráveis.
Entre os setores potencialmente mais expostos estão segmentos da indústria de transformação com elevada participação das exportações para o mercado norte-americano, como máquinas e equipamentos, produtos químicos, artigos de metal, madeira e móveis, autopeças e determinados bens manufaturados. Embora parte desses produtos tenha ficado de fora das novas tarifas, empresas inseridas em cadeias produtivas integradas poderão enfrentar redução de demanda e necessidade de renegociação de contratos. Pequenas e médias empresas, muitas vezes dependentes de grandes exportadoras, tendem a sentir estes efeitos de forma mais intensa.
A experiência internacional demonstra que tarifas comerciais podem produzir consequências em ambos os lados da relação. As empresas norte-americanas que utilizam produtos brasileiros como insumos poderão enfrentar aumento de custos, com possíveis reflexos sobre os preços pagos pelos consumidores. Não surpreende o fato de que empresas norte-americanas como Coca-Cola, Tesla e eBay participaram das audiências do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) defendendo a não imposição de tarifas, sob argumentação de que elas atrapalhariam a competitividade destas empresas no próprio território norte-americano.
Ao mesmo tempo que mantém a interlocução, o Brasil também acionou a Organização Mundial do Comércio, formalizando um pedido de consulta. Além disso, a Lei da Reciprocidade Econômica ampliou a capacidade institucional do País para responder a medidas comerciais unilaterais que afetem sua competitividade. No dia 13 de agosto o governo brasileiro emitiu uma nota informando que deu início ao processo para aplicar medidas de reciprocidade previstas na lei e que o Ministério das Relações Exteriores está notificando o governo dos Estados Unidos e solicitando a realização de consultas diplomáticas, enfatizando que a medida reforça a disposição de privilegiar o diálogo e a negociação em suas relações internacionais. A nota diz, ainda, que as tarifas norte-americanas são injustificadas e arbitrárias, e que o Brasil continuará defendendo sua posição em todas as instâncias cabíveis.
Historicamente, os Estados Unidos mantêm um resultado comercial favorável na relação com o Brasil, registrando superávit no comércio de bens em todos os anos desde 2008 e, no de serviços, desde 1999. De acordo com dados do USTR, o déficit brasileiro no comércio de bens foi de US$ 6,7 bilhões em 2024 e US$ 14,4 bilhões em 2025; já no de serviços, o déficit de 2024 foi de US$ 23,1 bilhões e o de 2025 foi de US$ 26,1 bilhões.
O governo brasileiro também dispõe de instrumentos internos para apoiar os setores atingidos. O Plano Brasil Soberano, instituído em 2025 diante das primeiras elevações tarifárias, reuniu medidas de crédito, garantias, apoio tributário e estímulo à diversificação dos mercados de destino. Ao todo, foram R$ 16 bilhões executados na primeira fase, R$ 21 disponibilizados na segunda e R$ 18,5 anunciados na terceira, instituída em 22 de julho pela Medida Provisória 1.379/2026. A experiência acumulada com o Plano pode contribuir para orientar novas providências, caso sejam necessárias diante da ampliação das tarifas.
O novo cenário reforça a importância da diversificação comercial. Ampliar as relações com países da América Latina, da Ásia, da África, do Oriente Médio e da Europa reduz a dependência de mercados específicos e fortalece a capacidade de negociação do Brasil. A conclusão e a implementação de acordos comerciais também podem abrir novas oportunidades para os produtos nacionais.
Diversificar, contudo, não significa substituir automaticamente um parceiro por outro. Os Estados Unidos continuarão sendo um mercado estratégico, sobretudo para a indústria brasileira. O desafio consiste em preservar essa relação enquanto o País amplia seus destinos comerciais, fortalece sua competitividade e agrega mais valor às exportações.
Nesse processo, os economistas têm uma contribuição indispensável. Cabe a eles avaliar como as tarifas afetam cada setor, identificar os empregos mais vulneráveis e estimar os efeitos sobre produção, preços, câmbio, investimentos e arrecadação. Esta análise permite transformar informações em decisões públicas e empresariais mais seguras.
Economistas também contribuem com o desenho das políticas de crédito e proteção ao emprego, a identificação de mercados alternativos e a elaboração de estratégias capazes de reduzir riscos. Nas empresas, sua atuação é fundamental para revisar custos e avaliar as condições de permanência ou expansão no comércio internacional. O mesmo conhecimento econômico é necessário para distinguir impactos temporários de mudanças estruturais. Uma resposta adequada não deve apenas enfrentar as dificuldades imediatas, mas contribuir para que a economia seja mais produtiva e diversificada, tornando-se menos vulnerável às oscilações externas.
As tarifas impõem desafios relevantes, mas o Brasil tem capacidade para enfrentá-los. A atuação coordenada entre governo, setor produtivo, trabalhadores, universidades e instituições de pesquisa será decisiva para reduzir os impactos, preservando empregos e construindo novas oportunidades.
O comércio internacional é uma ferramenta de desenvolvimento, cooperação e geração de renda. A busca por relações econômicas equilibradas, sustentadas pelo diálogo e por regras previsíveis, interessa às sociedades brasileira e norte-americana. Muito além de reagir a uma medida específica, este é o momento de fortalecer uma estratégia de longo prazo para a inserção soberana e competitiva do Brasil na economia mundial (que, em 2025, foi de 2,1% do PIB nominal global em dólares e 1,3% das exportações mundiais).
*Presidenta do Conselho Federal de Economia – Cofecon
