Seminário Nacional da Mulher Economista e Diversidade – Carta de Manaus

Documento sintetiza os debates realizados ao longo do evento e constitui um chamado à ação coletiva em prol de uma economia mais justa, inclusiva e sustentável

O IV Seminário Nacional da Mulher Economista e Diversidade, realizado em Manaus nos dias 18 e 19 de junho, foi finalizado com a leitura da Carta de Manaus. O documento sintetizou os debates realizados ao longo do evento e constituiu um chamado à ação coletiva em prol de uma economia mais justa, inclusiva e sustentável.

O texto reafirma o compromisso com o enfrentamento das desigualdades de gênero, raça, etnia e território, reconhecendo-as como barreiras estruturais ao desenvolvimento econômico e social brasileiro. Ao mesmo tempo, destaca que a promoção da diversidade e da inclusão não é apenas uma exigência ética, mas uma condição fundamental para o crescimento econômico sustentável e o fortalecimento das instituições democráticas, consolidando a defesa de políticas públicas estruturantes, da valorização do trabalho de cuidado e da incorporação das perspectivas de gênero e raça na formulação das decisões econômicas.

Leia a seguir a carta aprovada no IV Seminário Nacional da Mulher Economista e Diversidade.

Carta de Manaus

Nós, economistas, pesquisadoras, docentes, estudantes, gestoras públicas, empreendedoras e representantes da sociedade civil reunidas em Manaus para o IV Seminário Nacional de Mulheres Economistas e Diversidade, reafirmamos nosso compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva, sustentável e democrática.

Reconhecemos que a desigualdade de gênero, raça, etnia e território persistem como barreiras estruturais ao desenvolvimento econômico e social brasileiro. Tais assimetrias se manifestam no acesso desigual a oportunidades, na divisão desproporcional das responsabilidades de cuidado, na sub-representação feminina nos espaços de liderança e nas restrições sistêmicas enfrentadas por grupos historicamente marginalizados.

Reconhecemos, ademais, que a promoção da diversidade e da inclusão não constitui apenas um imperativo ético, mas uma condição estrutural para o crescimento econômico sustentável, a inovação produtiva e o fortalecimento das instituições democráticas. Evidências empíricas consolidades demonstram que sociedades mais igualitárias são também mais eficientes e resilientes.

As reflexões realizadas ao longo deste Seminário reafirmam que não haverá desenvolvimento sustentável e inclusivo sem a participação efetiva das mulheres nos espaços de decisão econômica, política, acadêmica e empresarial. A exclusão das mulheres representa não apenas injustiça social, mas ineficiência econômica mensurável.

I. Compromissos Fundamentais

Diante deste contexto, reafirmamos nosso compromisso institucional com:

  1. A promoção da igualdade de oportunidades entre gêneros em todos os espaços da vida pública e privada, reconhecendo que a equidade de gênero é condição para o pleno exercício da cidadania econômica;
  2. O combate intransigente a todas as formas de discriminação, violência, preconceito e exclusão fundadas em gênero, raça, etnia, orientação sexual, deficiência, território ou condição socioeconômica.;
  3. A valorização das mulheres economistas e de suas contribuições técnicas, acadêmicas e institucionais para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do país, historicamente inviabilizadas;
  4. O fortalecimento da participação feminina em cargos de liderança, gestão estratégica e representação institucional nos setores público, privado e acadêmico;
  5. A defesa intransigente da democracia, da justiça social e dos direitos humanos como fundamentos indissociáveis do desenvolvimento econômico sustentável;
  6. A formulação e implementação de políticas públicas estruturantes, capazes de reduzir desigualdades e ampliar oportunidades para mulheres e grupos historicamente sub-representados.

II. CONVICÇÕES ANALÍTICAS

Com base nas evidências apresentadas e nos debates realizados, estamos convictos de que:

  1. o trabalho de cuidado, ainda majoritariamente realizado por mulheres, constitui um dos principais determinantes estruturais da desigualdade de gênero no mercado de trabalho, exigindo ampliação urgente de políticas públicas voltadas à corresponsabilidade familiar, social e estatal;
  2. A igualdade salarial e a equidade nas trajetórias de carreira são condições indispensáveis para a autonomia econômica das mulheres e para a eficiência alocativa da economia brasileira;
  3. A educação permanece como o instrumento mais potente de transformação social, inclusão produtiva e mobilidade econômica intergeracional, devendo ser tratada como prioridade de Estado;
  4. A incorporação das perspectivas de gênero e raça na formulação das políticas econômicas e fiscais contribui para decisões mais eficientes, inclusivas e alinhadas às necessidades reais da população;
  5. A economia feminista oferece contribuições analíticas relevantes para a compreensão das desigualdades estruturais e para a formulação de novas paradigmas de desenvolvimento que transcendam as métricas tradicionais de crescimento do PIB;
  6. O empreendedorismo feminino e a economia solidária constituem vetor estratégico de geração de renda, inovação social e desenvolvimento regional, especialmente em territórios periféricos e vulneráveis;
  7. A Amazônia desempenha um papel geoestratégico central para o futuro do planeta, exigindo modelos de desenvolvimento que articulem preservação ambiental, inclusão social, geração de renda e valorização dos saberes locais, colocando a vida no centro da economia;
  8. O avanço acelerado das novas tecnologias e da inteligência artificial exige investimentos estruturais em educação, qualificação profissional continuada e inclusão digital, com atenção especial às mulheres e grupos vulneráveis, sob pena de aprofundamento das desigualdades existentes;
  9. A violência digital, o assédio virtual, a disseminação de informações falsas, os ataques à reputação e as tentativas de silenciamento constituem graves violações de direitos e produzem impactos reais na vida pessoal e profissional das mulheres;
  10. A transição ecológica somente será legítima e efetiva se estiver articulada à redução das desigualdades sociais, territoriais, raciais e de gênero, evitando que os seus custos recaiam desproporcionalmente sobre os grupos mais vulneráveis.

III. RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICA PÚBLICA E INSTITUCIONAL

À luz das convicções consolidadas, apresentamos as seguintes recomendações às instituições públicas, ao setor privado e à sociedade civil:

  1. Ampliar e consolidar políticas públicas de cuidado, incluindo a expansão de redes de creches, escolas em tempo integral, centros de apoio às famílias e serviços de cuidado a crianças, idosos e pessoas com deficiência, reconhecendo o cuidado como infraestrutura social e essencial ao desenvolvimento;
  2. Fortalecer a implementação, o monitoramento e a fiscalização da legislação de igualdade salarial entre homens e mulheres, com mecanismo efetivo de responsabilização e transparência para empregados públicos e privados;
  3. Incentivar a produção, divulgação e uso sistemático de estatísticas desagregadas por gênero, raça e território como subsídio indispensável à formulação e avaliação de políticas públicas mais eficazes e equitativas;
  4. Promover a participação qualificada de mulheres em cargos de liderança e decisão nos setores público, privado e acadêmico, por meio de metas, programas de mentoria e revisão de critérios de seleção que perpetuam vieses estruturais;
  5. Estimular programas de formação de meninas e mulheres nas áreas de economia, ciência, tecnologia, engenharia, matemática e inovação, combatendo desde a base as segregações ocupacionais de gênero;
  6. Incorporar de forma sistemática as perspectivas de gênero e raça na elaboração, execução, monitoramento e avaliação das políticas econômicas e fiscais, superando a falsa neutralidade das análises macroeconômicas tradicionais;
  7. Apoiar e ampliar iniciativas de empreendedorismo feminino, especialmente em regiões periféricas, rurais, amazônicas e de maior vulnerabilidade social, assegurando acesso a crédito, assistência técnica e mercados;
  8. Fortalecer o orçamento público e políticas de inclusão produtiva especificamente voltadas para mulheres negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e demais grupos historicamente excluídos, reconhecendo as especificidades das interseccionalidades de gênero, raça e território;
  9. Incentivar o desenvolvimento sustentável da bioeconomia amazônica como estratégia integrada de geração de emprego e renda, preservação ambiental e valorização do conhecimento tradicional, priorizando o protagonismo das comunidades locais;
  10. Apoiar a plena implementação da Taxonomia Sustentável Brasileira e de mecanismos robustos de finanças sustentáveis que orientem investimentos públicos e privados seguindo critérios ambientais, sociais e de governança (ASG);
  11. Estimular a revisão curricular dos cursos de Economia e áreas afins para incorporar de forma orgânica debates sobre gênero, raça, sustentabilidade, diversidade, novas tecnologias e o pluralismo do pensamento econômico;
  12. Fortalecer a rede de mulheres economistas e diversidade como espaço permanente de diálogo, formação continuada, produção de conhecimento e articulação institucional em nível nacional, combatendo a violência em ambientes virtuais e presenciais.

Por fim, reafirmamos nossa determinação coletiva de continuar construindo uma economia mais humana, mais inclusiva e sustentável, comprometida com a redução efetiva das desigualdades, com a valorização da diversidade em todas as suas dimensões e com a promoção de um desenvolvimento que alcance todas as pessoas, em especial as que foram sistematicamente excluídas da sua cidadania.

Que a Carta de Manaus se torne um marco histórico do compromisso das mulheres economistas brasileiras com a transformação social, a justiça econômica e a construção de um futuro verdadeiramente equitativo para o Brasil e para a Amazônia.

Manaus – Amazonas, 19 de junho de 2026.

IV Seminário Nacional de Mulheres Economistas e Diversidade
Conselho Federal de Economia – Cofecon
Conselho Regional de Economia da 13ª Região – Corecon-AM/RR
Comissão da Mulher Economista e Diversidade

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