O Master e Brasília
Por Júlio Miragaya*
Escândalo de banco expõe conexões com os três Poderes e de várias unidades da Federação
O gigantesco rombo de R$ 52 bilhões provocado pelas falcatruas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tem abalado as instituições da República, políticos e gestores nos quatro cantos do País. E o que mais impressiona é a ampla mobilização para abafar o escândalo financeiro e tentar esconder responsabilidades, cumplicidades e conluios.
No Congresso Nacional, deputados e senadores da direita se mobilizaram para barrar a instalação de uma CPMI do Master. Seu mais ativo opositor tem sido o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), responsável pela indicação de Jocildo Lemos, ex-tesoureiro de sua campanha eleitoral, para presidente da Amapá Previdência (Amprev), o fundo de previdência dos servidores de seu estado, que investiu R$ 400 milhões em fundos do Master.
Também o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, e Antônio Rueda, presidente do União Brasil, estão bastante envolvidos com os “negócios” de Vorcaro, assim como o deputado federal do PL Nicolas “Chupetinha” Ferreira, assíduo frequentador dos jatinhos do banqueiro.
Outros políticos, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje presidiário, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Rep.), foram os maiores beneficiários das generosas contribuições de Vorcaro na campanha de 2022, realizadas por seu cunhado, o pastor Fabiano Zettel. Foram R$ 3 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente. Já o governador cassado do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), bancou a aplicação de R$ 1 bilhão do Rio Previdência em letras financeiras do Master.
Mas os tentáculos de Vorcaro não se restringiram ao Congresso Nacional e aos governos estaduais. Também o inquérito no Supremo Tribunal Federal que apura as irregularidades do banco sofre pressão de todo lado, pois dois de seus ministros, Alexandre de Morais e Dias Toffoli, estão indiretamente envolvidos no escândalo mediante a participação de familiares em contratos com Vorcaro.
Diversos outros políticos e gestores, contratados a peso de ouro como “assessores”, também foram envolvidos pela gigantesca teia de Vorcaro. Os tentáculos dele também alcançaram o próprio Banco Central, com seu antigo presidente Campos Neto tendo feito vista grossa para o visível risco de liquidez do banco, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, recebendo, via laranjas, R$ 4 milhões por “serviços de consultoria financeira” ao Master.
Igualmente a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vem sendo investigada por não fiscalizar devidamente a atuação do Master no mercado de capitais. Coincidentemente, seu ex-presidente, Leonardo Pereira, também estava na “folha de pagamentos” de Vorcaro, com repasses de R$ 2,2 milhões ao longo de 2022 e 2023.
Mas a operação mais nociva aos cofres públicos foi a realizada pelo ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, nomeado pelo ex-governador Ibaneis Rocha, que atualmente está preso e negociando delação premiada. Ele adquiriu do Master carteiras de crédito fictícias, provocando um rombo estimado em R$ 12 bilhões, o que colocou o BRB tecnicamente em situação de falência.
O GDF tem criticado o governo federal pelo fato de o Ministério da Fazenda não se dispor a botar dinheiro para cobrir o rombo do BRB. Mas, por que cargas d’água a União deve pagar pelas irresponsabilidades e falcatruas realizadas pelo GDF? Aliás, na gestão financeira, os sucessivos governos no DF têm sido, ao longo dos últimos anos, totalmente ineficazes, inoperantes e incompetentes.
O GDF tem o maior orçamento per capita do País. Sua receita própria é de R$ 46 bilhões, o que resulta numa receita per capita de R$ 15.300, o maior entre todas as unidades da Federação. A título de comparação, o orçamento em 2026 do estado de São Paulo, o mais rico do País, é de R$ 382 bilhões, o que resulta num orçamento per capita de R$ 8.300.
Ocorre que o orçamento do GDF não se limita aos R$ 46 bilhões, pois recebe um generoso acréscimo de 62% pelos R$ 28,4 bilhões do Fundo Constitucional, o que o eleva para R$ 74,4 bilhões, nada menos que R$ 24.800 para cada um de seus 3 milhões de habitantes. Esse volumoso orçamento é similar aos R$ 77,4 bilhões da Bahia, que tem que atender as necessidades de 15 milhões de baianos com R$ 5.200 per capita.
Será que a disponibilidade de tanto dinheiro explica tamanha irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos em nossa capital?
*Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia
Artigo publicado originalmente no portal Brasília Capital – clique AQUI para acessar.
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