Choque de oferta e desaceleração do índice marcam a inflação em abril

Economista Róridan Duarte, integrante da Comissão de Política Econômica do Cofecon, avalia que IPCA de abril traz fotografia de um copo meio cheio e meio vazio: sobe, mas mostra resistência ao descontrole

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril de 2026 apresentou uma variação de 0,67%. O resultado indica uma desaceleração de 0,21 ponto percentual em comparação à taxa de março, que foi de 0,88%. No acumulado de 12 meses, a inflação atingiu 4,39%, superando os 4,14% registrados no período imediatamente anterior. Em termos comparativos, a variação em abril de 2025 havia sido de 0,43%. 

De acordo com Róridan Duarte, integrante da Comissão de Política Econômica do Cofecon, os dados atuais permitem interpretações distintas sobre o cenário econômico. “O IPCA de abril trouxe uma fotografia de um copo meio cheio e meio vazio da inflação”, afirma Duarte. O economista aponta que, embora o índice mensal seja o maior para o mês de abril em quatro anos, o comportamento dos preços demonstra resistência ao descontrole, mantendo-se dentro da meta estabelecida para o período de 12 meses.

Para Duarte, a natureza da inflação decorre de fatores externos de produção e logística, e não de uma pressão interna de consumo. “Ou seja, nós estamos falando muito mais de um choque de oferta do que de um choque de demanda, que é a inflação clássica causada por excesso de consumo”, explica. O integrante da Comissão de Política Econômica do Conselho destaca que a pressão exercida pelos grupos de combustíveis e alimentos foi influenciada pela alta do petróleo e pelo cenário de conflito com o Irã.

“Essa questão de não ser uma inflação de demanda faz toda a diferença, porque deixa claro que os juros altos ajudam pouco quando o problema está nos custos da economia, e não na demanda, além de afetar os investimentos que podem fazer frente, futuramente, a novos choques”, prossegue o economista. “Os dados de hoje também reacendem um debate importante: será que a meta de inflação brasileira não está baixa demais para a realidade estrutural do País? Qualquer choque exógeno – que é impossível de combater com medidas internas de política monetária – já ameaça o estouro do teto da meta”.

Os grupos Alimentação e bebidas (1,34%) e Saúde e cuidados pessoais (1,16%) foram os principais responsáveis pelo índice, representando, somados, cerca de 67% do resultado mensal. No setor de alimentos, a variação para consumo no domicílio foi de 1,64%. Os itens com maiores altas foram a cenoura (26,63%), o leite longa vida (13,66%), a cebola (11,76%) e o tomate (6,13%). Em contrapartida, houve queda nos preços do café moído (-2,30%) e do frango em pedaços (-2,14%). 

No grupo Saúde e cuidados pessoais, os produtos farmacêuticos subiram 1,77% após o reajuste anual de até 3,81% autorizado em 1º de abril. Itens de higiene pessoal também registraram alta de 1,57%, com destaque para os perfumes (1,94%). Já o grupo Habitação variou 0,63% , influenciado pelo aumento de 3,74% no gás de botijão e pelo reajuste das tarifas de energia elétrica em diversas capitais. No Rio de Janeiro, o impacto na energia foi de 4,83%, em Campo Grande de 2,27% e em Salvador de 2,23%. 

O grupo Transportes registrou desaceleração, passando de 1,64% em março para 0,06% em abril. Esse movimento foi motivado pela queda de 14,45% nos preços das passagens aéreas. Além disso, o subitem ônibus urbano recuou 1,13% devido à aplicação de gratuidades e reduções tarifárias aos domingos e feriados em cidades como São Paulo, Brasília, Belém e Belo Horizonte. Apesar da estabilidade do grupo, os combustíveis subiram 1,80%, sendo que a gasolina teve alta de 1,86% e o óleo diesel de 4,46%.

Duarte também aponta que os próximos meses vão mostrar se a desaceleração do IPCA já é o início de uma tendência mais consistente de acomodação dos preços. “É a nossa aposta”, finaliza.

Share this Post