Espanha e Brasil, Portugal entre a Europa e o Atlântico

Por António Mendonça*

A resolução da crise geoeconômica e geopolítica atual exige novas referências e novos protagonistas. O mundo lusófono e o mundo hispânico, pelo papel que desempenharam e continuam a desempenhar na construção do mundo global, são ativos que importa valorizar

Em diplomacia, os símbolos contam, e a ordem dos gestos é tão importante quanto as palavras. A coincidência da primeira visita de Estado ao estrangeiro do Presidente António José Seguro a Espanha com a primeira recepção de Estado a um dirigente estrangeiro, o Presidente Lula da Silva, não pode deixar de ser lida como um sinal de prioridade estratégica.

Num contexto como o atual, o papel dos Estados médios, como Portugal, passa menos pela afirmação de poder e mais pela capacidade de reduzir vulnerabilidades externas através de escolhas estratégicas nas suas relações internacionais, reforçando simultaneamente a sua voz e o seu papel nas instituições supranacionais em que participam, designadamente na União Europeia.

A Espanha é um parceiro natural e incontornável. Ligam‑nos a História, em grande parte partilhada, a proximidade geográfica, cultural e linguística, assim como a intensificação recente da relação económica, a par de interesses objetivos comuns no que respeita à construção de uma identidade europeia de vocação atlântica e de abertura à economia global.

O Brasil é uma expressão maior da globalização moderna impulsionada por Portugal. É a maior economia da América do Sul, o maior país de língua portuguesa, um ator global emergente, membro do chamado Sul Global e uma ponte privilegiada para o relacionamento com a América do Sul, África e os BRICS. A tudo isto se soma uma relação histórica, cultural, económica e política estreita entre os dois países, hoje refletida na maior comunidade imigrante residente em Portugal.

O aprofundamento da relação com a Espanha e a valorização de um espaço ibérico deverão constituir objetivos estratégicos de Portugal. A água, a energia, os transportes, as redes, as interligações para além dos Pirenéus, o mundo luso-hispânico de expressão global, são produtores de um interesse comum, que pode projetar-se na construção de uma nova identidade europeia, aberta ao Atlântico e com capacidade de afirmação na economia global.

Por sua vez, o reconhecimento da importância da relação com o Brasil é vital para a projeção do mundo lusófono. Portugal dispõe de um capital de relacionamento global que importa potenciar. Em primeiro lugar, no reforço da sua posição económica e na redução de vulnerabilidades externas. Mas também na recuperação de um projeto europeu capaz de superar a tentação eurocêntrica e de se projetar como referência para a reconstrução de uma ordem internacional baseada em regras, respeito mútuo e cooperação multilateral.

A resolução da crise geoeconómica e geopolítica atual exige novas referências e novos protagonistas. O mundo lusófono e o mundo hispânico, pelo papel que desempenharam e continuam a desempenhar na construção do mundo global, são ativos que importa valorizar através da intervenção dos seus principais protagonistas.

Ao articular a proximidade estratégica com Espanha e a projeção atlântica através do Brasil, Portugal afirma‑se como um ator de ligação e de construção de pontes num sistema internacional carente não apenas de novas referências, mas também de protagonistas credíveis. É neste plano que a diplomacia portuguesa pode ganhar relevância estratégica.

Portugal, Espanha e Brasil podem constituir os pilares de um novo quadro de relacionamento global da Europa que integre o triângulo atlântico, Europa, América e África, com projeção no Índico e no Pacífico.

*Bastonário da Ordem dos Economistas de Portugal. Professor aposentado do Instituto Superior de Economia. Ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações de Portugal.

Artigo publicado originalmente no portal O Jornal Económico – clique AQUI para acessar.

As ideias, opiniões e informações contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es), não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional do Conselho Federal de Economia, nem devendo ser interpretadas como manifestação oficial da entidade.

Share this Post