Débora Freire: “Melhor resposta ao choque externo é a preservação dos fundamentos”
Secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda participou de debate no Conselho Federal de Economia nesta sexta-feira (08). Vídeo pode ser assistido no YouTube
O Conselho Federal de Economia recebeu na manhã desta sexta-feira (08) a secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, economista Débora Freire. Ela debateu os impactos da guerra no Oriente Médio para a economia brasileira, trazendo um diagnóstico sobre os canais de propagação dos efeitos econômicos do conflito e a forma como o Brasil está posicionado e enfrentando a situação. O vídeo completo pode ser assistido no player abaixo.
“Agradeço a presença da nossa secretária de Política Econômica, professora, pesquisadora, que trouxe um debate frutífero para que possamos nortear inclusive as discussões da Comissão de Política Econômica”, expressou a presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira. “Eventos como este nos permitem discutir isso inclusive nos nossos Conselhos Regionais e nortear esta discussão nacionalmente”.
Canais de propagação dos efeitos
“Nós identificamos três canais pelos quais a guerra pode afetar o Brasil: energia, comércio e inflação”, iniciou Débora. “Esses canais não operam de forma isolada. Eles se reforçam. A intensidade de cada um depende fundamentalmente da duração e da abrangência do conflito, que são variáveis sobre as quais a política econômica doméstica não tem nenhuma influência. E ninguém consegue prever muito bem quanto esse conflito vai durar”.
Ela vê o choque de energia ainda contido: o preço do petróleo ainda não chegou no mesmo preço de quando se iniciou o conflito entre Rússia e Ucrânia. “O efeito ainda é menor, mas não sabemos quanto tempo vai durar”, observa a economista. “Estamos bem-posicionados em relação a este choque. Somos exportadores líquidos de óleo cru, mas temos ainda alguma vulnerabilidade em derivados de petróleo. Nossa matriz energética é predominantemente renovável, o que limita o impacto do choque, mas há ainda 34% de peso do petróleo e derivados, sobretudo nos transportes”.
O crescimento do preço de grãos tem um potencial de trazer ganhos com exportações, mas também traz uma vulnerabilidade em insumos agrícolas. “O Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome. O potássio tem sua origem concentrada na Rússia e Bielorrússia, países que já estão sob sanções. O conflito não afeta esta rota, mas afeta os custos logísticos e a oferta global”, explica Débora. No entanto, caso o conflito se prolongue, ele pode afetar a atividade econômica em grandes parceiros comerciais do Brasil. “No governo federal, atentos a isso, lançamos uma linha de crédito no âmbito do Plano Brasil Soberano com condições favorecidas, para que possamos diversificar ainda mais nossa pauta exportadora”.
O efeito via inflação se dá pelo aumento dos preços dos combustíveis, afetando custos de transporte e se propagando pelos vários setores da economia. “Estávamos num processo de convergência para a meta de inflação. A preocupação agora é que o choque energético passe a se refletir nos preços de serviços e bens industriais”, observou. “Por enquanto, dado o cenário que temos, não entendemos que este choque vá afetar o processo de flexibilização da política monetária. Há desafios, mas são de oferta”.
Posição do Brasil e medidas
A economista também aponta que, para minimizar o efeito do choque sobre os preços, a política monetária tem espaço de reação (reduzindo, entretanto, o crescimento), enquanto a política fiscal tem pouca margem adicional. “Esta combinação de restrições mostra que a melhor resposta ao choque externo não é o estímulo doméstico, mas a preservação dos fundamentos, medidas pontuais e ancoragem das expectativas”.
Débora também pontuou que aumento do preço do petróleo tem potencial para elevar o Produto Interno Bruto brasileiro, com algum impacto na balança comercial e na receita líquida do governo, mas também na inflação, e abordou medidas que já foram tomadas pelo governo para preservar o equilíbrio macroeconômico, como subvenção ao diesel e a eliminação da cobrança de PIS/Cofins sobre o diesel e sobre o querosene, e um imposto de exportação para desestimular as vendas de óleo diesel ao exterior. “Estamos na neutralidade fiscal com essas medidas, que são temporárias”, afirmou a secretária de Política Econômica.
Comentário de Antonio Corrêa de Lacerda
O conselheiro federal Antonio Corrêa de Lacerda, coordenador da Comissão de Política Econômica do Cofecon, fez um comentário sobre a forma como o Brasil enfrenta este momento. “Se fizermos um breve paralelo com as crises do petróleo, o petróleo era um calcanhar de Aquiles para a economia brasileira, por causa da taxa de câmbio e porque vivíamos uma situação de balanço de pagamentos bem diferente do que temos hoje”, observou o economista. “Nos anos 70 dependíamos 80% do petróleo importado. Hoje temos praticamente autossuficiência, somos exportadores líquidos de petróleo bruto, mas temos o desafio de viabilizar o refino e os derivados”.
“O Brasil tem uma diversificação da matriz energética com 50% de energia renovável, podendo até se ampliar, o que tudo indica que vai ocorrer”, prosseguiu Lacerda. “Esta crise não nos pega desprevenidos. O Nova Indústria Brasil, o Plano de Transição Energética, o Novo PAC e as medidas em curso que estão sendo adaptadas a este cenário de guerra nos colocam em uma situação estratégica diferenciada”, finalizou.
Débora Freire
Débora Freire é doutora em Economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG). É servidora pública Federal desde 2017, professora adjunta do Departamento de Ciências Econômicas UFMG e integrante do corpo permanente do Programa de Pós-graduação em Economia do Cedeplar/UFMG. Assumiu em 2023 o cargo de subsecretária de Política Fiscal da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda e em 2026 foi nomeada Secretária de Política Econômica, tendo sido a primeira mulher a ocupar o cargo.
