Podcast Economistas: Economia solidária no centro do futuro sustentável
Economistas apontam como cooperação e respeito aos limites ecológicos podem redefinir os caminhos do desenvolvimento do Brasil. Tema será discutido em seminário nos dias 21 e 22 de maio
Está no ar mais um episódio do podcast Economistas! A Comissão Sustentabilidade Econômica e Ambiental do Cofecon escolheu o tema da economia solidária como eixo do trabalho a ser realizado no ano de 2026. Em que pontos a economia ecológica e a solidária convergem? A conselheira federal Elis Braga Licks, o professor Lucas Ferreira Lima e a economista Mara Rubia Domingues falam sobre o assunto no podcast, que pode ser ouvido em sua plataforma favorita ou no player abaixo. E se você quiser se aprofundar mais, nos dias 21 e 22 de maio será realizado, em São Paulo, o seminário “Economia solidária: caminho para o equilíbrio socioambiental”.
Vivemos um tempo em que as contradições do modelo econômico contemporâneo se tornam cada vez mais visíveis. De um lado, a intensificação da crise climática e a pressão crescente sobre os recursos naturais do planeta causam uma série de consequências, como a perda acelerada da biodiversidade. Por outro lado, fatores como o agravamento das desigualdades sociais e a persistência de padrões produtivos que concentram renda ampliam as vulnerabilidades e desafiam a própria sustentabilidade da vida.
Mas é possível construir um modelo de desenvolvimento que possa conciliar geração de renda, justiça social e equilíbrio ambiental? Foi a partir desta pergunta que a Comissão Sustentabilidade Econômica e Ambiental do Cofecon, coordenada pela conselheira Elis Braga Licks, escolheu a economia solidária como tema central de suas reflexões para o ano de 2026.
“Vemos hoje a convergência de três grandes processos: o avanço da crise climática, a perda acelerada da biodiversidade e o agravamento das desigualdades sociais. Estes fenômenos não são isolados: revelam limites do modelo econômico contemporâneo, baseado na expansão ilimitada sobre uma base ecológica que é finita”, observa Elis. “Não basta apenas uma transição tecnológica ou produtiva. É preciso uma transição ecológica que seja também socialmente justa, e é neste ponto que a economia solidária ganha centralidade”.
A economia solidária era definida por Paul Singer como uma “economia do nós”, ou seja, das pessoas. “Ela propõe uma reorganização da forma de produzir, consumir e distribuir riqueza, colocando a vida no centro da economia”, prossegue a conselheira federal. “Ela se baseia em princípios como cooperação, autogestão, democracia econômica e valorização dos territórios. Ela dialoga com a economia ecológica – uma abordagem que defende que a economia é um subsistema da natureza e, portanto, deve respeitar seus limites biofísicos. A economia solidária funciona como uma ponte entre essa base teórica e a prática concreta”.
Cooperativas, finanças solidárias, agroecologia e reciclagem são formas de organização produtiva que colocam o bem comum e a cooperação no centro das decisões econômicas. “A economia solidária já existe nos territórios e aponta caminhos reais para uma economia de baixo impacto ambiental e maior inclusão social. Ela também contribui para revalorizar o trabalho e as comunidades, fortalecer vínculos sociais e promover inclusão produtiva e o respeito aos limites ecológicos, por meio de práticas como reaproveitamento de resíduos, produção local e uso responsável dos recursos naturais”, comenta Elis. “Redes como a Justa Trama na produção têxtil sustentável, ou iniciativas como o Banco Mumbuca, em Maricá, demonstram que é possível articular a geração de renda, inclusão social e sustentabilidade ambiental em escala territorial. A economia solidária é o reconhecimento de que já existem alternativas em construção e que o papel das políticas públicas, das instituições de da própria economia é fortalecer essas iniciativas”.
Crítica ao sistema vigente
A economia ecológica parte de uma crítica ao sistema econômico vigente. De acordo com o economista Lucas Ferreira Lima, o modelo econômico tradicional tem dificuldade para lidar com crises ambientais e sociais porque desconsidera essas variáveis. Ele explica que o modelo está firmado em três premissas: o “ceteris paribus” (expressão latina que significa “tudo o mais constante”), a neutralidade da economia e a plena substitutibilidade dos fatores de produção.
“Tudo o mais constante, não haverá fome, pobreza, miséria, impactos ambientais. O crescimento econômico infinito é o objetivo central da teoria neoclássica. Nela, todo crescimento é benéfico”, aponta Lucas. “Então, se estamos numa sociedade que tem pouco trabalho, vamos intensificar o fator produtivo capital, investir em máquinas e equipamentos, aumentar a produtividade do capital. E se acabarem os recursos naturais, se acabar a madeira, as mesas serão feitas de outro recurso, como plástico”, ironiza.
Ao fazer esta crítica ao modelo vigente por desconsiderar fatores ecológicos e sociais, Lima aponta que a diferença da economia ecológica é ter como ponto de partida o fato de a economia ser um subsistema do ecossistema global, regido por leis biofísicas (leis da termodinâmica). “Em essência, neste modelo, a economia não é neutra. Quando optamos por ampliar capital, temos que ter consciência de que estamos reduzindo o estoque de recursos naturais”, observa o economista. “Herman Daly traz essa diferenciação entre a economia ecológica e a neoclássica com uma visão de estoque e fluxo. Como economistas ecológicos, devemos pensar os recursos naturais nessas duas dimensões”.
Uma das questões importantes no debate sobre sustentabilidade é entender até que ponto o mercado já incorporou mudanças estruturais em suas práticas ou se predomina a lógica orientada pelo curto prazo. O avanço da agenda ambiental, social e de governança (ESG) trouxe novos parâmetros e ampliou o olhar sobre os riscos e impactos, mas ainda há dúvidas sobre a profundidade destas transformações.
“O ESG ajudou a trazer para o centro do debate temas importantes, o que é um avanço, mas esta mudança ainda não mexeu no centro das decisões econômicas. Os custos ambientais ainda são mal incorporados e a distribuição de valor nas cadeias produtivas continua muito desigual”, pontua a economista Mara Rubia Domingues. “Existe mudança, mas ela ainda esbarra em limites estruturais. A sustentabilidade só se torna transformação de fato quando passa a orientar investimento, compras, governança, cadeia produtiva e estratégia de longo prazo. A economia solidária amplia essa discussão: ela recoloca no centro não só o que se produz, mas também como se produz, para quem e com que efeitos”.
Cooperação no centro do pensamento econômico
Trazer a cooperação e a solidariedade para o centro do pensamento econômico é uma mudança importante. “Fortalecer a cooperação exige, antes de tudo, reconhecer que a economia é uma construção social e, portanto, pode ser reorganizada a partir de outros valores e princípios. Mas não é um desafio simples”, observa Elis. “Muitos profissionais ainda tratam este tema como algo secundário ou confundem com assistencialismo, o que é um equívoco. Economia solidária é produção, geração de renda, organização do trabalho e desenvolvimento econômico. A diferença é que ela se estrutura a partir da cooperação, autogestão e distribuição mais justa dos resultados”.
Na visão da economista, superar esta visão passa necessariamente pela formação dos economistas. “Além disso, fortalecer a cooperação na economia depende de políticas públicas que reconheçam e apoiem as iniciativas de economia solidária, permitindo que elas ganhem escala e deixem de ocupar um espaço marginal”, aponta. “Também passa pelo fortalecimento de práticas concretas nos territórios (cooperativas, redes locais, iniciativas de reciclagem, agricultura familiar) que mostram, na prática, que é possível produzir e gerar renda de forma mais justa e sustentável. Cooperação e solidariedade não são opostas à eficiência econômica”.
A economia ecológica também questiona a ideia de que a competição leva automaticamente ao equilíbrio e ao bem-estar geral. “Todos os dados e informações das autoridades climáticas mostram que os impactos do atual modelo econômico estão em níveis muito elevados. A economia ecológica defende uma visão oposta à concorrência perfeita neoclássica: uma visão de consciência ecológica intra e intergeracional”, comenta Lucas Lima. “Temos que pensar na nossa geração, mas também nas gerações futuras. Este é o princípio básico do desenvolvimento sustentável. Se a degradação ambiental no presente for muito elevada e superar a capacidade de resiliência do sistema, as gerações futuras viverão num planeta com qualidade ambiental muito inferior”.
Alguns exemplos de qualidade ambiental inferior incluem falta de acesso à água potável, baixa qualidade da água, eventos climáticos extremos e monotonia agroalimentar, sendo que este último elemento também traz um consumo cada vez maior de alimentos ultraprocessados. “Precisamos, enquanto economistas, ampliar esta consciência ecológica, propondo instrumentos econômico-ecológicos que prezem por uma economia que concilie geração de renda e oportunidades com erradicação da miséria e fome, dentro dos limites biofísicos e termodinâmicos do planeta”.
Visibilidade da economia solidária
Apesar de apresentar resultados concretos em relação à geração de renda e à inclusão produtiva, a economia solidária ainda enfrenta resistência e é vista como algo secundário numa estratégia de desenvolvimento. “Em geral, o mercado trabalha com uma visão muito estreita do que reconhece como eficiência e valor. O que pesa mais é escala, competitividade e retorno imediato. Iniciativas comunitárias e formas de gestão coletiva ficam em segundo plano, mesmo quando geram resultados econômicos relevantes”, questiona Mara Rubia. “Esta visão subestima resultados centrais, como geração de trabalho e renda, inclusão produtiva, fortalecimento das economias locais, resiliência territorial e redução dos impactos socioambientais”.
Muitas iniciativas de economia solidária ainda têm dificuldade para acessar financiamento, ganhar visibilidade e ocupar espaço em mercados estruturados. “Para mudar essa percepção, é preciso ampliar as políticas públicas de apoio e dar visibilidade às experiências que já funcionam”, prossegue a economista. “Também é importante aproximar este debate da formação dos economistas e das estratégias empresariais. A economia solidária não deve ser vista como algo complementar; precisa ser reconhecida como parte da solução econômica para um desenvolvimento mais inclusivo e sustentável”.
Mas como integrar este modelo às dinâmicas do mercado? “Esta conexão acontece quando a sustentabilidade deixa de ser um discurso paralelo e passa a orientar a lógica do negócio. Ela traz elementos que são centrais: cooperação, vínculo com o território e inclusão produtiva, participação e compromisso com o bem comum”, comenta Mara Rubia. “Na prática, a conexão pode acontecer por meio de compras responsáveis, da integração de cooperativas e redes locais às cadeias produtivas e de estratégias de economia circular. Isso aparece de forma concreta em iniciativas como reciclagem, reaproveitamento de materiais, logística reversa, finanças solidárias e modelos de governança mais participativos”.
A economista argumenta que não se trata de opor mercado e economia solidária, mas de construir arranjos produtivos mais eficientes. “A questão central não é saber se é possível. Já existem experiências concretas que mostram que funciona. O desafio é ampliar escala, financiamento, reconhecimento institucional e espaço econômico, para que estas iniciativas deixem de ser exceção e passem a influenciar o desenvolvimento que queremos construir no País”, pontua Mara Rubia.
Para o economista Lucas Lima, a economia ecológica e a economia solidária, embora tenham origens distintas, compartilham princípios que permitem pensar um novo padrão de desenvolvimento baseado em limites ambientais, justiça social e novas formas de organização produtiva. “Elas têm muita proximidade em seus pressupostos. Nós, economistas, temos a possibilidade de integrar autogestão, solidariedade, igualdade e justiça social aos limites termodinâmicos do planeta”, observa Lima. “Na economia ecológica, essa integração pode se dar a partir da definição da escala de uso sustentável dos recursos, da distribuição justa e inclusiva e, por fim, das políticas de alocação eficiente”.
Várias tentativas têm sido feitas para definir o uso sustentável dos recursos – entre elas, os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a tentativa de manter a temperatura terrestre dentro do limite de até 1,5 grau acima da era pré-industrial e os conceitos de pegada de carbono e limite planetário. Já a discussão sobre distribuição justa e inclusiva dos recursos inclui a garantia de alimentos e água com qualidade a toda a população, a responsabilidade pela conservação e o tratamento de resíduos. A alocação eficiente de recursos traz debates como o pagamento por serviços ambientais e as políticas de educação, saneamento e saúde.
Seminário nacional
Diante da necessidade de repensar os caminhos do desenvolvimento, iniciativas que ampliam o debate econômico e que conectam teoria e prática ganham ainda mais relevância. Nos dias 21 e 22 de maio de 2026 o Cofecon e o Corecon-SP realizarão um seminário nacional com o tema “Economia solidária: caminho para o equilíbrio socioambiental”.
“O tema parte do reconhecimento de que os desafios que enfrentamos hoje, como a crise climática, a perda da biodiversidade e o aumento das desigualdades, não podem ser tratados de forma separada. Eles exigem uma nova forma de pensar a economia que integre as dimensões social, ambiental e produtiva”, explica a coordenadora da Comissão Sustentabilidade Econômica e Ambiental do Cofecon, Elis Licks. “Ao longo de dois dias reuniremos profissionais e especialistas de destaque que já vêm discutindo essas novas formas de produção e organização econômica nas quais a sustentabilidade não é um complemento, mas um elemento estruturante”.
O evento se apresenta como um espaço estratégico de reflexão e construção coletiva sobre caminhos concretos para um futuro socialmente justo e ambientalmente sustentável. “O seminário busca provocar um deslocamento no debate econômico tradicional e mostrar que a economia solidária não é periférica, mas um caminho concreto para construir esse equilíbrio socioambiental. As experiências demonstram que já existem alternativas em construção”, afirma Elis. “Queremos provocar uma mudança de perspectiva, colocando em evidência que o equilíbrio entre economia, sociedade e meio ambiente não é apenas desejável, mas essencial para o futuro do desenvolvimento do Brasil”, finaliza a economista.
Participantes
Elis Braga Licks é doutora em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo. Atua com políticas públicas voltada ao meio ambiente, desastres socioambientais e ensino superior. É coordenadora da Comissão Sustentabilidade Econômica e Ambiental do Cofecon.
Lucas Ferreira Lima é graduado pela Universidade Federal de Uberlândia, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas. É pesquisador colaborador no Instituto de Economia da Unicamp e está associado a dois projetos financiados pela FAPESP. É membro da Diretoria Executiva da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO).
Mara Rubia Domingues é graduada pela Universidade São Francisco, com MBA em Gestão Empresarial pela fundação Getúlio Vargas e em ESG pelo Ibmec. Atuou por 16 anos nos bancos Santander e Itaú. É especialista em ESG na empresa Canopus Tech & ESG.
