Podcast Economistas: Desdobramentos econômicos da guerra
José Francisco de Lima Gonçalves analisa os impactos da guerra no Irã e como eles podem afetar a economia brasileira
Está no ar mais um episódio do podcast Economistas! Nas últimas quatro semanas, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã trouxe desdobramentos que ultrapassam o cenário militar e alcançam a economia global. A elevação dos preços internacionais do petróleo e os riscos às cadeias de suprimentos representam um desafio para os vários países, trazendo consequências também para a economia brasileira. O podcast pode ser ouvido na sua plataforma favorita ou no player abaixo.
A ascensão da China vem reconfigurando o equilíbrio de forças na economia mundial. Esta reconfiguração reduz o peso relativo de economias tradicionalmente centrais e altera padrões de comércio, investimento e tecnologia. Este processo tem implicações diretas para vários países. Na economia brasileira, o desinvestimento em alguns setores como a indústria tem tido a contrapartida do setor exportador, tanto de extração mineral quanto agropecuário.
Neste contexto, no cenário internacional, em anos recentes, diversos países presenciaram o surgimento de uma série de movimentos que combinam traços fortes de nacionalismo e o desejo de uma volta ao passado. Este é um fenômeno presente em várias partes do mundo e que, nos estados unidos, está representado na figura do atual presidente, Donald Trump.
“Trump promete o que me parece ser impossível, que é uma volta ao passado. Tanto os democratas quanto os republicanos têm fracassado na tentativa de superar esta situação nova, com todos os impactos que ela tem sobre a tradição americana de uma sofisticada camada de trabalhadores na indústria e nos serviços e do amplo desenvolvimento de uma classe média orgulhosa de suas perspectivas e possibilidades. E essas duas coisas não existem mais”, analisa o professor José Francisco de Lima Gonçalves, da Universidade de São Paulo. “Essa tentativa de volta ao passado, no mundo inteiro, tem se caracterizado por uma recuperação do autoritarismo e da demagogia que nós conhecemos no período entre guerras”.
Segundo mandato de Trump
Gonçalves vê o segundo mandato de Trump com um foco ainda maior no nacionalismo e numa expansão que se contrapõe às instituições políticas nacionais e internacionais do período pós-Segunda Guerra. Além disso, o cenário internacional atual também é diferente, com uma Europa acuada pela expansão russa e com uma presença sofisticada da China no cenário internacional, tanto pelo comércio quanto pela estratégia do Cinturão e Rota.
Uma das principais preocupações com relação ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã é que a situação abra um precedente para que outros países passem a adotar uma direção similar. O episódio pode enfraquecer mecanismos internacionais de mediação e ampliar o risco de escaladas regionais em outros lugares do mundo, impactando a economia global.
Gonçalves vê semelhança entre os efeitos econômicos da guerra e os da pandemia e da invasão russa à Ucrânia, na medida em que provoca volatilidade nos preços das commodities e de ativos financeiros e traz o risco de uma nova rodada de bloqueios ao comércio internacional. Nos Estados Unidos, no ano de 2026 há eleições de meio de mandato (mid term), num quadro em que há uma progressiva piora da aprovação de Donald Trump. O próprio comportamento instável do presidente, com suas idas e vindas, é um elemento que dificulta a análise de quanto pode durar o conflito.
“Penso que a derrota que ele sofreu na Suprema Corte em relação às tarifas é o maior sinal de que teremos confusão à frente. Não me parece ser o perfil de Trump e sua equipe se render e diminuir suas ansiedades”, analisa o economista. “Se ele é contrariado, sua reação pode ser mais problemática. A resposta do Irã vem conforme o esperado, estendendo os limites da guerra e ameaçando uma ampliação adicional desse conflito. Não imagino o Irã se rendendo, o que colocaria o avanço de Estados Unidos e Israel como uma questão de invasão por terra, à beira de uma situação de conflagração mais complicada e que eventualmente sairia de controle”.
Declarações feitas por lideranças políticas num contexto de guerra nem sempre refletem a realidade. Ao contrário, podem cumprir funções políticas específicas, tanto no cenário internacional quanto nacional. Por isso, não há clareza sobre quais são, efetivamente, os objetivos específicos em jogo e os caminhos que podem levar ao fim da guerra.
Além disso, outros países que não participam do conflito são influenciados por ele de forma favorável. Um deles é a Rússia, que vem sendo beneficiada com a alta do preço do petróleo e o recente anúncio do relaxamento das sanções internacionais a fim de conter o preço da commodity. A partir desta perspectiva, até que ponto o conflito caminha para uma solução, ainda que parcial, e quais seriam os custos econômicos e geopolíticos de uma eventual saída dos Estados Unidos da guerra?
“No ano passado Trump disse que eles haviam obliterado o programa nuclear iraniano. Pode ser mentira ou verdade”, observa Gonçalves. “Se for mentira, para esta perspectiva, tanto faz. Mas se ele estiver dizendo a verdade, o que pode ser um caminho para o fim da guerra ou uma saída honrosa para Trump? A saída pode ser vista como se os Estados Unidos estivessem abandonando Israel e desistindo da guerra. Neste caso, a situação de Israel ficaria complicada e esta saída mexeria com a geopolítica”.
“A Rússia talvez seja o grande vencedor até hoje em relação aos efeitos da guerra, pela sua relação com a Europa”, prossegue o economista. “As dificuldades que a China tem são, claramente, a questão do petróleo e a questão geográfica, por causa da Rota da Seda, que deixariam de ser perdas na hipótese de uma saída dos Estados Unidos da Guerra. Ou seja, não me parece que exista uma saída possível desenhada”.
Brasil
Como fica o brasil dentro deste cenário? Uma das primeiras consequências vem por meio da taxa de câmbio: o preço do dólar sobe, uma vez que, nos cenários de maior incerteza, os investidores correm para ativos considerados mais seguros. “O efeito líquido disso tem sido uma modesta desvalorização do real. Quanto aos juros, sinto muito: fica claro que há uma restrição para as decisões de política monetária tendo em vista a questão do diferencial de juros”, avalia Gonçalves. “Em relação à atividade econômica, no curto e médio prazo os riscos são mais difíceis de reconstruir, na medida em que estão ligados à logística e cadeias produtivas. Conhecemos bem isso nos momentos recentes da economia mundial”.
O cenário econômico dos últimos anos é visto por Gonçalves como positivo, com crescimento econômico e pleno emprego. No entanto, em sua avaliação, a inflação dos alimentos fez com que parte dos brasileiros tivessem uma percepção negativa da economia e, para explicar, ele mencionou uma frase da professora Maria da Conceição Tavares.
“Uma grande e saudosa professora disse um dia que o povo não come PIB. Ou seja, PIB maior ou menor não é o que conta. O povo come comida, desde que tenha condições para comprá-la. Ou seja, é o conjunto de determinantes da cesta de alimentos que as pessoas têm à sua disposição”, analisou Gonçalves. “Esse movimento (de alta dos alimentos) foi importante no desgaste do governo, mas foi fortemente interrompido no ano passado. A inflação de alimentos começou 2025 em 8% e terminou o ano muito abaixo da inflação, em torno de 1%”.
Neste ambiente de instabilidade, os impactos sobre o câmbio e a curva de juros são sentidos no curto prazo. No Brasil, uma das estratégias adotadas tem sido a recompra de títulos públicos pelo Tesouro Nacional, numa tentativa de conter a curva de juros e preservar as condições de financiamento da dívida. Ainda assim, a eficácia destas medidas pode ser limitada diante da persistência de um cenário de incerteza.
“A reação é a possível: o Tesouro comprando títulos pré e pós num volume, me parece, inédito, para tentar segurar a curva de juros – mas sempre lembrando das dificuldades de fazer isso”, comentou o professor. “Quanto mais a crise durar, mais difícil é, com esses mecanismos de recompra, o sucesso em relação à curva de juros – que, na minha opinião, é o ponto decisivo de qualquer economia capitalista”.
“O Copom incorporou essa incerteza maior. Os fatos recentes, nas palavras deles, são acirramento de coisas que já existiam. Não é exatamente uma novidade o que estamos passando, mas há mais volatilidade em preços que já eram voláteis, sejam de commodities ou ativos financeiros”, prosseguiu Gonçalves. “Também já está incorporada a piora nas projeções de inflação no horizonte relevante, ou seja, meados de 2027. Na minha leitura, eu entendo que uma primeira impressão dos efeitos do choque em relação ao Copom já está na conta”.
Num cenário marcado por um choque externo e pressões inflacionárias, a condução da política monetária passa a refletir uma postura mais cautelosa. As decisões do Banco Central passam a depender da evolução dos dados e das condições do cenário internacional. “O Copom assume claramente que a situação mudou e que isso afeta a política monetária. O ritmo vai ser esse, de 0,25 ponto. Esta cautela de aguardar novas informações é o que está explicitamente escrito no comunicado”.
José Francisco de Lima Gonçalves
José Francisco de Lima Gonçalves é graduado pela Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas. Foi professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e economista-chefe do Banco Fator. É analista independente do cenário econômico brasileiro e mundial, consultor, articulista e palestrante.
