Economistas comentam redução da taxa de juros para 14,75% 

Movimento foi considerado cauteloso diante do cenário internacional. Conselheiros federais chamam a atenção para consequências dos juros altos 

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anunciou nesta quarta-feira (18) a redução da taxa básica de juros para 14,75% ao ano. Vários conselheiros do Conselho Federal de Economia (Cofecon) analisaram a decisão, que ocorre num momento de elevada tensão internacional, com a guerra entre Estados Unidos/Israel e Irã impactando os preços de petróleo e o comércio internacional. 

Condução cautelosa 

Para a conselheira federal Janine Alves, a queda de 0,25 pp reflete uma condução cautelosa da política monetária diante de um cenário externo em que os impactos da guerra se fazem sentir no comércio internacional. “A decisão marca o primeiro corte nos juros desde maio de 2024 e sinaliza o início de um ciclo de flexibilização monetária, ainda que em ritmo moderado, refletindo um ambiente de incertezas externas e pressão inflacionária que exige condução prudente da política econômica”, analisa a conselheira Janine Alves. “A redução busca equilibrar o estímulo à atividade econômica com o controle da inflação, num cenário em que o mercado projeta a Selic em 12% ao ano até o final de 2026. Paralelamente ao corte, segue a pressão sobre os preços dos combustíveis e possíveis impactos sobre a inflação”. 

Para Roberto Piscitelli, integrante da Comissão de Política Econômica do Cofecon, a decisão do Copom esteve na média das expectativas do mercado. “Antes da guerra no Oriente Médio, tudo conduzia a uma queda de 0,5 pp. As incertezas atuais quanto à duração e intensidade da guerra pesara numa tendência a uma maior cautela, havendo inclusive a possibilidade de manter o patamar de 15%”, avalia o economista. “O Copom não frustrou inteiramente as expectativas de quem considera a atual taxa excessivamente elevada, dando a entender que manterá o processo de cortes à medida que a situação mundial for se normalizando. Ao mesmo tempo, sinaliza que está vigilante quanto aos riscos de inflação e eventual escassez de produtos essenciais à economia brasileira”. 

O conselheiro federal Gustavo Casseb Pessoti classificou o corte de 0,25 pp como equilibrado. “Reconhece a desaceleração da inflação e a ancoragem parcial das expectativas, mas preserva a prudência diante de um ambiente internacional mais incerto e de riscos ainda presentes no cenário doméstico”, observa. “O Copom sinaliza uma transição para uma postura menos restritiva, sem comprometer o processo de convergência da inflação à meta”. 

Atuação coordenada de políticas econômicas 

Dado o cenário externo marcado pela guerra entre Estados Unidos/Israel e Irã, afetando o comércio internacional e causando um choque de oferta, Pessoti aponta que a política monetária tem eficácia limitada. “Nesse caso, o aumento de juros não atua diretamente sobre a causa da inflação, mas sobre seus efeitos secundários, como a propagação para outros preços e a desancoragem das expectativas”, comenta o conselheiro federal. “Nesse contexto, o principal limite da política monetária é o trade-off entre controlar a inflação e preservar o nível de atividade econômica: um aperto excessivo pode aprofundar a desaceleração econômica sem resolver a origem do choque”. 

Diante deste cenário, o economista vê como fundamental a atuação coordenada de outros instrumentos de política econômica. “A política fiscal pode ser utilizada de forma a mitigar impactos sobre grupos mais vulneráveis, sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas”, mencionou Pessoti. “Políticas de regulação e estoques estratégicos, quando bem desenhadas, podem suavizar a volatilidade de preços específicos. Em alguns casos, também pode haver espaço para medidas temporárias de natureza tributária”. 

Impactos dos juros altos 

O conselheiro federal José Luiz Pagnussat classificou como decepcionante a decisão de reduzir os juros em apenas 0,25 pp. “O Brasil continua com a maior taxa de juros do mundo, agravando ainda mais a queda no crescimento da economia. O governo deve atuar do lado da oferta e apoiar os setores para garantir o abastecimento e acelerar o crescimento”, apontou o conselheiro. “O cenário é preocupante se a guerra se prolongar, mas a redução dos juros é urgente, pois freia a economia e impacta no custo da dívida pública. O gasto com juros já ultrapassou R$ 1 trilhão e vai continuar crescendo enquanto os juros não recuarem de forma mais expressiva”. 

O corte de 0,25 ponto percentual também foi avaliado como pequeno pelo conselheiro federal Odilon Guedes, uma vez que a inflação está abaixo de 4% ao ano. Ele chamou a atenção para os impactos que uma taxa de juros elevada tem sobre a economia. “Prejudica o comércio, porque o crédito fica mais caro para vender geladeira, micro-ondas e outros produtos. Ao mesmo tempo, desincentiva as empresas a investirem, porque é mais seguro aplicar no mercado financeiro do que ampliar os negócios, até porque empréstimos para capital de giro são muito caros”, aponta Guedes.  

Guerra interfere no corte dos juros 

Guedes também avalia que a guerra no Oriente Médio influenciou a política monetária. “O corte seria de 0,5 pp e foi de apenas 0,25 pp. Há uma sinalização de que as reduções continuem sendo de 0,25 pp, quando a expectativa era de algo maior”, observa o conselheiro federal. “Mas a grande questão é: o Brasil importa 85% dos fertilizantes que usa na produção de soja, café e outros produtos. Deixar de cortar os juros terá algum impacto no preço de importação? Nenhum. É um equívoco deixar de cortar mais acentuadamente os juros por causa do conflito externo”. 

A conselheira federal Ana Cláudia Arruda menciona o fato de que o comunicado do Copom enfatizou que a trajetória de redução dos juros dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio. “Existe, portanto, um temor da escalada do conflito, com impactos relevantes sobre a taxa de inflação”, observa Ana Cláudia. “A manutenção dos juros reais acima de 10% aprofundará o endividamento das empresas e das famílias. No ano de 2026 o Brasil atingiu recorde histórico de inadimplência (mais de 80 milhões de pessoas negativadas)”. 

A economista também fez uma comparação entre o choque de oferta atual e a crise do petróleo na década de 1970. “A crise atual não tem a mesma magnitude em função da maior diversificação da matriz energética e da presença de fontes renováveis, mas a economia brasileira mantém elevada a dependência de combustíveis fósseis”, observou Ana Cláudia, citando que esta situação se deve às dimensões continentais do País e à maior opção pelo transporte rodoviário na estrutura logística brasileira. “Embora o Brasil seja o maior produtor de petróleo da América Latina, ainda depende da importação de derivados para assegurar o funcionamento de sua frota de transporte, o que reforça sua vulnerabilidade a choques de oferta dessa natureza. Por outro lado, preços elevados do petróleo reanimarão o mercado de energia renovável e o Brasil possui as condições técnicas e operacionais para ampliar sua participação, desde que as condições macroeconômicas (juros baixos) favoreçam”. 

Para o conselheiro Frednan Bezerra, a guerra pode interferir também nas próximas decisões do Copom. “Diante de uma cotação do petróleo em torno de US$ 115, a tendência é de maior cautela do Copom, com redução do espaço para novos cortes da Selic e eventual endurecimento do discurso, caso o choque energético se mostre persistente”, pontua o economista. “A forte alta do preço do petróleo é um choque externo que pressiona a inflação, ampliando a incerteza e estreitando a margem de manobra da política monetária. O aumento do barril encarece combustíveis, fretes e custos de produção, podendo ainda pressionar o câmbio e deteriorar expectativas inflacionárias”.  

Economistas 

Ana Cláudia Arruda é mestre em Economia (UFMG) e doutora em Planejamento e Desenvolvimento Regional e Urbano (UFPE). É professora da Universidade Católica de Pernambuco e conselheira do Cofecon. 

Frednan Bezerra é mestre em Desenvolvimento Socioeconômico (UFMA) e doutorando em Políticas Públicas. É professor da UFMA e UEMA e conselheiro do Cofecon. 

Gustavo Casseb Pessoti é mestre em Análise Regional (Unifacs). É funcionário público da carreira de Especialista em Gestão Governamental e Políticas Públicas, professor universitário e conselheiro do Cofecon. 

Janine Alves é doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC). É vice-líder do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Conhecimento, Aprendizagem e Memória Organizacional, também na UFSC, e conselheira do Cofecon. 

José Luiz Pagnussat é mestre em Economia (UnB). É professor da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e conselheiro do Cofecon. 

Odilon Guedes é mestre em Economia (PUCSP) e especialista em finanças públicas. Foi professor em diversas instituições e vereador em São Paulo por dois mandatos. É autor do livro Orçamento Público e Cidadania e conselheiro do Cofecon. 

Roberto Piscitelli é consultor legislativo na Câmara dos Deputados e professor da Universidade de Brasília. Integrante da Comissão de Política Econômica do Cofecon. 

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