Podcast Economistas: Desigualdades de gênero no mercado de trabalho 

Tania Cristina Teixeira, Teresinha de Jesus Ferreira da Silva, Lucia dos Santos Garcia e Janine da Silva Alves Bello abordam temas que vão da economia do cuidado à diferença de remuneração, passando pela nova NR-1 e políticas públicas 

Está no ar mais um podcast Economistas e o tema desta semana são as desigualdades de gênero no mercado de trabalho. Elas se manifestam de várias formas: desigualdade salarial, sobrecarga com relação ao trabalho de cuidado, barreiras visíveis e invisíveis para chegar a posições de liderança e impactos sobre a saúde mental. 

O episódio conta com a participação da presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira, e das conselheiras Teresinha de Jesus Ferreira da Silva, Lucia dos Santos Garcia e Janine da Silva Alves Bello. O podcast pode ser ouvido na sua plataforma favorita ou no player abaixo. 

A discussão sobre a desigualdade de gênero no mundo do trabalho passa pela análise de indicadores econômicos e sociais que revelam avanços, mas ainda insuficientes para garantir igualdade efetiva. “Falamos sobre números, mas é sobre vidas. Se uma mulher é atingida pela violência, aquela vida muda. Quando uma mulher é morta, uma família perde uma de suas sustentações, filhos ficam órfãos, famílias são destruídas”, observa Janine. “Estamos em 2026 e o mundo ainda é muito desigual. Estudo publicado na semana passada mostra que apenas 4% das mulheres no mundo vivem em economias com paridade jurídica e mesmo assim, ao aplicar a lei, 50% não é aplicada. O Banco Mundial diz que ainda demoraremos mais de um século para conquistar a igualdade”.  

Indicadores visíveis e invisíveis 

O debate sobre desigualdade de gênero muitas vezes se concentra nos indicadores mais visíveis – mas há, também, dimensões que operam de maneira silenciosa e profunda na geração de desigualdades. “A mulher tem três turnos de trabalho, às vezes quatro ou até cinco, porque também trabalha de madrugada. Isso nos é imposto, não escolhemos”, expressa Teresinha. “A mulher trabalha, tem uma vida profissional, estuda e, quando chega em casa, está realizando afazeres domésticos e tem que cuidar dos filhos. E as mulheres que trabalham fora precisam se capacitar, porque o mundo é cruel com as mulheres e, se elas não se capacitarem, fica pior ainda”. 

Teresinha também menciona os casos de mulheres que estão fora do mercado de trabalho porque cuidam de integrantes da família. “Isso é muito ruim, coloca ela numa condição desfavorável. Essa forma como a mulher se insere na economia mostra a desigualdade”, pontuou. “No sistema capitalista o homem assume o papel de provedor, trabalhador, que vai produzir. A mulher assume o papel doméstico, de ficar em casa e cuidar da família. Isso é estrutural. Mesmo sendo capacitadas e tendo a mesma condição de trabalho, ainda recebemos 20% menos que os homens”. 

Estatísticas 

De que maneira o trabalho invisível das mulheres e o trabalho de cuidado aparecem – ou deixam de aparecer – nas estatísticas? Este é um assunto que vem sendo bastante discutido recentemente. “É importante rememorar que o próprio 8 de março e a luta organizativa das mulheres veio das mulheres operárias, do movimento socialista, para reduzir a jornada e para que pudéssemos discutir a divisão das tarefas domésticas, e depois as sufragistas se aliaram a este movimento”, observa Lucia. “Quando Alexandra Kollontai e Clara Zetkin estavam discutindo isso, já pautavam os mesmos temas que estamos colocando hoje. Então precisamos nos perguntar que avanço a sociedade teve neste período”. 

Desde 2013, informa Lucia, o mundo estatístico reconhece todas as formas de trabalho: a dos afazeres domésticos, do cuidado, o trabalho voluntário, o trabalho ocupacional que nos dá o trabalho e o rendimento, entre outras. E o trabalho de cuidado das mulheres existe tanto no ambiente não pago do trabalho doméstico quanto no ambiente pago do mercado de trabalho. 

“As mulheres, no Brasil, trabalham 10 horas a mais que os homens em afazeres e cuidados. Então temos um turno a mais do que os homens. Além disso, há uma diferença qualitativa: os homens em trabalho doméstico vão lavar o carro ou os espetos, cortar a grama, enquanto as mulheres cuidam de crianças, idosos, adultos enfermos, cuidados com contas domésticas, supermercado, pensar a gestão da casa. É uma preocupação permanente com a manutenção do grupo familiar”, explica a economista.  

“Uma vez por ano nós temos dados do IBGE sobre a economia do cuidado e os lugares que as mulheres ocupam no ambiente ocupacional. Onde vamos encontrar as mulheres? Na saúde, nos cargos do sopé ocupacional; na educação, dentro da educação básica; e no emprego doméstico”, menciona Lucia. “São ocupações de baixa remuneração e baixa valia. É uma precarização permanente, uma reprodução das divergências de gênero na sociedade”. 

Saúde mental e a NR-1 

A atenção à saúde mental no ambiente de trabalho é um tema especialmente relevante quando se trata da realidade das mulheres – inclusive das economistas. Neste contexto, iniciativas institucionais voltadas á promoção de ambientes de trabalho mais saudáveis tornam-se fundamentais. Um avanço recente diz respeito à atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho e Emprego. A Portaria 1.419/2024, que atualizou a NR-1, estabelece que o Programa de Gerenciamento de Riscos das empresas deve conter os riscos psicossociais relacionados ao trabalho. A norma entrará em vigência no dia 26 de maio de 2026. 

A conselheira federal trouxe o dado de que o Brasil bateu o recorde de afastamentos do trabalho no ano passado e que 60% dos afastamentos por depressão e ansiedade foram de mulheres. “Os padrões machistas e arcaicos que se proliferam em casa também são reproduzidos no meio organizacional”, constata Janine. “Precisamos olhar o problema pela ótica econômica e isso muda tudo em relação à análise. A Previdência gastou mais de 3,5 bilhões no ano passado só com o pagamento pelos afastamentos, então isso passa a ser um problema de política pública e responsabilidade organizacional”. 

A economista aponta que a NR-1 trará o debate dos riscos psicossociais para dentro da organização. “É uma situação que tem custos concretos, como afastamento, redução na produtividade, aumento da rotatividade, perda de inovação. Precisamos identificar estes ambientes tóxicos. Às vezes um líder entrega resultado, mas a que custo emocional? A organização vê um resultado que é apenas metade do potencial que teria caso os colaboradores estivessem em bom estado de saúde mental”, argumenta Janine. “A NR-1 veio para olhar para o burnout não mais como problema pessoal, olhar para o estresse e ver uma questão econômica. Se trabalharmos de forma preventiva, a sociedade se torna mais produtiva e o talento feminino é mais plenamente aproveitado”.  

Posições de liderança 

A presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira, é a primeira mulher a chegar ao cargo máximo da autarquia ao longo de quase 75 anos de história. E ela aponta que, para que as mulheres cheguem a posições de liderança, é preciso ter uma rede de apoio importante. “Não sou mãe, mas sou madrasta. Neste aspecto, minha jornada é menor, mas tenho a responsabilidade diária do trabalho de casa, mas com um diferencial: tenho um companheiro que divide as tarefas. Isso faz muita diferença”, comenta a presidenta. “Quando uma mulher tem condição de estar nestes lugares de empoderamento ou liderança, precisa contar com uma rede de apoio que não necessariamente é pública. Muitas de nós somos remuneradoras de mulheres”. 

Ela também mencionou que em países desenvolvidos a jornada dedicada à família é compartilhada. “Há restaurantes coletivos, locais para lavar roupas coletivos, há um atendimento para deslocar as crianças até a escola. E tudo isso é de responsabilidade do Estado”, aponta. “A discussão do papel do homem neste processo passa por legislações. Eu atuo na Associação dos Professores da PUC Minas e só agora conseguimos que o homem pudesse ficar com a mulher e dividir o trabalho no período do nascimento dos filhos. Em pleno Século XXI uma mulher dá à luz e tem que responder por si depois do parto de forma solitária, porque o homem não está legalmente em condições de deixar de trabalhar para exercer a paternidade. Há países que avançaram muito nesta questão”. 

“As mulheres enfrentam uma tripla jornada, com exaustão física e mental. E muitas vezes a saúde mental ainda está relacionada a conter o sentimento, dar conta de tudo e se tornar uma mulher maravilha”, argumenta Tania. “As mulheres, muitas vezes, precisam provar o tempo todo que são capazes e a pressão é infinita. Quando você chega a uma posição de liderança, mesmo tendo maior escolaridade, mais competência, com mais cultura, se depara sempre com a possibilidade de ser excluída por ser mulher. E este é um grande paradoxo: as mulheres liderando mais, mas adoecendo cada vez mais e sofrendo com a pressão para desistir da liderança”. 

Ela também aponta para o fato de que muitas mulheres, em posições de liderança, ganham menos do que os homens. “No campo da universidade existe uma certa isonomia e equidade, mas pouquíssimas vezes uma mulher é reitora ou pró-reitora. O mesmo se dá nos campos de atividade do setor público”, observa. “Temos que rever os critérios de promoção e criar ambientes mais inclusivos e de respeito à diversidade nas organizações. Isso sim, pode trazer um bem-estar maior à mulher quando ela é protagonista e está na liderança”. 

Diferença de remuneração 

Outro tema que fez parte do debate é a diferença de remuneração entre homens e mulheres. Mesmo ocupando as mesmas funções, existe uma diferença salarial da ordem de 20,7%. “A lei de igualdade salarial, na verdade, reedita o mesmo artigo da Consolidação das Leis do Trabalho, que é de 1947. Esta igualdade de rendimentos está prevista na CLT desde sempre”, aponta Lucia. “A lei de 2023 acrescentou multas e a necessidade de transparência na informação. E temos obstáculos para cumprir a lei”. 

Outra questão importante, comenta Lucia, são os conceitos de diferença salarial e diferença de remuneração. “Podemos ter o mesmo salário dentro de uma universidade, mas o homem chega à chefia, ele tem gratificações e bonificações que esta mulher não tem. E muitas vezes, no setor privado, temos parte da remuneração atrelada ao alcance de metas”, menciona. “E o alcance de metas é diferenciado, porque as mulheres não conseguem se dedicar àquele ambiente da mesma forma que os homens. São realidades concretas que nos afastam do princípio da igualdade salarial”. 

E como fazer com que a lei funcione? “As mulheres precisam ter consciência e estar informadas acerca da lei, reivindicar acordos e convenções coletivas em que esta lei seja reafirmada. Precisam ter conhecimento sobre canais de denúncia da irregularidade junto ao Ministério do Trabalho e mobilizar seus sindicatos para que façam as vistorias e autuações necessárias quando a lei não é aplicada”, afirma Lucia. “Isso é feito através da ação coletiva. Tudo o que nós vencemos, como mulheres, é porque vencemos juntas. Não vamos vencer a diferença salarial acreditando que competência e ganhos de escolaridade são suficientes. Não são. É preciso que você esteja em seu sindicato, lutando pela igualdade de rendimentos”. 

“O que chamamos de mercado de trabalho é, na verdade, luta de classes. Isso embute diversas diferenças e assimetrias de informação e poder. É importante dizer que não existiria mercado de trabalho sem produção de trabalhadores. E quem produz os trabalhadores? As mulheres, com seus corpos. A função reprodutiva das mulheres é o que gera trabalhadores para o mercado de trabalho”, comenta Lucia. “Por outro lado, elas reafirmam todos os dias sua função de manutenção da classe trabalhadora, porque cuidam da higiene do domicílio, da saúde, do desenvolvimento intelectual e dos valores daqueles que vão alimentar o mercado de trabalho. Então o mercado é uma correia de transmissão dos grandes interesses que estão envolvidos na construção de uma sociedade cuja existência econômica seria impossível sem o trabalho gratuito que as mulheres fazem”. 

“Não tratar a mulher de forma igualitária traz um prejuízo gigantesco para o mundo. Se recebêssemos salários iguais e tivéssemos as mesmas condições de ascensão profissional, o PIB mundial poderia ser 20% maior”, sustenta Janine. “Temos que frisar que a falta de igualdade é um tema econômico e de responsabilidade com o próximo. Tratar a mulher com igualdade gera valor”. 

Políticas públicas 

A combinação entre responsabilidades profissionais, tarefas domésticas e funções de cuidado, ainda distribuídas desigualmente na sociedade, produz impactos significativos sobre as mulheres no mercado de trabalho. Neste contexto, políticas públicas podem ter uma importância significativa, tanto fornecendo a rede de proteção social necessária para reduzir desigualdades quanto para promover ambientes mais saudáveis. 

“Precisamos de políticas públicas que cuidem da mulher e das questões como a jornada tripla, a jornada de cuidadora. A mulher só vai se libertar se tiver esta rede de proteção. Políticas como creches e acesso à saúde são essenciais”, argumenta Teresinha. “Isso a favorecerá no exercício do seu papel de mulher no mercado de trabalho. Ela trabalha com cuidados, mas não porque quer, e sim porque o sistema lhe deu este papel. A educação fará com que ela possa lutar para mudar esta realidade”. 

“A NR-1 regula as relações de trabalho com a saúde do trabalho. É obrigação das empresas a implantação de sistemas de acompanhamento e gerenciamento. Na última atualização, eles trouxeram a questão psicossocial, os impactos emocionais no mundo do trabalho”, mencionou Janine. “O mundo corporativo pode ser cruel, não só com as mulheres, mas com todos os que se posicionem contrariamente aos padrões estabelecidos. A partir de 26 de maio as empresas serão obrigadas a fazer o mapeamento da situação psicossocial da empresa. Identificar os riscos e tomar providências de forma preventiva”.  

“O período pós-pandemia potencializou problemas como depressão e ansiedade, e 60% dos dois tipos de afastamento são de mulheres. Existe a sobrecarga de trabalho, mas também o ambiente tóxico”, prossegue Janine. “É interessante discutirmos isso. Nós, economistas, podemos valorar isso, medir o impacto econômico. Hoje vivemos uma situação de quase pleno emprego, mas a produtividade do brasileiro, de maneira geral, é considerada baixa, e essa pressão emocional leva a uma queda na produtividade”.  

“Essa rede de proteção cria condições para que a mulher possa exercer sua função de maneira plena, e gera empregos para outras mulheres, criando um ciclo econômico positivo”, prossegue Janine. “O mercado de trabalho precisa de talentos. Que eles aproveitem nossa função e nossa força de trabalho em 100% da capacidade, e não nos levem a trabalhar apenas 60% ou 70% por falta de suporte. 

Lucia menciona que o Brasil teve uma piora no mercado de trabalho como um todo e caracterizou o período atual como de baixa desocupação, mas não necessariamente de baixo desemprego. “Por mais que recuperemos o crescimento econômico, ele vem concentrando renda e tirando as condições objetivas de reprodução da felicidade, da vida, do tempo. Em 2010 o mercado incorporava trabalhadores e distribuía renda; hoje continua incorporando, mas concentrando renda”, avalia Lucia. “Precisamos rever os exageros da reforma trabalhista, porque eles recaem sobre os corpos femininos. A generalização da terceirização afeta, sobretudo, as mulheres, porque elas preponderam nos setores-meio (de asseio, conservação, educação, saúde), que são terceirizados.  

Teresinha abordou as atividades que o Cofecon vem realizando por meio da Comissão Mulher Economista e Diversidade. “Ela tem a função de olhar para o papel da mulher dentro do Sistema Cofecon/Corecons e da sociedade. E no mês de junho realizaremos, em Manaus, nos dias 18 e 19 de junho, o IV Seminário Nacional da Mulher Economista e Diversidade”, anunciou. “O Cofecon está preocupado com a condição da mulher e estamos fazendo o nosso papel de trabalhar em células, de forma a transformar a realidade”. 

“Precisamos, primeiro, reconhecer e redistribuir o trabalho de cuidado. A desigualdade no mercado de trabalho começa muito antes da disputa por cargos de liderança. Começa na divisão desigual do tempo. Ter tempo para se dedicar a qualquer atividade, do trabalho ou da vida, permite que as mulheres tenham mais condições estruturais de exercer sua liberdade, autonomia, conhecimento e autoconhecimento”, afirma a presidenta do Cofecon, lembrando que as mulheres presentes ao debate são mestres e doutoras. “Precisamos de políticas que ampliem as creches públicas de qualidade, que estimulem as licenças parentais e incentivem arranjos de trabalho mais flexíveis – mas devemos ficar atentas ao trabalho remoto, porque pesquisa feita entre as próprias economistas aponta que ele pode gerar queda de remuneração e ampliação da responsabilidade no trabalho doméstico”. 

“Este espaço não é construído somente pelas mulheres. Precisamos também dos homens economistas, e do homem na vida da família, na empresa. O setor público precisa comprar esta briga conosco”, pontua Tania. “A vida é o dom mais incrível que temos. Eu me emociono ao falar isso. Viver é uma experiência ímpar da humanidade. E o bem viver é o sentimento mais expressivo que podemos criar”. 

As participantes 

Tania Cristina Teixeira é economista, doutora em Economia Aplicada pela Universidade de Valência (Espanha) e professora da PUC Minas. É conselheira do Cofecon desde 2024 e presidenta da autarquia desde 2025. 

Teresinha de Jesus Ferreira da Silva é graduada em Ciências Econômicas pela UFPI, com mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela mesma instituição. É superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Piauí.  

Lucia dos Santos Garcia é graduada em Ciência Econômicas (UFRGS), com mestrado em Economia pela mesma instituição. É técnica do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).  

Janine da Silva Alves Bello é economista e doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC). É vice-líder do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Conhecimento, Aprendizagem e Memória Organizacional (UFSC) e colunista do portal Making Of.   

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