Podcast Economistas: Os Desafios da Revolução Digital
Economista Ladislau Dowbor analisa como plataformas, algoritmos e grandes corporações estão transformando o poder econômico no mundo
Está no ar mais um episódio do podcast Economistas! A revolução digital está transformando profundamente a forma como a economia funciona. O professor Ladislau Dowbor, autor do livro Os Desafios da Revolução Digital (primeiro colocado no Prêmio Brasil de Economia de 2025), aborda como o poder econômico deixou de estar concentrado nas fábricas e passou a se organizar em torno de plataformas, algoritmos, sistemas financeiros e grandes corporações globais.
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Durante o século 18, com a chegada da máquina a vapor e das manufaturas, algumas pessoas poderiam pensar que o feudalismo estava se modernizando. Na verdade, estava nascendo um outro modelo, que era o capitalismo industrial. Trazendo para os dias de hoje, Dowbor aponta que desde a segunda metade do século 20 também está nascendo uma nova realidade.
“Quando falamos de revolução digital, não é o capitalismo que está se informatizando, é muito mais do que isso. Demis Hassabis diz que estamos vivendo uma revolução digital pelo menos dez vezes mais profunda do que foi a revolução industrial”, argumenta Dowbor. “O primeiro pilar é a informática. Em vez de escrever no papel, publicar livros ou coisas do gênero, você pode ancorar a totalidade do conhecimento humano apenas em zeros e uns, bits e bytes, desmaterializando a base de conhecimento da humanidade”.
Ele cita o exemplo de um vídeo que publicou no YouTube com mais de um milhão de visualizações em um ano. “O custo foi quase zero para mim, tive o trabalho de preparação. Mas, depois disso, houve não só a desmaterialização do conhecimento, mas também a conectividade”, aponta. “Hoje grande parte das pessoas têm um celular no bolso ou um computador na mesa, e os que faltam serão incorporados. Não tenho nenhum problema para conseguir em segundos um artigo de um colega em Kyoto, no Japão, que eu possa repassar aos meus alunos”.
Ao mesmo tempo, o conhecimento se torna o principal fator de produção. “Não é mais a máquina, são sistemas inteligentes que manejam e programam as máquinas e toda a robotização”, observa o economista. “O próprio dinheiro, que era algo impresso pelos governos, hoje é apenas um sinal magnético, uma informação que navega no planeta de maneira descontrolada. Mas o conhecimento se tornou o principal fator de produção e podemos fazê-lo chegar sem custos adicionais, através da conectividade e da desmaterialização”.
Poder econômico nas mãos das plataformas e corporações
O livro aponta que hoje é possível caracterizar outro modo de produção baseado na revolução digital e que essa mudança de base tecnológica tem impactos na organização. Se no capitalismo industrial o poder econômico estava nas mãos do proprietário da fábrica, hoje a centralidade se desloca para quem domina as infraestruturas digitais e as grandes corporações do sistema financeiro, que controlam os fluxos globais de informação por meio de algoritmos. Neste novo arranjo, o funcionamento dos mercados também se transforma: as relações diretas entre produtores e consumidores cedem espaço a plataformas digitais que passam a intermediar estas relações e organizar o acesso à demanda.
“No tempo do Henry Ford, ele era dono de uma fábrica que produzia automóveis, pagava salários e explorava as pessoas por meio do salário. Hoje as indústrias ainda existem, a agricultura continua, mas quem controla são as plataformas financeiras, os bancos, o sistema de juros e dividendos”, afirma Dowbor. “O burguês ainda existe, mas quem manda são as plataformas, porque o sistema online permite ampliar radicalmente a esfera de controle de cada corporação”.
O sistema também muda o processo de organização dos mercados. “Uma coisa é a pessoa levar tomates ao mercado, ou levar as bicicletas a uma loja. Ela tem que produzir uma bicicleta melhor para que o concorrente não ganhe espaço. Hoje são os algoritmos que programam a maximização de controle corporativo.”, explica o autor. “Hoje 147 grupos controlam 40% do sistema corporativo no mundo, e três quartos deles são bancos. Não é mais mercado, na realidade. Todo o negócio está fixado através de algoritmos que buscam maximizar os retornos, qualquer que seja o custo ambiental ou social”.
Revolução digital e rentismo
Quem toma as decisões não é mais o proprietário da fábrica, mas os acionistas – e grande parte das empresas são controladas por grandes conglomerados financeiros em busca de obter o maior retorno possível. É um sistema diferente do capitalismo industrial, no qual o proprietário, para ter lucro, precisaria gerar empregos, produzir produtos úteis e vendê-los.
Já no sistema descrito no livro Os Desafios da Revolução Digital, o lucro dos grandes grupos financeiros e de acionistas não vem dos processos produtivos, mas do endividamento das empresas, famílias e governos, e do pagamento de dividendos aos acionistas, caracterizados como proprietários ausentes de uma empresa (absent owners). Essa revolução digital, por sua vez, tem impacto sobre a desigualdade no mundo, porque os grandes grupos se apropriam dos recursos por meio do rentismo.
“Viver de rendas é viver do trabalho dos outros, e o rentismo se generaliza justamente com a revolução digital”, observa Dowbor. “Temos uma taxa Selic surrealista no Brasil. Um bilionário que aplica na Selic ganha 150 milhões com as mãos no bolso, sem precisar produzir nada, 400 mil reais por dia. Isso é rentismo, uma forma de apropriação da riqueza que você pode encontrar de maneiras variadas”.
“Calculo que o rentismo no Brasil esteriliza pelo menos 25% do PIB. Trava a capacidade de investimento do Estado por meio da taxa Selic, o poder de compra das famílias por meio dos juros para pessoa física e a possibilidade de investimento das empresas por meio dos juros sobre pessoa jurídica”, prossegue Dowbor. “Só para dar um exemplo, a Selic no Japão é 0,5%, não 15%. A taxa de juros para pessoa física na Europa é de 4% a 6%, não 55% como no Brasil. E a média para pessoa jurídica é de 2% a 3%, enquanto no Brasil é 25%”.
Trabalho sem vínculo e redução de direitos
O economista argumenta que este novo sistema trazido pela revolução digital tem ampliado as desigualdades. Ele precisa de mão de obra especializada para manejar seus sistemas informáticos, enquanto cria um modelo de trabalho que vem sendo chamado de uberização, no qual os trabalhadores executam tarefas para uma empresa, mas sem um vínculo trabalhista que lhes garanta direitos e proteção social.
“A Uber ganha rios de dinheiro e não precisa comprar carro nem contratar pessoas. Ela simplesmente dá direito a ter acesso a uma parte daquilo que o cliente paga. É o trabalhador que tem que comprar seu carro”, aponta Dowbor. “Mais de 30% do que o usuário paga em São Paulo vai para os Estados Unidos, custeando o quê? Apenas computadores e algoritmos que registram uma série de condicionamentos, inclusive a satisfação do cliente”.
“Precisamos inverter o raciocínio. Araraquara criou uma plataforma local que é barata e os motoristas recebem 95% daquilo que o cliente paga. A reapropriação de toda essa revolução digital pela base da sociedade é uma estratégia central para resgatar o controle geral dessas transformações”, acrescenta o professor. “Em grande parte, o trabalho se fragmentou e perdeu sua capacidade de pressão, de exigência de direitos, salários e condições de trabalho. Há o trabalho por tarefas, o empregado não precisa estar dentro da empresa. Ele tem um celular no bolso, está na lista dos voluntários possíveis, recebe um pedido e não tem vínculo trabalhista, aposentadoria, etc”.
Ele também chama a atenção para o fato de que o bem-estar do trabalhador não depende apenas do salário que ele recebe. Depende também dos serviços públicos aos quais ele tem acesso. “Não é só renda básica, mas também o conjunto das atividades de consumo coletivo: os parques do bairro, políticas culturais, rios limpos, acesso a educação, saúde e segurança como políticas públicas gratuitas. É orientar a economia para as necessidades mais efetivas da população”, aponta Dowbor.
“O que produzimos de bens e serviços no Brasil dá, mais ou menos, 20 mil reais por mês por família de quatro pessoas. Não há nenhuma razão para não assegurar a todos o básico, porque tornará a sociedade muito mais produtiva”, argumenta. “Mais dinheiro na base da sociedade gera demanda. A demanda gera atividades empresariais e de produção, que, por sua vez, geram empregos. O consumo e a atividade empresarial geram impostos e permitem que este dinheiro retorne”.
Importância dos dados
Na economia da revolução digital, um dos elementos mais importantes são os dados. Eles se tornaram um insumo estratégico que sustenta modelos de negócios e organiza o funcionamento de plataformas digitais em escala global. A partir da coleta massiva de informações sobre comportamentos e preferências, grandes empresas de tecnologia passaram a concentrar poder econômico e capacidade de influência inéditos. Neste contexto, surge um debate central para os países: a soberania de dados. Trata-se da capacidade de uma nação garantir que a coleta, o armazenamento, o uso e a circulação das informações produzidas por sua sociedade possam servir ao desenvolvimento econômico e à formulação de políticas públicas.
“O Facebook atinge mais de 3 bilhões de pessoas no mundo. Empurram qualquer porcaria e têm acesso às nossas informações privadas sem pagar nada. O que eu estou gravando neste momento também é apropriado e registrado por diversas plataformas de comunicação que utilizarão isso sem pedir autorização. Aliás, pedem: se não autorizar os cookies, eu simplesmente não consigo navegar neste sistema. É uma apropriação gigantesca”, argumenta. “Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft praticamente dominam este processo no mundo. É diferente da China, com um grupo de três gigantes. Mas o essencial é que temos que resgatar a soberania digital, ou seja, o Brasil poder organizar as regras do jogo, os data centers, a inclusão digital da população e o sistema de conhecimento das universidades, assegurando que todos tenham acesso ao conhecimento gerado pela sociedade”.
Os dados também se tornaram o insumo central da chamada economia da atenção. É a partir deles que os algoritmos identificam interesses, direcionam conteúdos, personalizam a publicidade e disputam o tempo e o foco das pessoas. Cada clique, busca ou interação alimenta sistemas capazes de prever comportamentos e orientar estratégias comerciais.
“Os dados são algo muito amplo. Vão desde conhecimento generalizado até a informação detalhada sobre cada pessoa, que permite empurrar para ela as coisas que vão lhe chamar a atenção”, menciona. “Não consigo trabalhar sem que me apareçam pedidos de cookies, atendo ligações com propostas de banco e coisas do gênero. A invasão da nossa privacidade se tornou um grande negócio. O tempo da nossa vida é apropriado por esses grandes grupos. Antigamente havia um vendedor tocando a campainha, hoje eles estão dentro do seu computador ou do celular. O controle do conhecimento adquiriu uma centralidade absolutamente radical e, através disso, o controle do nosso tempo”.
Esta situação traz efeitos colaterais. “As mensagens de ódio são privilegiadas nessa mídia social, porque mobilizam mais a atenção das pessoas e permitem empurrar mais publicidade. Em muitas regiões, 40% das crianças estão acessando pornografia, mas os algoritmos não ligam para isso. É a maximização da indústria da atenção”, critica o economista. “Este é um desafio imenso. Volto a este ponto: temos que resgatar a soberania digital e o controle e regulação pública das imensas oportunidades que se abrem com essas novas tecnologias”.
Monopólio da demanda
No contexto da economia digital, outro fenômeno importante é o monopólio da demanda. Diferentemente dos modelos tradicionais de competição econômica, as grandes plataformas passam a concentrar o acesso aos próprios usuários. Isso porque quando uma plataforma se torna dominante, todos passam a utilizá-la porque as demais pessoas também estão ali. O resultado é um poderoso efeito de rede que reforça continuamente o poder das empresas.
“O gigantismo das plataformas digitais está ligado ao monopólio da demanda. Outro dia coloquei um vídeo do Paulo Freire no meu Facebook e tive quatro milhões de acessos. Mas por que eu coloco lá? Porque preciso estar na plataforma que os outros usam”, explica Dowbor. “Quando um grupo se torna dominante, todos são obrigados a correr para ele. Você tem que utilizar o que os outros utilizam. Isso dá poder de monopólio ou de oligopólio neste processo. O Facebook chega a quase 4 bilhões de pessoas. É um grau de controle absolutamente surrealista. São forças globais e as políticas nacionais não têm capacidade efetiva de enfrentamento”.
Ladislau Dowbor
Ladislau Dowbor é economista e professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, de governos e municípios, além de organizações do Sistema S. É autor ou coautor de mais de 40 livros – entre eles, “Os Desafios da Revolução Digital: libertar o conhecimento para o bem comum”, publicado pela editora Elefante. Sua produção está disponível gratuitamente no portal www.dowbor.org.
