Carnaval, informalidade e renda: quem ganha com a festa? 

  • 13 de fevereiro de 2026
  • Artigo

Artigo de opinião da presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira, aborda o impacto econômico do Carnaval: “Desafio é fazer com que a geração de renda esteja acompanhada de proteção social e mecanismos que ampliem a participação econômica de todos os envolvidos”

O Carnaval movimenta diferentes setores da economia e cria um ambiente de trabalho temporário que envolve ambulantes, prestadores de serviços e trabalhadores que buscam complementar a renda. A festa concentra eventos que atraem grande circulação de pessoas e ampliam a demanda por produtos e serviços. Esse fluxo gera uma movimentação financeira relevante (R$ 16,9 bilhões em 2025 e uma estimativa de R$ 18,6 bilhões em 2026, segundo dados da Fecomercio-SP), distribuída por cadeias produtivas que se reorganizam para atender ao aumento do consumo. Todos ganham – mas poderiam ganhar muito mais. 

É fato que setores de hotelaria e de alimentação como bares e restaurantes são beneficiados diretamente pelo evento que envolve, desfiles de escolas de samba, bailes em clubes fechados e blocos carnavalescos que invadem as ruas de várias cidades brasileiras. Na economia informal, os ambulantes ocupam posição central nesse processo. Para atuar, precisam adquirir insumos como bebidas, alimentos e materiais de apoio.  

Essa compra estimula fabricantes, distribuidores e atacadistas, que ampliam estoques e ajustam operações nas semanas que antecedem a festa. O impacto alcança transportadoras, fornecedores de embalagens e pequenos produtores. A atividade, embora temporária, ativa segmentos que dependem de picos sazonais para manter o volume de vendas. 

Ou seja, nos dias de momo se ampliam as interconexões entre empreendimentos econômicos estruturados e a economia popular. Pessoas desempregadas encontram no Carnaval uma oportunidade de renda imediata. Trabalhadores formais utilizam o período para complementar ganhos. Ocupados por conta própria aumentam suas vendas. Profissionais de montagem de estruturas, equipes de limpeza, seguranças, motoristas e vendedores de rua integram uma rede que cresce conforme o calendário festivo avança. O comércio varejista também se beneficia, com aumento da procura por roupas, acessórios, alimentos e itens temáticos. De uma maneira geral, a festa funciona como um mecanismo de estímulo temporário a geração de emprego e renda, ao longo de uma cadeia produtiva tão extensa, quanto heterogênea. 

Grande parte deste movimento ocorre nos limites da economia popular, na qual as trocas monetárias, como o advento do Pix, são crescentemente visibilizadas. Mas ainda há carências no âmbito dos direitos e proteção ao trabalho  e aí está o problema. A ausência de registro impede o acesso à proteção social e limita a arrecadação previdenciária e tributária relacionada às oscilações da ocupação popular. Embora progressos tenham derivado da criação do Programa do Microempreendedor Individual (MEI), esta informalidade reduz a capacidade do Estado de planejar políticas públicas que respondam às necessidades desse contingente de trabalhadores.  

O debate sobre formalização precisa considerar a natureza temporária da atividade. Modelos simplificados, com baixo custo de adesão e regras compatíveis com trabalhos sazonais, poderiam aproximar esses trabalhadores da proteção previdenciária. A formalidade, quando adaptada à realidade do setor, pode ampliar a segurança econômica e fortalecer a base fiscal. A criação de instrumentos específicos para períodos de grande movimentação, como o Carnaval, permitiria integrar trabalhadores informais sem inviabilizar sua atuação. 

Esse é um campo em que economistas têm papel estratégico. A formulação de políticas inclusivas depende de análises capazes de identificar gargalos, estimar impactos e propor soluções que conciliam arrecadação, proteção social e viabilidade econômica. A construção de modelos que reconheçam a sazonalidade do trabalho e a dinâmica da economia informal pode transformar o Carnaval em um período de geração de renda mais estruturada, com benefícios distribuídos entre trabalhadores, empresas e o Estado. 

O Carnaval continuará sendo um momento de intensa circulação financeira. O desafio está em transformar essa movimentação em um processo mais integrado às políticas públicas, fazendo com que a festa deixe de ser apenas um pico de atividade informal e se torne um período em que a geração de renda esteja acompanhada de proteção social e de mecanismos que ampliem a participação econômica de todos os envolvidos. Todos ganhariam muito mais do que ganham hoje – principalmente os trabalhadores que atuam sem proteção e o Estado, que absorve menos do que poderia do ponto de vista fiscal. 

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