Criptomoedas, lawfare, BRICS: Tania Teixeira é entrevistada por rádio argentina
Falando à Radio Pueblo, presidenta do Cofecon reforça críticas às políticas argentinas, aponta riscos das criptomoedas e discute o futuro dos BRICS
A presidenta do Conselho Federal de Economia (Cofecon), economista Tania Cristina Teixeira, participou nesta quarta-feira (19) do programa “Cenizas de Babilonia – Diáspora Española”, transmitido pela Radio Pueblo, da Argentina. Em entrevista realizada por Miguel Ángel Ferrís, professor de Política Educativa da Universidade de Valencia, Tania abordou temas como a situação econômica da Argentina, o impacto das criptomoedas, modelos de desenvolvimento na América Latina e a importância dos BRICS.
Um dos temas discutidos foi a concessão de um prêmio ao economista Javier Milei por parte da Ordem dos Economistas do Brasil, o que gerou uma manifestação da presidência do Cofecon. “O prêmio foi dado por uma instituição de pouco reconhecimento, uma agremiação, cujo presidente está tendo problemas com recursos usados de forma indevida e responde a um processo no Brasil. É uma premiação política, porque este senhor apoia a postura e as políticas de Javier Milei na Argentina”, apontou a presidenta. “Os economistas registrados e a maioria dos conselheiros que fazem parte do Cofecon não estão de acordo com este senhor, então nos opomos ao prêmio a alguém que não é um economista do Brasil e não representa, em grande parte, as políticas de desenvolvimento e o compromisso com a sociedade. Não estamos de acordo. Mostramos para a comunidade de economistas e a sociedade civil brasileira e da América Latina que nós não somos participantes deste prêmio e da visão de Milei com relação à gestão da política econômica argentina e que não gostaríamos que nosso governo fizesse políticas desse tipo”.
Outro ponto abordado na entrevista foi o recente escândalo envolvendo a criptomoeda $LIBRA e a política de desregulamentação financeira adotada por Milei. Segundo Tania, as criptomoedas são instrumentos especulativos e não podem ser consideradas uma alternativa viável para a economia latino-americana.
“Não se pode confiar numa criptomoeda como alternativa para nenhum país. É um instrumento de especulação, como sempre foram as moedas utilizadas como alternativas a outras que são reguladas pelo Banco Central de cada nação”, mencionou a economista. “Como fica o Banco Central argentino diante desta situação? Em outros países, a presidente do México é muito crítica, está ciente dos conflitos que este senhor gerou com sua política de desregulamentar e destruir toda a estrutura minimamente estável do Estado argentino. A sociedade argentina tem que pedir explicações”.
O entrevistador abordou o conceito de lawfare, dizendo que na Argentina este fenômeno acontece nos campos judicial e midiático e perguntou se a gestão de Milei pode ser considerada “lawfare econômico”. “O lawfare que nós vivemos no Brasil foi para impedir que o presidente Lula tivesse a chance de concorrer às eleições. Isso estava correlacionado com os problemas econômicos”, afirmou a economista. “A prática do lawfare está em impedir que tenhamos um novo modelo de gestão social de desenvolvimento. Não é somente econômico. Desgastaram as instituições reguladoras, como o Banco Central, o Copom. É um modelo de sociedade coercitivo”.
A presidenta do Cofecon também fez uma comparação entre os modelos econômicos adotados em países como México e Colômbia, que buscam maior inclusão social, e aqueles seguidos pela Argentina e pelo Peru, marcados pelo neoliberalismo. “Há uma polarização evidente. De um lado, governos que promovem distribuição de renda e cidadania. De outro, aqueles que apostam na desregulamentação acreditando que o mercado resolve tudo”, analisou. “Este modelo aplicado na Argentina e Peru traz, inclusive, o aumento da repressão social por meio das políticas, que são um mecanismo que sempre foi utilizado em momentos críticos na América Latina.
Sobre a atuação do Brasil nos BRICS, Tania destacou a importância do bloco como alternativa à hegemonia econômica dos Estados Unidos. Para ela, os BRICS devem se consolidar não apenas como um bloco comercial, mas como um modelo de cooperação internacional que permita a emergência de economias periféricas no cenário global.
“A criação do bloco foi um avanço importante em termos de comércio internacional. A criação da moeda única é algo complicado porque a hegemonia monetária dos Estados Unidos é uma força descomunal, mas na relação entre países não há como impedir o uso das moedas locais”, comentou. “Os BRICS podem se tornar não apenas um padrão de comércio, mas um processo de cooperação internacional que permita que outras economias possam voltar ao cenário econômico internacional e promover mudanças internas importantes, a exemplo de Cuba”.
Por fim, Tania comentou sobre o papel crescente da China na economia mundial e seu impacto na América Latina. “A China tem um protagonismo impressionante e vem promovendo um modelo de cooperação que, até agora, não se baseia em relações de vassalagem, como ocorreu historicamente com os Estados Unidos”, observou. No entanto, ela também alertou para os riscos de a China reproduzir, no futuro, as mesmas práticas de domínio econômico que marcaram a política norte-americana.
A entrevista de Tania Cristina Teixeira pode ser assistida clicando AQUI.