Fundo Amazônia e o risco do greenwashing: promessa de preservação ou marketing verde? 

Artigo de João Gabriel de Araujo Oliveira*, Vitória Altfuldisck Soares* e Camila Ramos de Amorim* aborda o importante papel que o Fundo vem desempenhando e discute os riscos e resultados alcançados

greenwashing é uma prática de comunicação e marketing em que empresas procuram transmitir ao público uma imagem de responsabilidade ambiental que, na prática, não corresponde às suas ações concretas. Esse fenômeno ganhou destaque a partir da década de 1980, período em que as questões ambientais passaram a ocupar maior relevância no debate público internacional, sobretudo após a Conferência de Estocolmo (1972) e a Conferência do Rio (1992). Em vista disso, com o aumento da pressão social e regulatória em torno da sustentabilidade, muitas organizações passaram a incorporar o discurso ambiental em suas estratégias de promoção, ainda que suas atividades continuassem a gerar impactos negativos significativos (Lyon; Montgomery, 2015), e ao invés de promover mudanças estruturais voltadas à sustentabilidade, diversas companhias optaram por investir em campanhas publicitárias e narrativas institucionais que apenas sugeriam compromisso ecológico, sem alterar processos produtivos, modelos de negócio ou cadeias de valor.  

Dessa maneira, na prática, o greenwashing se manifesta por meio de diferentes mecanismos, e entre os mais comuns estão: o uso de slogans vagos e não comprováveis – por exemplo, “produto 100% natural” –, a adoção de certificações irrelevantes ou criadas internamente pelas próprias empresas, a divulgação seletiva de ações pontuais positivas enquanto se ocultam danos ambientais mais amplos e, ainda, o apelo emocional em campanhas publicitárias que associam marcas a causas ecológicas sem correspondência real. Neste contexto, esses recursos, cujo objetivo central é moldar a percepção dos consumidores e ampliar a competitividade no mercado, produzem impactos significativos, considerando que para os consumidores, geram confusão informacional, dificultando a identificação de empresas que realmente adotam práticas sustentáveis e comprometendo a efetividade do consumo responsável, ao passo que para o mercado, criam uma concorrência desleal, pois organizações que de fato investem em sustentabilidade enfrentam custos mais altos em comparação às que apenas simulam engajamento (Delmas; Burbano, 2011; Walker; Wan, 2012). 

Nessa ótica, do ponto de vista institucional, os efeitos do greenwashing são igualmente preocupantes, dado que, a aplicação fragiliza a governança ambiental ao distorcer indicadores de sustentabilidade, dificultando a avaliação de resultados e influenciando negativamente políticas públicas. Por conseguinte, governos, agências reguladoras e até organismos internacionais podem ser induzidos a sobrevalorizar iniciativas de baixo impacto real, comprometendo a efetividade de estratégias globais de enfrentamento da crise climática, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Marquis; Toffel, 2012). Diante disso, para enfrentar o problema, torna-se necessário adotar uma combinação articulada de regulação, transparência e participação social, e entre os principais instrumentos de mitigação estão os relatórios de sustentabilidade auditados, os padrões internacionais de mensuração – como os propostos pelo Global Reporting Initiative (GRI), Sustainability Accounting Standards Board (SASB) e Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) – e legislações específicas contra publicidade enganosa. 

Neste enfoque, a pressão exercida por consumidores, investidores institucionais e organizações da sociedade civil também desempenha papel fundamental nesse processo, tendo em vista que o aumento da vigilância pública e da vinculação popular há um maior estreitamento entre reputação corporativa e coerência entre discurso e prática, o que indica que a dimensão simbólica da sustentabilidade está sujeita a crescente escrutínio. Outrossim, a expansão de movimentos sociais e a consolidação de fundos de investimento responsáveis evidenciam, ainda, que a integração de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) ultrapassa o campo normativo e adquire relevância prática para a competitividade internacional. Dessa maneira, o greenwashing se configura como um desafio estrutural à consolidação da sustentabilidade empresarial, pois compromete a confiança dos consumidores, distorce as condições de concorrência, fragiliza políticas ambientais e retarda a adoção de estratégias efetivas de mitigação das mudanças climáticas. 

Em conformidade com isso, esse debate encontra-se interligado na análise do Fundo Amazônia, instituído em 2008 pelo Decreto nº 6.527, consolidando-se como um dos mais relevantes mecanismos de financiamento ambiental do mundo. Estruturado como um fundo de doações internacionais não reembolsáveis e administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Fundo Amazônia tem como missão apoiar projetos voltados à redução do desmatamento, à conservação ambiental e à promoção de atividades produtivas sustentáveis na Amazônia Legal, região que concentra a maior biodiversidade do planeta e desempenha papel estratégico para o equilíbrio climático global. E desde sua criação, seus principais financiadores têm sido a Noruega e a Alemanha, responsáveis por aportes que somaram cerca de R$ 3,3 bilhões até 2020, alcançando aproximadamente R$ 5,5 bilhões em rendimentos (BNDES, 2023), no qual a liberação desses valores está condicionada à comprovação da redução do desmatamento, o que confere ao mecanismo uma lógica baseada em resultados e reforça sua credibilidade internacional. 

Nessa perspectiva, o Fundo Amazônia é considerado uma experiência inovadora de cooperação internacional, ao articular financiamento externo, políticas ambientais nacionais e a participação ativa da sociedade civil, especialmente por meio do Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA), buscando integrar diferentes atores e fortalecer a transparência e o controle social na definição de prioridades e na execução dos projetos. Contudo, a trajetória do Fundo também revela desafios importantes e críticas recorrentes, especialmente em relação à efetividade das ações, à transparência dos processos de decisão e à distribuição dos recursos entre diferentes regiões e comunidades, já que entre os temas mais debatidos, destaca-se o risco de greenwashing: do ponto de vista internacional, países doadores podem utilizar o Fundo como uma estratégia de legitimação, projetando uma imagem de liderança ambiental no cenário global, mesmo mantendo elevados níveis de emissão de gases de efeito estufa e políticas domésticas que nem sempre são consistentes com os objetivos de sustentabilidade, evidenciando a complexidade em alinhar interesses globais, nacionais e locais (Delmas & Burbano, 2011; Bastos, 2020). 

Assim, no plano doméstico, a governança do Fundo também enfrenta limitações, dado que, apesar de sua estrutura ser considerada avançada por integrar sociedade civil e entes subnacionais na tomada de decisões, diferentes governos têm buscado direcionar os recursos conforme interesses políticos, o que gera descontinuidade em políticas de combate ao desmatamento (Araújo & Leite, 2021). Entre 2019 e 2022, a extinção de instâncias de participação social, como o próprio COFA, reduziu a legitimidade do mecanismo e enfraqueceu sua transparência, além disso, pequenas organizações e comunidades locais, apesar de estarem entre os principais agentes de preservação, enfrentam barreiras burocráticas e técnicas para acessar os recursos, o que limita o caráter inclusivo do fundo (Brasil de Fato, 2024; National Geographic Brasil, 2019).  

Apesar dessas limitações, os impactos concretos do Fundo Amazônia são significativamente expressivos, tendo em vista que, entre os anos de 2009 e 2018, mais de R$ 1,8 bilhão foram investidos em projetos voltados ao monitoramento florestal, ao fortalecimento institucional, à promoção de cadeias produtivas sustentáveis e ao apoio direto a comunidades tradicionais, gerando resultados positivos na redução do desmatamento e na preservação da biodiversidade (BNDES, 2023). Nesse viés, esses recursos não apenas viabilizaram ações de fiscalização mais eficazes e a implementação de tecnologias avançadas de sensoriamento remoto, mas também contribuíram de forma decisiva para a melhoria da governança ambiental, fortalecendo políticas públicas e a participação social. Somado a isso, o Fundo criou condições socioeconômicas mais favoráveis ao desenvolvimento sustentável, promovendo inclusão social, geração de renda local e incentivo a práticas produtivas ambientalmente responsáveis, consolidando assim um modelo mais equilibrado de conservação e uso ecológico da floresta amazônica. 

O Fundo desempenhou, assim, um papel central na articulação entre diferentes níveis de governo, organizações da sociedade civil e populações locais, permitindo maior capilaridade das políticas ambientais e maior inclusão de comunidades frequentemente marginalizadas nos debates sobre conservação. E tais resultados indicam que, embora haja risco de instrumentalização política e simbólica, o Fundo gerou efeitos tangíveis que não podem ser reduzidos a uma narrativa de maquiagem verde, uma vez que consolidou mecanismos institucionais e técnicos capazes de produzir impactos mensuráveis no território. Nesse sentido, o problema reside menos em sua concepção institucional — que se mostra inovadora ao combinar financiamento internacional com execução descentralizada — e mais na forma como é apropriado por governos e doadores internacionais, que por vezes utilizam seus resultados para reforçar agendas políticas próprias ou para projetar uma imagem de responsabilidade ambiental que nem sempre corresponde à totalidade de suas práticas. 

Em síntese, o Fundo Amazônia é um dos mecanismos mais importantes de governança ambiental contemporânea, pois articula inovação institucional, financiamento internacional e participação social, no entanto, atua em um contexto marcado por disputas políticas, interesses econômicos e estratégias de legitimação ambiental, tanto nacionais quanto internacionais. Conforme isso, a ameaça de greenwashing é concreta, especialmente quando países altamente industrializados, emissores históricos de gases de efeito estufa, financiam a conservação da Amazônia enquanto mantêm práticas poluidoras. Apesar disso, esse risco não invalida os resultados já alcançados, e a fim de que o Fundo se consolide como um verdadeiro vetor de transformação socioambiental, é necessário ampliar a transparência, fortalecer a participação das comunidades locais e vincular os desembolsos a métricas claras de impacto, considerando que somente assim ele poderá superar sua dimensão simbólica e se afirmar como um instrumento efetivo de preservação da Amazônia e de contribuição global no enfrentamento da crise climática. 

*Vitória Altfuldisck Soares – Vice-presidente (adjunta) do CORECON-DF Acadêmico no Ibmec-DF, Pesquisadora Assistente do Grupo de Estudos em América Latina e Estudante de Economia, Ibmec-DF; aluna de Matemática (Bacharel), Universidade de Brasília. 

*Camila Ramos de Amorim – Vice-presidente do CORECON-DF Acadêmico no Ibmec-DF, Pesquisadora Assistente do Grupo de Estudos em América Latina (CEAp) e Estudante de Economia, Ibmec-DF. 

*João Gabriel de Araujo Oliveira – Doutor em Economia (Universidade de Brasília), Professor Adjunto I, Ibmec-DF, Professor Visitante do PPE da Universidade Estadual de Londrina e Consultor (STC) Macro do Banco Mundial. As opiniões expressas nesse artigo não representam, necessariamente, as defendidas e apresentadas pelas instituições ou seus representantes que João pertence. 

As ideias, opiniões e informações contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es), não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional do Conselho Federal de Economia, nem devendo ser interpretadas como manifestação oficial da entidade.

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