Redução da Jornada: O Brasil Está Preparado? 

Kerssia Preda Kamenach*

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho e a adoção da escala 5×2 ganhou espaço no debate público brasileiro. Trata-se de uma pauta legítima, que busca ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores, garantindo mais tempo para descanso, convivência familiar e lazer. No entanto, é necessário avaliar seus impactos econômicos e os desafios da produtividade no Brasil. 

Trabalhadores mais descansados tendem a apresentar melhor desempenho e melhores condições de saúde física e mental. Contudo, a simples redução das horas trabalhadas não resulta, automaticamente, em ganhos significativos de produtividade. 

A teoria do crescimento econômico de Robert Solow demonstra que o aumento sustentado da produtividade depende da combinação entre trabalho, capital e tecnologia. Os dados internacionais reforçam essa interpretação. Segundo a OCDE, a produtividade do trabalho supera US$ 94 por hora na Alemanha e nos Países Baixos e alcança mais de US$ 97 nos Estados Unidos. No Brasil, esse indicador gira em torno de US$ 21 por hora. Em outras palavras, trabalhadores desses países geram mais de quatro vezes o valor produzido por um trabalhador brasileiro no mesmo período. 

Essa diferença não decorre da dedicação dos trabalhadores brasileiros, mas de fatores estruturais, como investimentos em inovação, automação, infraestrutura, educação e capital produtivo. Além disso, grande parte da atividade econômica nacional permanece concentrada em setores de comércio e serviços de baixa complexidade tecnológica, nos quais a geração de valor depende fortemente da mão de obra. 

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 15 milhões de trabalhadores atuam em regimes semelhantes à escala 6×1, justamente nos setores mais intensivos em trabalho. Por isso, a discussão sobre a redução da jornada exige cautela e planejamento. 

O principal desafio não está apenas na mudança da legislação, mas na capacidade das empresas de elevar sua produtividade. Esse processo envolve tecnologia, mas também melhorias na gestão, redução do retrabalho, simplificação de processos e uso mais eficiente do tempo. 

A redução da jornada de 44 para 40 horas semanais representa uma queda de aproximadamente 9,1% da oferta de trabalho por empregado. Sem ganhos equivalentes de produtividade, muitas empresas precisarão ampliar seus quadros ou recorrer a horas extras, elevando custos operacionais. 

A experiência internacional sugere que os países mais produtivos não enriqueceram porque reduziram suas jornadas; eles puderam reduzi-las porque alcançaram elevados níveis de produtividade. Se o Brasil deseja seguir esse caminho, a agenda de desenvolvimento deve priorizar tecnologia, qualificação profissional e gestão eficiente. O desafio não é apenas trabalhar menos, mas produzir melhor e promover um desenvolvimento econômico sustentável. 

*Economista (CORECON-GO nº 2595/D), conselheira do Conselho Federal de Economia e sócia-fundadora da Pool Consultores. Doutora em Economia, desenvolve projetos nas áreas de desenvolvimento econômico, gestão financeira e capacitação empresarial. 

As ideias, opiniões e informações contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es), não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional do Conselho Federal de Economia, nem devendo ser interpretadas como manifestação oficial da entidade.

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