Mercado de trabalho para jovens economistas e economistas 40+ e a colaboração intergeracional (2026–2030)
Por Pedro Afonso Gomes*
As ideias, opiniões e informações contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es), não refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional do Conselho Federal de Economia, nem devendo ser interpretadas como manifestação oficial da entidade.
1. Geopolítica e Nearshoring no Mercado Brasileiro
Nearshoring é o redesenho das cadeias globais de suprimentos para transferir processos de negócios ou produção para países próximos, ao invés de mantê-los em locais distantes geograficamente, a fim de reduzir custos de transporte.
As crises de 2020-2024 trouxeram para o Brasil indústrias que buscam proximidade com o mercado consumidor americano e europeu.
Este movimento exige economistas capazes de realizar análises de localização estratégica e avaliação de riscos geopolíticos.
O profissional atua na modelagem de custos comparativos, considerando não apenas a mão de obra, mas o custo logístico e a segurança institucional.
A capacidade de traduzir tensões globais em planilhas de viabilidade local é o grande diferencial deste período.
- Exemplo Prático: Uma fabricante de semicondutores busca se instalar no Brasil. O economista sênior analisa a matriz de incentivos fiscais e segurança jurídica, enquanto o jovem economista utiliza Python para modelar o custo logístico comparativo entre portos brasileiros e mexicanos, definindo o ponto ótimo de instalação.
2. O Impacto das PPPs e Concessões de Infraestrutura
Com o Estado atuando como indutor e não executor, as Parcerias Público-Privadas (PPPs) tornaram-se o maior mercado para consultorias econômicas.
O economista é responsável por garantir que o projeto seja atraente para o mercado de capitais.
Ele atua na matriz de riscos, definindo quem arca com variações de demanda ou custos de insumos.
A técnica de Project Finance é a ferramenta principal aqui, exigindo conhecimento profundo de projeções de fluxo de caixa de longo prazo e taxas de desconto.
- Exemplo Prático: Na concessão de um aeroporto regional, o economista projeta a elasticidade-renda da demanda por voos e define o valor da outorga, equilibrando o lucro do investidor com a modicidade tarifária para o passageiro.
3. O Projeto de Lei 3.178/2024 e a Exclusividade Profissional
A aprovação do novo marco legal da profissão trará segurança jurídica ao mercado.
Agora, laudos de viabilidade, perícias econômicas e avaliações de empresas exigem assinatura técnica de um economista registrado no Corecon.
Isso encerra a era dos “pareceres amadores” assinados por profissionais de áreas correlatas.
Para o jovem, isso significa uma reserva de mercado imediata; para o veterano, a valorização de sua assinatura como fé pública em tribunais e conselhos de administração.
- Exemplo Prático: Uma prefeitura lança edital de iluminação pública sem exigir economista. Um profissional utiliza a lei que será decorrente do PL 3.178/2024 para impugnar o edital, garantindo que a modelagem financeira seja feita e assinada por um economista habilitado.
4. Perícia Econômico-Financeira e Recuperações Judiciais
Onde há disputa financeira, o juiz nomeia um economista.
Nas recuperações judiciais, o papel do economista é atestar se a empresa ainda possui “viabilidade econômica” ou se deve ir à falência.
Ele analisa o plano de recuperação, verifica se as taxas de juros propostas são compatíveis com o mercado e atua como o braço técnico do juízo.
É um campo de alta responsabilidade onde o julgamento clínico do economista veterano é essencial para mediar o conflito entre credores e devedores.
- Exemplo Prático: Em uma rede de varejo em crise, o economista perito recalcula o endividamento real, expurgando juros abusivos e provando ao juiz que a geração de caixa futura suporta o pagamento dos credores em 10 anos.
5. Arbitragem e Resolução Privada de Conflitos
A arbitragem é a justiça dos grandes contratos.
Conflitos bilionários entre empresas não esperam o tempo do Judiciário comum.
O economista atua como árbitro ou assistente técnico, calculando lucros cessantes, danos emergentes e o valor de mercado de participações societárias.
É um nicho de altíssima remuneração, onde a reputação e a capacidade de argumentação técnica sobrepõem-se à simples manipulação de dados.
- Exemplo Prático: Em uma disputa de quebra de contrato entre uma mineradora e uma ferrovia, o economista calcula o prejuízo exato causado pelo atraso no transporte do minério, utilizando modelos de custo de oportunidade.
6. Auditoria de Gestão e Eficiência Alocativa
Diferente da auditoria contábil, que foca no “lançamento”, a auditoria econômica foca no “resultado”.
O economista avalia se os recursos foram alocados de forma eficiente e se atingiram o objetivo proposto.
Em órgãos públicos, isso se traduz em avaliação de políticas públicas; no setor privado, em auditoria de processos de compra e expansão.
É a aplicação pura da microeconomia para eliminar desperdícios estruturais em grandes organizações.
- Exemplo Prático: Um economista é contratado para auditar a secretaria de saúde de um estado, descobrindo que a centralização de compras de medicamentos reduziria custos em 22% sem perda de qualidade no atendimento.
7. Economia Urbana e Instrumentos de Financiamento (CEPACs)
Cidades modernas financiam sua infraestrutura através da venda de potencial construtivo.
O economista urbano modela o valor dos CEPACs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), equilibrando a oferta de novos prédios com a capacidade de suporte das vias e serviços públicos.
Ele entende o solo como um ativo econômico dinâmico e atua na linha de frente dos Planos Diretores Municipais, transformando regras urbanísticas em receita para a cidade.
- Exemplo Prático: Na criação de uma nova Operação Urbana, o economista projeta o Valor Geral de Vendas (VGV) dos terrenos e define quanto a prefeitura deve cobrar das construtoras para financiar a construção de um novo parque na região.
8. Climate Finance e o Mercado de Carbono
A crise climática transformou o meio ambiente em variável macroeconômica.
O economista agora trabalha na precificação de créditos de carbono e na estruturação de “Fundos Verdes”.
Ele deve ser capaz de avaliar o risco climático de um portfólio de investimentos e modelar o retorno de projetos de descarbonização.
É a união entre a econometria e a ciência ambiental para garantir que a sustentabilidade seja lucrativa para as empresas.
- Exemplo Prático: Uma siderúrgica quer neutralizar suas emissões. O economista modela se é mais barato investir em tecnologia de hidrogênio verde ou comprar créditos de reflorestamento no mercado secundário.
9. Bioeconomia Digital e Tokenização de Ativos
A tecnologia Blockchain permitiu que ativos biológicos (floresta, água, biodiversidade) fossem fragmentados e vendidos globalmente.
O economista aqui atua no desenho do “Tokenomics”, definindo as regras de oferta, demanda e valorização desses ativos digitais.
É uma fronteira nova onde a teoria monetária é aplicada a ecossistemas preservados, permitindo que comunidades tradicionais e proprietários rurais monetizem a preservação.
- Exemplo Prático: Um economista estrutura um token lastreado na preservação de uma reserva de castanheiras, onde o investidor recebe dividendos baseados na colheita sustentável e na valorização do crédito de preservação.
10. Economia Prisional e Parcerias de Ressocialização
Um campo emergente que trata a segurança pública com métricas de impacto econômico.
O economista atua em PPPs prisionais, onde a remuneração do parceiro privado é atrelada a indicadores de não reincidência criminal e empregabilidade dos egressos.
Ele utiliza o conceito de “Bônus de Impacto Social”, provando que investir em educação dentro do sistema prisional reduz o custo futuro do Estado com novas prisões e policiamento.
- Exemplo Prático: O economista modela um contrato onde a concessionária do presídio recebe um bônus financeiro para cada egresso que permanecer empregado por mais de um ano, gerando economia líquida ao erário.
11. Silver Economy e Gestão de Patrimônio Longevo
Com o envelhecimento da população, surgiu o “Economista de Ciclo de Vida”.
Ele não apenas investe o dinheiro do cliente, mas planeja a desmobilização do patrimônio para garantir renda vitalícia.
Este profissional entende de economia comportamental e risco de longevidade, atuando em family offices para proteger idosos de perdas inflacionárias e garantir a sucessão patrimonial sem a dilapidação dos ativos durante a velhice.
- Exemplo Prático: Um economista planeja a sucessão de uma família, convertendo imóveis de baixa liquidez em fundos de renda fixa e imobiliários que garantam o custeio de cuidados médicos de alta complexidade para os patriarcas.
12. Auditoria Algorítmica e IA na Economia
A inteligência artificial passou a ditar preços em tempo real.
O economista atua na auditoria desses algoritmos para evitar cartéis digitais ou discriminação de preços abusiva.
Ele realiza perícias de “caixa-preta”, testando se as decisões automáticas das empresas ferem a livre concorrência ou os direitos do consumidor.
É o papel do economista como regulador técnico de um mercado cada vez mais automatizado e opaco.
- Exemplo Prático: O economista atua como assistente técnico em um processo do CADE, provando que algoritmos de postos de gasolina concorrentes estavam “conversando” para manter os preços artificialmente altos em uma cidade.
13. Estratégias de Carreira e o Profissional Independente
O ciclo 2026-2030 favorece o economista autônomo e a boutique de consultoria.
A tecnologia permite que pequenos escritórios tenham o mesmo poder analítico de grandes bancos.
A estratégia de sucesso envolve especialização em nichos (ex: economia mineral ou criativa) e o uso da marca pessoal vinculada à responsabilidade técnica.
O segredo é migrar do “processamento de dados” (tarefa da IA) para a “tomada de decisão estratégica” e a consultoria de valor agregado.
- Exemplo Prático: Um jovem economista abre uma consultoria focada exclusivamente em economia criativa para streamers e gamers, precificando contratos de patrocínio e direitos de imagem com base em projeções de audiência e engajamento.
14. Estruturação Legal e Blindagem Técnica
Antes de emitir a primeira fatura, você precisa garantir que sua atuação esteja dentro do marco regulatório estabelecido pela Lei 1.411/1951 e novo marco que virá após a aprovação do PL 3.178/2024.
- Registro e Certidões:
- Reative ou atualize seu registro no Corecon do seu estado.
- Emita a Certidão de Regularidade Profissional. Muitos editais de PPP e processos judiciais exigem que a certidão tenha menos de 30 dias.
- Certificações de Fronteira:
- Se for atuar em Bioeconomia: Faça uma certificação rápida em Blockchain para Finanças.
- Se for atuar em Perícia: Inscreva-se no Cadastro Nacional de Peritos Economistas (CNPE) do Cofecon.
- Responsabilidade Técnica (ART):
- Acostume-se a emitir a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) para cada contrato. Isso valoriza o seu serviço e formaliza que aquele estudo de viabilidade possui um responsável legal.
15. O Arsenal Tecnológico
O mercado 2026–2030 não aceita apenas Excel.
Você precisa de ferramentas que permitam lidar com grandes volumes de dados (Big Data) e automação.
- Linguagem Base: Domine o Python (especificamente as bibliotecas Pandas, NumPy e Scikit-learn). Use-o para automatizar a raspagem de dados (web scraping) de tribunais de contas ou índices de inflação setorial.
- Visualização de Valor: Não entregue relatórios em PDF estático. Use Power BI ou Streamlit para criar dashboards onde o cliente possa simular cenários (ex: “E se a taxa de juros subir 1%?”).
- IA como Assistente: Utilize IAs generativas para redigir a estrutura de laudos e pareceres, mas nunca para realizar os cálculos finais. A auditoria do cálculo deve ser sua.
16. Roteiro de Prospecção por Nicho
Como conseguir os primeiros clientes em cada área?
A. Para o Economista de Perícias e Arbitragem
- Onde ir: Escritórios de advocacia especializados em Direito Civil e Empresarial, Varas Judiciais e Câmaras de Arbitragem e Mediação.
- O mote: “Muitos advogados perdem causas por cálculos errados de liquidação. Eu ofereço a assistência técnica econômica que blinda o pedido inicial com metodologia científica, evitando impugnações.”
B. Para o Economista de PPPs e Setor Público
- Onde ir: Prefeituras de médio porte (100k a 500k habitantes).
- O mote: “Sua cidade tem potencial para uma PPP de Iluminação ou Saneamento, mas falta a modelagem de viabilidade exigida pelo Tribunal de Contas. Eu realizo o estudo técnico preliminar focado na eficiência fiscal.”
C. Para o Economista de Bioeconomia e ESG
- Onde ir: Cooperativas agropecuárias e empresas com metas de descarbonização.
- O mote: “Transformo sua reserva legal de custo em ativo digital (tokens). Realizo a valoração do seu ativo ambiental para que ele possa constar no balanço patrimonial como patrimônio positivo.”

17. Check-list: O Modelo de Proposta de Valor
Ao enviar uma proposta, use esta estrutura para justificar honorários elevados:
- Diagnóstico do Problema: (Ex: “A empresa possui um passivo judicial mal calculado”).
- Metodologia Científica: (Ex: “Aplicação de regressão linear para previsão de demanda” ou “Fluxo de Caixa Descontado com análise de sensibilidade”).
- Segurança Regulatória: (Ex: “Trabalho realizado sob as diretrizes da Lei 1.411/51 e PL 3.178/24, com emissão de ART”).
- Entrega: (Ex: “Laudo Pericial + Dashboard Interativo de Cenários”).
Dica de Ouro: O “Combo Geracional”
Se você é um Jovem Economista, procure um veterano para assinar o laudo com você (ganhando reputação). Se você é um Economista 40+, contrate um jovem para automatizar suas planilhas (ganhando escala).
Fontes:
Gomes, Pedro Afonso. Diversos escritos, palestras e cursos ministrados.
Lei 1.411/1951, que regulamentou a profissão de Economista.
Decreto-Lei 31.794/1952, que regulamentou a Lei 1.411/1951.
Projeto de Lei 3.178/2024, que atualiza as atividades profissionais do Economista.
Lei 14.133/2021, que regula as licitações públicas.
Lei 14.711/2023, que constitui o marco legal das garantias.
Decreto 12.044/2024, que estabelece a Estratégia Nacional de Bioeconomia e de Finanças Sustentáveis.Conselho Federal de Economia. Publicações e normativos.
Modigliani, Franco, e Brumberg, Richard. Teoria do Ciclo da Vida (1954), que aborda as decisões de consumo e poupança nas diversas idades do ser humano.
Fórum Econômico Mundial. Future of Jobs – Report 2025.
*Conselheiro Efetivo do Conselho Federal de Economia (Cofecon), ex-Presidente do Conselho Regional de Economia da 2ª Região (Corecon-SP) e ex-Presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo (SINDECON-SP) . É perito, avaliador, auditor e consultor nas áreas de economia e finanças.
