Lacerda analisa economia brasileira e fala sobre austeridade fiscal
Conselheiro federal foi entrevistado no podcast “Aonde Vamos?” e abordou ruptura nas cadeias globais, juros elevados e políticas para reindustrialização
O conselheiro federal Antonio Corrêa de Lacerda concedeu nesta terça-feira (10) uma entrevista ao podcast “Aonde Vamos?”, na qual falou sobre a economia brasileira e o contexto internacional. O economista abordou as transformações ocorridas na globalização, o mito da austeridade (título de um livro publicado por ele e tema usado como chamada para a entrevista), o investimento estrangeiro direto e as emendas parlamentares, entre outros temas.
A entrevista pode ser assistida no player abaixo.
Contexto internacional
A economia mundial vive um período de forte instabilidade marcado pela recente pandemia, conflitos geopolíticos e mudanças climáticas que alteram as bases da globalização produtiva. Esse cenário recoloca o Estado no centro das estratégias de desenvolvimento.
“O problema é a desarticulação das cadeias internacionais de suprimento – algumas são globais, outras regionais e algumas locais. Com os demais fatores sobrepostos, causa um desarranjo na economia. Isso representa uma ruptura na trajetória que se consolidou no final do Século XX, que foi o da globalização produtiva”, avalia Lacerda. “O Brasil se industrializou (1930-1980) com um modelo de substituição de importações, valorizando a produção local. Quando veio a globalização neoliberal, entramos de cabeça. Em 1990, Collor tinha a famosa frase de que iria acabar com as carroças”.
Estes problemas, aponta o conselheiro federal, desnudam a questão da segurança do fornecimento. “No conceito da globalização está a ideia de não precisar produzir, porque é possível comprar mais barato de outro país. A pandemia evidenciou o erro da pior maneira possível e o Brasil foi, proporcionalmente, o país que mais perdeu vidas”, apontou. “Hoje o mundo vive a crise dos microprocessadores. Há uma concentração em um único país e não houve uma evolução da capacidade produtiva. A primeira consequência é a elevação de preços”.
Lacerda também mencionou a transformação trazida pelos conceitos de nearshoring (fornecimento mais perto) e friendshoring (comprar de países amigos) para a produção. Neste novo paradigma, a segurança do fornecimento torna-se mais importante do que o preço. “Isso exige respostas rápidas. E coincide com o governo Lula 3, no qual temos a retomada do papel do Estado na economia. Políticas públicas como o Nova Indústria Brasil, Novo PAC e Plano de Transição energética são programas estruturantes para fazer frente a esta nova economia”.
Mito da Austeridade
O livro O Mito da Austeridade, publicado pelo conselheiro federal, também fez parte do debate. “Ele parte de um questionamento do pressuposto equivocado de que é possível fazer um ajuste fiscal por si só”, afirmou Lacerda. “Por que não funciona? A economia são vasos comunicantes. Se cortar gastos, perde receita. É uma falácia comparar a macroeconomia à economia do lar, porque o funcionamento é diferente. Primeiro, porque o Estado tem o monopólio da emissão de moeda; e segundo, porque nós, como entes privados, podemos tomar decisões com base em nossa racionalidade, enquanto o Estado tem compromissos definidos pela Constituição”.
O economista também argumentou que os países do G20, sem exceção, são deficitários e endividados, e que o caso do Brasil não é diferente. A particularidade está nos juros – e um estudo do Grupo de Estudos em Desenvolvimento Econômico e Política Econômica (DEPE), que ele coordena na PUCSP, avaliou o endividamento e o custo de financiamento. “O Brasil não difere muito em termos de déficit e dívida. Há países mais endividados. O que chama a atenção no nosso caso é o custo de financiamento. Gastamos no ano passado, 2025, quase um trilhão de reais em pagamento de juros sobre a dívida pública, porque as taxas de juros são absurdas no Brasil. Isso representa um custo enorme para a sociedade brasileira”, observou. “O governo federal não chegou a investir 70 bilhões. Temos menos de um décimo em investimentos em infraestrutura. Precisamos corrigir essa distorção porque ela é concentradora de renda”.
O Brasil tem hoje uma taxa real de juros superior a 10%. “É uma anomalia que precisa ser corrigida e enfrentada. Há muitos mitos associados a isso. Temos uma meta de inflação irrealista, num país com as desigualdades estruturais e a estrutura concentrada de mercado no Brasil. Há a indexação, que é quase uma resistência à baixa inflação. Usar juros para corrigir isso não é eficaz”, pontuou.
O economista também destacou o estado de São Paulo tem um potencial econômico e histórico de atuação que “pode representar muito no enfrentamento dos desafios brasileiros, como a desindustrialização e a questão climática”. E prosseguiu: “Temos também o desafio da digitalização, da inteligência artificial, os aspectos correlacionados diretamente à saúde, educação, à questão social de maneira mais ampla. Não podemos abrir mão de instituições que são o nosso patrimônio, imaterial muitas vezes. Há uma desmobilização da revista da Fapesp. É um equívoco. É uma referência importante, que tem um papel muito expressivo na disseminação da ciência”.
Investimento estrangeiro direto
Outro estudo do DEPE apontou que, entre os BRICS, o Brasil é, proporcionalmente, quem mais recebe investimento estrangeiro direto. “Atrair empresas produtivas é algo muito positivo. Temos empresas estrangeiras aqui há mais de um século, em diversos setores. O desafio é que elas agreguem mais valor dentro do nosso país, gerando empregos e inovações. Na indústria e serviços sofisticados estão os melhores empregos”, argumentou Lacerda. “Há também os casos de empresas brasileiras que se internacionalizaram. Algumas têm fábricas mundo afora. O BNDES enfrentou um desafio enorme, durante muito tempo mal compreendido, que é o financiamento à exportação de serviços de empresas brasileiras, uma excelente fonte de geração de divisas. Este papel do Estado é relevante para implementar uma estratégia de desenvolvimento com inserção internacional, gerando divisas, empregos e tecnologia. O ajuste fiscal inteligente amplia a capacidade arrecadatória do Estado”.
O economista finalizou a entrevista citando Celso Furtado e falando do papel cultural da economia. “Ele dizia que o Brasil só será viável quando não imitar padrões de consumo e produção dos países ricos. Sempre vale a pena revisitar estes grandes mestres”, concluiu.
