“O acordo destrava restrições históricas e amplia o comércio do Mercosul com a Europa”, avalia José Luiz Pagnussat

Análise do conselheiro federal do Cofecon sobre o acordo União Europeia–Mercosul foi originalmente publicada na revista Exame 

Após mais de duas décadas de negociações, a aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul abre caminho para a criação da maior área de livre comércio do mundo. Para o conselheiro federal do Conselho Federal de Economia (Cofecon), José Luiz Pagnussat, o principal impacto do tratado está na ampliação do comércio e na diversificação de mercados, com efeitos relevantes para a economia brasileira e global. 

“O acordo destrava restrições históricas a diversos produtos do Mercosul. Mesmo com limites quantitativos, a abertura permite que uma maior diversidade de produtos seja avaliada e credenciada no mercado europeu”, destaca Pagnussat. Para o Brasil, maior economia do bloco sul-americano, o tratado representa acesso ampliado a um mercado de cerca de 450 milhões de consumidores, com potencial de ganhos no médio e longo prazo. 

Segundo o conselheiro, a tendência é de uma adaptação gradual ao perfil do consumidor europeu, o que contribui para fortalecer a capacidade de resposta do Mercosul a uma demanda global cada vez mais instável, impactada por fatores climáticos, geopolíticos e logísticos. “Esse movimento amplia a resiliência das cadeias produtivas e reduz a dependência excessiva de poucos mercados”, avalia. 

O acordo também se insere em um contexto de reorganização das cadeias globais de valor e de tensões comerciais internacionais. Embora a União Europeia busque reduzir vulnerabilidades em setores estratégicos, Pagnussat pondera que a dependência europeia em relação à China não será substituída de forma imediata. “O mercado chinês continuará sendo central para o Mercosul, especialmente em alimentos e recursos naturais. Ainda assim, a Europa ganha novos canais de abastecimento, o que reduz riscos e amplia sua segurança econômica”, afirma. 

Na análise do conselheiro federal, as resistências ao tratado — concentradas sobretudo em países como França e Irlanda — têm caráter predominantemente setorial. “Produtores europeus menos competitivos pressionam seus governos por proteção. Trata-se menos de um debate macroeconômico e mais de defesa de interesses específicos”, observa. 

Complementando a análise, o economista Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), destaca que o acordo tende a fortalecer cadeias de suprimentos, elevar o fluxo de investimentos e estimular a padronização produtiva e tecnológica entre os blocos, além de reduzir custos logísticos. Segundo ele, setores industriais brasileiros mais competitivos, como o têxtil e o calçadista, também podem se beneficiar da abertura do mercado europeu. 

Para Rockenmeyer, a não implementação do acordo implicaria perdas relevantes. “Perdem-se oportunidades de crescimento, há encarecimento das cadeias logísticas e redução do potencial de aumento de renda e do PIB nos dois blocos”, conclui. 

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