{"id":9894,"date":"2020-01-21T09:38:49","date_gmt":"2020-01-21T12:38:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=9894"},"modified":"2020-01-21T09:38:49","modified_gmt":"2020-01-21T12:38:49","slug":"artigo-a-taxa-de-cambio-e-o-processo-de-crescimento-economico-em-paises-de-renda-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=9894","title":{"rendered":"Artigo &#8211; A taxa de c\u00e2mbio e o processo de crescimento econ\u00f4mico em pa\u00edses de renda m\u00e9dia"},"content":{"rendered":"\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9896 alignleft\" src=\"https:\/\/www.cofecon.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/marconi2.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/marconi2.jpg 350w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/marconi2-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/p>\n<ul>\n<li>Nelson Marconi &#8211; \u00c9 graduado em Economia pela PUC-SP e mestre e doutor em Economia pela FGV-SP, tendo realizado bolsa sandu\u00edche no MIT. Artigo publicado na revista Economistas n\u00ba 34.<\/li>\n<\/ul>\n<ol>\n<li>Por que a taxa de c\u00e2mbio \u00e9 importante para o crescimento econ\u00f4mico?<\/li>\n<\/ol>\n<p>A taxa de c\u00e2mbio desempenha um papel muito importante no processo de desenvolvimento econ\u00f4mico, comprovada por vasta literatura sobre o tema. A t\u00edtulo de exemplo, cito os recentes artigos de Gusman, Ocampo e Stiglitz (2018) e Dao, Minoiu e Ostry (2017), assim como os tradicionais trabalhos de Bresser-Pereira (2012) e Rodrik (2008)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, dentre muitos outros. \u00c9 um pre\u00e7o essencial para os empres\u00e1rios e trabalhadores, principalmente em pa\u00edses que se encontram distantes da fronteira tecnol\u00f3gica. Para aqueles que se situam em tal fronteira, certamente a taxa de c\u00e2mbio \u00e9 uma vari\u00e1vel menos relevante para as empresas, pois elas competem mais atrav\u00e9s da diferencia\u00e7\u00e3o de produtos que via guerra de pre\u00e7os. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o caso de pa\u00edses em desenvolvimento. Uma das principais justificativas para a relev\u00e2ncia da taxa de c\u00e2mbio para este grupo de pa\u00edses reside no argumento apresentado a seguir.<\/p>\n<p>As taxas de lucro s\u00e3o razoavelmente diferentes nos diversos setores da economia. Normalmente elas s\u00e3o maiores nos setores que possuem maior poder de mercado, que s\u00e3o aqueles que conseguem diferenciar seus produtos em economias mais avan\u00e7adas tecnologicamente, ou que possuem vantagens comparativas na produ\u00e7\u00e3o ou extra\u00e7\u00e3o de algum produto natural. Buscando refor\u00e7ar este argumento, estimei &#8211; junto com Jo\u00e3o Guilherme Machado, a partir de uma amostra de 43 pa\u00edses do banco de dados WIOD, dispon\u00edvel para o per\u00edodo de 2000 a 2014 (Timmer et al, 2015)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> -, que as margens de lucro s\u00e3o maiores para setores que produzem bens com alto conte\u00fado tecnol\u00f3gico em pa\u00edses de renda alta e para setores que produzem bens com baixo conte\u00fado tecnol\u00f3gico, associados \u00e0 disponibilidade de recursos naturais ou m\u00e3o-de-obra abundante, em pa\u00edses de renda m\u00e9dia ou m\u00e9dia alta.<\/p>\n<p>Os setores que auferem as maiores taxas de lucro estariam menos suscet\u00edveis aos efeitos negativos de per\u00edodos de queda do n\u00edvel de atividade e dos impactos prejudiciais de mudan\u00e7as nas estruturas de custos e receitas derivadas de medidas de pol\u00edticas econ\u00f4micas sobre os investimentos. Os demais setores sofrem mais intensamente tais efeitos, visto que previamente j\u00e1 registram taxas de lucro inferiores e, portanto, n\u00e3o possuem um excedente que os possibilite manter a taxa de lucro em um patamar razo\u00e1vel mesmo em per\u00edodos de crise ou desajuste macroecon\u00f4mico. Por consequ\u00eancia, o investimento &#8211; que depende da margem de lucro esperada, dentre outros fatores -, se reduzir\u00e1 proporcionalmente mais nestes \u00faltimos setores e haver\u00e1 uma reorienta\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva na dire\u00e7\u00e3o daqueles que registram as taxas de lucro mais elevadas.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses como o Brasil, que possui vantagens comparativas na explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais, os setores que apresentam as maiores margens de lucro s\u00e3o os produtores de prim\u00e1rios (pelo menos assim foi at\u00e9 o in\u00edcio da crise vivenciada pela Petrobr\u00e1s). Tamb\u00e9m podemos notar no Gr\u00e1fico 1 que as margens de lucro (receitas \u2013 custos\/ receitas) s\u00e3o menores na manufatura.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Gr\u00e1fico 1 &#8211; Margens de lucro setoriais (em %) no per\u00edodo entre 1998 e 2017<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9895 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.cofecon.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/grafico1.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/grafico1.jpg 603w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/grafico1-300x181.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/p>\n<p>Logo, crises ou desequil\u00edbrios macroecon\u00f4micos restringem a possibilidade de sofistica\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva da economia brasileira, isto \u00e9, a orienta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do emprego na dire\u00e7\u00e3o dos setores que geram bens com maior valor adicionado, ou de maior complexidade econ\u00f4mica, no sentido definido por Hausmann et al.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Um desequil\u00edbrio macroecon\u00f4mico pode ser causado por diversos fatores. Por que, ent\u00e3o, atentar t\u00e3o especificamente para os impactos causados pela taxa de c\u00e2mbio sobre a atividade econ\u00f4mica? Porque a sua volatilidade e aprecia\u00e7\u00e3o pode afetar os custos e receitas das empresas mesmo que elas sejam eficientes e tamb\u00e9m restringir o acesso das empresas competitivas tanto ao mercado externo como ao interno; porque os nossos seguidos governos t\u00eam utilizado a taxa de c\u00e2mbio apreciada como um instrumento de controle \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, relegando a um segundo plano seus efeitos delet\u00e9rios sobre a produ\u00e7\u00e3o, que necessitam ser constantemente ressaltados; porque o barateamento dos bens e servi\u00e7os importados impedem a sociedade de perceber, de forma imediata, os efeitos prejudiciais da aprecia\u00e7\u00e3o, enquanto os impactos negativos de uma eleva\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ria ou da taxa de juros parecem ser mais evidentes; e porque muitos empres\u00e1rios argumentam que a aprecia\u00e7\u00e3o cambial n\u00e3o \u00e9 um problema e que na verdade outros cursos s\u00e3o mais significativos, como a burocracia e a carga tribut\u00e1ria, mas eles parecem n\u00e3o compreender que, mesmo se todos esses fatores estivessem ajustados e contribuindo para a sua efici\u00eancia, a sobreaprecia\u00e7\u00e3o da moeda, quando perene, neutralizaria todas essas virtuais redu\u00e7\u00f5es de custos.<\/p>\n<p>Uma taxa de c\u00e2mbio apreciada interrompe o acesso das empresas ao mercado dom\u00e9stico porque mesmo as empresas mais eficientes n\u00e3o conseguem competir com os importadores que colocam seus produtos a um pre\u00e7o artificialmente mais barato \u2013 quando cotado na moeda nacional &#8211; no mercado interno, e os exportadores n\u00e3o conseguem uma receita em reais adequada que estimule-os a vender no exterior, mantido o pre\u00e7o constante na moeda estrangeira. Esse \u00e9 o que eu estou intitulando de primeiro est\u00e1gio das consequ\u00eancias da aprecia\u00e7\u00e3o cambial.<\/p>\n<p>Se a aprecia\u00e7\u00e3o for prolongada, os empres\u00e1rios do setor manufatureiro, racionalmente, ir\u00e3o tentar reduzir seus custos laborais ou, aproveitando-se da aprecia\u00e7\u00e3o, importar insumos mais baratos a fim de tentar recuperar suas margens de lucro. Ao adotar essa \u00faltima estrat\u00e9gia, a demanda interindustrial \u00e9 enfraquecida, bem como as cadeias produtivas, refor\u00e7ando a desindustrializa\u00e7\u00e3o. Esse seria o segundo est\u00e1gio das consequ\u00eancias da aprecia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em artigo escrito em colabora\u00e7\u00e3o com Magacho, Machado e Le\u00e3o,<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> mostramos que, entre dezoito setores industriais analisados, somente quatro tiveram crescimento maior do coeficiente de exporta\u00e7\u00f5es que de importa\u00e7\u00f5es entre 2000 e 2014, sendo apenas um de alto conte\u00fado tecnol\u00f3gico (farmac\u00eautico) e outros tr\u00eas intensivos em recursos naturais e de baixo conte\u00fado tecnol\u00f3gico (refino de petr\u00f3leo, alimentos e papel e celulose). Assim, um outro argumento poss\u00edvel para refutar as consequ\u00eancias mal\u00e9ficas da aprecia\u00e7\u00e3o, qual seja, que as importa\u00e7\u00f5es mais baratas de insumos s\u00e3o revertidas em melhorias da competitividade e possibilitam a amplia\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es &#8211; at\u00e9 porque os pa\u00edses atualmente est\u00e3o integrados \u00e0s cadeias globais de valor -, n\u00e3o parece aplicar-se \u00e0 maioria dos setores industriais brasileiros.<\/p>\n<p>O terceiro est\u00e1gio desse processo ocorre quando o produtor desiste de produzir localmente e decide se transformar em um importador do bem final. Nesse momento, a desindustrializa\u00e7\u00e3o se agrava.<\/p>\n<p>Os consumidores, por seu turno, tendem a preferir a moeda apreciada porque os produtos importados ficam mais baratos, bem como as viagens ao exterior. Mas essa \u00e9 uma vis\u00e3o m\u00edope e de curto prazo: primeiro porque quando os importados ficam mais baratos, eleva-se a renda dispon\u00edvel em um primeiro momento, e por consequ\u00eancia a demanda por bens e servi\u00e7os que n\u00e3o sofrem concorr\u00eancia externa, que se tornam mais caros e terminam compensando a queda dos pre\u00e7os dos comercializ\u00e1veis. Como resultado, o poder de compra dos assalariados termina praticamente n\u00e3o se alterando, dependendo da cesta de consumo deles, porque a aprecia\u00e7\u00e3o da moeda nada mais \u00e9 que uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o entre os pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os comercializ\u00e1veis e n\u00e3o comercializ\u00e1veis em favor destes \u00faltimos. Segundo, porque os trabalhadores, entusiasmados em um primeiro momento pela redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o dos importados, n\u00e3o percebem que no futuro pr\u00f3ximo a desindustrializa\u00e7\u00e3o reduzir\u00e1 os empregos de qualidade e a renda que as pessoas possu\u00edam para adquirir os produtos importados ou viajar para o exterior se esvai. A demanda agregada ser\u00e1 atendida pelos produtos externos, isso \u00e9, vazar\u00e1 para o exterior, e o mesmo ocorrer\u00e1 com os empregos.<\/p>\n<p>Uma vez atingido o segundo ou terceiro est\u00e1gio das consequ\u00eancias da aprecia\u00e7\u00e3o cambial, a revers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples. Deslocar a taxa de c\u00e2mbio para um patamar competitivo significar\u00e1 elevar os custos de produ\u00e7\u00e3o ou os pre\u00e7os dos pr\u00f3prios bens finais. Ap\u00f3s tantos anos de aprecia\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso da economia brasileira, a estrutura produtiva j\u00e1 se adequou a esse novo cen\u00e1rio e aumentou a participa\u00e7\u00e3o de importados no processo produtivo (a taxa de c\u00e2mbio s\u00f3 retornou a um patamar competitivo nos \u00faltimos meses, tendo permanecido apreciada desde 2006). Medidas complementares, como uma pol\u00edtica industrial e tarif\u00e1ria compensat\u00f3ria (neste \u00faltimo caso, que reduza as al\u00edquotas de insumos importados com um retorno progressivo aos n\u00edveis pr\u00e9vios), poder\u00e3o ser necess\u00e1rias. Alguns economistas t\u00eam questionado o fato de a taxa de c\u00e2mbio estar em um patamar competitivo h\u00e1 alguns meses e n\u00e3o ter ainda ocorrido nenhuma revers\u00e3o no saldo comercial de manufaturados. Ora, \u00e9 obvio que ap\u00f3s mais de dez anos de aprecia\u00e7\u00e3o, alguns meses de c\u00e2mbio competitivo ser\u00e3o insuficientes para reverter o quadro anterior. N\u00e3o \u00e9 com uma semana de tratamento que o alco\u00f3latra vai largar o v\u00edcio de anos.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>Qual \u00e9 a taxa de c\u00e2mbio competitiva?<\/li>\n<\/ol>\n<p>Falou-se muito em taxa de c\u00e2mbio competitiva at\u00e9 aqui, mas n\u00e3o se definiu qual seria este patamar, que inclusive propiciou o c\u00e1lculo da defasagem apresentada acima. Para que os empres\u00e1rios do setor manufatureiro se mantenham competitivos, e tenham est\u00edmulo a competir, \u00e9 importante que as suas margens de lucro sejam pr\u00f3ximas \u00e0s obtidas por seus concorrentes tanto no mercado dom\u00e9stico como no externo. Supondo que o pre\u00e7o de um produto manufaturado seja relativamente semelhante para todos os competidores no mercado global, a equaliza\u00e7\u00e3o das margens de lucro requer custos m\u00e9dios de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m semelhantes. Como um dos principais componentes de custos \u00e9 o trabalho, ent\u00e3o uma medida aproximada da competividade seria a compara\u00e7\u00e3o entre os custos unit\u00e1rios do trabalho, conforme argumenta em artigo de 2012.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Logicamente, essa medida de competitividade \u00e9 restrita porque considera, primeiro, que a propor\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho n\u00e3o se altera para os diversos competidores, o que pode ser razo\u00e1vel apenas no curto prazo; segundo, porque h\u00e1 outros custos envolvidos no processo de produ\u00e7\u00e3o, tais como os financeiros, log\u00edsticos e tribut\u00e1rios, dentre outros (ainda que, em termos agregados, o custo da m\u00e3o de obra seja, em geral, mais relevante, dada sua participa\u00e7\u00e3o no valor da produ\u00e7\u00e3o); entretanto, considerar estas\u00a0 duas restri\u00e7\u00f5es no c\u00e1lculo da taxa de c\u00e2mbio necess\u00e1ria inviabilizaria a sua estimativa, dada a indisponibilidade da maioria das informa\u00e7\u00f5es citadas; terceiro, os empres\u00e1rios podem substituir m\u00e3o-de-obra por insumos importados, o que reduz a participa\u00e7\u00e3o do trabalho local no processo produtivo, mas \u00e9 exatamente isso que se deseja evitar para n\u00e3o ocasionar a desindustrializa\u00e7\u00e3o, conforme citado anteriormente. Por isso, n\u00e3o se deve considerar essa possibilidade na c\u00e1lculo da taxa de c\u00e2mbio de equil\u00edbrio necess\u00e1ria, Assim, estimamos a taxa de c\u00e2mbio de equil\u00edbrio para manter a competitividade de nossa ind\u00fastria, a qual intitulamos de taxa de c\u00e2mbio de equil\u00edbrio industrial, como aquela que compensa o diferencial entre os custos unit\u00e1rios do trabalho em um pa\u00eds e seus competidores. O Federal Reserve de St. Louis e a OCDE, por exemplo, adotam esse mesmo crit\u00e9rio como um indicador da competitividade de um pa\u00eds quando mensurada atrav\u00e9s do n\u00edvel de sua taxa real de c\u00e2mbio.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>A rela\u00e7\u00e3o entre taxa de c\u00e2mbio, infla\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rio real e poupan\u00e7a<\/li>\n<\/ol>\n<p>Por fim, \u00e9 necess\u00e1rio argumentar que a pr\u00e1tica de uma taxa de c\u00e2mbio competitiva n\u00e3o implica necessariamente em queda do poder de compra dos trabalhadores, nem que seu efeito seja o aumento da poupan\u00e7a dos empres\u00e1rios em detrimento da poupan\u00e7a dos trabalhadores. Como eu disse anteriormente, a aprecia\u00e7\u00e3o cambial significa uma mudan\u00e7a de pre\u00e7os relativos em favor dos bens e servi\u00e7os n\u00e3o comercializ\u00e1veis; logo, depreciar a moeda significa o oposto. Assim, quem perde nesse processo, pois sofrer\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o de suas margens, s\u00e3o os ofertantes dos bens e servi\u00e7os n\u00e3o transacion\u00e1veis com o exterior. Tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar que para uma corre\u00e7\u00e3o nominal da moeda se tornar uma corre\u00e7\u00e3o real e assim ser bem-sucedida, n\u00e3o pode provocar uma acelera\u00e7\u00e3o relevante da infla\u00e7\u00e3o; do contr\u00e1rio, a corre\u00e7\u00e3o nominal n\u00e3o se torna real e fracassa.<\/p>\n<p>Conectando esses dois argumentos, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a deprecia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 bem-sucedida se os aumentos dos pre\u00e7os dos bens e servi\u00e7os comercializ\u00e1veis, em fun\u00e7\u00e3o da desvaloriza\u00e7\u00e3o, forem compensados pela redu\u00e7\u00e3o ou pelo menos manuten\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos n\u00e3o comercializ\u00e1veis; dessa forma, os ofertantes destes \u00faltimos teriam que aceitar uma redu\u00e7\u00e3o de suas margens, isso \u00e9, aceitar a mudan\u00e7a de pre\u00e7os relativos em prol dos comercializ\u00e1veis. Se isso for verdade, a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o se elevar\u00e1 substancialmente em fun\u00e7\u00e3o da deprecia\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o haver\u00e1 perdas relevantes para os sal\u00e1rios dos trabalhadores. Por isso, pensar que a desvaloriza\u00e7\u00e3o real da taxa de c\u00e2mbio necessariamente implica em redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio real me parece logicamente incorreto.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil atingir o objetivo acima? Certamente n\u00e3o, mas a inexist\u00eancia de indexa\u00e7\u00e3o, e um cen\u00e1rio de desaquecimento do n\u00edvel de atividade podem contribuir para reduzir o repasse, o chamado pass-through, da deprecia\u00e7\u00e3o para os pre\u00e7os. No caso brasileiro, podemos observar que entre dezembro de 2017 e novembro de 2019 a taxa de c\u00e2mbio nominal se depreciou em 26%, enquanto a taxa de infla\u00e7\u00e3o (acumulada em 12 meses) e o sal\u00e1rio real m\u00e9dio encontram-se praticamente no mesmo patamar observado naquele per\u00edodo. L\u00f3gico que isso foi poss\u00edvel porque a economia est\u00e1 desaquecida e a taxa de desemprego, elevada, do contr\u00e1rio o repasse da deprecia\u00e7\u00e3o aos pre\u00e7os teria sido maior. A infla\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, que s\u00e3o n\u00e3o comercializ\u00e1veis em sua ampla maioria, caiu fortemente desde 2016, abrindo espa\u00e7o para a mudan\u00e7a necess\u00e1ria nos pre\u00e7os relativos. N\u00e3o estou defendendo a recess\u00e3o, mas apenas afirmando que uma deprecia\u00e7\u00e3o que desloque a taxa de c\u00e2mbio real para o patamar necess\u00e1rio, quando a moeda estiver previamente apreciada, deve ser buscada pelos gestores da pol\u00edtica econ\u00f4mica quando houver uma janela favor\u00e1vel, que para a economia brasileira ocorre neste momento.<\/p>\n<p>Na verdade, quando a deprecia\u00e7\u00e3o \u00e9 bem-sucedida, o poder de compra dos trabalhadores fica relativamente est\u00e1vel a princ\u00edpio e \u00e0 medida em que o investimento e a produtividade do capital se elevarem, estaremos no melhor dos mundos: os sal\u00e1rios reais poder\u00e3o inclusive subir acima da produtividade do trabalho, favorecendo a distribui\u00e7\u00e3o funcional da renda em prol dos trabalhadores, sem pressionar a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1, nesse cen\u00e1rio, queda do sal\u00e1rio real, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 motivo para supor uma diminui\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a dos trabalhadores; na verdade, se realmente ocorrer uma eleva\u00e7\u00e3o dos investimentos, da receita dos exportadores e a retomada do emprego, em resposta \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio em um patamar competitivo (juntamente com outras medidas necess\u00e1rias n\u00e3o discutidas neste artigo), tanto a poupan\u00e7a de trabalhadores como de empres\u00e1rios se elevar\u00e1, como ensina a teoria keynesiana.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos abdicar de mais uma deprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o planejada e desordenada, como a atual, e permitir que o c\u00e2mbio se aprecie novamente, ainda mais que o custo da deprecia\u00e7\u00e3o em termos de infla\u00e7\u00e3o e sal\u00e1rios foi muito reduzido. Manter a taxa de c\u00e2mbio em um patamar competitivo ser\u00e1 essencial para retomarmos a trajet\u00f3ria do crescimento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Martin Guzman, Jose Antonio Ocampo e Joseph E. Stiglitz (2018). Real exchange rate policies for economic development. <em>World Development<\/em>, 110, 51\u201362.<\/p>\n<p>Mai Dao, Camelia Minoiu, and Jonathan D. Ostry (2017). Corporate Investment and the Real Exchange Rate. <em>IMF Working Paper<\/em>, WP\/17\/183.<\/p>\n<p>Bresser-Pereira, Luiz Carlos (2012). A taxa de c\u00e2mbio no centro da teoria do desenvolvimento<em>.<\/em> <em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, v. 26, n. 75.<\/p>\n<p>Rodrik, Dani (2008). The real exchange rate and economic growth. <em>Brookings Papers on Economic Activity<\/em>, <em>2008<\/em>(2), 365\u2013412.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Timmer, M. P., Dietzenbacher, E., Los, B., Stehrer, R. and de Vries, G. J. (2015), An Illustrated User Guide to the World Input\u2013Output Database: the Case of Global Automotive Production, <em>Review of International Economics<\/em>, 23, 575\u2013605.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Os dados utilizados para os c\u00e1lculos s\u00e3o origin\u00e1rios das pesquisas anuais setoriais do IBGE (Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio, Servi\u00e7os e Constru\u00e7\u00e3o Civil). N\u00e3o foi estimada a taxa de lucro porque para tal seria necess\u00e1rio conhecer o estoque de capital setorial, e essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel. Assim optou-se por estimar a margem como uma proxy para a taxa de lucro. Agrade\u00e7o a ajuda de Jo\u00e3o Guilherme Machado para a confec\u00e7\u00e3o destas estimativas. N\u00e3o h\u00e1 pesquisas semelhantes para o setor agr\u00edcola, infelizmente, mas em artigo de 2017 (O papel dos pre\u00e7os macroecon\u00f4micos na crise e na recupera\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>,\u00a0<em>31<\/em>(89), 97-109), demonstro que h\u00e1 fortes ind\u00edcios de que a margem de lucro na agricultura \u00e9 mais alta que na manufatura, dado que tanto sua produtividade como seu pre\u00e7o, comparado em termos relativos com o observado na ind\u00fastria, s\u00e3o mais elevados.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Hausmann, R., Hidalgo, C. A., Bustos, S., Coscia, M., Simoes, A., &amp; Yildirim, M. A. (2014).\u00a0<em>The atlas of economic complexity: Mapping paths to prosperity<\/em>. MIT Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Marconi, N., Magacho, G., Machado, J. G. R., &amp; Le\u00e3o, R. A. R. (2019). <em>Profit Margins, Exchange Rates and Structural Change: Empirical Evidences for the period 1996-2017<\/em>. Paper apresentado no IV Workshop for New Developmentalism, FGV.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Marconi, N. (2012). The industrial equilibrium exchange rate in Brazil: an estimation.\u00a0<em>Brazilian Journal of Political Economy<\/em>,\u00a0<em>32<\/em>(4), 656-669.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <a href=\"https:\/\/alfred.stlouisfed.org\/series?seid=CCRETT02USQ661N\">https:\/\/alfred.stlouisfed.org\/series?seid=CCRETT02USQ661N<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.oecd-ilibrary.org\/economics\/data\/main-economic-indicators\/main-economic-indicators-complete-database_data-00052-en\">http:\/\/www.oecd-ilibrary.org\/economics\/data\/main-economic-indicators\/main-economic-indicators-complete-database_data-00052-en<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":9896,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-9894","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9894"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9894"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9894\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9896"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}