{"id":9552,"date":"2019-11-04T16:22:12","date_gmt":"2019-11-04T19:22:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=9552"},"modified":"2019-11-04T16:22:12","modified_gmt":"2019-11-04T19:22:12","slug":"artigo-a-lenda-dos-dois-lobos-e-a-disputa-ideologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=9552","title":{"rendered":"Artigo &#8211; A lenda dos dois lobos e a disputa ideol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9553 alignleft\" src=\"http:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/lobo.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/lobo.jpg 350w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/lobo-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><strong>Por Fernando de Aquino &#8211; Doutor em Economia pela UnB, conselheiro do Cofecon e membro da Abed.<\/strong><\/p>\n<p>A lenda cherokee dos dois lobos, geralmente utilizada com prop\u00f3sitos de autoajuda, pode ajudar tamb\u00e9m no entendimento da disputa ideol\u00f3gica contempor\u00e2nea. Conta a lenda que um jovem \u00edndio, sentindo-se injusti\u00e7ado na aldeia, foi se aconselhar com o av\u00f4.<\/p>\n<p>O velho \u00edndio explicou: \u201cTodos temos dentro de n\u00f3s dois lobos, um carrega todos os sentimentos ruins que podem existir no ser humano, como \u00f3dio, raiva, crueldade, inveja, ego\u00edsmo, ressentimento, falsidade, enquanto o outro, todos os sentimentos bons, como amor, serenidade, humanidade, empatia, sensatez, gratid\u00e3o, sinceridade. \u00c0s vezes, \u00e9 dif\u00edcil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu esp\u00edrito.\u201d<\/p>\n<p>O neto pensou por um minuto e perguntou ao av\u00f4: \u201cQual dos lobos vence?\u201d<\/p>\n<p>O velho cherokee respondeu simplesmente: \u201cAquele que voc\u00ea alimentar.\u201d<\/p>\n<p>A lenda sup\u00f5e que os valores e motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o mold\u00e1veis, mas apenas pela pr\u00f3pria pessoa. Certamente, a alimenta\u00e7\u00e3o desses lobos interiores n\u00e3o estaria acess\u00edvel apenas aos seus donos. Tudo indica que seria at\u00e9 mais propensa a influ\u00eancias exteriores. Por certo, essa alegoria dos dois lobos n\u00e3o \u00e9 capaz de abranger todos os determinantes do comportamento dos indiv\u00edduos, mas pode ser \u00fatil para descrever procedimentos voltados a conquista de cora\u00e7\u00f5es e mentes. Nesse contexto, o lobo progressista das pessoas precisa ser alimentado com valores e motiva\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com uma sociedade mais igualit\u00e1ria, justa e livre, enquanto os conservadores alimentariam o lobo da manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es vigentes, por prop\u00f3sitos como privil\u00e9gios, medos ou vontade divina.<\/p>\n<p>Os progressistas seguem tentando conscientizar a todos das injusti\u00e7as e opress\u00e3o, incluindo pautas identit\u00e1rias, relativas a condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de grupos, como mulheres, negros e LGBTs. Contudo, a forma como v\u00eam alimentando o lobo est\u00e1 requerendo ajustes. Por um lado, em que pese a urg\u00eancia e relev\u00e2ncia de se combater a discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia \u201cadicionais\u2019 a que est\u00e3o submetidos grupos como os mencionados, n\u00e3o se deve perder de vista o problema de fundo, mais geral, envolvendo as condi\u00e7\u00f5es das classes sociais.<\/p>\n<p>Caso contr\u00e1rio, o ativismo se desencaminhar\u00e1 para embates entre homens e mulheres, negros e brancos, homossexuais e heterossexuais, fomentando o aumento da hostilidade entre os indiv\u00edduos, sem grande potencial de substantiva melhoria na qualidade de vida de todos. Nesse sentido, emblem\u00e1tico tem sido um cisma no movimento feminista, chamado de \u201cmulherismo\u201d, que denuncia a explora\u00e7\u00e3o de classe entre as mulheres e proclama uma afinidade preferencial com o homem negro, passando do ativismo de g\u00eanero para o de etnia e relevando o principal, que seria o de classe social. Mesmo se esse ativismo, descolado da quest\u00e3o mais geral, pudesse levar \u00e0 igualdade de direitos para os grupos mais desfavorecidos, isso significaria equiparar todos ao homem, branco e heterossexual, o qual, estando em classe subalterna, \u00e9 altamente injusti\u00e7ado e oprimido.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 preciso elaborar estrat\u00e9gias mais efetivas para avan\u00e7ar na disputa ideol\u00f3gica com os setores conservadores, que t\u00eam a m\u00eddia corporativa, os tecnocratas e as religi\u00f5es de massa ao seu lado.\u00a0 Obviamente, os que querem conservar a situa\u00e7\u00e3o social atual, em sua grande maioria pretende reverter as conquistas que v\u00eam sendo obtidas desde a constitui\u00e7\u00e3o de 1988, n\u00e3o cultivando valores igualit\u00e1rios. Tendem a preferir o chamado darwinismo social ou a encarar as desigualdades como uma lei da natureza ou resultante da vontade divina.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pelo prazer de se sentirem superiores aos negros, ou aos que n\u00e3o s\u00e3o crentes, ou aos homossexuais, ou \u00e0s mulheres, ou aos nordestinos, querem \u201cessa gente\u201d mantida numa condi\u00e7\u00e3o inferior. As modestas conquistas s\u00e3o consideradas, pelos conservadores, perda de privil\u00e9gios, mesmo pequenos, que percebem como direitos, amea\u00e7a de aprofundamento e medo das dificuldades de conservar seu \u201cestilo de vida\u201d. O ressentimento gerado leva ao apoio a condutas autorit\u00e1rias e violentas, estatais e paraestatais, muito al\u00e9m de um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, mas como um justi\u00e7amento aos que est\u00e3o usufruindo do que n\u00e3o merecem.<\/p>\n<p>Esse conservadorismo da estrutura social Casa Grande-Senzala tamb\u00e9m alcan\u00e7a grande parte dos que estariam dentro da senzala, por terem sido convencidos de que l\u00e1 est\u00e3o por culpa de governos corruptos que s\u00f3 beneficiam aos seus em detrimento deles. Termos como \u201cPT\u201d, \u201cLula\u201d, \u201cEsquerda\u201d, \u201cComunismo\u201d, viraram gatilhos para o \u00f3dio pelas injusti\u00e7as que sofrem, acreditando serem causadas justamente pelos que fizeram mais pol\u00edticas para mitig\u00e1-las.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de teoria da conspira\u00e7\u00e3o, mas de uma converg\u00eancia de interesses entre m\u00eddia corporativa, setores empresariais e lideran\u00e7as pol\u00edticas, que geram montanhas de Fake News e narrativas manipuladas. O recorrente tema da corrup\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 legitimou diversos golpes e tentativas, \u00e9 trabalhado de modo mais amplo. Corrup\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o que gerar ressentimento e indigna\u00e7\u00e3o em cada um.\u00a0 Para muitos, entre donos e agregados da Casa Grande e os que vivem na senzala, transgress\u00f5es de cunho financeiro, como propinas, favorecimentos, sonega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o causam tanta indigna\u00e7\u00e3o quanto costumes pecaminosos, de natureza sexual ou de insubmiss\u00e3o. Neste campo, lideran\u00e7as religiosas conservadoras t\u00eam exercido um ativismo eficiente.<\/p>\n<p>Continua inacess\u00edvel a identifica\u00e7\u00e3o do que seria, no comportamento humano, determinado pela natureza, experi\u00eancias individuais, rela\u00e7\u00f5es sociais e disputa ideol\u00f3gica. Mesmo com todas as dificuldades de se enfrentar os conservadores, tamb\u00e9m \u00e9 inaceit\u00e1vel os meios e os fins como os da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural mao\u00edsta. Valores e pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas n\u00e3o podem ser ret\u00f3rica ou instrumentos, mas condi\u00e7\u00f5es inalien\u00e1veis, as quais deve-se radicalizar no sentido de identific\u00e1-las com desigualdades m\u00ednimas de oportunidades e resultados. Um alento para os que cultivam esses ideais de justi\u00e7a social \u00e9 que algumas sociedades conseguiram alcan\u00e7ar elevados padr\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":9553,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-9552","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9552"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9552"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9552\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9553"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}