{"id":8988,"date":"2019-10-03T09:40:31","date_gmt":"2019-10-03T12:40:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=8988"},"modified":"2019-10-03T09:40:31","modified_gmt":"2019-10-03T12:40:31","slug":"artigo-os-desafios-da-globalizacao-para-o-desenvolvimento-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=8988","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Os desafios da globaliza\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento regional"},"content":{"rendered":"\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-8989 alignleft\" src=\"http:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/globalizacao-300x214.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"214\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/globalizacao-300x214.png 300w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/globalizacao.png 350w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Por Hoy\u00eado Nunes Lins &#8211;\u00a0Universidade Federal de Santa Catarina<\/p>\n<p>(*Artigo publicado na Revista Economistas n\u00ba 33)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O presente artigo versa sobre a dimens\u00e3o espacial do desenvolvimento, considerando a import\u00e2ncia que o tema ganhou, internacionalmente e no Brasil, ao menos desde os anos 1950. Argumenta-se que a globaliza\u00e7\u00e3o imp\u00f5e desafios para estruturas sociais e produtivas em diferentes escalas espaciais, e que, apesar dos acenos de novas possibilidades, os processos nela enfeixados chamam a aten\u00e7\u00e3o para o problema das desigualdades de desenvolvimento, interpelando os formuladores de pol\u00edticas. De outra parte, a ampliada mobilidade do capital repercute nos territ\u00f3rios e suscita reflex\u00e3o, um assunto aludido principalmente com base em observa\u00e7\u00f5es sobre Santa Catarina.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O interesse pela dimens\u00e3o espacial do desenvolvimento <\/strong><\/p>\n<p>Os anos posteriores \u00e0 Segunda Guerra Mundial assistiram \u00e0 entroniza\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio do desenvolvimento em diferentes pa\u00edses. V\u00e1rias regi\u00f5es do mundo registraram tentativas rumo ao que se pretendia como moderniza\u00e7\u00e3o das estruturas sociais e produtivas na escala dos estados nacionais. Um importante objetivo era reduzir a dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses de economias mais din\u00e2micas, com n\u00edveis mais altos de produ\u00e7\u00e3o e consumo e de acesso a servi\u00e7os importantes.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da ind\u00fastria foi o caminho vislumbrado e privilegiado. De alguma forma isso refletia o entendimento segundo o qual a experi\u00eancia industrial do Ocidente, notadamente no noroeste da Europa e na Am\u00e9rica do Norte, indicava a orienta\u00e7\u00e3o a ser adotada. Pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1frica e da \u00c1sia procuraram trilhar essa via, com variados graus de sucesso. No subcontinente latino-americano, o Brasil oferece, talvez, a mais sugestiva ilustra\u00e7\u00e3o a respeito.<\/p>\n<p>Junto com o ide\u00e1rio do crescimento industrial, marcou o <em>zeitgeist<\/em> do per\u00edodo a aten\u00e7\u00e3o crescente para a dimens\u00e3o espacial do desenvolvimento. Ao lado do \u00e2mbito temporal, dominante e sempre destacado entre os economistas, ganhou terreno o interesse por quest\u00f5es referentes \u00e0s desigualdades socioespaciais e \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas, principalmente as de \u00edndole industrial, entre outros assuntos em rela\u00e7\u00e3o aos quais o componente \u201cespa\u00e7o\u201d passou a sobressair.<\/p>\n<p>O contexto exibia o entendimento de que a persist\u00eancia das desigualdades inter-regionais no interior dos pa\u00edses representava amea\u00e7a \u00e0 coes\u00e3o social e mesmo \u00e0 unidade nacional. Aparentemente, essa vis\u00e3o disseminava-se sobretudo em solo europeu. \u00a0As consequ\u00eancias dessa percep\u00e7\u00e3o foram importantes, a julgar pela clara e efetiva incorpora\u00e7\u00e3o do problema referente \u00e0quelas disparidades nas agendas governamentais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se avaliava que a exist\u00eancia de \u00e1reas subnacionais remotas e carentes, amargando escassa vitalidade econ\u00f4mica em termos relativos, significava menores possibilidades para o desenvolvimento no plano nacional. Aquela situa\u00e7\u00e3o se traduziria, entre outras coisas, em recursos desperdi\u00e7ados, ociosos ou subutilizados, al\u00e9m de expressar insufici\u00eancias, por assim dizer, em mat\u00e9ria de \u201cintegra\u00e7\u00e3o nacional\u201d. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Assim, desenvolvimento nacional e desenvolvimento regional tornaram-se problemas inter-relacionados. Na esfera das pol\u00edticas de promo\u00e7\u00e3o, objetivos de desenvolvimento nacional e regional passaram a se mostrar entrela\u00e7ados. O est\u00edmulo ao crescimento industrial, por exemplo, ia de par com o interesse em sustentar e acelerar a expans\u00e3o econ\u00f4mica e o desenvolvimento no plano regional.<\/p>\n<p>A teoria dos polos de crescimento\/desenvolvimento, indissoci\u00e1vel dos estudos do economista franc\u00eas Fran\u00e7ois Perroux, desempenhou importante papel com respeito ao assunto. Seus conceitos nutriram simultaneamente a an\u00e1lise de processos observados (na qualidade de teoria explicativa) e as iniciativas de pol\u00edtica de desenvolvimento regional (como teoria normativa).<\/p>\n<p>Em maior ou menor grau, a perspectiva anal\u00edtica e o uso pol\u00edtico dos polos marcaram presen\u00e7a em quase todos os pa\u00edses onde se procurou atacar o problema das desigualdades inter-regionais e promover o crescimento econ\u00f4mico e o desenvolvimento das regi\u00f5es necessitadas. Invariavelmente vigorou a pretens\u00e3o, intr\u00ednseca \u00e0 teoria, pode-se dizer, de que o impulso econ\u00f4mico efetuado num ponto do espa\u00e7o (uma cidade ou uma regi\u00e3o urbana, por exemplo) induzisse e irradiasse a expans\u00e3o econ\u00f4mica centrifugamente, por diferentes tipos de conex\u00f5es.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o representou exce\u00e7\u00e3o no realce adquirido por essa teoria, como demonstrado, talvez principalmente, pelas pol\u00edticas dos anos 1970. De fato, refer\u00eancias a programas regionais como Polamaz\u00f4nia e Polonordeste frequentaram, com alguma assiduidade, documentos t\u00e9cnicos e estudos acad\u00eamicos, al\u00e9m de figurarem em coberturas jornal\u00edsticas. Uma ilustra\u00e7\u00e3o do sentido e dos resultados de iniciativas com esse perfil diz respeito ao Polo Petroqu\u00edmico de Cama\u00e7ari, na Bahia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A espacialidade do desenvolvimento sob o signo da globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O interesse pela dimens\u00e3o espacial do desenvolvimento s\u00f3 fez crescer com a globaliza\u00e7\u00e3o. Isso teria lugar em diferentes latitudes do sistema mundial, com incid\u00eancia em numerosos pa\u00edses e regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Observe-se que, embora o termo seja poliss\u00eamico, conforme as disciplinas acad\u00eamicas e os \u00e2ngulos de vis\u00e3o, dizer \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d significa referir ao aprofundamento da fragmenta\u00e7\u00e3o produtiva entre territ\u00f3rios muitas vezes distantes entre si. A inerente distribui\u00e7\u00e3o de papeis produtivos mostra-se acompanhada de intensifica\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos comerciais envolvendo notadamente pe\u00e7as e componentes, algo observado em v\u00e1rios setores industriais.<\/p>\n<p>Os arranjos e fluxos ligados a esse com\u00e9rcio s\u00e3o amplamente transfronteiri\u00e7os, revelando-se not\u00e1vel a sua particular intensidade no Leste e no Sudeste da \u00c1sia. Em regra, contudo, a movimenta\u00e7\u00e3o nesses termos ocorre em escala intercontinental. Numa palavra, exibe abrang\u00eancia global.<\/p>\n<p>Express\u00e3o que permite captar essa configura\u00e7\u00e3o \u00e9 cadeia global de valor, uma express\u00e3o de uso disseminado desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XXI. Caracterizando a produ\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio internacional em diferentes setores industriais \u2013 do automotivo ao alimentar, do de computadores ao de confec\u00e7\u00f5es \u2013, tais cadeias se expressam, por exemplo, em marcada e fortemente hierarquizada divis\u00e3o espacial (internacional) do trabalho.<\/p>\n<p>Essas estruturas evocam igualmente terceiriza\u00e7\u00e3o ou subcontrata\u00e7\u00e3o produtiva internacional, com exerc\u00edcio de poder e coordena\u00e7\u00e3o (governan\u00e7a), com v\u00e1rios sentidos e abrang\u00eancias, protagonizado pelas empresas maiores e mais fortes. Em alguns setores, contam-se nos dedos as corpora\u00e7\u00f5es que efetivamente exercem esse tipo de papel. A ind\u00fastria automotiva, cujo perfil \u00e9 o de um grande oligop\u00f3lio internacional, apresenta, talvez, a melhor indica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No que toca ao funcionamento dessas cadeias, a globaliza\u00e7\u00e3o fortalece o interesse pela dimens\u00e3o espacial do desenvolvimento porque o modo como pa\u00edses e regi\u00f5es participam das respectivas teias de v\u00ednculos costuma ter variadas e importantes consequ\u00eancias. A natureza e a forma da inser\u00e7\u00e3o nessas intera\u00e7\u00f5es parece influenciar consideravelmente as possibilidades de crescimento econ\u00f4mico e desenvolvimento no per\u00edodo atual.<\/p>\n<p>Na divis\u00e3o internacional (espacial) do trabalho que permeia essas tramas de rela\u00e7\u00f5es produtivas e comerciais, as atividades exibindo n\u00edveis tecnol\u00f3gicos e salariais mais baixos convivem com escassa agrega\u00e7\u00e3o de valor em termos comparativos. Para as sociedades e os territ\u00f3rios assim implicados, a participa\u00e7\u00e3o em cadeias globais outorgaria menores possibilidades, no cotejo com o testemunhado em territ\u00f3rios \u2013 geralmente em pa\u00edses centrais da economia mundial \u2013 onde se concentram o dinamismo inovador e o essencial da governan\u00e7a em n\u00edvel de cadeia.<\/p>\n<p>\u00c9 sugestiva e mesmo paradigm\u00e1tica a respeito a ind\u00fastria de confec\u00e7\u00f5es do vestu\u00e1rio. Grandes empresas ocidentais, donas de marcas fortes e dominantes no acesso ao mercado final, contratam a produ\u00e7\u00e3o \u2013 impondo todos os par\u00e2metros \u2013 junto a fabricantes situados na periferia do sistema mundial. As empresas globais que articulam esses v\u00ednculos s\u00e3o conhecidas: basta consultar cat\u00e1logos de artigos de vestu\u00e1rio esportivo ou de produtos <em>fast fashion<\/em> para que se sejam identificadas.<\/p>\n<p>Os territ\u00f3rios onde se materializam essas rela\u00e7\u00f5es s\u00f3 interessam \u00e0s empresas l\u00edderes de cadeias como espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o. A atratividade desses ambientes, quer dizer, a raz\u00e3o b\u00e1sica pela qual canalizam contratos de fornecimento, reside em padr\u00f5es de remunera\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es trabalhistas que se refletem em custos mais baixos de produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o raramente, observam-se nessas realidades complac\u00eancia e descaso de autoridades para com o descumprimento de leis e normas trabalhistas. Pa\u00edses e regi\u00f5es pobres de \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina exibem situa\u00e7\u00f5es desse tipo.<\/p>\n<p>As perspectivas desses pa\u00edses e regi\u00f5es em face da globaliza\u00e7\u00e3o assim manifestada est\u00e3o longe de ser animadoras. O quadro parece ser de aprofundamento das desigualdades no seio do sistema mundial, quanto ao dinamismo da economia e \u00e0s possibilidades de desenvolvimento. O mesmo pode ser dito, ainda com mais raz\u00e3o, sobre os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e a capacidade de inova\u00e7\u00e3o, esferas de import\u00e2ncia estrat\u00e9gica perante ao brutal acirramento da concorr\u00eancia que marca o per\u00edodo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Poucos discordariam de que, nessas circunst\u00e2ncias, crescem e se intensificam os desafios com que se deparam os respons\u00e1veis pela promo\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico e do desenvolvimento. \u00c9 assim quer no n\u00edvel nacional ou no local-regional de atua\u00e7\u00e3o e formula\u00e7\u00e3o\/execu\u00e7\u00e3o das correspondentes pol\u00edticas e iniciativas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Mobilidade do capital e possibilidades para as estruturas locais<\/strong><\/p>\n<p>Paralelamente \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio, o per\u00edodo atual tamb\u00e9m exibe uma grande mobilidade transfronteiri\u00e7a do capital. Investimentos de <em>portfolio<\/em> atingem elevados patamares, e o mesmo se verifica nos investimentos externos diretos envolvendo a cria\u00e7\u00e3o de novas capacidades produtivas ou compras de instala\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes. Os imperativos da globaliza\u00e7\u00e3o (sobretudo a maior concorr\u00eancia) subjazem a tais processos.<\/p>\n<p>Essa movimenta\u00e7\u00e3o do capital, mormente no setor produtivo, tem consequ\u00eancias nos ambientes implicados. Onde se registram sa\u00eddas de atividades, ligadas a processos de reestrutura\u00e7\u00e3o em setores ou empresas que resultam em contra\u00e7\u00e3o da capacidade instalada na origem e mudan\u00e7as locacionais, situa\u00e7\u00f5es de decl\u00ednio econ\u00f4mico podem se produzir, resultando em situa\u00e7\u00f5es de crise mais ou menos prolongadas. Exemplos n\u00e3o faltam.<\/p>\n<p>O filme-document\u00e1rio de Michael Moore (<em>Roger &amp; Me<\/em>) sobre o fechamento de f\u00e1bricas da <em>General Motors<\/em> na cidade de Flint, no estado americano de Michigan, nos anos 1980, registrou as graves dificuldades locais decorrentes de reestrutura\u00e7\u00e3o corporativa que inclu\u00eda a transfer\u00eancia de f\u00e1bricas para o M\u00e9xico. Essa experi\u00eancia \u00e9 somente uma entre v\u00e1rias que, em diferentes momentos e locais, pontuaram a trajet\u00f3ria desse setor.<\/p>\n<p>No Brasil, o oeste catarinense testemunhou nos anos 1990 mudan\u00e7as na agroind\u00fastria de carnes, carro-chefe da economia regional, que envolveram grandes investimentos das maiores empresas em outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Nesse processo, caiu bastante o n\u00famero de propriedades rurais familiares inseridas no historicamente instalado sistema de integra\u00e7\u00e3o colono-frigor\u00edfico, contribuindo para o decl\u00ednio populacional em v\u00e1rios munic\u00edpios devido \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o impulsionada pelo estreitamento das possibilidades locais. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Os efeitos socioterritoriais n\u00e3o s\u00e3o menos importantes em \u00e1reas para as quais os investimentos se dirigem. Podem ocorrer mudan\u00e7as de patamar tecnol\u00f3gico e avan\u00e7os organizacionais, com moderniza\u00e7\u00e3o produtiva, entre outros aspectos. Mas tamb\u00e9m a desestrutura\u00e7\u00e3o de atividades ou pr\u00e1ticas h\u00e1 longo tempo enraizadas, repercutindo social e economicamente, pode ter lugar ou se intensificar.<\/p>\n<p>Mostra-se eloquente o que aconteceu no setor l\u00e1cteo brasileiro depois da vigorosa entrada da italiana Parmalat, nos anos 1990. A investida foi marcada pela escalada nas compras de latic\u00ednios locais e a configura\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de exclusividade na canaliza\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria prima em diversas bacias leiteiras, alterando estruturas tradicionais. No come\u00e7o da d\u00e9cada seguinte, com a crise que levou a companhia \u00e0 fal\u00eancia, dificuldades foram amargadas pelos produtores de leite e demais fornecedores nos locais em que a Parmalat criara v\u00ednculos. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Sobretudo em \u00e1reas correspondentes a <em>clusters<\/em> industriais \u2013 quer dizer, em termos gerais, aglomera\u00e7\u00f5es de produtores setorialmente especializados que atuam com \u00a0\u201ctecidos\u201d institucionais de apoio \u2013, os investimentos de origem extrarregional tendem a repercutir fortemente. Esse problema tem motivado estudos sobre experi\u00eancias em diversos pa\u00edses: como esses arranjos s\u00e3o produtos da hist\u00f3ria (de pa\u00edses ou lugares), exibindo, portanto, \u201cprofundidade\u201d produtiva, institucional e mesmo sociocultural, n\u00e3o admira o interesse (e a inquieta\u00e7\u00e3o) em torno do potencial transformador incrustado nos capitais vindos de fora.<\/p>\n<p>Desassossego nesses termos h\u00e1 de incidir atualmente no setor de revestimentos cer\u00e2micos do sul de Santa Catarina, um importante reduto de produ\u00e7\u00e3o de pisos e azulejos. No intervalo de poucos meses foram vendidas duas tradicionais empresas do setor, surgidas em Crici\u00fama nos anos 1960: no segundo semestre de 2018 a Eliane passou \u00e0s m\u00e3os do grupo americano Mohawk Industries; no primeiro semestre de 2019 a Cecrisa foi comprada pela brasileira Duratex.<\/p>\n<p>A Eliane e a Cecrisa eram (s\u00e3o) pilares do <em>cluster<\/em> ceramista do sul catarinense. Em torno de ambas constituiu-se arranjo com diversos protagonistas das atividades vinculadas, como os colorif\u00edcios (fornecedores de insumos minerais para uso na decora\u00e7\u00e3o de produtos cer\u00e2micos) e outros fornecedores e tamb\u00e9m institui\u00e7\u00f5es. Presentes em setor com grande abrang\u00eancia e forte enraizamento socioecon\u00f4mico no sul de Santa Catarina, os agentes locais da produ\u00e7\u00e3o ceramista certamente perscrutam o futuro procurando decifrar o que lhes poder\u00e1 reservar a radical mudan\u00e7a patrimonial ocorrida. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Atmosfera de d\u00favida tamb\u00e9m persiste, provavelmente, entre fabricantes catarinenses de autope\u00e7as e componentes desde que a alem\u00e3 BMW inaugurou, em 2014, uma montadora de autom\u00f3veis em Araquari, munic\u00edpio da regi\u00e3o nordeste de Santa Catarina. Nesse tipo de iniciativa, as possibilidades de indu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e desenvolvimento local ou regional t\u00eam muito a ver com as pol\u00edticas das grandes empresas sobre compras e busca de servi\u00e7os <em>in loco<\/em>. Ora, mesmo possuindo f\u00e1bricas em v\u00e1rios pa\u00edses, o Grupo BMW, no ano em que suas opera\u00e7\u00f5es come\u00e7aram em Araquari, comprava na Europa nada menos que 80% do que utilizava para produzir ve\u00edculos (em todos os lugares), o que justifica indaga\u00e7\u00f5es sobre o que representaria a instala\u00e7\u00e3o da montadora para o tecido industrial de Santa Catarina.<\/p>\n<p><strong>A t\u00edtulo de ep\u00edlogo <\/strong><\/p>\n<p>Em face dos desafios (e tamb\u00e9m oportunidades) da globaliza\u00e7\u00e3o, as pol\u00edticas e iniciativas de promo\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas e de apoio ao desenvolvimento t\u00eam a sua import\u00e2ncia magnificada. Nos ambientes diretamente envolvidos (regi\u00f5es, cidades), o assunto h\u00e1 de representar motiva\u00e7\u00e3o para que estrat\u00e9gias sejam delineadas e a\u00e7\u00f5es correspondentes sejam protagonizadas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 terreno a ser laborado no marco de intera\u00e7\u00f5es construtivas envolvendo representantes de todos os segmentos das sociedades implicadas. A ideia de for\u00e7a-tarefa no \u00e2mbito territorial, estruturada com vistas \u00e0s provid\u00eancias necess\u00e1rias, n\u00e3o parece desprovida de sentido. Mobilizar os agentes e garantir-lhes representatividade nos debates e nas defini\u00e7\u00f5es constituiriam procedimentos inescap\u00e1veis. \u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":8989,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-8988","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8988"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8988"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8988\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8989"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}