{"id":8250,"date":"2019-08-08T13:52:41","date_gmt":"2019-08-08T16:52:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=8250"},"modified":"2019-08-08T13:52:41","modified_gmt":"2019-08-08T16:52:41","slug":"artigo-o-custo-elevado-da-politica-monetaria-e-a-pobreza-do-debate-sobre-inflacao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=8250","title":{"rendered":"Artigo &#8211; O custo elevado da Pol\u00edtica Monet\u00e1ria e a pobreza do debate sobre infla\u00e7\u00e3o no Brasil."},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Alexsandro Sousa Brito, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (DECON\/UFMA); Thiago Melo Antoniolli, doutorando em Economia no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Economia da Universidade Federal Fluminense (PPGE\/UFF); e Rodrigo Gustavo de Souza, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (DECON\/UFMA).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Embora ainda muito recente, a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, do atual governo, parece n\u00e3o diferir, significativamente, do que vem se consolidando nos \u00faltimos dois anos. O consenso estabelecido de que h\u00e1 um processo gradual de recupera\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, ainda permanece, embora haja o reconhecimento de que, no \u00faltimo trimestre, esse processo tenha sido interrompido pelo prov\u00e1vel recuo do PIB (com queda de 0,68%), o que vem suscitando revis\u00f5es significativas nas proje\u00e7\u00f5es para o crescimento do PIB brasileiro em 2019. \u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O entendimento do Banco Central \u00e9 que os \u00f3bices sobre a atividade econ\u00f4mica, como o deste \u00faltimo trimestre, decorrem dos choques sofridos em 2018, cujos efeitos persistem, com defasagens, apesar de extinguidos os impactos imediatos desses choques. A cren\u00e7a de que, apesar dos \u00f3bices, ainda estamos num processo gradual de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, parece partir do balan\u00e7o de risco sim\u00e9trico do BC, da convic\u00e7\u00e3o que, pelo menos desde 2017, a taxa de juros encontra-se em terreno estimulativo (com taxas de juros reais <em>ex-ante<\/em> menor que a taxa estrutural) para atividade econ\u00f4mica e de que as expectativas de infla\u00e7\u00e3o encontram-se ancoradas, bem como do fato de que as estimativas da taxa at\u00e9 2020, s\u00e3o adequadas aos objetivos da meta de infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se por um lado, temos no per\u00edodo recente juros e infla\u00e7\u00e3o em patamares hist\u00f3ricos, por outro, as taxas de juros vigentes vieram de patamares elevados e a\u00ed se mantiveram por longo per\u00edodo, o que postergou os efeitos delet\u00e9rios dessa pol\u00edtica. Provavelmente por isso, estamos num quadro paradoxal de taxa de juros estimulativa e infla\u00e7\u00e3o baixa, com desemprego alto e crescimento baixo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O custo da gest\u00e3o da liquidez e o patamar da infla\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, a pol\u00edtica monet\u00e1ria vigente traz custos n\u00e3o desprez\u00edveis. H\u00e1, pelo menos, dois aspectos importantes a se considerar: o primeiro refere-se ao custo significativo da gest\u00e3o de liquidez por meio das opera\u00e7\u00f5es compromissadas (opera\u00e7\u00e3o em que o Banco Central \u2013 BC, vende ou compra t\u00edtulos p\u00fablicos com o compromisso de recompr\u00e1-los ou revende-los;). No final de 2006, essas opera\u00e7\u00f5es representavam 3,2% do PIB; em mar\u00e7o de 2019, chegaram a 18%! Nesse per\u00edodo esse tipo de opera\u00e7\u00e3o cresceu, em termos reais, mais de 8 vezes! Apenas entre fevereiro e mar\u00e7o, desse ano, houve aumento de cerca de 3% no volume dessas opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O que causa relativo espanto \u00e9 que quando observamos a experi\u00eancia internacional, constatamos que o Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds a usar, de maneira significativa, deste instrumento para gest\u00e3o da liquidez. A escolha por este instrumento n\u00e3o \u00e9 ausente de consequ\u00eancias. O primeiro impacto desse modelo de gest\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e9 o custo fiscal. Essas opera\u00e7\u00f5es representam, hoje, mais de 20% da d\u00edvida bruta do governo. Portanto, parte importante do endividamento brasileiro tem origem no custo monet\u00e1rio da gest\u00e3o de liquidez feita pelo Banco Central, atrav\u00e9s dessas opera\u00e7\u00f5es compromissadas. Outro importante impacto \u00e9 sobre o cr\u00e9dito, como os recursos s\u00e3o alocados no BC que os remunera diariamente, h\u00e1 um enxugamento do n\u00edvel de liquidez que encarece o cr\u00e9dito, dificultando a atividade da ind\u00fastria e com\u00e9rcio no tocante a financiamento e empr\u00e9stimos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O segundo aspecto diz respeito ao Regime de Metas de Infla\u00e7\u00e3o (RMI) e \u00e0 discuss\u00e3o quanto ao patamar adequado do n\u00edvel de pre\u00e7os. Embora esta discuss\u00e3o tenha \u201cdesaparecido\u201d atualmente, dado os n\u00edveis adequados do IPCA e da \u201cancoragem\u201d das expectativas, \u00e9 importante destacar que o RMI imprime um custo elevado \u00e0 atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Um dos problemas \u00e9 que o RMI \u201ccriou\u201d um estado de \u201cp\u00e2nico\u201d generalizado, no passado recente, junto aos agentes econ\u00f4micos e \u00e0 grande m\u00eddia, todas as vezes que a infla\u00e7\u00e3o \u201cdesprendia-se\u201d do chamado centro da meta. Um r\u00e1pido olhar para tr\u00e1s mostra-nos que desde a implementa\u00e7\u00e3o do RMI, rar\u00edssimas vezes a infla\u00e7\u00e3o efetiva ultrapassou o chamado limite superior da meta. Al\u00e9m disso, j\u00e1 tivemos, como \u00e9 do conhecimento do p\u00fablico especializado, metas bem mais altas com limite superior na casa dos 8% e 10%, bem como, j\u00e1 chegamos a ultrapassar o centro da meta em mais de 8%, quando o RMI exigia uma toler\u00e2ncia de apenas 2%, como foi o caso em 2002, e, nem por isso, o \u201cmundo acabou\u201d, a economia entrou em recess\u00e3o, o desemprego aumentou ou qualquer coisa parecida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O RMI, classificado por Bernanke (1999) como uma discri\u00e7\u00e3o restringida, limita a a\u00e7\u00e3o da autoridade monet\u00e1ria ao determinar seu objetivo e instrumento de atua\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e9 formalizada numa regra de Taylor (1993), que em sua equa\u00e7\u00e3o apresenta o n\u00edvel da taxa de juros corrente em fun\u00e7\u00e3o da taxa de infla\u00e7\u00e3o e do produto agregado. N\u00e3o obstante, a equa\u00e7\u00e3o original de Taylor, publicada em 1993, atribu\u00eda peso maior para o n\u00edvel de pre\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o ao hiato do produto; nos \u00faltimos anos, num contexto de baixas taxas de crescimento do produto e da infla\u00e7\u00e3o, emerge a discuss\u00e3o se n\u00e3o se deveria dar mais \u00eanfase ao n\u00edvel do produto agregado, ou seja, adotar de fato um duplo mandato para a pol\u00edtica monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No Brasil, no entanto, n\u00e3o parece ser preocupa\u00e7\u00e3o do BC a imposi\u00e7\u00e3o de uma meta para o crescimento do produto \u2013 mesmo diante do baixo crescimento apresentado pela economia brasileira. Isso fica evidente a partir do resultado da \u00faltima reuni\u00e3o do COPOM, que apesar das sucessivas redu\u00e7\u00f5es na previs\u00e3o de crescimento da economia e do poss\u00edvel resultado negativo (-0,68%) no primeiro trimestre reluta em reduzir a taxa b\u00e1sica de juros. Nesse contexto, a pol\u00edtica monet\u00e1ria fica amarrada ao comportamento do IPCA, que, por sua vez, toma a forma de term\u00f4metro da atividade econ\u00f4mica. Contudo, tem-se reconhecido nos \u00faltimos anos a incapacidade dos \u00edndices de pre\u00e7os em serem bons indicadores do ambiente econ\u00f4mico ou sequer da estabilidade econ\u00f4mica (objetivo prec\u00edpuo do RMI), uma vez que n\u00e3o captam diversas nuances como, por exemplo, o n\u00edvel de alavancagem dos agentes ou a valoriza\u00e7\u00e3o de ativos. Logo, ao tomar isoladamente o IPCA (ou mais precisamente, as expectativas sobre o comportamento futuro do IPCA), como indicador para a pol\u00edtica monet\u00e1ria, o BC reduz sua capacidade de an\u00e1lise e do reconhecimento das reais necessidades da atual conjuntura da economia brasileira.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O debate sobre a infla\u00e7\u00e3o no Brasil passou a ser uma discuss\u00e3o sobre m\u00e9trica, sobre o n\u00facleo e seus limites, superior e inferior. Passando-se a considerar alta a infla\u00e7\u00e3o efetiva que ultrapassa o centro da meta. Uma conclus\u00e3o contest\u00e1vel, uma vez que, assim n\u00e3o se consideram os impactos da infla\u00e7\u00e3o e suas causas. Dever\u00edamos, portanto, discutir a partir de que patamar o impacto sobre o produto torna-se negativo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o pode ocorrer por diversas causas: desequil\u00edbrios estruturais entre a oferta e a demanda ligado \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o vend\u00e1veis ou de investimentos, que implicam em uma distribui\u00e7\u00e3o imediata e significativa de renda, sem que haja um aumento concomitante da oferta de bens e servi\u00e7os, ou que estes aconte\u00e7am com grande defasagem; mudan\u00e7a da estrutura de custos dado o conflito pol\u00edtico de reparti\u00e7\u00e3o da renda entre capital e trabalho ou em fun\u00e7\u00e3o de alta inesperada dos custos de produ\u00e7\u00e3o que torna a oferta menos lucrativa e reduz o volume ofertado; ou pela redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de concorr\u00eancia nos mercados que faz as empresas repassarem custos diretamente ao consumidor sem proverem outras alternativa de redu\u00e7\u00e3o de custos; choque de oferta ou por choques de demanda; conflito distributivo; e muitas outras, a depender da especificidade de cada economia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de se saber as fontes que desencadeiam a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada a capacidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica de suprimir o pr\u00f3prio desequil\u00edbrio e n\u00e3o apenas torn\u00e1-lo latente, combatendo\u00a0 apenas o sintoma do desequil\u00edbrio, de inquirir sobre as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que governam os ajustes de pre\u00e7os dos bens e servi\u00e7os que afetam a vida de todos n\u00f3s. Se a infla\u00e7\u00e3o tem causas diversas, \u00e9 coerente admitir a necessidade de discricionariedade na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria. N\u00e3o se pode tratar sempre do mesmo modo fen\u00f4menos que por natureza s\u00e3o suscet\u00edveis a mudan\u00e7as cont\u00ednuas, como s\u00e3o os fen\u00f4menos sociais. E, s\u00f3 para lembrar, os fen\u00f4menos econ\u00f4micos s\u00e3o fen\u00f4menos sociais! E a infla\u00e7\u00e3o, ao longo da hist\u00f3ria, tem apresentado distintas fontes din\u00e2micas que, nem sempre se enquadram, nas hip\u00f3teses do RMI.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Para o RMI, a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 invariavelmente um resultado de choques de demanda, a taxa de juros \u00e9 sempre a vari\u00e1vel que controla a demanda agregada e as varia\u00e7\u00f5es na taxa de c\u00e2mbio s\u00e3o efeitos colaterais do processo. No entanto, essas hip\u00f3teses s\u00f3 se sustentam, como mostrado pela literatura especializada, se alguns pressupostos forem v\u00e1lidos: se o hiato do produto afetar a infla\u00e7\u00e3o de forma sistem\u00e1tica; se os choques inflacion\u00e1rios tiverem persist\u00eancia total; se o produto potencial for sempre independente do produto corrente; e se os choques de custos forem aleat\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Assim, a infla\u00e7\u00e3o que o RMI espera combater n\u00e3o \u00e9 produzida por qualquer desequil\u00edbrio de pre\u00e7o, mas \u00e9 espec\u00edfica de desequil\u00edbrio de demanda. Bom, mas o caso brasileiro \u00e9 assim? A infla\u00e7\u00e3o brasileira dos \u00faltimos anos tem apresentado essas caracter\u00edsticas? Alguns estudos mostram que n\u00e3o h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o entre desemprego e infla\u00e7\u00e3o no Brasil; que os choques inflacion\u00e1rios recentes n\u00e3o tem persist\u00eancia total sobre a infla\u00e7\u00e3o; que a tend\u00eancia do produto \u00e9 totalmente correlacionada com a evolu\u00e7\u00e3o do produto corrente; e que os choque de oferta n\u00e3o s\u00e3o aleat\u00f3rios: h\u00e1 pre\u00e7os administrados que impuseram peso consider\u00e1vel sobre o n\u00edvel do IPCA; h\u00e1 contratos atrelados ao IGP, que s\u00e3o afetados quando h\u00e1 varia\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio, que por sua vez est\u00e1, fortemente correlacionado com a taxa de juros, n\u00e3o sendo, portanto, um efeito colateral; al\u00e9m disso, as <em>commodities<\/em> cresceram desde o final dos anos 90 impondo crescimento dos pre\u00e7os de bens importados, embora no final da d\u00e9cada dos anos dois mil, os pre\u00e7os tenham come\u00e7ado a cair; al\u00e9m disso, o sal\u00e1rio real teve eleva\u00e7\u00e3o significativa com a pol\u00edtica de recomposi\u00e7\u00e3o do poder de compra, o que impactou, tamb\u00e9m, a estrutura de custos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Reconheceu-se, de maneira tardia, que o problema da infla\u00e7\u00e3o no Brasil n\u00e3o era necessariamente de demanda, bem como que a infla\u00e7\u00e3o era \u201csegurada\u201d pelo c\u00e2mbio e n\u00e3o exatamente pela taxa de juros. Ali\u00e1s mesmo que o fosse, qual seria a garantia que os pre\u00e7os recuariam? Provavelmente, o impacto mais significativo dos juros se deu sobre o n\u00edvel de atividade do que sobre os pre\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, para al\u00e9m da m\u00e9trica do debate sobre infla\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso considerar qual o patamar em que a infla\u00e7\u00e3o efetiva degrada a efici\u00eancia produtiva da economia brasileira. Essa quest\u00e3o n\u00e3o se resolve evitando que a infla\u00e7\u00e3o ultrapasse o n\u00facleo da meta. As experi\u00eancias hist\u00f3ricas das economias modernas indicam que os pa\u00edses suportaram taxas de infla\u00e7\u00e3o de 5% a 20% ao ano sem comprometer sua efici\u00eancia produtiva. Trabalhos como o do professor Robert Barro (1996), proeminente economista defensor do livre mercado, sugere que a infla\u00e7\u00e3o moderada, de 10% a 20%, tem um baixo impacto negativo sobre o crescimento econ\u00f4mico e que at\u00e9 pr\u00f3ximo de 10% a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhum efeito. Al\u00e9m dele, outro Economista, M. Sarel (1996), estimou que at\u00e9 pr\u00f3ximo de 8% a infla\u00e7\u00e3o causa apenas um pequeno impacto no crescimento e que a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 positiva abaixo desse n\u00edvel, ou seja, abaixo desse n\u00edvel a infla\u00e7\u00e3o ajuda, ao inv\u00e9s de atrapalhar o crescimento. H\u00e1 outros estudos que elevam o n\u00edvel de quebra sobre o produto para o patamar de 20% e at\u00e9 mesmo 40% ao ano, como \u00e9 o caso dos estudos de M. Bruno e W. Easterly (1996).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es s\u00e3o importantes porque qualifica o que podemos chamar de infla\u00e7\u00e3o alta. Uma infla\u00e7\u00e3o alta n\u00e3o est\u00e1, necessariamente, relacionada com sua dist\u00e2ncia do centro da meta de infla\u00e7\u00e3o, mas com o ponto de quebra a partir do qual come\u00e7a a afetar negativamente o produto. Al\u00e9m desse aspecto, \u00e9 preciso considerar que o patamar deve estar associado historicamente a estrutura econ\u00f4mica de cada pa\u00eds. Considerando os \u00faltimos 20 anos, a infla\u00e7\u00e3o brasileira m\u00e9dia tem sido de 6,35%, o que sugere que a economia brasileira \u201croda\u201d historicamente, no que diz respeito as \u00faltimas duas d\u00e9cadas, a uma taxa em torno dos 6% ao ano. Se lembrarmos que essa era aproximadamente o limite superior da meta de 4,5%, definida desde 2005, n\u00e3o h\u00e1 como deixar de concluir que o regime de metas estabelece a priori um patamar desconectado com os n\u00edveis hist\u00f3ricos m\u00e9dios de infla\u00e7\u00e3o da economia brasileira! Ora a pr\u00f3pria literatura sobre os desenhos de metas de infla\u00e7\u00e3o ao sugerirem que a meta deva ser estabelecida como um ponto, um intervalo ou um ponto com bandas de toler\u00e2ncia j\u00e1 sinaliza para que a meta de infla\u00e7\u00e3o deve estar associada \u00e0 experi\u00eancia de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Numa leitura conservadora, podemos dizer que pa\u00edses com experi\u00eancias de altas taxas de infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem convergir rapidamente para um patamar de meta muito baixo; metas mais elevadas ou com bandas de toler\u00e2ncia ou constitu\u00eddas de intervalos, s\u00e3o mecanismos para atenuar o \u00f4nus social em decorr\u00eancia de pol\u00edticas monet\u00e1rias mais austeras na condu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o para meta, que deve estar associada \u00e0s especificidades de cada pa\u00eds. Parece-nos que esta etapa do desenho da pol\u00edtica de metas de infla\u00e7\u00e3o foi esquecida, restando apenas uma perspectiva ultraconservadora quanto \u00e0 infla\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A pobreza do debate sobre a infla\u00e7\u00e3o no Brasil n\u00e3o se resume apenas ao discurso da m\u00e9trica, ou a postura conservadora que considerava a infla\u00e7\u00e3o no Brasil algo fora do controle, sem perquirir as raz\u00f5es hist\u00f3ricas, a natureza do contexto de infla\u00e7\u00e3o e os reais impactos sobre a economia; reside tamb\u00e9m na incapacidade do debate de sopesar os efeitos pol\u00edticos das decis\u00f5es da pol\u00edtica monet\u00e1ria, n\u00e3o apenas quanto \u00e0 imagem da autoridade monet\u00e1ria ou da influ\u00eancia pol\u00edtica sobre a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, mas, sobretudo quanto aos efeitos que essa pol\u00edtica produz sobre as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as dentro do bloco de poder hegem\u00f4nico no Estado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter clareza que a pol\u00edtica monet\u00e1ria est\u00e1 sujeita a press\u00f5es decorrentes das estrat\u00e9gicas e interesses de poderosos <em>stakeholders<\/em> que s\u00e3o diretamente afetados pela orienta\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica. Portanto, n\u00e3o se pode perder de vista que a pol\u00edtica monet\u00e1ria tem um impacto muito maior que a varia\u00e7\u00e3o das estat\u00edsticas dos agregados macroecon\u00f4micos. Seus efeitos reverberam sobre a vida, e se a luta pela estabilidade monet\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o da vida, da redu\u00e7\u00e3o da pobreza e da desigualdade, estar\u00e1 a servi\u00e7o do qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Refer\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Barro, R. <strong>Inflation and growth<\/strong>. Review of Federal Reserve Bank of St Louis, vol. 78, nr.3, 1996.<\/p>\n<p>BERNANKE, B. S.; LAUBACH, T.; MISHKIN, F. S.; POSEN, A. S. <strong>Inflation Targeting: lessons for international experience<\/strong>. Princeton: Princeton University Press, 1999.<\/p>\n<p>M.Bruno. <strong>Does inflation really lower growth?<\/strong> Finance and Development, vol. 32, 1995.<\/p>\n<p>M.Bruno e W.Easterly. <strong>Inflation and growth: in search of a stable relationship<\/strong>. Review of Federal Reserve Bank of St Louis, vol. 78, nr. 3, 1996.<\/p>\n<p>Sarel, M. <strong>Non-linear effects of inflation on economic growth<\/strong>. IMF Staff Papers, vol. 43, 1996.<\/p>\n<p>TAYLOR, J. B. <strong>Discretion vs Policy Rules in Practice<\/strong>. Carnegie-Rochester Conference Series on Public Policy 39, p. 195-214. North-Holland Publising Company, 1993.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":8251,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-8250","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8250"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8250"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8250\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}