{"id":8052,"date":"2019-07-11T10:26:09","date_gmt":"2019-07-11T13:26:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=8052"},"modified":"2019-07-11T10:26:09","modified_gmt":"2019-07-11T13:26:09","slug":"artigo-metropole-brasileira-e-exclusao-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=8052","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Metr\u00f3pole Brasileira e Exclus\u00e3o Feminina"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Ana Cl\u00e1udia Arruda Laprovitera<em> &#8211; <\/em>Economista, mestre em economia CEDEPLAR-UFMG, doutora em Planejamento Urbano-UFPE e presidente do CORECON-PE<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/11-07.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8053 alignleft\" src=\"http:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/11-07.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/11-07.jpg 350w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/11-07-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a>Na antiguidade cl\u00e1ssica o termo \u201cMetr\u00f3pole\u201d era usado para indicar as mais importantes cidades gregas. No per\u00edodo mercantilista europeu, a express\u00e3o \u201cmetr\u00f3poles\u201d, passou a ser usada para indicar as na\u00e7\u00f5es mais importantes econ\u00f4mica e militarmente e que dominavam a revolu\u00e7\u00e3o comercial e que, por conseguinte, detinham militar e comercialmente suas col\u00f4nias para obten\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas agr\u00edcolas e minerais e\u00a0 escoamento de parte de seus produtos. No mundo contempor\u00e2neo, fundamentalmente marcado pela \u201csociedade urbana\u201d, o termo metr\u00f3pole passou\u00a0 a representar os grandes aglomerados humanos de vizinhan\u00e7a de poder pol\u00edtico e grande din\u00e2mica econ\u00f4mica, influenciando novos padr\u00f5es de comportamentos humanos e novas formas de rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas em v\u00e1rias esferas e escalas geogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Uma das melhores defini\u00e7\u00f5es para a metr\u00f3pole do mundo moderno \u00e9 a do ge\u00f3grafo franc\u00eas Guy Di M\u00e9o (2008), ao interpretar a metr\u00f3pole por sua fun\u00e7\u00e3o social, apontando-as como \u201cm\u00e3es possessivas: h\u00edbridas e multirraciais e grandes disciplinadoras e organizadoras dos novos espa\u00e7os geogr\u00e1ficos\u201d. Destarte, enfatiza sua fun\u00e7\u00e3o como importantes interlocutoras de outros espa\u00e7os e respons\u00e1veis por uma s\u00e9rie de novas fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais, culturais, pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas. Irradiando seus efeitos, a metr\u00f3pole cria tamb\u00e9m polariza\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias, ou seja, cria novas centralidades parciais no seu entorno. E, continua o autor: \u201ca palavra<em>\u201cmetr\u00f3pole\u201d<\/em>, sabe-se, cont\u00e9m em si a figura e os conceitos de \u201cp\u00f3lo\u201d, isto \u00e9, piv\u00f4 sobre o qual gira uma coisa. Todavia, como desdobramento natural desta fun\u00e7\u00e3o dinamizadora, \u201cp\u00f3lo\u201d \u00e9 tamb\u00e9m ponto que atrai e potencializa novos efeitos econ\u00f4micos (p\u00f3lo de atra\u00e7\u00e3o) como esp\u00e9cie de campo magn\u00e9tico. Ainda sobre o conceito de metr\u00f3pole moderna, George Simmel, em artigo publicado no ano 1903, intitulado <em>A Metr\u00f3pole e a Vida Mental<\/em>, destaca os est\u00edmulos existenciais especiais que envolvem a vida das pessoas que habitam as metr\u00f3poles, bem como o poder de atratividade, de sofistica\u00e7\u00e3o e de estilo de vida metropolitana. Para Simmel \u201ca metr\u00f3pole sempre foi a sede da economia monet\u00e1ria. E o dinheiro \u00e9 quem domina a metr\u00f3pole\u201d.<\/p>\n<p>Neste contexto amplo e hist\u00f3rico, registre-se, todavia, a forma especial e prec\u00e1ria como vem se dando a ocupa\u00e7\u00e3o urbana nos munic\u00edpios de influ\u00eancia ou nas \u201cfranjas\u201d das metr\u00f3poles latino-americanas e brasileiras, marcada por uma baixa qualidade de vida e organiza\u00e7\u00e3o urban\u00edstica. A quantidade de assentamentos irregulares (favelas, mocambos, palafitas, etc), decorrentes da expans\u00e3o habitacional extremamente prec\u00e1ria e com insufici\u00eancia de infraestrutura urbana e de oferta de servi\u00e7os sociais b\u00e1sicos ou de planos habitacionais para as popula\u00e7\u00f5es de baixa renda que ali se amontoam, marcam a lament\u00e1vel aus\u00eancia de servi\u00e7os governamentais b\u00e1sicos e de controle urban\u00edstico desses territ\u00f3rios. A quase totalidade dos trabalhadores precarizados, assalariados de baixa renda ou informalizados que moram nesses bairros pobres da periferia urbana habitam em favelas, pela aus\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o organizadora e protetora do aparelho do Estado, precariamente e sem disciplina mas por necessidade de sobreviv\u00eancia, logo e de forma indisciplinada alteram a natural estrutura espacial ali encontrada, buscando atender \u00e0s crescentes demandas de infraestrutura social b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Essa alta precariza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9, tamb\u00e9m, acompanhada de sua alta volatilidade, fato este que aumenta, ainda mais, a fragmenta\u00e7\u00e3o social provocando impactos na morfologia metropolitana de forma abrupta. O mercado de trabalho vem sofrendo transforma\u00e7\u00f5es radicais ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas com o surgimento de r\u00e1pidas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas geradoras de alto desemprego do fator humano afetando as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, com a exig\u00eancia de coloca\u00e7\u00f5es altamente especializadas e intensivas em conhecimento, dif\u00edcil de serem aprendidas naqueles espa\u00e7os vulner\u00e1veis e precarizados. Assim, mesmo a m\u00e3o de obra pouco especializada ali existente, \u00e9 voltada para servi\u00e7os de baixa qualifica\u00e7\u00e3o e remunera\u00e7\u00e3o, a exemplo dos servi\u00e7os dom\u00e9sticos, transporte manual de mercadorias, de limpeza, manuten\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia, com\u00e9rcio de feirantes, etc. Em geral, s\u00e3o atividades de baixa produtividade, baixa remunera\u00e7\u00e3o e prec\u00e1rias do ponto de vista trabalhista, tendo em vista, inclusive, a pouca fiscaliza\u00e7\u00e3o do Estado no que diz respeito ao cumprimento da legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica vigente.<\/p>\n<p>As grandes cidades brasileiras s\u00e3o marcadas por grandes contradi\u00e7\u00f5es internas intraurbanas, o que consolida um modelo de desenvolvimento urbano dicot\u00f4mico, podendo ser caracterizado como \u201cdual\u201d ou \u201cfractal\u201d. O modelo de desenvolvimento urbano \u201cdual\u201d ou \u201cfractal\u201d \u00e9 caracterizado por grandes desigualdades econ\u00f4micas e sociais, sendo fen\u00f4meno t\u00edpico dos pa\u00edses latino-americanos e que aparece com grande intensidade nas capitais brasileiras. Ressalte-se, ademais, que tal modelo prec\u00e1rio de vida humana e de crescimento anti-social tende a impactar na configura\u00e7\u00e3o da estrutura espacial da metr\u00f3pole afetando sobretudo e mais fortemente os segmentos de popula\u00e7\u00f5es mais fr\u00e1geis. \u00c9 a\u00ed onde aparecem os segmentos ultra-flagilizados de meninas e mulheres pobres e da periferia urbana e que pela condi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica e hist\u00f3rico-social de g\u00eanero ficam expostas a maiores limita\u00e7\u00f5es e sofrimentos pessoais e familiares e v\u00edtimas preferenciais e fr\u00e1geis da viol\u00eancia humana. \u00c9 neste espa\u00e7o que a sociedade brasileira se defronta com o principal segmento da popula\u00e7\u00e3o humana fragilizada e desprotegida e carente de aten\u00e7\u00f5es especiais do Estado. V\u00ea-se, dentro ponto de vista de g\u00eanero, o grande n\u00famero de mulheres jovens latino-americanas (de 15 a 24 anos) desesperan\u00e7adas, que n\u00e3o estudam e n\u00e3o trabalham, e cujo n\u00famero \u00e9 estimado em cerca de 12,5 milh\u00f5es, ou seja, 27% da popula\u00e7\u00e3o total. Nessa mesma faixa et\u00e1ria, os homens representam n\u00famero menor, de 7,5 milh\u00f5es, 14% do total. Assim, v\u00ea-se que a propor\u00e7\u00e3o de mulheres que n\u00e3o est\u00e3o inseridas no sistema educacional e no mercado de trabalho \u00e9 mais do que o dobro da fra\u00e7\u00e3o de homens. No Brasil, as mulheres que se enquadram na ora citada categoria \u201cfragilizada\u201d representam 28% do total, ou seja, 10 pontos a mais do que os homens. Registra-se que um dos fen\u00f4menos determinantes para essa situa\u00e7\u00e3o (mulheres que n\u00e3o estudam e n\u00e3o trabalham) \u00e9 a gravidez indesejada na adolesc\u00eancia, que termina impactando de forma ainda mais tr\u00e1gica na vida e no futuro dessas mulheres, e de forma permanente.<\/p>\n<p>De acordo com estudo da OIT- Organiza\u00e7\u00e3o internacional do Trabalho em 2018, a taxa mundial entre os homens que est\u00e3o no mercado de trabalho formal \u00e9 de 75%, contra percentual de apenas 48,5% entre mulheres, 26,5% mais baixa que a dos homens. No Brasil, de acordo com o Minist\u00e9rio do Trabalho o percentual de mulheres no mercado de trabalho formal \u00e9 de 45%. Ademais, sabe-se que a maior parte das mulheres que est\u00e1 no mercado de trabalho realiza servi\u00e7os de baixa complexidade e remunera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o obstante o avan\u00e7o da escolariza\u00e7\u00e3o feminina. O que se observa, portanto, \u00e9 que o aumento da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho (frente \u00e0s desregulamenta\u00e7\u00f5es trabalhistas) combinado com habita\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias nas periferias urbanas e nos grandes bols\u00f5es de pobreza intrametr\u00f3pole, onde essas mulheres possam se inserir de forma competitiva e extremamente explorat\u00f3ria, sendo ainda as v\u00edtimas especiais das condi\u00e7\u00f5es sociais m\u00edseras da elevada pobreza urbana onde residem, combinada aos elevados \u00edndices de criminalidade e a viol\u00eancia machista a que est\u00e3o sujeitas. Ressalta-se que a falta de seguran\u00e7a e cultura machista desrespeitosa e agressiva contra as mulheres que atinge grande parte das mulheres brasileiras e sul-americanas se acentuam nas periferias e nos grandes bols\u00f5es de pobreza do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por outro lado, o modelo de grande cidade, com necessidades de grandes deslocamentos humanos e precar\u00edssimos meios de transporte intra e interurbanos e grandes bols\u00f5es de pobreza perif\u00e9ricos e intra-metr\u00f3pole n\u00e3o atende e fragiliza ainda mais as necessidades da maioria das mulheres, que ainda se encontram deslocadas tragicamente na base da pir\u00e2mide capitalista. As graves defici\u00eancias nos chamados servi\u00e7os sociais b\u00e1sicos (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a) e na infraestrutura urbana (saneamento b\u00e1sico, saneamento ambiental, limpeza p\u00fablica, mobilidade urbana adequada nos transportes coletivos, ilumina\u00e7\u00e3o urbana, etc.), transformam-se em formas violentas de opress\u00e3o devastadora e que recaem em especial sobre as mulheres jovens e idosas deste pa\u00eds. Torna-se urgente, portanto, um olhar mais atento objetivando criar e executar agenda de inclus\u00e3o social humana efetiva com \u00eanfase no combate \u00e0 pobreza e \u00e0 viol\u00eancia a que est\u00e3o submetidas as meninas e mulheres brasileiras, o que requer um esfor\u00e7o urgente e maior de vis\u00e3o human\u00edstica e de planejamento e de a\u00e7\u00e3o efetiva mais forte no aprovisionamento de infraestrutura f\u00edsica e de servi\u00e7os sociais b\u00e1sicos nas \u00e1reas urbanas perif\u00e9ricas das metr\u00f3poles brasileiras.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":8053,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-8052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8052"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8052"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8052\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8053"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}