{"id":3982,"date":"2018-03-07T19:16:30","date_gmt":"2018-03-07T22:16:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=3982"},"modified":"2018-03-07T19:16:30","modified_gmt":"2018-03-07T22:16:30","slug":"artigo-o-mercado-de-trabalho-pos-recessao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=3982","title":{"rendered":"Artigo &#8211; O mercado de trabalho p\u00f3s-recess\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Encerramos a semana passada com a esperada divulga\u00e7\u00e3o do resultado do\u00a0PIB de 2017. Como estimado pelo mercado, foi registrado um aumento de 1%\u00a0no produto, fortemente influenciado pelo desempenho da supersafra agr\u00edcola\u00a0(milho e soja principalmente) e por um pequeno (1%) aumento do consumo\u00a0das fam\u00edlias (despesa com forte import\u00e2ncia no PIB), que havia registrado\u00a0queda em anos anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao mercado de trabalho, j\u00e1 no segundo trimestre de 2017\u00a0pudemos observar uma ligeira queda da taxa de desocupa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s dois anos\u00a0seguidos de expans\u00e3o. Ainda assim o mercado de trabalho fechou o ano de\u00a02017 com a maior taxa m\u00e9dia de desemprego de toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica,\u00a0registrando 12,7% de desocupa\u00e7\u00e3o, estimado pela PNAD Cont\u00ednua\/IBGE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em novembro de 2016, no audit\u00f3rio do BNDES, o economista Gabriel Palma,\u00a0professor nas Universidades de Cambridge, Inglaterra e Santiago, no Chile\u00a0falava da capacidade do Brasil em gerar emprego. Concluiu, em seus estudos\u00a0sobre a produtividade do trabalho ap\u00f3s as reformas neoliberais, que de 1970\u00a0at\u00e9 hoje os pa\u00edses latino-americanos foram capazes de gerar emprego na\u00a0mesma velocidade com que o PIB cresceu, o que n\u00e3o ocorre em nenhuma\u00a0outra regi\u00e3o do mundo. Ou seja, o resto do mundo n\u00e3o \u00e9 capaz de gerar\u00a0emprego nem equivalente \u00e0 metade do crescimento do PIB enquanto n\u00f3s,\u00a0latino-americanos, geramos duas vezes mais empregos do que os demais\u00a0pa\u00edses, mediante um crescimento da economia. \u00a0Entretanto, esse fen\u00f4meno ocorre exclusivamente devido ao setor de servi\u00e7os\u00a0n\u00e3o superiores. Sen\u00e3o, vejamos, de todas as vagas de trabalho criadas em\u00a02017, aproximadamente 70% foram no setor de servi\u00e7os. Este setor,\u00a0acrescido do com\u00e9rcio, \u00e9 respons\u00e1vel por iguais 70% do emprego do pa\u00eds. E\u00a0qual a caracter\u00edstica deste tipo de emprego? Baixos sal\u00e1rios, eventualmente\u00a0aus\u00eancia dos direitos trabalhistas e um potencial de crescimento da\u00a0produtividade muito baixo, o que faz este tipo de trabalho prec\u00e1rio n\u00e3o\u00a0apenas sob o ponto de vista dos trabalhadores mas tamb\u00e9m sob o ponto de\u00a0vista do crescimento econ\u00f4mico, pela pouca capacidade de aumentar a\u00a0produtividade no longo prazo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto negativo apontado pelo professor Palma, \u00e9 que este tipo de\u00a0emprego pode fazer a economia crescer em torno de 3% ao ano e, sendo\u00a0assim, por que investir? Por que fazer pol\u00edtica industrial se temos a singular\u00a0capacidade de crescer a esta taxa apenas com gera\u00e7\u00e3o de emprego prec\u00e1rio? A contra\u00e7\u00e3o da taxa de investimento em 2017 parece confirmar a\u00a0teoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para melhor entendermos o que se passou no mercado de trabalho brasileiro\u00a0fa\u00e7o algumas ilustra\u00e7\u00f5es. De 2014 a 2017 perdemos aproximadamente 3,2\u00a0milh\u00f5es de v\u00ednculos de trabalho com carteira assinada. Neste mesmo per\u00edodo\u00a0a atividade que relativamente mais gerou postos de trabalho foi Alojamento e\u00a0Alimenta\u00e7\u00e3o, no setor Servi\u00e7os, com incremento de 21,4% do emprego.\u00a0Temos nesta atividade um pouco mais de cinco milh\u00f5es de pessoas\u00a0trabalhando, englobando hotelaria e outros tipos de alojamento; enquanto na\u00a0parte da alimenta\u00e7\u00e3o temos os restaurantes, os servi\u00e7os de buf\u00ea, etc; e os\u00a0servi\u00e7os de ambulantes de alimenta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o estes os ambulantes que\u00a0vendem comidas, marmitas, churrasquinho, brigadeiros, sandu\u00edches, tapioca,\u00a0tanto nas ruas como nas empresas e resid\u00eancias. Eles totalizaram no ano\u00a0passado 490 mil pessoas (das quais 401 mil eram conta pr\u00f3pria). Em 2014\u00a0esse contingente era de um pouco menos de 84 mil. Foram 406 mil ou 484% a\u00a0mais de pessoas realizando esta atividade. Esse \u00e9 o pessoal que est\u00e1 se\u00a0virando e por isso n\u00e3o est\u00e1 desempregado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para este ano, h\u00e1 previs\u00e3o de uma safra agr\u00edcola 6% inferior a do ano\u00a0passado, mas, ainda assim, uma das maiores da s\u00e9rie. Portanto, se o\u00a0crescimento do PIB for mais uma vez tributado ao crescimento do setor agropecu\u00e1rio e n\u00e3o houver outro vetor de dinamismo da economia, teremos\u00a0uma melhora ainda menos consistente do emprego, principalmente do\u00a0emprego de qualidade. Preparem as marmitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1via Vinhaes<\/strong>, doutora em Economia pela UFRJ, economista do IBGE, conselheira do Corecon-RJ e professora da UCAM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encerramos a semana passada com a esperada divulga\u00e7\u00e3o do resultado do\u00a0PIB de 2017. 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