{"id":3289,"date":"2017-11-17T11:16:36","date_gmt":"2017-11-17T13:16:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=3289"},"modified":"2017-11-17T11:16:36","modified_gmt":"2017-11-17T13:16:36","slug":"artigo-a-verdade-da-historia-amador-da-revolta-ao-titulo-de-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=3289","title":{"rendered":"Artigo &#8211; A verdade da Hist\u00f3ria. Amador: da revolta ao t\u00edtulo de rei"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Autor: Armindo do Esp\u00edrito Santo &#8211; Doutor em Economia e investigador do CEsA\/CSG\/ISEG-UL<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este artigo discute a hist\u00f3ria do negro escravo Amador que chefiou uma rebeli\u00e3o na ilha de S. Tom\u00e9 em 1595, contra a presen\u00e7a dos brancos portugueses, que dominavam a ilha no \u00e2mbito do regime colonial esclavagista. Depois de se proclamar rei, prop\u00f4s libertar todos os escravos negros desse tal regime repressivo. Em particular, o artigo discute a origem de Amador, o seu estatuto, as motiva\u00e7\u00f5es da revolta e a data da sua morte. E mostra que a revolta se fundamentou numa rea\u00e7\u00e3o contra o regime esclavagista repressivo e n\u00e3o propriamente contra a ra\u00e7a branca como a generalidade dos historiadores afirma.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palavras-chave: Amador, revolta, S. Tom\u00e9, angolares, rei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JEL: N01<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Breve hist\u00f3ria do territ\u00f3rio de Amador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este artigo discute o papel da mais importante figura dos nativos s\u00e3o-tomenses de origem africana que se insurgiu contra o sistema esclavagista portugu\u00eas na ilha de S. Tom\u00e9 em 1595.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>Tom\u00e9 \u00e9 uma das duas principais ilhas que formam o arquip\u00e9lago de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe o qual \u00e9 um pequeno territ\u00f3rio insular de \u00c1frica Ocidental. A ilha de S. Tom\u00e9 tem cerca de 857 km2 de superf\u00edcie e a do Pr\u00edncipe apenas 139 km2, perfazendo todo o arquip\u00e9lago apenas cerca de 1000 km2. Situa-se no meio do oceano Atl\u00e2ntico, pr\u00f3ximo do Golfo da Guin\u00e9, quase sobre a linha do Equador e a 300 km do continente africano.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a generalidade dos historiadores, o arquip\u00e9lago foi descoberto pela marinha portuguesa no terceiro quartel do s\u00e9culo XV. A ilha de S. Tom\u00e9 foi, provavelmente, descoberta em 21 de Dezembro de 1470 e a do Pr\u00edncipe em 17 de Janeiro de 1471, ambas por Pedro de Escobar e Jo\u00e3o de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ilhas foram encontradas desertas e somente em 1493 os portugueses decidiram iniciar, de forma efetiva, a sua povoa\u00e7\u00e3o a partir da ilha maior<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Chegados a S. Tom\u00e9 em 1493, devidamente equipados, o capit\u00e3o donat\u00e1rio \u00c1lvaro de Caminha e os seus homens, os degredados, crian\u00e7as judias e escravos resgatados na costa ocidental de \u00c1frica, deram o in\u00edcio ao povoamento e procuraram, desde logo, descobrir as riquezas da ilha pelo que rapidamente palmilharam todo o territ\u00f3rio. Encontraram basicamente ribeiras e vegeta\u00e7\u00e3o densa e nenhuma evid\u00eancia de presen\u00e7a humana, nomeadamente plantas alimentares ou animais dom\u00e9sticos, pelo que \u00e9 fantasioso dizer-se que havia seres humanos na ilha quando os portugueses l\u00e1 chegaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deram in\u00edcio \u00e0 sociedade colonial com base no paradigma de economia seminatural produzindo bens de subsist\u00eancia para a alimenta\u00e7\u00e3o humana e derrube de \u00e1rvores para a exporta\u00e7\u00e3o para Lisboa e, ao mesmo tempo, prepararam-se para a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar que s\u00f3 teve in\u00edcio a partir da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XVI. Entretanto, ocorreram acasalamentos entre brancos e mulheres negras escravas que originaram o nascimento de mulatos, dos quais, sobretudo os leg\u00edtimos viriam a assumir importante protagonismo na sociedade s\u00e3o-tomense escravocrata um pouco antes do in\u00edcio da segunda metade do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ilhas foram descobertas, essencialmente, para servirem de entreposto ao com\u00e9rcio negreiro que constitu\u00eda o neg\u00f3cio mais rent\u00e1vel da \u00e9poca. Mas tinha subjacente a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regime de trabalho escravo, introduzido no territ\u00f3rio desde o in\u00edcio, sofreu um duro agravamento com a entrada em funcionamento dos engenhos de a\u00e7\u00facar no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, que assinalou a emerg\u00eancia do sistema pr\u00e9-capitalista, e gerou intensos conflitos entre os mulatos e negros contra os roceiros ricos em S. Tom\u00e9 at\u00e9 que, em 1595, um negro escravo de nome Amador decidiu mobilizar muitos escravos em torno do seu projeto contra a presen\u00e7a dos brancos na ilha de S. Tom\u00e9. \u00c9 sobre este revoltoso, que se intitulou rei da ilha de S. Tom\u00e9 em pleno per\u00edodo colonial, que este artigo aborda.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Enquadramento geral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A figura de Amador tornou-se o centro da Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe a partir do momento em que suscitou interesse de muitos estudiosos os quais t\u00eam refletido sobre o seu desempenho na ilha de S. Tom\u00e9 nos anos noventa do s\u00e9culo XVI. Esse interesse foi motivado pela escolha que o primeiro governo p\u00f3s-independ\u00eancia fez dos seus her\u00f3is escolhendo Amador, e tamb\u00e9m Jo\u00e3o Rodrigues Gato (Yon Gato), para justificar que, afinal, houve figuras hist\u00f3ricas que desencadearam lutas pela liberta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, pretendendo, assim, contrariar a tese dominante na \u00e9poca, segundo a qual, os s\u00e3o-tomenses n\u00e3o lutaram pela independ\u00eancia. Dizia-se que ela foi, simplesmente, entregue aos ilh\u00e9us numa \u201cbandeja\u201d. Por conseguinte, o primeiro governo p\u00f3s-independ\u00eancia sentiu a necessidade de escolher entre os hist\u00f3ricos quem efetivamente se levantou de armas em punho contra o regime colonial como forma para aliviar a press\u00e3o psicol\u00f3gica de \u00abmenoridade\u00bb que recaia sobre os s\u00e3o-tomenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda hoje a vida de Amador desperta curiosidade dos investigadores sobretudo devido ao mist\u00e9rio que envolve os motivos pelos quais avan\u00e7ou para a revolta quando o poder das suas for\u00e7as de combate era residual. Subsistem, por isso, diverg\u00eancias entre os acad\u00e9micos quanto ao seu estatuto. Em geral, os estudiosos apresentam, cada um, opini\u00f5es com base em argumentos mais ou menos justific\u00e1veis, havendo casos em que manifestamente s\u00e3o question\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudos mais recentes mostram uma aproxima\u00e7\u00e3o entre os especialistas sobre a sua origem e o per\u00edodo em que desencadeou a revolta, mas subsiste a confus\u00e3o sobre a data e forma em que e como foi executado. Tamb\u00e9m se desconhece as verdadeiras motiva\u00e7\u00f5es da revolta, mas o que mais parece dividir os investigadores e estes e a opini\u00e3o geral dos s\u00e3o-tomenses \u00e9 o que ele, realmente, representa. Isto \u00e9, se, efetivamente, foi rei ou estamos perante um mito. Outra quest\u00e3o que deve ser trazida ao debate \u00e9 o efeito da revolta que ele liderou face \u00e0 enorme incapacidade \u201cb\u00e9lica\u201d do seu movimento. Todas estas interroga\u00e7\u00f5es deixam em aberto oportunidades para novas investiga\u00e7\u00f5es sobre a hist\u00f3ria de Amador que, sobretudo, aos pr\u00f3prios s\u00e3o-tomenses se devem interessar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria dos estudos sobre Amador baseia-se num manuscrito do Vaticano escrito em italiano, sem data, atribu\u00eddo \u00e0 \u00e9poca, e foi publicado em 1953 pelo padre Ant\u00f3nio Br\u00e1sio na revista Monumenta Mission\u00e1ria Africana. O segundo documento em que o assunto foi tratado, com mais detalhe de pormenor, \u00e9 o conhecido manuscrito do nativo padre Manuel do Ros\u00e1rio Pinto, que inclui a c\u00f3pia dum outro que lhe \u00e9 anterior, de autor desconhecido, redigido em 1732, com o t\u00edtulo, Hist\u00f3ria da Ilha de S\u00e3o Tom\u00e9. Foi publicado pela primeira vez pelo padre Ant\u00f3nio Ambr\u00f3sio em 1970, reeditado em Studia, n.\u00ba 30-31, Lisboa, 1970, pp. 205-329. Encontra-se na Biblioteca de Ajuda em Lisboa. Estes textos constam do interessante livro do historiador portugu\u00eas Arlindo Caldeira, publicado em 2006, citado nas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas deste artigo.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gerhard Seibert, um alem\u00e3o, especialista de estudos africanos e dedicado a realidades s\u00e3o-tomenses, apresentou uma comunica\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo \u201cRei Amador\u201d, na CACAU \u2013 Casa das Artes, Cria\u00e7\u00e3o, Ambiente e Utopias, em S\u00e3o Tom\u00e9, em 17 de janeiro de 2011. Ter\u00e1 dito na confer\u00eancia que a ideia, que tem sido transmitida repetidamente, de Amador como rei dos angolares era um mito uma vez que o pr\u00f3prio Amador se tinha intitulado rei da ilha de S. Tom\u00e9. Sobre esta mat\u00e9ria, h\u00e1 muitos outros ilustres autores que chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o, mesmo antes de Seibert. De resto, as principais escolas de hist\u00f3ria e importantes historiadores portugueses como Isabel Castro Henriques e Arlindo Caldeira j\u00e1 tinham afirmado isto antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seibert foi mal interpretado e enxovalhado por um grupo de s\u00e3o-tomenses e precisou de recorrer \u00e0 imprensa local, Tela N\u00f3n, que difundiu a not\u00edcia, para reafirmar a sua opini\u00e3o e defender a sua honra. Os muitos esfor\u00e7os que fez naquele \u00abdebate\u00bb online, em que intervieram os outros, Seibert foi sistematicamente maltratado e insultado e mais de noventa por cento dos 70 cr\u00edticos online do T\u00e9la N\u00f3n, acusaram-lhe de falsear a Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seibert \u00e9 professor universit\u00e1rio e investigador de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe desde o in\u00edcio dos anos noventa do s\u00e9culo XX e come\u00e7ou a estudar Amador em 1998, tendo j\u00e1 publicado alguns artigos sobre este tema em 1998, 2005 e 2011. N\u00e3o estive presente nessa Confer\u00eancia, mas conhe\u00e7o bem os artigos que Seibert publicou sobre Amador e em parte alguma afirma que esta importante figura hist\u00f3rica de S. Tom\u00e9 nunca foi rei. E n\u00e3o vejo raz\u00e3o nenhuma para acreditar que tivesse afirmado o contr\u00e1rio de o que escreveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Seibert escreveu foi exatamente o que afirmara Isabel Castro Henriques em 2000 e Arlindo Caldeira em 2006, entre outros estudiosos: que insistir na ideia de que Amador foi rei dos angolares \u00e9 um mito que n\u00e3o tem qualquer fundamento e isso desvaloriza a grandeza de Amador como rei da ilha e diminui a import\u00e2ncia da Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem primeiro lan\u00e7ou a confus\u00e3o de associar Amador a angolares foi Vasconcellos (1918) e, mais tarde, Galv\u00e3o e Selvagem (1951) e Tenreiro (1961) a reproduziu posteriormente e que autores subsequentes repetiram como sendo uma verdade absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Acredito que a ideia que Seibert e outros autores recentes transmitiram \u00e9 a de que Amador era suficientemente enorme para n\u00e3o ser considerado apenas rei dos angolares, mas sim, de todos os nativos da ilha de S. Tom\u00e9. A perspetiva divisionista, que caracteriza a ideologia colonialista, v\u00ea nele rei dos angolares, o que fragiliza o todo que \u00e9 a ilha de S. Tom\u00e9 e diminui a dimens\u00e3o hist\u00f3rica do pa\u00eds, que \u00e9 preciso corrigir.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel Castro Henriques afirma que esta tradi\u00e7\u00e3o de considerar Amador rei dos angolares tornou-se corrente a partir do s\u00e9culo XIX, passando a falsa ideia de que existiu uma Monarquia angolar fundada por Amador.\u00a0 A autora utilizou uma fotografia do s\u00e9culo XIX, publicada por Almada Negreiros, que ilustra o rei dos angolares, trajado a rigor, para argumentar que a forma como o negro angolar se apresenta na foto, vestido com uma farda que certamente lhe foi dada pelas autoridades portuguesas, \u00e9 uma orquestra\u00e7\u00e3o daquelas autoridades para mostrarem o interesse pela integra\u00e7\u00e3o dos angolares na sociedade colonial em S. Tom\u00e9. Insurgindo-se contra esta farsa, Isabel Castro Henriques (2000: 117) acrescenta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o podemos deixar de verificar que esta tradi\u00e7\u00e3o limita a fun\u00e7\u00e3o majest\u00e1tica de Amador, designado nos documentos quinhentistas como rei da ilha de S. Tom\u00e9. Pode ver-se nesta opera\u00e7\u00e3o a marca ideol\u00f3gica do colonialismo, que s\u00f3 pode aceitar a realeza limitada a um grupo cuja hist\u00f3ria continua a aparecer como misteriosa, e que n\u00e3o dispunha dos meios sociais, t\u00e9cnicos e financeiros para se opor \u00e0s autoridades portuguesas. Esta amputa\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o do poder de Amador\u00a0 &#8211; de Rei da Ilha a Rei dos Angolares -, consagrada na tradi\u00e7\u00e3o s\u00e3o-tomense, constitui um dos fen\u00f3menos mais perturbantes da Hist\u00f3ria de S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe\u201d.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de Seibert, aqueles s\u00e3o-tomenses tiveram um entendimento diferente, contr\u00e1rio ao debate de ideias e \u00e0 refuta\u00e7\u00e3o argumentativa. \u00c9 meu entendimento que n\u00e3o precisamos ofender ningu\u00e9m quando n\u00e3o estamos de acordo com ele. Devemos respeitar as ideias dos outros tanto mais que podemos desconstru\u00ed-las apresentando as nossas, sustentadamente. \u00c9 este o caminho que precisamos percorrer e n\u00e3o o de ofensas, muitas vezes gratuitas, porque diminuem a nossa dimens\u00e3o intelectual, desafiam a nossa qualidade individual e coletiva e questionam o nosso desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade sobre Amador deve ser procurada atrav\u00e9s de trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o e de debates de forma desapaixonada, mesmo tratando-se de um tema sens\u00edvel para muitos. A verdade hist\u00f3rica tem de se sobrepor \u00e0s emo\u00e7\u00f5es, \u00e0s ilus\u00f5es e \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de ideias, mas n\u00e3o pode ser explicada, uma vez por todas, como sugerem certas manifesta\u00e7\u00f5es ainda hoje presentes entre os s\u00e3o-tomenses. E \u00e9 isto mesmo que proponho ao interessar-me por este tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, tal como muitos outros especialistas, baseio-me no pequeno manuscrito do Vaticano, referido \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o datado, com o t\u00edtulo \u201cRelatione uenura dall\u2019 Isola di S. Tom\u00e9\u201d, publicado pelo padre Ant\u00f3nio Br\u00e1sio em 1953 (MMA: III, 521-523) e o manuscrito do padre Ros\u00e1rio Pinto de 1732, que inclui um anterior, que ele acrescenta mais detalhes, publicado pelo padre Ant\u00f3nio Ambr\u00f3sio em 1970, e interessantes coment\u00e1rios que sobre eles faz Arlindo Caldeira no seu livro Rela\u00e7\u00e3o do Descobrimento da ilha de S\u00e3o Tom\u00e9. Manuel Ros\u00e1rio Pinto Ros\u00e1rio, publicado pelo Centro de Hist\u00f3ria de Al\u00e9m-Mar em 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto o primeiro manuscrito em italiano como o segundo, que parece reproduzir a c\u00f3pia fiel dum outro que lhe \u00e9 precedente, t\u00eam a chancela da igreja cat\u00f3lica, recolhidos e publicados pelos cl\u00e9rigos. No manuscrito do Vaticano, Amador foi qualificado repetidamente como falso rei enquanto o nativo negro padre Manuel do Ros\u00e1rio Pinto descreve os factos na perspetiva dum europeu euroc\u00eantrico. Em qualquer dos casos, a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel tem um peso institucional de ordem religiosa enorme que em nada diminui a sua fidedignidade, mas exige que se contorne os preconceitos do padroado da \u00e9poca que lhe est\u00e3o subjacentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recorde-se que o Vaticano teve participa\u00e7\u00e3o ativa ou foi c\u00famplice da escraviza\u00e7\u00e3o dos africanos durante s\u00e9culos, no entanto, outras vezes, o padroado insurgia-se contra a sua pr\u00e1tica, denunciando-a, como foi o caso do padre Ant\u00f3nio Vieira em serm\u00e3o religioso na Ba\u00eda em 1633, quando denunciou energicamente a brutalidade da escravatura na ilha de S. Tom\u00e9 (Silva, 1958: 77). Por conseguinte, teve neste processo uma posi\u00e7\u00e3o d\u00fabia o que obriga, em certa medida, \u00e0 relativiza\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o dos documentos referidos \u00e0 \u00e9poca. Por outro lado, aprendemos em direito, hist\u00f3ria e filosofia, pelo menos nestas \u00e1reas de conhecimento, que os documentos n\u00e3o falam por si, dependem do olhar de cada um sobre os mesmos. Isto significa que n\u00e3o basta termos documentos para termos certezas dos acontecimentos ou as suas datas. Os documentos s\u00e3o elabora\u00e7\u00f5es humanas suscet\u00edveis de conter falhas, sobretudo em per\u00edodos t\u00e3o recuados em que, particularmente, o rigor dos n\u00fameros n\u00e3o era uma prioridade absoluta.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os conflitos internos e a revolta de Amador\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em busca de argumentos para explicar a revolta de Amador, Pablo Eyzaguirre (1986: 73), apoiando-se em literaturas de historiadores portugueses, que sustentam que as constantes amea\u00e7as de invas\u00e3o estrangeira, a instabilidade provocada pelas diferentes categorias de escravos presentes na ilha e as infind\u00e1veis lutas pelo poder entre as autoridades da C\u00e2mara, dos representantes da Coroa e da igreja, retira que que estes conflitos abriram caminho para o decl\u00ednio da economia do a\u00e7\u00facar em S. Tom\u00e9. E continuou dizendo que foram os escravos e negros livres que exploraram esta divis\u00e3o interna que foi muito instrumental na fragiliza\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar em S. Tom\u00e9 e que uma tal divis\u00e3o favoreceu a revolta de Amador, afirmando que \u201cuma luta entre a autoridade do bispo e do governador esteve na origem da revolta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cunha Matos (1916:16) que, provavelmente, ter-se-\u00e1 baseado no manuscrito do padre Manuel do Ros\u00e1rio Pinto, ou no seu precedente, sem o citar, foi quem primeiro fez esta afirma\u00e7\u00e3o que foi repetida dois anos mais tarde em nota p\u00e9 de p\u00e1gina por Lopes de Lima (1844: xi). Galv\u00e3o e Selvagem (1951: 211) e muitos outros estudiosos posteriores t\u00eam-na repetido sem questionar a verdadeira motiva\u00e7\u00e3o da revolta, enquanto Arlindo Caldeira (2006) admite n\u00e3o haver uma rela\u00e7\u00e3o direta de causa e efeito entre os conflitos dos poderes p\u00fablicos e pol\u00edticos e a revolta de Amador, devido \u00e0 relev\u00e2ncia da dist\u00e2ncia temporal entre esses factos. Na verdade, os tais conflitos que dividia o Bispo e o governador, conforme reza o manuscrito em portugu\u00eas, atingiram o cl\u00edmax no dia 26 de Agosto de 1594, com a excomunh\u00e3o do governador e seus funcion\u00e1rios leais e, portanto, um ano antes do in\u00edcio da revolta de Amador, em 9 de julho de 1595, de acordo com os citados manuscritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Os conflitos entre os poderes institu\u00eddos na ilha podem ter enfraquecido a m\u00e1quina repressiva e favorecido a revolta, mas n\u00e3o foram eles que conduziram \u00e0 crise do a\u00e7\u00facar em S. Tom\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio de o que afirmam os estudiosos, n\u00e3o foram as condi\u00e7\u00f5es internas que determinaram a crise do a\u00e7\u00facar e sim fatores externos. Foram as condi\u00e7\u00f5es de mercado externo que rapidamente mudaram e determinaram a crise do sistema produtivo em S. Tom\u00e9 cuja oferta n\u00e3o acompanhou minimamente as prefer\u00eancias dos consumidores europeus que, entretanto, passaram a ser mais exigentes por uma melhor qualidade de a\u00e7\u00facar que o Brasil e outros territ\u00f3rios tinham come\u00e7ado a oferecer em larga escala e, mesmo assim, a um pre\u00e7o bastante mais elevado que o de S. Tom\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A baix\u00edssima qualidade do a\u00e7\u00facar de S. Tom\u00e9, ao longo de todo o per\u00edodo, implicava a sua reduzida cota\u00e7\u00e3o nos mercados europeus, e o crescente aumento da oferta do Brasil, de melhor qualidade, arrasaram completamente a pequen\u00edssima economia do a\u00e7\u00facar de S. Tom\u00e9 e colocaram os produtores em enormes dificuldades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1582, uma arroba de a\u00e7\u00facar da Madeira valia 3$000 r\u00e9is enquanto o de S. Tom\u00e9 era vendido por apenas $950 r\u00e9is (Silva: 1958: 85-86) e somente $300 r\u00e9is em 1592 (Pinheiro, 2012: 37) e, portanto, valia menos de um ter\u00e7o e um d\u00e9cimo, respetivamente. Por outro lado, a produ\u00e7\u00e3o em S. Tom\u00e9 nunca atingiu n\u00edveis elevados contrariamente \u00e0 mensagem que muitos procuram passar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exceto aquela produ\u00e7\u00e3o anormal de 800.000 arrobas (cerca de 12.000 toneladas) em 1575 ou 1577, estimada por H\u00e9lder Lains e Silva, que \u00e9 improv\u00e1vel que tenha ocorrido, a produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, no per\u00edodo de <em>boom<\/em>, entre 1535 (cerca de 2.025 toneladas) e 1578 (cerca de 2.625 toneladas) foi certamente inferior a 2.250 toneladas por ano<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Conseguida, ainda assim, \u00e0 custa de enormes sacrif\u00edcios dos escravos nos engenhos de a\u00e7\u00facar. E como era baix\u00edssimo o seu pre\u00e7o no mercado externo, tornava-se, a prazo, invi\u00e1vel a ind\u00fastria a\u00e7ucareira em S. Tom\u00e9, ainda que com o custo do fator trabalho nulo, devido \u00e0 concorr\u00eancia dos custos n\u00e3o industriais na forma\u00e7\u00e3o da oferta. Mesmo sem contar com o d\u00edzimo pago \u00e0 Coroa e de outros tributos incidentes.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um m\u00e1ximo de 2.000 europeus na ilha e algumas dezenas de milhares de africanos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, entre os quais uma significativa percentagem de mesti\u00e7os (de quase preto a quase branco), \u00e9 improv\u00e1vel explicar a riqueza dos moradores (europeus) a partir da explora\u00e7\u00e3o da economia do a\u00e7\u00facar, em todo o per\u00edodo da sua produ\u00e7\u00e3o. Por conseguinte, a derrocada da ind\u00fastria de a\u00e7\u00facar era inevit\u00e1vel e era apenas uma quest\u00e3o de tempo e n\u00e3o de conflitos sociais dom\u00e9sticos como Eyzaguirre e muitos outros autores afirmam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grosso da riqueza gerada pelos moradores em S. Tom\u00e9, no s\u00e9culo XVI, tem de ser explicada pelos neg\u00f3cios relacionados com o tr\u00e1fico de escravatura do que com a ind\u00fastria de a\u00e7\u00facar, assunto que muitos procuram evitar, provavelmente, por ser inc\u00f3modo. Um neg\u00f3cio que foi florescente at\u00e9 1614 quando o com\u00e9rcio de escravos passou a ser feito diretamente a partir do porto de Luanda, que desviou esse com\u00e9rcio de S. Tom\u00e9, para o novo mundo e foi perdendo gradualmente a sua import\u00e2ncia relativa ao longo dos tempos e se agravou, posteriormente, com o aumento da fiscaliza\u00e7\u00e3o de navios ingleses que contestavam uma tal pr\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte, a crise da economia do a\u00e7\u00facar foi determinada pelas condi\u00e7\u00f5es do mercado externo em consequ\u00eancia da sua m\u00e1 qualidade e foi disfar\u00e7ada pelos importantes rendimentos provenientes do neg\u00f3cio do tr\u00e1fico negreiro, enquanto este foi essencial. Por outro lado, a reduzida dimens\u00e3o do territ\u00f3rio e as caracter\u00edsticas do seu relevo impuseram limita\u00e7\u00f5es \u00e0s quantidades produzidas. Situa\u00e7\u00e3o que se repetiria dois s\u00e9culos e meio mais tarde com as culturas do caf\u00e9 e do cacau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de desenvolvimento econ\u00f3mico com base na agricultura \u00e9 m\u00e1 para os pequenos territ\u00f3rios insulares e desastrosa quando implementada atrav\u00e9s do sistema das grandes planta\u00e7\u00f5es, devido \u00e0 import\u00e2ncia dos custos fixos nos custos unit\u00e1rios de produ\u00e7\u00e3o acabada, porque \u00e9 muito pequena a dimens\u00e3o das quantidades produzidas. Prestam-se melhor a um sistema de produ\u00e7\u00e3o do tipo familiar em que os custos fixos s\u00e3o irrelevantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pequenos territ\u00f3rios insulares e isolados n\u00e3o t\u00eam vantagens competitivas em economia agr\u00edcola ou agroindustrial, devido \u00e0 pequenez do seu territ\u00f3rio (pequena dimens\u00e3o) e os elevados custos de transporte impostos pela insularidade e isolamento. Estes territ\u00f3rios t\u00eam uma viabilidade prec\u00e1ria dependente de fluxos externos e, em termos de desenvolvimento, a sua viabilidade \u00e9 posta em causa quando apostam na economia agr\u00edcola, devido \u00e0 rigidez da pequena dimens\u00e3o. Apenas aqueles pequenos territ\u00f3rios insulares que disp\u00f5em dum recurso natural valioso, atrav\u00e9s do qual recebem uma renda vital\u00edcia, ter\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o menos desfavor\u00e1vel. Por\u00e9m, os recursos naturais n\u00e3o s\u00e3o (infinitamente) renov\u00e1veis, pelo que, em qualquer dos casos, a orienta\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica deve guiar-se para atividades de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e economia das pescas onde possuem vantagens comparativas. Doutro modo, tornar-se-\u00e3o invi\u00e1veis do ponto de vista econ\u00f3mico e fortemente dependentes de ajudas externas, como \u00e9 hoje o caso de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Por conseguinte, n\u00e3o parece ter fundamento sustentar que os europeus, ou outros, fizeram fortunas em S. Tom\u00e9, no s\u00e9culo XVI, atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio de a\u00e7\u00facar. \u00c9 mais prov\u00e1vel que tenha sido o tr\u00e1fico negreiro que os enriqueceu e n\u00e3o a economia agroindustrial de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a crise da ind\u00fastria de a\u00e7\u00facar, a m\u00e3o-de-obra tornou-se relativamente mais abundante e tamb\u00e9m mais dispon\u00edvel para o conflito grupal. Interessa, agora, saber quem era Amador, angolar ou escravo cativo? Esta quest\u00e3o constitui tema do par\u00e1grafo seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Origem de Amador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos historiadores referem-se a Amador como um negro angolar que chefiou a revolta dos rebeldes angolares contra os brancos na ilha de S. Tom\u00e9 e fez-se aclamar pelos seus apoiantes rei de S. Tom\u00e9. Mas nem Cunha Matos nem Lopes de Lima ou Galv\u00e3o e Selvagem associam Amador \u00e0 etnia angolar. O primeiro escritor que parece ter estabelecido uma liga\u00e7\u00e3o direta de Amador aos angolares foi Vasconcellos (1918: 9) ao referir-se que \u201c\u2026 pelo \u00eaxodo dos agricultores para o Brasil, por causa das atrocidades dos angolares revoltados, sob o mando do negro Amador \u2026\u201d, na sua obra Col\u00f3nias Portuguesas, S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe: Estudo Elementar de geografia f\u00edsica, econ\u00f3mica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por coincid\u00eancia ou n\u00e3o, quarenta e tr\u00eas anos mais tarde, ap\u00f3s a narrativa de Ernesto Vasconcellos, Tenreiro (1961: 73) viria a produzir afirma\u00e7\u00e3o id\u00eantica ao escrever que \u201cDe 1595 a 1596, esta [ilha de S. Tom\u00e9] chega mesmo a cair nas m\u00e3os dos angolares, chefiados pela figura, j\u00e1 lend\u00e1ria, de Amador.\u201d Importa dizer que Tenreiro n\u00e3o cita Vasconcellos, mas teve acesso a Galv\u00e3o e Selvagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da obra de Tenreiro, escritores portugueses e estrangeiros, os quais n\u00e3o tiveram acesso a nenhum dos manuscritos referidos, t\u00eam repetido esta narrativa<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. A confus\u00e3o surge porque Amador chefiou a rebeli\u00e3o com a participa\u00e7\u00e3o de escravos e o envolvimento de angolares e da\u00ed muitos, entre os quais a generalidade dos s\u00e3o-tomenses, acreditam que Amador era angolar ao inv\u00e9s de um escravo cativo que de facto era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No manuscrito do vaticano, Amador \u00e9 descrito como um negro escravo de ro\u00e7a, no tempo em que governava a ilha D. Fernando de Meneses e \u00e9 considerado um negro escravo cativo no manuscrito de Ros\u00e1rio Pinto. Por conseguinte, com base nesses documentos, que at\u00e9 ao momento constituem as \u00fanicas fontes prim\u00e1rias, se conclui, sem dificuldades, que Amador era, de facto, um escravo negro e n\u00e3o um angolar. E n\u00e3o sendo ele angolar, porque n\u00e3o era, se conclui tamb\u00e9m que \u00e9 uma pura fantasia considerar-lhe rei dos angolares. Por conseguinte, a insist\u00eancia nesta lenda de Amador como rei dos angolares diminui a import\u00e2ncia da revolta que travou naquele per\u00edodo e prejudica o conhecimento da verdade sobre a hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 vimos que Amador n\u00e3o foi rei dos angolares, agora interessa saber se ele foi ou n\u00e3o rei da ilha de S. Tom\u00e9. Isto \u00e9, p\u00f5e-se a quest\u00e3o de saber se, politicamente, pode ele ser considerado rei de S. Tom\u00e9, assunto que discutiremos no par\u00e1grafo seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Amador, rei de S. Tom\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descri\u00e7\u00e3o da revolta at\u00e9 \u00e0 morte do seu comandante ajuda a compreender melhor o estatuto de Amador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto o manuscrito do Vaticano como o de Ros\u00e1rio Pinto, que cont\u00e9m um anterior que ele n\u00e3o menciona a fonte, afirmam que o levantamento chefiado por Amador aconteceu no dia 9 de Julho de 1595. De acordo com o manuscrito de Ros\u00e1rio Pinto, que pormenoriza detalhes sobre a revolta, ela foi planeada em torno de tr\u00eas figuras principais: a do escravo Amador, que se assumiu como capit\u00e3o; o escravo L\u00e1zaro que era o segundo capit\u00e3o e o escravo Domingos Preto, terceiro da hierarquia, com a patente de alferes, todos escravos negros. Este trio, comandado por Amador, conseguiu atrair muitos apoiantes negros escravos e angolares e tinha por objetivo libertar todos os escravos cativos e exercer a governa\u00e7\u00e3o da ilha de forma efetiva.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 9 de julho de 1595, o grupo deslocou-se \u00e0 Trindade, onde matou alguns brancos na igreja e um outro de nome Pedro \u00c1lvaro Freire, na ro\u00e7a deste. Da Trindade, o grupo seguiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade, pelo sueste, passando por Pedroma, Budo Budo, Santana, Praia Mel\u00e3o e Pantufo (Eyzaguirre), atraindo mais aderentes para a sua causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 11 de julho, queimaram os engenhos e fazendas de Dalagu\u00ea e alguns em Uba Budo e Praia Preta. Capturaram ali escravos espingardeiros que os levaram, provavelmente, para serem utilizados no combate. \u00c9 importante notar que, j\u00e1 nessa \u00e9poca, as ro\u00e7as, sobretudo as mais importantes, funcionavam como um Estado dentro do Estado, com as suas pr\u00f3prias for\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele mesmo dia (11 de julho), seguiram para Pantufo onde queimaram o engenho que ali existia. Face ao avolumar das destrui\u00e7\u00f5es, o governador, com a anu\u00eancia do Bispo, enviou homens armados ao Pantufo a fim de conterem os revoltosos, mas estes conseguiram escapar-se e seguiram para a cidade, junto \u00e0 Feira Velha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bispo e os seus cl\u00e9rigos, o governador e algumas pessoas foram ao encontro dos revoltosos e do qual resultaram tr\u00eas homens brancos mortos tendo Amador e os seus homens batido em retirada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 12 de Julho, o grupo incendiou engenhos em \u00c1gua Sab\u00e3o e na ro\u00e7a Alemanha que, na altura, era administrada por Jo\u00e3o Barbosa da Cunha, marido da bisneta de Ana de Chaves.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 14 de julho, os revoltosos, muito mal-armados, provavelmente sem armas de fogo, atacaram a cidade, mas foram rapidamente vencidos e Amador e os seus homens puseram-se uma vez mais em fuga. Deste embate, resultaram baixas n\u00e3o quantificas do lado de Amador, provavelmente na ordem das centenas, e do lado do governo, apenas um negro escravo foi morto. A partir deste desaire, Amador restruturou as suas for\u00e7as em cinco frentes estrat\u00e9gicas, pr\u00f3ximas da cidade, cada uma das quais, comandada por um capit\u00e3o, com vista a cerc\u00e1-la: de caminho de Madre de Deus at\u00e9 ao Cubelo era comandada por ele pr\u00f3prio; Rua de Santo Ant\u00f3nio; mato de Bois; caminho da Concei\u00e7\u00e3o; e Rua de S. Jo\u00e3o. Mas assim que viram as for\u00e7as armadas, muito bem equipadas, a marcharem em sua dire\u00e7\u00e3o, bateram em retirada.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 23 de julho houve uma escaramu\u00e7a na Fazenda de \u00c1gua Grande onde morreu um apoiante da revolta. Esta morte causou f\u00faria a Amador e aos seus apoiantes que decidiram responder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto Amador como os poderes institu\u00eddos prepararam-se para o combate que teve lugar no dia 28 de julho. O confronto dos desiguais durou apenas quatro horas, o tempo suficiente para que 200 homens de Amador fossem abatidos, houve muitos feridos e prisioneiros entre os quais um capit\u00e3o (Ad\u00e3o) que foi enforcado. Da parte do governo houve apenas um morto, provavelmente um negro. Amador e os restantes homens que se escaparam fugiram, mas rapidamente foram abandonando o l\u00edder, capit\u00e3o e rei que ficou sozinho. Acabou tra\u00eddo por alguns dos seus antigos apoiantes que o amarraram e o levaram preso \u00e0 cidade onde, depois de lhe terem sido amputadas as m\u00e3os, um tipo de castigo muito usual na \u00e9poca para os escravos rebeldes, foi esquartejado e enforcado. De acordo com o manuscrito do Vaticano, Amador foi morto no dia 14 de Agosto de 1595.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revolta de Amador tem dado lugar a muitas reflex\u00f5es sobretudo quanto \u00e0s suas motiva\u00e7\u00f5es. A generalidade dos historiadores tende a considerar que foi a disputa de poderes entre a autoridade do bispo e a do governador que esteve na base da revolta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirmam que o infind\u00e1vel conflito entre esses poderes tinha dividido a ilha em dois sectores em fun\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia social de cada uma das lideran\u00e7as. Sustentam que os brancos e mesti\u00e7os abastados se colocaram do lado do governador enquanto os escravos e negros livres (os mais desfavorecidos e discriminados social, econ\u00f3mica e politicamente) se puseram ao lado do bispo. E na medida em que os fazendeiros eram senhores dos escravos, muitos deles eram utilizados como mil\u00edcias nas contendas que opuseram uns e outros e os poderes institu\u00eddos na ilha. A revolta de Yon Gato, que falarei noutro lugar, constitui um exemplo que parece ilustrar esta situa\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m a igreja tinha seus pr\u00f3prios escravos. Por conseguinte, era normal os fazendeiros armarem os seus escravos para apoiarem lutas pol\u00edticas entre fa\u00e7\u00f5es e administra\u00e7\u00f5es rivais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eyzaguirre, baseando-se no manuscrito de Ros\u00e1rio Pinto, acredita que foi num tal contexto que Amador Vieira, escravo dum funcion\u00e1rio menor da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica chamado Bernardo Vieira (os escravos depois de batizados adotavam o apelido do seu senhor), emergiu como l\u00edder das for\u00e7as populares em apoio ao bispo e transformou uma luta entre autoridades religiosas e civis numa rebeli\u00e3o de escravos e negros. Afirma ele que a rebeli\u00e3o procurou destruir o sistema de escravatura e planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar e exterminar os brancos e mulatos filhos dos brancos que mais se enriqueceram com o com\u00e9rcio de escravo e de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 referi mais atr\u00e1s, n\u00e3o parece haver uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito entre o eventual apoio ao bispo em 1594 e a revolta ocorrida um ano mais tarde. \u00c9 mais prov\u00e1vel que Amador planeou a revolta para libertar os escravos da explora\u00e7\u00e3o dos brancos e mulatos do sistema que os oprimia e nada tendo que ver com os conflitos institucionais end\u00e9micos na ilha entre a igreja e o governo, tanto mais que o primeiro lugar escolhido para assinalar a revolta foi justamente uma igreja onde estariam brancos e depois foram destruir as bases econ\u00f3micas entre Trindade e cidade. Pode ent\u00e3o dizer-se que a revolta tinha uma natureza racial mas, na realidade, era de ordem econ\u00f3mica pois os brancos e mulatos abastados eram quem tinha o poder de domina\u00e7\u00e3o e oprimia os desfavorecidos para mais se enriquecerem. Por conseguinte, o levantamento de Amador foi contra esse sistema que estava institu\u00eddo e que oprimia gente da sua cor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua revolta tinha um objetivo pol\u00edtico amplo \u2013 a liberta\u00e7\u00e3o do seu povo da explora\u00e7\u00e3o colonial e uma vez posto em marcha o processo, assumiu-se como rei de S. Tom\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o Vaticano, um pol\u00edtico s\u00f3 podia merecer o t\u00edtulo de rei se tivesse o seu reconhecimento. Ora, o Vaticano n\u00e3o viu nele um pol\u00edtico, mas, sim, um homem revoltado que se intitulou rei. Consequentemente, para o Vaticano, ele era um falso rei, tal como consta repetidamente no manuscrito em italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, para al\u00e9m da posi\u00e7\u00e3o institucional do Vaticano, que \u00e9 compreens\u00edvel devido \u00e0s alian\u00e7as e compromissos que, na \u00e9poca, mantinha com Portugal, tem de se perceber qual o sentimento dos s\u00e3o-tomenses em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura de Amador, que se sabe, \u00e9 contr\u00e1ria ao do Vaticano e dos autores que sustentam essa tese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe-se, hoje, que as evid\u00eancias hist\u00f3ricas mostram que Amador era um escravo negro da cidade e, por conseguinte, n\u00e3o angolar, merece ficar na hist\u00f3ria, sobretudo para mem\u00f3rias futuras, que foi rei dos s\u00e3o-tomenses, e n\u00e3o como, erradamente, o primeiro governo da Rep\u00fablica o considerou, rei dos angolares, reduzindo o seu verdadeiro estatuto. Portanto, parece ser de justi\u00e7a atribuir a Amador o t\u00edtulo de rei de S. Tom\u00e9 e n\u00e3o apenas rei dos angolares. T\u00edtulo que ele assumiu no dia 14 de Julho de 1595 quando afirmou que era, a partir de ent\u00e3o, capit\u00e3o-general de guerra e rei absoluto com plenos poderes para libertar todos os escravos e criar t\u00edtulos da nobreza para a sua corte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alguns, ele chegou a ter nas suas fileiras 5.000 combatentes, um n\u00famero que parece excessivo quando olhamos para a pequenez da ilha e zonas em que decorreram os confrontos, cerca de 1\/14 da \u00e1rea total da ilha de S. Tom\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o curto tempo que durou a revolta, apenas um n\u00famero muito reduzido de brancos foi abatido (certamente um n\u00famero inferior a 5) enquanto do lado de Amador foram abatidos a tiro ou enforcados muitas centenas de homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Quanto \u00e0 data da sua morte, parece ter ocorrido no dia 14 de agosto de 1595, de acordo com o manuscrito do Vaticano. Embora o manuscrito de Ros\u00e1rio Pinto nada diz quanto \u00e0 data em que foi enforcado, afirma que o confronto final se travou no dia 28 de julho e que a desmobiliza\u00e7\u00e3o dos seus homens se iniciou no dia seguinte e, que sozinho, Amador foi esconder-se na parte ocidental da ilha, fora do alcance das for\u00e7as armadas do governo. Mas foi tra\u00eddo por uma pessoa da sua confian\u00e7a, que se presume tenha sido em troca dum suborno, j\u00e1 que os europeus estavam determinados a elimin\u00e1-lo rapidamente para assinalarem o fim definitivo da revolta. Foi preso e amarrado com cordas a mando desse seu amigo e levado \u00e0 cidade para autoridades portuguesas. O manuscrito do Vaticano diz que a revolta terminou no dia 29 de julho quando se travou o \u00faltimo confronto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com base nessas duas fontes, se conclui que faz muito sentido que Amador tivesse sido preso dias depois do fim dos confrontos e enforcado logo a seguir. Por conseguinte, parece-me pac\u00edfico considerar o dia 14 de agosto de 1595 como a data em que o rei Amador foi morto. A data de 4 de janeiro de 1596, indicada por Cunha Matos (1963: 110), no seu livro com o t\u00edtulo Comp\u00eandio Hist\u00f3rico das Possess\u00f5es de Portugal na \u00c1frica, publicado no Rio de Janeiro em 1963, como aquela em que Amador foi morto, n\u00e3o tem qualquer fundamento e, como tal, tem de ser ignorada para o bem da Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Amador, her\u00f3i ou aventureiro? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessa saber se a revolta comandada por Amador valeu ou n\u00e3o \u00e0 pena. Foi bem pensada, teve o impacto esperado, ou tratou-se, simplesmente, de um ato de um aventureiro como o regime de ent\u00e3o o considerou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, os poderes institu\u00eddos n\u00e3o deram import\u00e2ncia \u00e0 revolta de Amador e somente quando o grupo chegou ao Pantufo e ali fez estragos o governador decidiu reagir para os conter. Mas, por essa altura, j\u00e1 estavam a caminho da cidade e foram dar \u00e0 Feira Velha e foi da\u00ed que os europeus ficaram assustados, n\u00e3o pela for\u00e7a do grupo, que era nenhuma, mas pela sua dimens\u00e3o e por estarem em f\u00faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No manuscrito em italiano, o n\u00famero de mortos dos revoltosos, no confronto do dia 14 de julho, ascendeu a mais de 300 e apenas 3 ou 4 mortos do lado do poder institu\u00eddo na ilha. Recorde-se que o manuscrito de Ros\u00e1rio Pinto fala num n\u00famero de negros mortos que n\u00e3o foi poss\u00edvel contabilizar. E no confronto final, o primeiro documento diz que mais de 500 negros foram abatidos, a tiro, e enforcado mais de 100, enquanto o de Ros\u00e1rio Pinto menciona 200 baixas mortais entre os apoiantes da revolta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da diverg\u00eancia dos n\u00fameros nos documentos citados, nada nos garante que s\u00e3o rigorosos, n\u00e3o deixa de ser muito significativo o n\u00famero de baixas dos revoltosos em \u201ccombate\u201d, quando comparado com o da parte contr\u00e1ria: apenas um n\u00famero n\u00e3o superior a 5 mortos entre brancos e negros. Esta enorme despropor\u00e7\u00e3o sugere que esses confrontos mais parecem massacres do que propriamente uma guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dum lado, estava Amador com os seus muitos apoiantes, provavelmente n\u00e3o mais de 4.000, \u201cdesarmados\u201d, munidos de arcos e flechas, paus e catanas e, do outro lado, uma for\u00e7a minorit\u00e1ria em termos de efetivos, mas fortemente armada com armas de fogo e artilharia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os confrontos duraram poucas horas (meio dia ou cerca de 4 horas), tempo suficiente para que fossem dizimados os revoltosos. Na verdade, poucos minutos s\u00e3o suficientes para que uma vintena de homens, fortemente armados, conseguisse abater um n\u00famero consider\u00e1vel de \u201cindefesos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que aqui se pode colocar \u00e9 a de saber se Amador tinha ou n\u00e3o a perfeita consci\u00eancia da sua enorme desvantagem? Sabendo que j\u00e1 no dia 14 de julho tinha sofrido uma pesad\u00edssima baixa, por que raz\u00e3o continuou insistindo na revolta? Por que raz\u00e3o n\u00e3o optou ele pr\u00f3prio por morreu nos confrontos, revelando isso sim coragem e valentia, ao inv\u00e9s de fuga e do enforcamento? Podem, em consci\u00eancia moral e intelectual e orgulhosamente os s\u00e3o-tomenses assumir Amador como seu rei? Admito que sim, sobretudo porque teve a ideia de p\u00f4r em marcha um processo para libertar os escravos negros da dureza da explora\u00e7\u00e3o do regime esclavagista na ilha, embora \u00e0 custa de muitas vidas humanas, provavelmente, acima de um milhar de escravos negros, em t\u00e3o poucos dias de confrontos e, por outro lado, n\u00e3o logrou alcan\u00e7ar nenhum dos objetivos que prop\u00f4s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dia 4 de Janeiro: Feriado nacional?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo a seguir \u00e0 independ\u00eancia, em 12 de julho de 1975, as novas autoridades locais procuraram rapidamente eleger figuras heroicas de resist\u00eancia ao colonialismo portugu\u00eas no territ\u00f3rio. Pretendiam com isso silenciar a voz daqueles que diziam que os s\u00e3o-tomenses nada fizeram para merecerem a independ\u00eancia e que ela lhes tinha ca\u00eddo do c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, nenhum dos movimentos nacionalistas criados para encetar formas de luta contra a presen\u00e7a portuguesa desencadeou a\u00e7\u00f5es armadas no territ\u00f3rio, contrariamente \u00e0 generalidade dos pa\u00edses africanos, entre muitos outros. Por conseguinte, nem o Comit\u00e9 de Liberta\u00e7\u00e3o de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe (CLSTP), criado em Setembro de 1960, nem o Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe (MLSTP), que emergiu do anterior em Julho de 1972, realizaram a\u00e7\u00f5es concretas nas ilhas e poucos s\u00e3o-tomenses sabiam da sua exist\u00eancia (Esp\u00edrito Santo, 2008). Por conseguinte, para mostrarem que tiveram her\u00f3is que lutaram pela liberta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio contra a presen\u00e7a europeia, decidiram escolher o antigo negro escravo Amador e o mesti\u00e7o abastado Jo\u00e3o Rodrigues Gato, mais conhecido, na \u00e9poca, por Yon Gato. Muitos pesam, erradamente, que foram as suas a\u00e7\u00f5es e, sobretudo, a revolta de Amador que conduziu a retirada dos europeus e mulatos leg\u00edtimos para o Brasil. J\u00e1 expliquei anteriormente que n\u00e3o foram os conflitos internos e sim a crise econ\u00f3mica que determinou a fuga para o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode, ent\u00e3o, interrogar-se por que raz\u00e3o a escolha dos governantes p\u00f3s-independ\u00eancia recaiu sobre aquelas duas figuras dum passado t\u00e3o long\u00ednquo, em lugar duma figura mais recente, nomeadamente do s\u00e9culo XIX ou XX? A resposta \u00e9 simples: os diferentes grupos raciais presentes no arquip\u00e9lago, exceto o dos europeus que tinha uma estrutura organizativa, n\u00e3o estavam organizados para a liberta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e por isso n\u00e3o existiu uma tal figura e da\u00ed que houve que recorrer \u00e0queles revoltosos, tomando-os como s\u00edmbolos da luta pela liberta\u00e7\u00e3o. Essa falta de poder organizativo constitui uma caracter\u00edstica fundamental dos forros a qual se reflete at\u00e9 hoje n\u00e3o sua incapacidade de juntos, promoverem o desenvolvimento do pa\u00eds.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escolha permitiu silenciar os cr\u00edticos externos que questionavam a forma singular como os s\u00e3o-tomenses chegaram \u00e0 independ\u00eancia, mas era preciso fixar e perpetuar essa escolha, pelo que se punha em quest\u00e3o a escolha da data para a celebra\u00e7\u00e3o da morte de pelo menos uma daquelas figuras. Escolhido Amador, tinha-se que descobrir ou inventar a data da sua morte, tanto mais que foi considerado desde o in\u00edcio do per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia a figura mais importante do arquip\u00e9lago durante todo o regime colonial. Por outro lado, j\u00e1 circulava, em substitui\u00e7\u00e3o do escudo s\u00e3o-tomense introduzido pelos portugueses, a moeda s\u00e3o-tomense Dobras, criada pelo Decreto \u2013 Lei n.\u00ba 23\/76, de 15 de julho, em notas de 50, 100, 500 e 1000, desde setembro de 1977, com a esfinge de Amador.\u00a0 Por conseguinte, havia uma press\u00e3o das autoridades para a escolha de uma data e um feriado nacional para comemorar o Dia de Amador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um projeto de Lei, com o n\u00famero 06\/VII\/03, de autoria de Albertino Bragan\u00e7a, conduziu \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o do dia 4 de Janeiro como \u201cDia de Amador\u201d, para assinalar a data da sua morte, e, simultaneamente, \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o de feriado nacional, o qual passou a vigorar a partir de 4 de janeiro de 2005. Desde ent\u00e3o, tem sido celebrado esse dia como feriado nacional em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 data em que as autoridades s\u00e3o-tomenses acreditam que Amador foi morto. O acontecimento tem sido realizado com a deposi\u00e7\u00e3o de uma coroa de flores e fazem-se importantes discursos de circunst\u00e2ncias por destacadas individualidades pol\u00edticas do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O principal entusiasta da iniciativa foi Fradique de Menezes &#8211; o Presidente das \u00abboas causas\u00bb -, que, na \u00e9poca, era o Presidente da Rep\u00fablica. Ele n\u00e3o queria terminar o seu primeiro mandato sem concluir esse longo processo de escolha da data comemorativa da morte do rei Amador que j\u00e1 se arrastava h\u00e1 cerca de tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como mostrei mais atr\u00e1s, Amador foi enforcado no dia 14 de agosto de 1595 e n\u00e3o no dia 4 de janeiro de 1596 como, erradamente, tem sido comemorado. O manuscrito do Vaticano, muitas vezes referido neste artigo, prova isto mesmo. Por outro lado, o texto de Ros\u00e1rio Pinto, mesmo omitindo a data da sua morte, permite admitir que ter\u00e1 sido preso, e consequentemente enforcado, alguns dias ap\u00f3s o fim dos confrontos que, como foi provado, ocorreu no dia 29 de julho de 1595. Por conseguinte, tem de se aceitar a data de 14 de agosto de 1595 como aquela em que Amador foi morto e n\u00e3o a outra que n\u00e3o tem qualquer fundamento. \u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabendo que Amador n\u00e3o morreu no dia 4 de janeiro de 1596, pode, ent\u00e3o, perguntar-se por que raz\u00e3o as autoridades s\u00e3o-tomenses escolheram essa data? E por que raz\u00e3o continuam insistindo neste erro grosseiro quando se sabe que existem informa\u00e7\u00e3o e estudos recentes<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> que provam a verdadeira data da sua morte? A confus\u00e3o vem de Cunha Matos, o historiador portugu\u00eas que, no seu livro de 1836, publicado em 1963, afirmou que Amador morreu no dia 4 de janeiro de 1596, sem citar a fonte nem apresentar qualquer prova de sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m entre os pol\u00edticos s\u00e3o-tomenses teve acesso ao tal livro de Cunha Matos onde na p\u00e1gina 110 ele afirma, erradamente, a data da morte de Amador.\u00a0 E sem a questionarem aceitaram-na como verdadeira. O que \u00e9 surpreendente \u00e9 o facto de as autoridades de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe terem levado demasiado tempo (cerca de 30 anos ap\u00f3s a independ\u00eancia) para encontrarem uma data para a comemora\u00e7\u00e3o da morte do seu \u201cher\u00f3i\u201d e ser ela falsa, o que levanta quest\u00f5es da moral e da \u00e9tica na pol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel mentir-se ao povo sobre a sua Hist\u00f3ria. Al\u00e9m do mais, isso desacredita a pol\u00edtica em S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e as suas elites.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2009 foi erguido um busto no lado direito do pequeno jardim do Arquivo Nacional, na cidade de S. Tom\u00e9, feito em madeira local, com tra\u00e7os que supostamente teria Amador um pouco antes de ter sido morto. Contudo, se a imagem que consta do livro de Isabel Castro Henriques (2000: 118), que mostra os castigos que Amador sofreu antes de ser enforcado, \u00e9 aut\u00eantica, ent\u00e3o, estamos perante uma falsifica\u00e7\u00e3o da sua imagem pelas autoridades s\u00e3o-tomenses, o que, a ser verdade, constitui mais uma viola\u00e7\u00e3o grave da Hist\u00f3ria do pa\u00eds. Na imagem do dito livro, Amador aparenta ser um homem ainda novo, com idade certamente inferior a 40 anos e uma abund\u00e2ncia de cabelos, mostrando que se tratava de um jovem irreverente, que se tornou l\u00edder de uma causa, e n\u00e3o um homem de meia-idade. Na verdade, n\u00e3o existe nenhuma gravura hist\u00f3rica do verdadeiro Amador. A imagem que consta das notas \u00abdobras\u00bb em circula\u00e7\u00e3o e no busto foi uma cria\u00e7\u00e3o p\u00f3s-independ\u00eancia de um desenhador s\u00e3o-tomense (Pina).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a exibi\u00e7\u00e3o do seu busto, as autoridades locais procuraram dar maior relevo ao simbolismo hist\u00f3rico que representa a figura lend\u00e1ria de Amador. De acordo com as autoridades, esta medida era uma forma de fixar e preservar a mem\u00f3ria daquele que se levantou contra a presen\u00e7a colonial em defesa da liberta\u00e7\u00e3o de todos os escravos da ilha de S. Tom\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Novembro de 2014, deu-se conta de que o busto inicial tinha sido substitu\u00eddo por um outro, com caracter\u00edsticas diferentes, n\u00e3o se sabendo por ordem de quem nem a raz\u00e3o da substitui\u00e7\u00e3o. Mas pode-se admitir que, provavelmente, se tratou de uma forma de manifesta\u00e7\u00e3o pela reposi\u00e7\u00e3o da verdade da Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas finais <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, se pode afirmar que a revolta de Amador e a forma brutal como foi vencido mostram que:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 \u2013 A igreja cat\u00f3lica em S. Tom\u00e9 participou ativamente com os seus cl\u00e9rigos e outros homens ao lado do governo contra as pretens\u00f5es de Amador, pelo que \u00e9 falso o argumento segundo o qual a igreja cat\u00f3lica apoiava os negros. Em alguns momentos isso foi verdade, mas n\u00e3o sistematicamente como alguns historiadores fazem crer.\u00a0 Durante muito tempo, a igreja colocou-se ao lado do regime escravocrata promovendo ou dando cobertura ao tr\u00e1fico de escravatura africana. Por outro lado, quando os negros se punham do lado da igreja contra o governo escolhiam o mal menor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 \u2013 Os conflitos entre os poderes institu\u00eddos na ilha (governo e igreja) n\u00e3o eram suficientes para fragilizar o poder das for\u00e7as do regime contra as revoltas internas dos negros, ou dos mesti\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 &#8211;\u00a0 Enquanto sistema, o regime pr\u00e9-capitalista precisou da igreja para cumprir os seus prop\u00f3sitos, mesmo quando deixou de estar sob o seu dom\u00ednio. A igreja e governo eram dois dos tr\u00eas pilares em que assentavam a domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o dos escravos em S. Tom\u00e9. O terceiro pilar era constitu\u00eddo por aqueles roceiros afetos ao regime, por sinal, os mais poderosos e traficantes de escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 \u2013 Muitos escritores, entre os quais, Francisco Tenreiro, fazem crer que o regime de trabalho em S. Tom\u00e9 no s\u00e9culo XVI, e mesmo ap\u00f3s, era de relativa liberdade dando a ideia que os negros viviam em quase total liberdade ou mesmo em democracia. Ora isso contraria os muitos levantamentos dos negros, principalmente em todo o s\u00e9culo XVI, e den\u00fancias de alguns padres sobre a extrema viol\u00eancia de trabalho escravo em S. Tom\u00e9, como Lains e Silva bem o referiu. Mesmo aqueles negros que, formalmente, eram livres eram, na pr\u00e1tica, escravos. Os autores que escolheram o modelo racial para explicar a hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, no per\u00edodo colonial, apresentam uma narrativa que se afasta da realidade. A an\u00e1lise que privilegia a \u00f3tica do regime parece-me mais adequada do que a racial porque esta \u00faltima limita o campo da abordagem e condiciona os investigadores a interpretar o regime de trabalho escravo em S. Tom\u00e9 de forma muito branda e, portanto, enviesada da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 \u2013 Embora Amador se tenha revoltado contra brancos e mulatos abastados, filhos diretos dos brancos e negras, em boa verdade foi contra o regime que ele e os seus homens se levantaram. A confus\u00e3o surge porque o regime estava representado justamente por brancos e mulatos abastados, levando a supor que se tratava de uma luta racial. Foi contra o regime esclavagista pr\u00e9-capitalista, que dominava e depauperava a m\u00e3o-de-obra escrava, que eles se levantaram e n\u00e3o propriamente contra uma ra\u00e7a. Caso os brancos, mulatos e negros estivessem em mesmo p\u00e9 de igualdade e onde a riqueza fosse gerada de forma l\u00edcita sem a explora\u00e7\u00e3o de uns por outros, nem as brutalidades, os levantamentos n\u00e3o teriam ocorrido. Por conseguinte, n\u00e3o \u00e9 a ra\u00e7a em si que deve ser o centro da abordagem, mas sim o regime de explora\u00e7\u00e3o que lhe estava subjacente e, neste caso, apenas os que constitu\u00edam o regime deviam ser considerados e n\u00e3o o todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 \u2013 Nos pequenos territ\u00f3rios insulares isolados em que n\u00e3o h\u00e1 um recurso natural valioso, gerador de rendas vital\u00edcias, como era (e \u00e9) o exemplo de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que algu\u00e9m consiga obter uma grande fortuna de forma sustentada no tempo atrav\u00e9s de neg\u00f3cios l\u00edcitos. Pode durante alguns anos, mas gradualmente a riqueza acumulada tender\u00e1 a diluir-se nos compromissos futuros, devido aos constrangimentos espec\u00edficos da pequena dimens\u00e3o e isolamento. Acredito que foram as atividades il\u00edcitas de tr\u00e1fico de escravatura a fonte que gerou o enriquecimento dos europeus na ilha de S. Tom\u00e9 e n\u00e3o a economia do a\u00e7\u00facar como muitos historiadores afirmam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambr\u00f3sio, Ant\u00f3nio (1984). Subs\u00eddios para a Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Lisboa: Livros Horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caldeira, Arlindo (2006). Rela\u00e7\u00e3o do Descobrimento da ilha de S\u00e3o Tom\u00e9. Manuel do Ros\u00e1rio Pinto. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. Centro de Hist\u00f3ria de Al\u00e9m-Mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esp\u00edrito Santo, Armindo (2013). \u201cAbertura ao exterior. Uma inevitabilidade para as pequenas economias insulares e condi\u00e7\u00e3o essencial para o desenvolvimento sustent\u00e1vel de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe\u201d. Olhares Cruzados sobre a Economia de S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. org. de Inoc\u00eancia Mata. Lisboa: Colibri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eyzaguirre, Pablo (1986). Small farmers and estates in S\u00e3o Tom\u00e9, West Africa. Yale University: Faculty of Graduate School. Tese de doutoramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gallet, Dominique (2001). S\u00e3o Tom\u00e9 et Pr\u00edncipe. Les iles du milieu du monde. Paris: Karthala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Galv\u00e3o, Henrique e Selvagem, Carlos (1951). Imp\u00e9rio Ultramarino Portugu\u00eas. Monografia do Imp\u00e9rio, vol. II. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Garfield, Robert (1972). A history of S\u00e3o Tom\u00e9 Island 1470-1655. The key to Guinea. S\u00e3o Francisco: Mellen Research University Press.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henriques, Isabel (2000). S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. A Inven\u00e7\u00e3o de Uma Sociedade. Lisboa: Veja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lima, Jos\u00e9 J. Lopes de (1844). Ensaios sobre a Stat\u00edstica das Possess\u00f5es Portuguezas no Ultramar. Das Ilhas de S. Thom\u00e9 e Pr\u00edncipe e sua Depend\u00eancia. Livro II. Lisboa: Imprensa Nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Magalh\u00e3es, Joaquim (2009). \u201cO a\u00e7\u00facar nas ilhas portuguesas do Atl\u00e2ntico, s\u00e9culos XV e XVI\u201d. Belo Horizonte: Varia Hist\u00f3ria, vol. 25, n.\u00ba 41: 151-175, jan\/jun 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Matos, R. Jos\u00e9 da Cunha (1815). Corografia Hist\u00f3rica das Ilhas de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, Ano Bom e Fernando P\u00f3. 4\u00aa Edi\u00e7\u00e3o, 1916. S. Tom\u00e9: Imprensa Nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Matos, R. Jos\u00e9 da Cunha (1836). Comp\u00eandio Hist\u00f3rico das Possess\u00f5es de Portugal na \u00c1frica. Rio de Janeiro, 1963.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mello, Lopo V. de Sampayo e (1910). Pol\u00edtica Ind\u00edgena. Porto: Magalh\u00e3es e Moniz ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oliveira, Jorge E. Costa (1993). A Economia de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Lisboa: Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica Tropical e Instituto para a Coopera\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pinheiro, Lu\u00eds (2012). \u201cA produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira em S\u00e3o Tom\u00e9 ao longo de Quinhentos\u201d.\u00a0 Actas do Col\u00f3quio Internacional S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacr\u00f3nica e sincr\u00f3nica (2012), 27-46. Lisboa: Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa (ISCTE-IUL). Centro de Estudos Africanos (CEA-IUL).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seibert, Gerhard (2006). \u201cEst\u00e1 errada a data do novo feriado nacional em homenagem ao Rei Amador?\u201d. Pi\u00e1, n.\u00ba 36, Setembro de 2006, pp. 20-21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seibert, Gerhard (2011). Rei Amador, hist\u00f3ria e mito da Revolta de escravos em S\u00e3o Tom\u00e9 (1595). In <a href=\"http:\/\/www.buala.org\/pt\/a-ler\/rei-amador-historia-e-mito-do-lider-da-revolta-de-escravos-em-sao-tome-1595\">http:\/\/www.buala.org\/pt\/a-ler\/rei-amador-historia-e-mito-do-lider-da-revolta-de-escravos-em-sao-tome-1595<\/a>. Janeiro de 2011. Recolhido em 29 de Julho de 2017. \u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silva, Chantal (2005). \u201cJogos e interesses de poder nos reinos do Congo e de Angola nos s\u00e9culos XVI a XVIII. Actas do Col\u00f3quio Internacional \u00abO espa\u00e7o atl\u00e2ntico de Antigo Regime, poderes e sociedades\u00bb.\u00a0 Universidade Nova de Lisboa. Centro de Hist\u00f3ria de Al\u00e9m-Mar da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas. Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o Tropical. Departamento de Ci\u00eancias Humanas. Dias 2 a 5 de Novembro de 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silva, H. Lains (1958). S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e a Cultura do Caf\u00e9. Lisboa: Mem\u00f3rias da Junta de Investiga\u00e7\u00f5es do Ultramar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sousa, Izequiel B. de (2008). S\u00e3o Tom\u00e9 et Principe, de 1485 \u00e0 1755. Une Societ\u00e9 coloniale. Du blanc au noir. Paris: L\u2019Harmattan<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenreiro, Francisco (1961). A ilha de S. Tom\u00e9. Lisboa: Mem\u00f3rias de Junta de Investiga\u00e7\u00f5es do Ultramar, n.\u00ba 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vasconcellos, Ernesto (1918). Col\u00f3nias Portuguesas. S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Estudo Elementar de Geografia f\u00edsica, econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Lisboa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Houve duas tentativas de povoamento anteriores que falharam. A primeira ocorreu em 1486 com o donat\u00e1rio Jo\u00e3o de Paiva e a segunda foi em 1490 com Jo\u00e3o Pereira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A segunda metade do s\u00e9culo XVI foi marcada por uma produ\u00e7\u00e3o flutuante com clara tend\u00eancia para o decl\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ambr\u00f3sio (1984: 179) afirma que havia por essa altura 3.000 brancos e 100.000 negros na ilha de S. Tom\u00e9. Pablo Eyzaguirre (1986: 79) refere a 100.000 pessoas, incluindo 3.000 brancos e diz que entre 1530 e 1574 havia 2.000 brancos. Cunha Matos (1836) parece ter-se sido o primeiro historiador que apresentou um n\u00famero t\u00e3o grande de popula\u00e7\u00e3o em S. Tom\u00e9 naquele per\u00edodo de maior crescimento econ\u00f3mico. H\u00e9lder Lains e Silva (1958: 71) estimou a presen\u00e7a de 3.000 a 3.500 moradores em S. Tom\u00e9 no s\u00e9culo XVI, enquanto Garfield (1992: 80) apresenta uma estimativa n\u00e3o superior a 12.000 escravos. Por conseguinte, n\u00e3o h\u00e1 aproxima\u00e7\u00e3o entre os investigadores quanto \u00e0 dimens\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe naquele per\u00edodo. Os estudos recentes mostram uma grande disparidade de valores da popula\u00e7\u00e3o embora tendem a apresentar n\u00fameros bastante mais reduzidos, pelo que continua em aberto o estudo da popula\u00e7\u00e3o de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe no s\u00e9culo XVI e tamb\u00e9m nos s\u00e9culos XVII e XVIII. Esta quest\u00e3o gerou um grande debate entre mim e Gerhard Seibert em Setembro de 2017, que at\u00e9 parecia dividir-nos. Ele publicou um artigo com o t\u00edtulo S\u00e3o Tom\u00e9\u2019s Great Slave Revolt of 1595: Background, Consequences and Misperceptions of One of the Largest Slave Uprising in Atlantic History, publicado in Portuguese Studies\u00a0 Review 18 (2) (2011) 29-50. Neste artigo, Gerhard baseou-se num trabalho de Arlindo Caldeira de 2008, e escreveu que mesmo no per\u00edodo de maior dinamismo da economia de a\u00e7\u00facar, como em 1570, a popula\u00e7\u00e3o branca na ilha de S. Tom\u00e9 certamente nunca chegou a ter mais de 500 pessoas. Eu discordei totalmente dele lembrando-lhe que existiram na ilha pelo menos 600 judeus (que n\u00e3o eram pretos nem mesti\u00e7os) e algumas centenas de degredados portugueses al\u00e9m de outros brancos que formaram a estrutura do regime colonial esclavagista na ilha, entre os quais, os membros da administra\u00e7\u00e3o, do padroado e roceiros. Por outro lado, era essencial uma dimens\u00e3o m\u00ednima da popula\u00e7\u00e3o do grupo social dominante para fazer funcionar o regime. Doutra forma, tinha-se abortado imediatamente. E entre os membros da estrutura social dominante tem de se considerar tamb\u00e9m os que s\u00e3o n\u00e3o ativos, nomeadamente as crian\u00e7as, as mulheres e os inv\u00e1lidos pelo que me parece indefens\u00e1vel o n\u00famero de 500 num per\u00edodo de expans\u00e3o econ\u00f3mica. \u00c9 preciso tamb\u00e9m cuidar que a popula\u00e7\u00e3o negra do arquip\u00e9lago n\u00e3o era de reprodu\u00e7\u00e3o, mas sim de importa\u00e7\u00e3o pelo que era muito f\u00e1cil a sua multiplica\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m veio a verificar-se nos s\u00e9culos XIX e XX com as culturas de caf\u00e9 e cacau. Por conseguinte, embora seja question\u00e1vel a dimens\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o indicada em Ambr\u00f3sio, tanto negra como branca, n\u00e3o vejo raz\u00f5es sustent\u00e1veis para escolher um n\u00famero t\u00e3o reduzido como sugere Gerhard. O que \u00e9 importante \u00e9 que se realizem investiga\u00e7\u00f5es isentas de tenta\u00e7\u00f5es tendenciosas tanto da parte dos estudiosos africanos como da parte dos n\u00e3o africanos porque isso prejudica a verdadeira Hist\u00f3ria de S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Sobre a popula\u00e7\u00e3o, discutirei noutro lugar onde procurarei calcular as minhas pr\u00f3prias estimativas para o referido per\u00edodo.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Entre muitos outros que reproduzem esta afirma\u00e7\u00e3o constam Jorge da Costa Oliveira e Dominique Gallet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ver Caldeira (2006) ou Seibert (2011).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Armindo do Esp\u00edrito Santo &#8211; Doutor em Economia e investigador do CEsA\/CSG\/ISEG-UL \u00a0\u00a0 Introdu\u00e7\u00e3o Este artigo discute a hist\u00f3ria do negro escravo Amador que chefiou uma rebeli\u00e3o na ilha de S. Tom\u00e9 em 1595, contra a presen\u00e7a dos brancos<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=3289\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3290,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-3289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3289"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3289\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}