{"id":28746,"date":"2026-10-29T18:20:12","date_gmt":"2026-10-29T21:20:12","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28746"},"modified":"2026-10-29T18:38:17","modified_gmt":"2026-10-29T21:38:17","slug":"desafios-e-oportunidades-da-politica-macroeconomica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28746","title":{"rendered":"Desafios e oportunidades da pol\u00edtica macroecon\u00f4mica brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Antonio Corr\u00eaa de Lacerda*<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O artigo tem por objetivo discutir alternativas para a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica brasileira, seus desafios e oportunidades. A partir de breve balan\u00e7o dos avan\u00e7os e condicionalidades do per\u00edodo 2023-2026, seus impactos e implica\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento, pretende-se apontar para quest\u00f5es de fundo a serem aperfei\u00e7oadas e\/ou transformadas na pr\u00f3xima gest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale destacar os progressos atingidos no per\u00edodo 2023-2026, especialmente na retomada da governan\u00e7a da gest\u00e3o macroecon\u00f4mica do Governo Federal, mediante principalmente o redesmembramento dos minist\u00e9rios da \u00e1rea econ\u00f4mica. Esses haviam sido agrupados na gest\u00e3o anterior, sob o argumento falacioso da racionaliza\u00e7\u00e3o. Na verdade, o que na pr\u00e1tica ocorreu foi a inoper\u00e2ncia em v\u00e1rias \u00e1reas e fun\u00e7\u00f5es, dada a inexist\u00eancia ou fragilidade dos canais de decis\u00e3o, execu\u00e7\u00e3o e interlocu\u00e7\u00e3o com os agentes econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2023, na gest\u00e3o atual, tornaram-se independentes entre si os Minist\u00e9rios da Fazenda e o do Planejamento, atividades complementares, por\u00e9m distintas. Destaque-se ainda a recria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio Exterior e Servi\u00e7os (MDIC), que fora extinto no per\u00edodo anterior; e a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Gest\u00e3o e Inova\u00e7\u00e3o do Setor P\u00fablico (MGI). Embora os dois \u00faltimos citados n\u00e3o exer\u00e7am diretamente a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica macro, eles representam ap\u00eandices cruciais para a estrat\u00e9gia de retomada do papel do Estado na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas em geral, com destaque para as de competitividade (comercial, industrial e Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a partir desta nova configura\u00e7\u00e3o dos minist\u00e9rios da \u00e1rea econ\u00f4mica, que, juntamente com os demais, como o da Ci\u00eancia, Tecnologia &amp; Inova\u00e7\u00e3o, se pode implementar programas e planos essenciais para o salto de qualidade observado, principalmente o Plano Nova Ind\u00fastria Brasil (NIB), o Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (NovoPAC) e o Plano de Transi\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica (PTE), para citar os principais. Tais iniciativas t\u00eam sido fundamentais para a obten\u00e7\u00e3o de resultados expressivos, n\u00e3o apenas no n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica e investimentos, mas tamb\u00e9m no aumento da renda, na redu\u00e7\u00e3o do desemprego e na melhora em todos os indicadores sociais. (Marques &amp; Rego, 2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Na quest\u00e3o das pol\u00edticas macroecon\u00f4micas, sob o ponto de vista monet\u00e1rio, a quest\u00e3o fundamental a ser enfrentada \u00e9 o aperfei\u00e7oamento do Regime de Metas de Infla\u00e7\u00e3o (RMI), implementado em 1999. O fato \u00e9 que a estrutura de mercado oligopolizada no Brasil faz com que um n\u00famero reduzido de empresas em cada nicho detenha poder de forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os, seja diretamente ou indiretamente (diretamente, elevando o pre\u00e7o; indiretamente, camuflando muitas vezes os seus produtos ou diminuindo a quantidade nas embalagens). Outro ponto relevante \u00e9 a indexa\u00e7\u00e3o formal e informal da economia brasileira, que se d\u00e1 pela corre\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, com base em indicadores passados, de alugu\u00e9is, contratos e outros pre\u00e7os, gerando na pr\u00e1tica uma perpetua\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de infla\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. (Campedelli &amp; Lacerda, 2026)<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe ressaltar a estrutura de forma\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dom\u00e9sticos, que s\u00e3o muito influenci\u00e1veis pelo mercado internacional, n\u00e3o s\u00f3 de commodities, mas tamb\u00e9m de produtos. Isso vale para o abastecimento do mercado interno, assim como para os produtos exportados, na medida em que seus pre\u00e7os em d\u00f3lares s\u00e3o convertidos para reais, formando uma esp\u00e9cie de \u201cguarda-chuva de pre\u00e7os\u201d. \u00c9 o que acontece com o caf\u00e9, por exemplo. Somos o maior produtor e exportador do produto, portanto, de elevada capacidade de oferta, mas isso n\u00e3o impediu o crescimento exponencial do seu pre\u00e7o ao consumidor local, ao longo dos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os fatores apontados geram distor\u00e7\u00f5es no RMI, mais focado em press\u00f5es de pre\u00e7os derivadas da demanda, com consequ\u00eancias delet\u00e9rias para a economia, como trataremos a seguir. Assim, torna-se necess\u00e1rio considerar os aspectos mencionados no que se refere \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o da meta de infla\u00e7\u00e3o em si, o intervalo de toler\u00e2ncia, assim como o prazo em que se pretenda atingi-la.<\/p>\n\n\n\n<p>O Banco Central e o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom) baseiam-se em um sistema de capta\u00e7\u00e3o de expectativas de mercado enviesado. O fato \u00e9 que a maioria dos respondentes do Boletim Focus \u00e9 predominantemente atuante no mercado financeiro. O Banco Central tamb\u00e9m faz as suas proje\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 o caso do Boletim Focus, que reflete basicamente a expectativa dos agentes do mercado (ou de uma parcela espec\u00edfica do mercado, majoritariamente do financeiro). Portanto, ela tem um claro vi\u00e9s por envolver um conflito de interesses, na medida em que os respondentes s\u00e3o favorecidos pela eleva\u00e7\u00e3o ou manuten\u00e7\u00e3o de juros em n\u00edvel elevado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os progn\u00f3sticos muitas vezes geram \u201cprofecias autorrealiz\u00e1veis\u201d. Quando os respondentes, por exemplo, apontam que a infla\u00e7\u00e3o vai subir ou permanecer elevada, isso acaba n\u00e3o necessariamente ocorrendo, mas influenciando a forma\u00e7\u00e3o de expectativas e, portanto, as decis\u00f5es do BCB e o comportamento das taxas de juros do mercado. \u00c9 um fato que o Focus tem errado significativamente os seus progn\u00f3sticos. Mesmo porque s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es com base em hip\u00f3teses e premissas, que n\u00e3o s\u00e3o neutras e que nem sempre se realizam, o que denota sua fragilidade do instrumento em si.<\/p>\n\n\n\n<p>O melhor exemplo disso \u00e9 o que ocorre com o crescimento da economia com resultados conflitantes. O desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) tem sido substancialmente diferente dos progn\u00f3sticos do in\u00edcio de cada ano. Em 2023 a proje\u00e7\u00e3o de janeiro, no Boletim Focus, era de uma alta de 0,8%, e a economia cresceu mais de 3%; em 2024, a previs\u00e3o era de 1,3% e o crescimento foi de 3,4%; 2025 a proje\u00e7\u00e3o, de 2,0%, foi superada pela realidade observada no final do ano, de 2,3%. Conv\u00e9m registrar que o problema apontado n\u00e3o \u00e9 trivial, pois afeta as an\u00e1lises de produto potencial e de hiato do produto, por exemplo, fatores influentes nos modelos utilizados pelas Autoridades Monet\u00e1rias para definir as taxas de juros Selic.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m vale destacar que grande parte da infla\u00e7\u00e3o que ora vivenciamos decorre de fatores absolutamente an\u00f4malos, pouco relacionados \u00e0 demanda dom\u00e9stica, e sim \u00e0 oferta global. Houve o efeito da pandemia de Covid-19, a partir de 2020, que desequilibrou os pre\u00e7os. Al\u00e9m disso, as crises clim\u00e1ticas tamb\u00e9m impactam e, assim como as guerras e conflitos geopol\u00edticos, desestabilizam as cadeias internacionais de suprimentos, afetando os pre\u00e7os. Tudo isso impacta a nossa economia, junto com a taxa de c\u00e2mbio. H\u00e1 press\u00f5es de pre\u00e7os significativas e a taxa de juros tem pouqu\u00edssima possibilidade de alterar esse cen\u00e1rio dado externamente. Portanto, tudo isso precisa ser levado em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo fiscal, a grande distor\u00e7\u00e3o se localiza no componente financeiro do d\u00e9ficit p\u00fablico, o conceito nominal, que inclui o pagamento de juros sobre a d\u00edvida p\u00fablica. Nos \u00faltimos doze meses at\u00e9 julho, o montante acumulado de pagamento de juros nominais pelo setor p\u00fablico consolidado atingiu R$ 1,182 trilh\u00e3o (8,9% do Produto Interno Bruto &#8211; PIB) (BACEN. 2026). O peso do pagamento de juros extrapola qualquer par\u00e2metro comparativo internacional, a despeito da d\u00edvida p\u00fablica brasileira n\u00e3o se distanciar da maioria dos pa\u00edses, considerando os valores relativos.<\/p>\n\n\n\n<p>No aspecto qualitativo, as Emendas Parlamentares representam outra distor\u00e7\u00e3o relevante. Elas chegam a estimados R$ 61 bilh\u00f5es este ano, representando, na pr\u00e1tica, uma disfun\u00e7\u00e3o do planejamento e da execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, pois, em sua maioria, n\u00e3o levam em conta o c\u00e1lculo de viabilidade econ\u00f4mica e social, nem sequer as prioridades. Ressalte-se que o montante mencionado supera o Or\u00e7amento Federal anual para investimentos em infraestrutura, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra distor\u00e7\u00e3o a ser corrigida est\u00e1 nos gastos tribut\u00e1rios (ren\u00fancias de receitas, como incentivos e isen\u00e7\u00f5es fiscais, dedu\u00e7\u00f5es e regimes especiais) do governo federal, que, projetados para 2026, atingem o montante de R$ 613 bilh\u00f5es. \u00c9 preciso reavaliar a concess\u00e3o de benef\u00edcios de baixo retorno social e que n\u00e3o atendem ao interesse coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, vale destacar que, ao contr\u00e1rio do senso comum das an\u00e1lises convencionais, n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre a busca de controle fiscal e a atua\u00e7\u00e3o dos bancos p\u00fablicos e ag\u00eancias de fomento, em especial do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES). Na verdade, ao fomentar os investimentos em infraestrutura, ind\u00fastria, descarboniza\u00e7\u00e3o e digitaliza\u00e7\u00e3o, age-se intensificando a amplia\u00e7\u00e3o da capacidade de oferta da economia. Ou seja, al\u00e9m de gerar demanda efetiva, fomentando o n\u00edvel de atividade, amplia o combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o estrutural pelo aumento da capacidade de oferta e melhora da competitividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Destaque-se, finalmente, que expressiva parcela das transforma\u00e7\u00f5es apontadas neste artigo extrapola a gest\u00e3o do Poder Executivo em si, sendo necess\u00e1rio mobilizar o Legislativo e tamb\u00e9m o Judici\u00e1rio. Corrigir tais distor\u00e7\u00f5es exige maior comprometimento dos Poderes e um novo pacto federativo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br>CAMPEDELLI, A.L.; LACERDA, A.C. Os alcances e o limite do regime de metas de infla\u00e7\u00e3o no Brasil In: Pesquisa &amp; Debate, S\u00e3o Paulo Pesquisa &amp; Debate, S\u00e3o Paulo, Dispon\u00edvel em https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/rpe\/article\/view\/76800\/50618<br><br>MARQUES, R. M.; REGO, J.M (orgs); LACERDA, A. C. et al. Economia brasileira. S\u00e3o Paulo: Atlas, 2026, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o revista e ampliada. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.grupogen.com.br\/livro-economia-brasileira-jose-marcio-rego-e-rosa-maria-marques-editora-atlas<\/p>\n\n\n\n<p><em>*\u00c9 economista, doutor em Economia pelo IE\/Unicamp, professor doutor do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Economia da PUC-SP e conselheiro e ex-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon). Exerceu cargos de economista-chefe e consultor nos setores privado e p\u00fablico e em entidades representativas da sociedade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado originalmente no jornal dos Economistas \u2013 clique <a href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Jornal-dos-Economistas-novembro-2026-leitura-celular-6.pdf\">AQUI<\/a> para acessar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>As ideias, opini\u00f5es e informa\u00e7\u00f5es contidas neste artigo s\u00e3o de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es), n\u00e3o refletindo, necessariamente, o posicionamento institucional do Conselho Federal de Economia, nem devendo ser interpretadas como manifesta\u00e7\u00e3o oficial da entidade.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Antonio Corr\u00eaa de Lacerda* O artigo tem por objetivo discutir alternativas para a pol\u00edtica macroecon\u00f4mica brasileira, seus desafios e oportunidades. 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