{"id":28580,"date":"2026-09-25T15:01:58","date_gmt":"2026-09-25T18:01:58","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28580"},"modified":"2026-09-25T15:01:59","modified_gmt":"2026-09-25T18:01:59","slug":"endividamento-das-familias-alem-da-taxa-de-juros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28580","title":{"rendered":"Endividamento das fam\u00edlias: al\u00e9m da taxa de juros"},"content":{"rendered":"\n<p><em>*Por Kerssia Preda Kamenach\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o do endividamento das fam\u00edlias brasileiras costuma ser associada, de forma quase autom\u00e1tica, ao n\u00edvel da taxa de juros. A rela\u00e7\u00e3o existe: juros mais elevados encarecem o cr\u00e9dito e ampliam o custo do servi\u00e7o da d\u00edvida, especialmente nas modalidades de maior custo, como o cr\u00e9dito rotativo do cart\u00e3o. Entretanto, atribuir \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria a explica\u00e7\u00e3o central para o atual n\u00edvel de endividamento \u00e9 insuficiente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria evid\u00eancia hist\u00f3rica sugere cautela. Em 2015 a taxa Selic era de 14,25% e o percentual de fam\u00edlias endividadas situava-se pr\u00f3ximo de 61,10%. Atualmente o endividamento \u00e9 de 80,40% com uma Selic de 14%, portanto a diferen\u00e7a n\u00e3o pode ser explicada exclusivamente pela taxa de juros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que ocorreu nesse intervalo foi uma transforma\u00e7\u00e3o significativa na estrutura do consumo e do sistema financeiro brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia acelerou a digitaliza\u00e7\u00e3o das empresas e modificou os canais de comercializa\u00e7\u00e3o. O com\u00e9rcio eletr\u00f4nico, que j\u00e1 apresentava trajet\u00f3ria de expans\u00e3o, ganhou escala e incorporou novos consumidores. As vendas no digital em 2019, per\u00edodo anterior a pandemia somou 61,9 bilh\u00f5es de vendas no ano, em 2025 segundo dados da ABComm\/Abiacom as vendas foram de 235 bilh\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, ocorreu uma profunda transforma\u00e7\u00e3o na intermedia\u00e7\u00e3o financeira. A expans\u00e3o dos bancos digitais e das fintechs reduziu custos de acesso, ampliou a concorr\u00eancia e aproximou servi\u00e7os banc\u00e1rios, meios de pagamento e oferta de cr\u00e9dito do cotidiano do consumidor. O processo foi acompanhado por mudan\u00e7as institucionais, como a cria\u00e7\u00e3o do marco das institui\u00e7\u00f5es de pagamento e a regulamenta\u00e7\u00e3o das fintechs de cr\u00e9dito junto ao Banco Central Brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 uma nova arquitetura de consumo. A aquisi\u00e7\u00e3o de um produto, o acesso ao cr\u00e9dito e o pagamento passaram a ocorrer, muitas vezes, dentro do mesmo ambiente digital. A redu\u00e7\u00e3o das barreiras transacionais aumenta a conveni\u00eancia, mas tamb\u00e9m pode diminuir o intervalo entre o desejo de consumo e a decis\u00e3o de compra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o problema n\u00e3o \u00e9 o cart\u00e3o de cr\u00e9dito em si, mas a crescente utiliza\u00e7\u00e3o da renda futura para financiar o consumo presente. Quando o pagamento integral n\u00e3o ocorre e o consumidor recorre ao cr\u00e9dito rotativo, a taxa de juros passa a desempenhar papel decisivo na deteriora\u00e7\u00e3o da capacidade de pagamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda uma dimens\u00e3o adicional: as apostas on-line. Para parcelas financeiramente vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o, a promessa de obten\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de renda pode transformar as Bets em uma tentativa de recomposi\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento. Entretanto, essa estrat\u00e9gia pode produzir justamente o efeito contr\u00e1rio, ampliando a exposi\u00e7\u00e3o financeira das fam\u00edlias.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o atual ciclo de endividamento precisa ser compreendido como resultado da intera\u00e7\u00e3o entre renda, cr\u00e9dito, juros e uma nova estrutura de consumo digital. A taxa de juros \u00e9 um componente importante dessa equa\u00e7\u00e3o, sobretudo para determinar o custo da d\u00edvida, mas n\u00e3o explica sozinha a mudan\u00e7a de patamar observada nos \u00faltimos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio de pol\u00edtica econ\u00f4mica, portanto, \u00e9 mais amplo do que reduzir o custo do cr\u00e9dito. \u00c9 necess\u00e1rio compreender como a digitaliza\u00e7\u00e3o, os novos intermedi\u00e1rios financeiros e os meios de pagamento est\u00e3o alterando o comportamento das fam\u00edlias e sua exposi\u00e7\u00e3o ao endividamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o central j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas quanto as fam\u00edlias devem, mas como a transforma\u00e7\u00e3o da economia digital est\u00e1 modificando a rela\u00e7\u00e3o entre renda, cr\u00e9dito e consumo<strong>.<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>*Kerssia Preda Kamenach \u00e9 economista (CORECON-GO n\u00ba 2595\/D), conselheira do Conselho Federal de Economia e s\u00f3cia-fundadora da Pool Consultores. Doutora em Economia, desenvolve projetos nas \u00e1reas de desenvolvimento econ\u00f4mico, gest\u00e3o financeira e capacita\u00e7\u00e3o empresarial.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Kerssia Preda Kamenach\u00a0 A eleva\u00e7\u00e3o do endividamento das fam\u00edlias brasileiras costuma ser associada, de forma quase autom\u00e1tica, ao n\u00edvel da taxa de juros. 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