{"id":28577,"date":"2026-09-25T14:52:45","date_gmt":"2026-09-25T17:52:45","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28577"},"modified":"2026-09-25T14:52:46","modified_gmt":"2026-09-25T17:52:46","slug":"afinal-o-que-os-economistas-entendem-por-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28577","title":{"rendered":"Afinal, o que os Economistas Entendem por Economia?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por H\u00e9lio Afonso de Aguilar Filho*<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade dos economistas tem v\u00e1rias maneiras de abordar a Economia1 enquanto ci\u00eancia, sendo tr\u00eas delas as mais destacadas: elas tratam respectivamente da Economia como m\u00e9todo, objeto e campo. Na pr\u00e1tica, contudo, tais perspectivas se revelam menos estanques e mais entrecruzadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira considera a Economia como \u201ca ci\u00eancia que estuda o comportamento humano como uma rela\u00e7\u00e3o entre fins e meios escassos com usos alternativos\u201d. Nesta defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia ao objeto ou assunto da disciplina, mas ao m\u00e9todo de estudo, ou seja, a aplica\u00e7\u00e3o do instrumental da otimiza\u00e7\u00e3o condicionada para explicar os fen\u00f4menos humanos. Trata-se, portanto, de avaliar a escolha dos meios mais \u201ceficientes\u201d para se atingir fins desejados, procedimento t\u00edpico dos m\u00e9todos quantitativos que abrangem a modelagem econ\u00f4mica e a econometria. Vale ressaltar que, apesar de n\u00e3o explicitados por seus praticantes, tais procedimentos pressup\u00f5em tanto a no\u00e7\u00e3o de sistemas fechados, na qual a causalidade \u00e9 interpretada como conjun\u00e7\u00e3o constante de eventos, quanto o de agentes econ\u00f4micos atomizados e em estado de isolamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda forma de abordar a Economia, como objeto, recebe mais a aten\u00e7\u00e3o dos economistas heterodoxos, que s\u00e3o aqueles em desacordo com a tradi\u00e7\u00e3o de pesquisa vigente. A heterodoxia tende a ver a Economia de forma mais substantiva, seja como a ci\u00eancia que estuda a atividade econ\u00f4mica voltada para a produ\u00e7\u00e3o de bens materiais, ou como comportamento derivado das institui\u00e7\u00f5es da economia de trocas individualistas (mercado). A primeira forma recebe a cr\u00edtica dos economistas convencionais por ser restrita e n\u00e3o incluir os servi\u00e7os e os bens intang\u00edveis; a segunda \u00e9 criticada por tratar apenas do interc\u00e2mbio em mercados formais ou de trocas envolvendo dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 para os economistas convencionais, se existe um objeto da Economia, \u00e9 a pr\u00f3pria escassez. Esse \u00e9 o enfoque adotado em v\u00e1rios manuais da disciplina, o qual promove a fus\u00e3o de um conceito l\u00f3gico a uma no\u00e7\u00e3o substantiva de Economia. Com isto, os problemas econ\u00f4micos b\u00e1sicos, a saber, \u201co que?\u201d, \u201cpor que e como?\u201d e \u201cpara quem produzir?\u201d (todos substantivos), passam a existir apenas em raz\u00e3o de os recursos serem escassos (em quantidade limitada para satisfazerem fins m\u00faltiplos). O conceito \u00e9 l\u00f3gico porque a escassez n\u00e3o \u00e9 um dado do mundo, mas depende da rela\u00e7\u00e3o entre meios e fins, sendo estes \u00faltimos baseados em prefer\u00eancias subjetivas, as quais variam de pessoa para pessoa. O que existe, no dizer de Karl Polanyi, \u00e9 insufici\u00eancia de meios (este sim, um conceito operacional, pass\u00edvel de verifica\u00e7\u00e3o). Para entender o porqu\u00ea, fa\u00e7a o<\/p>\n\n\n\n<p>seguinte experimento mental: perfile determinados meios um a um para cada objetivo eleito dentro de uma ordem de prefer\u00eancias; se os meios n\u00e3o forem suficientes para atender a todos os fins, eles ser\u00e3o considerados insuficientes, mas n\u00e3o escassos.<\/p>\n\n\n\n<p>Autores convencionais como Gary Becker e George Stigler aceitam a sugest\u00e3o de que os fen\u00f4menos de mercado s\u00e3o o objeto da Economia; contudo, ampliam o escopo de seus estudos com uma vis\u00e3o bastante el\u00e1stica desta institui\u00e7\u00e3o. No dizer de Polanyi, tal tratamento visa a igualar o mercado (Economia) \u00e0 economia (atividade), e essa \u00faltima \u00e0 sociedade. Isso se torna poss\u00edvel, primeiro, pela pressuposi\u00e7\u00e3o de que tudo tem um pre\u00e7o impl\u00edcito (pre\u00e7o sombra), mensurado em termos de oportunidades perdidas (custo de oportunidade); em segundo lugar, pela substitui\u00e7\u00e3o da racionalidade onisciente pela racionalidade limitada e informa\u00e7\u00f5es incompletas e assim\u00e9tricas. Concebe-se, assim, que os agentes buscam maximizar seus interesses, mas precisam emitir sinaliza\u00e7\u00f5es e construir certa reputa\u00e7\u00e3o para assegurar a viabilidade de suas transa\u00e7\u00f5es. O resultado da aplica\u00e7\u00e3o desse instrumental te\u00f3rico \u00e9 o avan\u00e7o das fronteiras da Economia em dire\u00e7\u00e3o aos dom\u00ednios de outras ci\u00eancias sociais e humanidades, possibilitando tratar de quest\u00f5es como v\u00edcio, casamento, elei\u00e7\u00f5es, discrimina\u00e7\u00e3o e criminalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a sociedade de mercado permeando todos os aspectos da vida e validando an\u00e1lises em termos de custos e benef\u00edcios, vale a pergunta: o que o \u201cdinheiro\u201d n\u00e3o compra? Um problema com abordagens t\u00e3o amplas como essa \u00e9 que elas se ajustam a qualquer situa\u00e7\u00e3o observada: explicam tudo, e aquilo que explica tudo pode acabar explicando nada! Para ilustrar, \u00e9 poss\u00edvel a algu\u00e9m dizer que prefere sorvete de chocolate ao de morango, e consumir o \u00faltimo. Tal decis\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a teoria de muitas maneiras diferentes, seja porque o pre\u00e7o do sorvete de morango \u00e9 baixo em rela\u00e7\u00e3o ao or\u00e7amento do consumidor, seja por a outra op\u00e7\u00e3o n\u00e3o estar dispon\u00edvel, ou porque o consumidor mudou de prefer\u00eancias, e assim segue. Nesse sentido, diz-se que a teoria \u00e9 n\u00e3o false\u00e1vel, pois inexiste condi\u00e7\u00e3o de mundo independente dela pr\u00f3pria para testar suas hip\u00f3teses.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro problema \u00e9 que o \u201cdinheiro\u201d, ou mercado, altera o valor dos bens negociados. Dito de outro modo, o mercado n\u00e3o \u00e9 neutro; ele pode \u201ccorromper\u201d o valor dos bens. \u00c9 poss\u00edvel negociar p\u00e3o e manteiga, mas n\u00e3o se negocia amor, amizade, paternidade ou sentimento nacional. Como salienta Michael Sandel, \u201csinalizar\u201d amor n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que express\u00e1-lo, \u00e9 presumir equivocadamente que o amor \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o particular transmitida por uma parte \u00e0 outra, quando na verdade \u00e9 uma maneira de estar com outra pessoa e reagir a ela (envolve v\u00ednculo e intimidade). Caso an\u00e1logo ocorre quando algu\u00e9m tenta pagar para ter um amigo: o resultado final ser\u00e1 qualquer coisa, menos amizade, pois as pr\u00e1ticas sociais que sustentam tal compromisso est\u00e3o baseadas mais em normas, atitudes e virtudes do que em vantagens estritamente pecuni\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima forma de abordar a Economia \u00e9 consider\u00e1-la um campo, estruturado por meio de normas e regras institucionalizadas de pr\u00e1ticas (profiss\u00e3o, peri\u00f3dicos, pr\u00eamios etc.). Nessa perspectiva, n\u00e3o \u00e9 a natureza que define o objeto e os limites<\/p>\n\n\n\n<p>da ci\u00eancia, mas o interesse da comunidade cient\u00edfica por meio de conven\u00e7\u00f5es negociadas. As lutas internas e as press\u00f5es externas na Economia s\u00e3o t\u00e3o intensas que dificultam a autonomia para arbitrar sobre o que \u00e9 real, prejudicando tamb\u00e9m a compreens\u00e3o dos pr\u00f3prios motivos e da natureza das divis\u00f5es entre os economistas. Para alguns, elas decorrem de op\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas ou procedimentos substantivos internos ao pr\u00f3prio campo; para outros, dizem respeito a quest\u00f5es externas, relativas \u00e0 ideologia e \u00e0 influ\u00eancia das clivagens pol\u00edticas da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Abordar a Economia a partir da no\u00e7\u00e3o de \u201ccampo\u201d ajuda a reconhecer os interesses em disputa na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Isso impede que as conven\u00e7\u00f5es cient\u00edficas abstratas (o conceito l\u00f3gico de escassez) se sobreponham \u00e0 pr\u00e1tica real e material da sociedade (o conceito substantivo). Esse entendimento evidencia que a economia concreta n\u00e3o \u00e9 um reflexo de modelos te\u00f3ricos, mas deve ser compreendida em sua dimens\u00e3o institucional e hist\u00f3rica, ou seja, como organiza\u00e7\u00e3o da sustenta\u00e7\u00e3o humana a partir da intera\u00e7\u00e3o com um meio natural. Atualmente, esse processo material encontra-se subsumido \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da propriedade privada e do mercado, onde a valoriza\u00e7\u00e3o abstrata da riqueza dita o ritmo da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, \u00e9 imposs\u00edvel produzir uma defini\u00e7\u00e3o de Economia que contemple a totalidade dos economistas. Isso ocorre porque, diante das divis\u00f5es internas da profiss\u00e3o, as v\u00e1rias perspectivas revelam-se inconcili\u00e1veis nas tr\u00eas dimens\u00f5es apresentadas. N\u00e3o obstante, o enfoque sustentado aqui se inclina mais no sentido de reconhecer os limites das explica\u00e7\u00f5es baseadas em t\u00e9cnicas e m\u00e9todos da Economia convencional, contrapondo-lhes a aceita\u00e7\u00e3o da \u201cr\u00e9gua do dinheiro\u201d como objeto da Economia. Nesse sentido, a Economia \u00e9 mais bem vista como uma parcela da divis\u00e3o do trabalho nas ci\u00eancias sociais, voltada ao estudo dos aspectos da a\u00e7\u00e3o humana mais intimamente ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o e ao uso da riqueza, articulada com a avalia\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios alternativos realmente poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Bibliografia:<\/p>\n\n\n\n<p>FINE, B.; MILONAKIS, D. (2009). From Economics Imperialism to Freakonomics. The shifting boundaries between economics and other social sciences. London-New York: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p>IOANNIDES, S.; NIELSEN, K. (2007). Economics and the Social Sciences: boundaries, interaction and integration. Cheltenham, UK-Northampton, MA, USA: Edward Elgar Cheltenham.<\/p>\n\n\n\n<p>LAWSON, T. (2003). Reorienting Economics. Routledge: London-New York.<\/p>\n\n\n\n<p>MAKI. U. (2000). \u201cImperialismo da Economia. Conceitos e Restri\u00e7\u00f5es\u201d. Econ\u00f4mica, v. 7 junho, p. 5-36.<\/p>\n\n\n\n<p>POLANYI, K. (2012). A Subsist\u00eancia do Homem. E ensaios correlatos. Rio de Janeiro: Editora Contraponto.<\/p>\n\n\n\n<p>ROBBINS, L. (2012). Um Ensaio Sobre a Natureza e a Import\u00e2ncia da Ci\u00eancia Econ\u00f4mica &#8211; Col. Cl\u00e1ssicos da Economia. S\u00e3o Paulo: Editora Saraiva.<\/p>\n\n\n\n<p>SANDEL. M. (2012). O Que o Dinheiro n\u00e3o Compra. Os limites morais do mercado. S\u00e3o Paulo: Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>STIGLER, G. J.; BECKER, G. S. (1977) \u201cDe Gustibus Non Est Disputandum\u201d. Pittsburgh: The American Economic Review, v. 67, n. 2, p. 76\u201390.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*H\u00e9lio Afonso de Aguilar Filho \u00e9 Doutor em Economia pela UFRGS. Professor Associado da UFRGS<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por H\u00e9lio Afonso de Aguilar Filho* A comunidade dos economistas tem v\u00e1rias maneiras de abordar a Economia1 enquanto ci\u00eancia, sendo tr\u00eas delas as mais destacadas: elas tratam respectivamente da Economia como m\u00e9todo, objeto e campo. Na pr\u00e1tica, contudo, tais perspectivas<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28577\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":28578,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-28577","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28577"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28577"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28577\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28579,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28577\/revisions\/28579"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/28578"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}