{"id":28297,"date":"2026-08-17T18:04:20","date_gmt":"2026-08-17T21:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28297"},"modified":"2026-08-17T18:04:21","modified_gmt":"2026-08-17T21:04:21","slug":"novas-tarifas-e-os-desafios-para-a-economia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28297","title":{"rendered":"Novas tarifas e os desafios para a economia brasileira\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Tania Cristina Teixeira*<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o dos Estados Unidos de aplicar tarifas de at\u00e9 37,5% sobre parte das&nbsp;importa\u00e7\u00f5es provenientes do Brasil reafirma uma nova etapa nas rela\u00e7\u00f5es comerciais entre os dois pa\u00edses, marcada pelo aumento&nbsp;das barreiras \u00e0 entrada de produtos brasileiros no mercado norte-americano e pela necessidade de intensifica\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo diplom\u00e1tico e das negocia\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. As tarifas de 25% e 12,5% entraram em vig\u00eancia nos dias 22 e 24 de julho, respectivamente, e alcan\u00e7am parcela significativa dos produtos brasileiros, embora preservem exce\u00e7\u00f5es como carne bovina, suco de laranja, aeronaves e componentes aeron\u00e1uticos e determinados produtos energ\u00e9ticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise dessa medida deve considerar seus poss\u00edveis efeitos sobre a produ\u00e7\u00e3o, as exporta\u00e7\u00f5es e o mercado de trabalho em uma economia globalizada, na qual empresas e fornecedores est\u00e3o conectados por cadeias produtivas internacionais. Quando um produto brasileiro enfrenta uma tarifa adicional para ingressar em outro mercado, perde competitividade diante de fornecedores locais ou de outras economias. A manuten\u00e7\u00e3o prolongada dessas barreiras tamb\u00e9m pode influenciar decis\u00f5es empresariais sobre a localiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e a escolha de fornecedores. Esse processo, contudo, n\u00e3o \u00e9 imediato nem irrevers\u00edvel. A qualidade dos produtos brasileiros, a integra\u00e7\u00e3o j\u00e1 existente entre as empresas dos dois pa\u00edses e a atua\u00e7\u00e3o do governo na negocia\u00e7\u00e3o comercial, no apoio aos setores afetados e na abertura de novos mercados s\u00e3o fatores decisivos para preservar a presen\u00e7a brasileira nas cadeias globais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos ocupam uma posi\u00e7\u00e3o relevante no com\u00e9rcio exterior brasileiro. O Brasil exportou US$ 42,3 bilh\u00f5es em bens para o mercado norte-americano em 2024 e US$ 39,9 bilh\u00f5es em 2025.&nbsp;Al\u00e9m disso, diferentemente de outros grandes parceiros comerciais, os EUA adquirem uma parcela expressiva de produtos brasileiros de maior valor agregado, como m\u00e1quinas, equipamentos, produtos qu\u00edmicos, artigos de metal e outros bens industrializados. Trata-se, portanto, de uma rela\u00e7\u00e3o comercial com impacto direto sobre setores intensivos em tecnologia, investimento e gera\u00e7\u00e3o de empregos qualificados.&nbsp;Uma redu\u00e7\u00e3o das encomendas externas n\u00e3o afeta somente a empresa exportadora: os efeitos podem alcan\u00e7ar fornecedores de mat\u00e9rias-primas, componentes, servi\u00e7os especializados, transporte e log\u00edstica, al\u00e9m de pequenos e m\u00e9dios&nbsp;empreendimentos&nbsp;integrados a essas atividades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os impactos tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o uniformes. Os grandes n\u00fameros, quando observados isoladamente, muitas vezes ocultam onde as perdas efetivamente se concentram e quem suporta seus custos. Do ponto de vista regional, os efeitos podem ser mais significativos em estados cuja estrutura produtiva mant\u00e9m forte integra\u00e7\u00e3o com aquele mercado.&nbsp;S\u00e3o Paulo, principal polo industrial do Pa\u00eds, concentra parcela expressiva das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de bens manufaturados. Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paran\u00e1 e Santa Catarina tamb\u00e9m apresentam elevada participa\u00e7\u00e3o de produtos metalmec\u00e2nicos na pauta exportadora para os Estados Unidos. Esp\u00edrito Santo e Bahia podem registrar efeitos sobre cadeias ligadas \u00e0 siderurgia, celulose, produtos qu\u00edmicos e minera\u00e7\u00e3o. Em todos esses casos, eventuais redu\u00e7\u00f5es nas exporta\u00e7\u00f5es podem repercutir sobre o emprego, a renda, a arrecada\u00e7\u00e3o e a atividade econ\u00f4mica local, exigindo acompanhamento permanente e pol\u00edticas direcionadas aos setores mais vulner\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os setores potencialmente mais expostos est\u00e3o segmentos da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o com elevada participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es para o mercado norte-americano, como m\u00e1quinas e equipamentos, produtos qu\u00edmicos, artigos de metal, madeira e m\u00f3veis, autope\u00e7as e determinados bens manufaturados. Embora parte desses produtos tenha ficado de fora das novas tarifas, empresas inseridas em cadeias produtivas integradas poder\u00e3o enfrentar redu\u00e7\u00e3o de demanda e necessidade de renegocia\u00e7\u00e3o de contratos. Pequenas e m\u00e9dias empresas, muitas vezes dependentes de grandes exportadoras,&nbsp;tendem a sentir estes efeitos de forma mais intensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia internacional demonstra que tarifas comerciais podem produzir consequ\u00eancias em ambos os lados da rela\u00e7\u00e3o. As empresas norte-americanas que utilizam produtos brasileiros como insumos poder\u00e3o enfrentar aumento de custos, com poss\u00edveis reflexos sobre os pre\u00e7os pagos pelos consumidores. N\u00e3o surpreende o fato de que empresas norte-americanas como Coca-Cola, Tesla e eBay participaram das audi\u00eancias do Escrit\u00f3rio do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) defendendo a n\u00e3o imposi\u00e7\u00e3o de tarifas, sob argumenta\u00e7\u00e3o de que elas atrapalhariam a competitividade destas empresas no pr\u00f3prio territ\u00f3rio norte-americano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo que mant\u00e9m a interlocu\u00e7\u00e3o, o Brasil tamb\u00e9m acionou a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, formalizando um pedido de consulta. Al\u00e9m disso, a Lei da Reciprocidade Econ\u00f4mica ampliou a capacidade institucional do Pa\u00eds para responder a medidas comerciais unilaterais que afetem sua competitividade. No dia 13 de agosto o governo brasileiro emitiu uma nota informando que deu in\u00edcio ao processo para aplicar medidas de reciprocidade previstas na lei e que o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores est\u00e1 notificando o governo dos Estados Unidos e solicitando a realiza\u00e7\u00e3o de consultas diplom\u00e1ticas, enfatizando que a medida refor\u00e7a a disposi\u00e7\u00e3o de privilegiar o di\u00e1logo e a negocia\u00e7\u00e3o em suas rela\u00e7\u00f5es internacionais. A nota diz, ainda, que as tarifas norte-americanas s\u00e3o injustificadas e arbitr\u00e1rias, e que o Brasil continuar\u00e1 defendendo sua posi\u00e7\u00e3o em todas as inst\u00e2ncias cab\u00edveis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, os Estados Unidos mant\u00eam um resultado comercial favor\u00e1vel na rela\u00e7\u00e3o com o Brasil, registrando super\u00e1vit no com\u00e9rcio de bens em todos os anos desde 2008 e, no de servi\u00e7os, desde 1999. De acordo com dados do USTR, o d\u00e9ficit brasileiro no com\u00e9rcio de bens foi de US$ 6,7 bilh\u00f5es em 2024 e US$ 14,4 bilh\u00f5es em 2025; j\u00e1 no de servi\u00e7os, o d\u00e9ficit de 2024 foi de US$ 23,1 bilh\u00f5es e o de 2025 foi de US$ 26,1 bilh\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O governo brasileiro tamb\u00e9m disp\u00f5e de instrumentos internos para apoiar os setores atingidos. O Plano Brasil Soberano, institu\u00eddo em 2025 diante das primeiras eleva\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias, reuniu medidas de cr\u00e9dito, garantias, apoio tribut\u00e1rio e est\u00edmulo \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o dos mercados de destino. Ao todo, foram R$ 16 bilh\u00f5es executados na primeira fase, R$ 21 disponibilizados na segunda e R$ 18,5 anunciados na terceira, institu\u00edda em 22 de julho pela Medida Provis\u00f3ria 1.379\/2026. A experi\u00eancia acumulada com o Plano pode contribuir para orientar novas provid\u00eancias, caso sejam necess\u00e1rias diante da amplia\u00e7\u00e3o das tarifas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O novo cen\u00e1rio refor\u00e7a a import\u00e2ncia da diversifica\u00e7\u00e3o comercial. Ampliar as rela\u00e7\u00f5es com pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1sia, da \u00c1frica, do Oriente M\u00e9dio e da Europa reduz a depend\u00eancia de mercados espec\u00edficos e fortalece a capacidade de negocia\u00e7\u00e3o do Brasil. A conclus\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o de acordos comerciais tamb\u00e9m podem abrir novas oportunidades para os produtos nacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diversificar, contudo, n\u00e3o significa substituir automaticamente um parceiro por outro. Os Estados Unidos continuar\u00e3o sendo um mercado estrat\u00e9gico, sobretudo para a ind\u00fastria brasileira. O desafio consiste em preservar essa rela\u00e7\u00e3o enquanto o Pa\u00eds amplia seus destinos comerciais, fortalece sua competitividade e agrega mais valor \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, os economistas t\u00eam uma contribui\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel. Cabe a eles&nbsp;avaliar&nbsp;como as tarifas afetam cada setor, identificar os empregos mais vulner\u00e1veis e estimar os efeitos sobre produ\u00e7\u00e3o, pre\u00e7os, c\u00e2mbio, investimentos e arrecada\u00e7\u00e3o. Esta an\u00e1lise permite transformar informa\u00e7\u00f5es em decis\u00f5es p\u00fablicas e empresariais mais seguras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Economistas tamb\u00e9m contribuem com o desenho das pol\u00edticas de cr\u00e9dito e prote\u00e7\u00e3o ao emprego, a identifica\u00e7\u00e3o de mercados alternativos e a elabora\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias capazes de reduzir riscos. Nas empresas, sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para revisar custos e avaliar as condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia ou expans\u00e3o no com\u00e9rcio internacional.&nbsp;O mesmo conhecimento econ\u00f4mico \u00e9 necess\u00e1rio para distinguir impactos tempor\u00e1rios de mudan\u00e7as estruturais. Uma resposta adequada n\u00e3o deve apenas enfrentar as dificuldades imediatas, mas contribuir&nbsp;para que&nbsp;a economia seja mais produtiva e diversificada, tornando-se menos vulner\u00e1vel \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es externas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As tarifas imp\u00f5em desafios relevantes, mas o Brasil tem capacidade para enfrent\u00e1-los. A atua\u00e7\u00e3o coordenada entre governo, setor produtivo, trabalhadores, universidades e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa ser\u00e1 decisiva para reduzir os impactos, preservando empregos e construindo novas oportunidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O com\u00e9rcio internacional \u00e9 uma ferramenta de desenvolvimento, coopera\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de renda. A busca por rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas equilibradas, sustentadas pelo di\u00e1logo e por regras previs\u00edveis, interessa \u00e0s sociedades brasileira e norte-americana. Muito al\u00e9m de reagir a uma medida espec\u00edfica, este \u00e9 o momento de fortalecer uma estrat\u00e9gia de longo prazo para a inser\u00e7\u00e3o soberana e competitiva do Brasil na economia mundial (que, em 2025, foi de 2,1% do PIB nominal global em d\u00f3lares e 1,3% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais).<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Presidenta\u00a0do Conselho Federal de Economia \u2013 Cofecon<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tania Cristina Teixeira* A decis\u00e3o dos Estados Unidos de aplicar tarifas de at\u00e9 37,5% sobre parte das&nbsp;importa\u00e7\u00f5es provenientes do Brasil reafirma uma nova etapa nas rela\u00e7\u00f5es comerciais entre os dois pa\u00edses, marcada pelo aumento&nbsp;das barreiras \u00e0 entrada de produtos<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=28297\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":28301,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[65],"tags":[],"class_list":["post-28297","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28297"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28297"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28297\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28299,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28297\/revisions\/28299"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/28301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}