{"id":27589,"date":"2026-03-27T16:34:17","date_gmt":"2026-03-27T19:34:17","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=27589"},"modified":"2026-03-27T16:34:19","modified_gmt":"2026-03-27T19:34:19","slug":"podcast-economistas-desdobramentos-economicos-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=27589","title":{"rendered":"Podcast Economistas: Desdobramentos econ\u00f4micos da guerra\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Jos\u00e9 Francisco de Lima Gon\u00e7alves analisa os impactos da guerra no Ir\u00e3 e como eles podem afetar a economia brasileira<\/em>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 no ar mais um epis\u00f3dio do\u00a0podcast Economistas! Nas \u00faltimas quatro semanas, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Ir\u00e3 trouxe desdobramentos que ultrapassam o cen\u00e1rio militar e alcan\u00e7am a economia global. A eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os internacionais do petr\u00f3leo e os riscos \u00e0s cadeias de suprimentos\u00a0representam um desafio para os v\u00e1rios pa\u00edses, trazendo consequ\u00eancias tamb\u00e9m para a economia brasileira.\u00a0O podcast pode ser ouvido na sua plataforma favorita ou no player abaixo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: #178 - Impactos da guerra e desdobramentos econ\u00f4micos no Brasil\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/5W5S15HabWHOcl2GobVonk?si=nCADOfQOQ7SjD36mWvI-HQ&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o da China vem reconfigurando o equil\u00edbrio de for\u00e7as na economia mundial. Esta reconfigura\u00e7\u00e3o reduz o peso relativo de economias tradicionalmente centrais e altera padr\u00f5es de com\u00e9rcio, investimento e tecnologia. Este processo tem implica\u00e7\u00f5es diretas para v\u00e1rios pa\u00edses. Na economia brasileira, o desinvestimento em alguns setores como a ind\u00fastria tem tido a contrapartida do setor exportador, tanto de extra\u00e7\u00e3o mineral quanto agropecu\u00e1rio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, no cen\u00e1rio internacional, em anos recentes,&nbsp;diversos&nbsp;pa\u00edses&nbsp;presenciaram&nbsp;o surgimento de uma s\u00e9rie de movimentos que combinam tra\u00e7os fortes de nacionalismo e o desejo de uma volta ao passado.&nbsp;Este \u00e9 um fen\u00f4meno presente em v\u00e1rias partes do mundo e que, nos estados unidos, est\u00e1 representado na figura do atual presidente, Donald Trump.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTrump promete o que me parece ser imposs\u00edvel, que \u00e9 uma volta ao passado. Tanto os democratas quanto os republicanos t\u00eam fracassado na tentativa de superar esta situa\u00e7\u00e3o nova, com todos os impactos que&nbsp;ela&nbsp;tem sobre a tradi\u00e7\u00e3o americana de uma sofisticada camada de trabalhadores na ind\u00fastria e nos servi\u00e7os e do amplo desenvolvimento de uma classe m\u00e9dia orgulhosa de suas perspectivas e possibilidades. E essas duas coisas n\u00e3o existem mais\u201d, analisa o professor Jos\u00e9 Francisco de Lima Gon\u00e7alves, da Universidade de S\u00e3o Paulo.&nbsp;\u201cEssa tentativa de volta ao passado, no mundo inteiro, tem se caracterizado por uma recupera\u00e7\u00e3o do autoritarismo e da demagogia que n\u00f3s conhecemos no per\u00edodo entre guerras\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segundo mandato de Trump<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gon\u00e7alves v\u00ea o segundo mandato de Trump com um foco ainda maior no nacionalismo e numa expans\u00e3o que se contrap\u00f5e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nacionais e internacionais do per\u00edodo p\u00f3s-Segunda Guerra. Al\u00e9m disso, o cen\u00e1rio internacional atual tamb\u00e9m \u00e9 diferente, com uma Europa acuada pela expans\u00e3o russa e com uma presen\u00e7a sofisticada da China no cen\u00e1rio internacional, tanto pelo com\u00e9rcio quanto pela estrat\u00e9gia do Cintur\u00e3o e Rota.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Ir\u00e3 \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o abra um precedente para que outros pa\u00edses passem a adotar uma dire\u00e7\u00e3o similar. O epis\u00f3dio pode enfraquecer mecanismos internacionais de media\u00e7\u00e3o e ampliar o risco de escaladas regionais em outros lugares do mundo, impactando a economia global.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gon\u00e7alves v\u00ea semelhan\u00e7a entre os efeitos econ\u00f4micos da guerra e os da pandemia e da invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia, na medida em que provoca volatilidade nos pre\u00e7os das commodities e de ativos financeiros e traz o risco de uma nova rodada de bloqueios ao com\u00e9rcio internacional.&nbsp;Nos&nbsp;Estados&nbsp;Unidos, no ano de 2026 h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato (mid&nbsp;term), num quadro em que h\u00e1 uma progressiva piora da aprova\u00e7\u00e3o de&nbsp;Donald&nbsp;Trump.&nbsp;O pr\u00f3prio comportamento inst\u00e1vel do presidente, com suas idas e vindas, \u00e9 um elemento que dificulta a an\u00e1lise de quanto pode durar o conflito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPenso que a&nbsp;derrota que ele sofreu na Suprema Corte&nbsp;em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tarifas \u00e9 o maior sinal de que teremos confus\u00e3o \u00e0 frente. N\u00e3o me parece ser o perfil de Trump e sua equipe se render e diminuir suas ansiedades\u201d, analisa o economista. \u201cSe ele \u00e9 contrariado, sua rea\u00e7\u00e3o pode ser mais problem\u00e1tica. A resposta do Ir\u00e3 vem conforme o esperado, estendendo os limites da guerra e amea\u00e7ando uma amplia\u00e7\u00e3o adicional desse conflito. N\u00e3o imagino o Ir\u00e3 se rendendo, o que colocaria o avan\u00e7o de Estados Unidos e Israel como uma quest\u00e3o de invas\u00e3o por terra, \u00e0 beira de uma situa\u00e7\u00e3o de conflagra\u00e7\u00e3o mais complicada e que eventualmente sairia de controle\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Declara\u00e7\u00f5es feitas por lideran\u00e7as pol\u00edticas num contexto de guerra nem sempre refletem a realidade. Ao contr\u00e1rio, podem cumprir fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas espec\u00edficas, tanto no cen\u00e1rio internacional quanto nacional. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 clareza sobre quais s\u00e3o, efetivamente, os objetivos espec\u00edficos em jogo e os caminhos que podem levar ao fim da guerra.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, outros pa\u00edses que n\u00e3o participam do conflito s\u00e3o influenciados por ele de forma favor\u00e1vel. Um deles \u00e9 a R\u00fassia, que vem sendo beneficiada com a alta do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e o recente an\u00fancio do relaxamento das san\u00e7\u00f5es internacionais a fim de conter o pre\u00e7o da commodity. A partir desta perspectiva, at\u00e9 que ponto o conflito caminha para uma solu\u00e7\u00e3o, ainda que parcial, e quais seriam os custos econ\u00f4micos e geopol\u00edticos de uma eventual sa\u00edda dos Estados Unidos da guerra?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo ano passado Trump disse que eles haviam obliterado o programa nuclear iraniano. Pode ser mentira ou verdade\u201d, observa Gon\u00e7alves. \u201cSe for mentira, para esta perspectiva, tanto faz. Mas se ele estiver dizendo a verdade, o que pode ser um caminho para o fim da guerra ou uma sa\u00edda honrosa para Trump? A sa\u00edda pode ser vista como se os Estados Unidos estivessem abandonando Israel e desistindo da guerra. Neste caso, a situa\u00e7\u00e3o de Israel ficaria complicada e esta sa\u00edda mexeria com a geopol\u00edtica\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA R\u00fassia talvez seja o grande vencedor at\u00e9 hoje em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos da guerra, pela sua rela\u00e7\u00e3o com a Europa\u201d, prossegue o economista. \u201cAs dificuldades que a China tem s\u00e3o, claramente, a quest\u00e3o do petr\u00f3leo e a quest\u00e3o geogr\u00e1fica, por causa da Rota da Seda, que deixariam de ser perdas na hip\u00f3tese de uma sa\u00edda dos Estados Unidos da Guerra. Ou seja, n\u00e3o me parece que exista uma sa\u00edda poss\u00edvel desenhada\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Brasil<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como fica o brasil dentro deste cen\u00e1rio? Uma das primeiras consequ\u00eancias vem por meio da taxa de c\u00e2mbio: o pre\u00e7o do d\u00f3lar sobe, uma vez que, nos cen\u00e1rios de maior incerteza, os investidores correm para ativos considerados mais seguros. \u201cO efeito l\u00edquido disso tem sido uma modesta desvaloriza\u00e7\u00e3o do real. Quanto aos juros, sinto muito: fica claro que h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o para as decis\u00f5es de pol\u00edtica monet\u00e1ria tendo em vista a quest\u00e3o do diferencial de juros\u201d, avalia Gon\u00e7alves. \u201cEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade econ\u00f4mica, no curto e m\u00e9dio prazo os riscos s\u00e3o mais dif\u00edceis de reconstruir, na medida em que est\u00e3o ligados \u00e0 log\u00edstica e cadeias produtivas. Conhecemos bem isso nos momentos recentes da economia mundial\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio econ\u00f4mico dos \u00faltimos anos \u00e9 visto por Gon\u00e7alves como positivo, com crescimento econ\u00f4mico e pleno emprego. No entanto, em sua avalia\u00e7\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos&nbsp;fez com que parte dos brasileiros tivessem uma percep\u00e7\u00e3o negativa da economia e, para explicar, ele mencionou uma frase da professora Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma grande e saudosa professora&nbsp;disse um dia que o povo n\u00e3o come PIB. Ou seja, PIB maior ou menor n\u00e3o \u00e9 o que conta. O povo come comida, desde que tenha condi\u00e7\u00f5es para compr\u00e1-la. Ou seja, \u00e9 o conjunto de determinantes da cesta de alimentos que as pessoas t\u00eam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o\u201d, analisou Gon\u00e7alves. \u201cEsse movimento (de alta dos alimentos) foi importante no desgaste do governo, mas foi fortemente interrompido no ano passado. A infla\u00e7\u00e3o de alimentos come\u00e7ou 2025 em 8% e terminou o ano muito abaixo da infla\u00e7\u00e3o, em torno de 1%\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ambiente de instabilidade, os impactos sobre o c\u00e2mbio e a curva de juros s\u00e3o sentidos no curto prazo. No&nbsp;Brasil, uma das estrat\u00e9gias adotadas tem sido a&nbsp;recompra de t\u00edtulos p\u00fablicos pelo&nbsp;Tesouro&nbsp;Nacional, numa tentativa de conter a curva de juros e preservar as condi\u00e7\u00f5es de financiamento da d\u00edvida. Ainda assim, a efic\u00e1cia destas medidas pode ser limitada diante da persist\u00eancia de um cen\u00e1rio de incerteza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA rea\u00e7\u00e3o \u00e9 a poss\u00edvel: o Tesouro comprando t\u00edtulos pr\u00e9 e p\u00f3s num volume, me parece, in\u00e9dito, para tentar segurar a curva de juros \u2013 mas sempre lembrando das dificuldades de fazer isso\u201d, comentou o professor. \u201cQuanto mais a crise durar, mais dif\u00edcil \u00e9, com esses mecanismos de recompra, o sucesso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 curva de juros \u2013 que, na minha opini\u00e3o, \u00e9 o ponto decisivo de qualquer economia capitalista\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Copom incorporou essa incerteza maior. Os fatos recentes, nas palavras deles, s\u00e3o acirramento de coisas que j\u00e1 existiam. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade o que estamos passando, mas h\u00e1 mais volatilidade em pre\u00e7os que j\u00e1 eram vol\u00e1teis, sejam de commodities ou ativos financeiros\u201d, prosseguiu Gon\u00e7alves. \u201cTamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 incorporada a piora nas proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o no horizonte relevante, ou seja, meados de 2027. Na minha leitura, eu entendo que uma primeira impress\u00e3o dos efeitos do choque em rela\u00e7\u00e3o ao Copom j\u00e1 est\u00e1 na conta\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Num cen\u00e1rio marcado por um choque externo e press\u00f5es inflacion\u00e1rias, a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria passa a refletir uma postura mais cautelosa. As decis\u00f5es do&nbsp;Banco&nbsp;Central passam a depender da evolu\u00e7\u00e3o dos dados e das condi\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio internacional.&nbsp;\u201cO Copom assume claramente que a situa\u00e7\u00e3o mudou e que isso afeta a pol\u00edtica monet\u00e1ria. O ritmo vai ser esse, de 0,25 ponto. Esta cautela de aguardar novas informa\u00e7\u00f5es \u00e9 o que est\u00e1 explicitamente escrito no comunicado\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jos\u00e9 Francisco de Lima Gon\u00e7alves<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Francisco de Lima Gon\u00e7alves \u00e9 graduado&nbsp;pela Universidade de S\u00e3o Paulo,&nbsp;com mestrado e doutorado em&nbsp;Ci\u00eancia&nbsp;Econ\u00f4mica pela Universidade Estadual de Campinas. Foi professor da Faculdade de&nbsp;Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade da Universidade de S\u00e3o Paulo&nbsp;(FEA\/USP) e&nbsp;economista-chefe do&nbsp;Banco Fator. \u00c9 analista independente do cen\u00e1rio econ\u00f4mico brasileiro e mundial, consultor, articulista e palestrante.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Francisco de Lima Gon\u00e7alves analisa os impactos da guerra no Ir\u00e3 e como eles podem afetar a economia brasileira\u00a0 Est\u00e1 no ar mais um epis\u00f3dio do\u00a0podcast Economistas! 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