{"id":27529,"date":"2026-03-18T13:41:13","date_gmt":"2026-03-18T16:41:13","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=27529"},"modified":"2026-03-18T15:10:23","modified_gmt":"2026-03-18T18:10:23","slug":"juros-elevados-e-o-risco-das-empresas-zumbis-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=27529","title":{"rendered":"Juros elevados e o risco das \u201cempresas zumbis\u201d no Brasil\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Juros muito altos n\u00e3o apenas desaceleram a economia. Eles podem transformar empresas saud\u00e1veis em empresas zumbis.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por Haroldo da Silva, presidente do&nbsp;Corecon-SP e autor do livro A Ilus\u00e3o Neoliberal da Ind\u00fastria<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 uma empresa zumbi?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma empresa zumbi \u00e9 uma firma que:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>N\u00e3o consegue pagar seus juros com o lucro operacional <\/li>\n\n\n\n<li>Depende de refinanciamentos sucessivos para sobreviver <\/li>\n\n\n\n<li>Investe pouco ou quase nada;\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Apresenta baixa produtividade;<\/li>\n\n\n\n<li>Ocupa capital e recursos que poderiam ir para empresas mais eficientes\u00a0<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>O termo ganhou notoriedade ap\u00f3s pesquisas do BIS, que mostraram a expans\u00e3o desse fen\u00f4meno nas economias avan\u00e7adas nas \u00faltimas d\u00e9cadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, ganhou for\u00e7a no debate econ\u00f4mico internacional o conceito de \u201cempresas zumbis\u201d. A express\u00e3o passou a ser amplamente utilizada na literatura econ\u00f4mica ap\u00f3s estudos do Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais (BIS) e da OCDE, al\u00e9m de an\u00e1lises recorrentes na imprensa econ\u00f4mica internacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos gerais, trata-se de empresas que continuam operando, mas cuja gera\u00e7\u00e3o de caixa n\u00e3o \u00e9 suficiente para cobrir de forma sustent\u00e1vel seus custos financeiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A revista The Economist sintetiza bem as consequ\u00eancias sist\u00eamicas da prolifera\u00e7\u00e3o de empresas zumbis:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que as empresas zumbis crescem, sua influ\u00eancia se torna mais nefasta. Na d\u00e9cada at\u00e9 2022, as empresas brit\u00e2nicas menos produtivas tamb\u00e9m apresentaram o crescimento de produtividade mais lento, puxando a m\u00e9dia para baixo. E elas prejudicam diretamente o resto da economia. Albuquerque e&nbsp;Iyer&nbsp;constataram que, em setores com mais empresas zumbis, \u201cempresas saud\u00e1veis saem do mercado mais rapidamente e as taxas de entrada s\u00e3o menores, dificultando a destrui\u00e7\u00e3o criativa saud\u00e1vel\u201d. As empresas zumbis mant\u00eam os trabalhadores em posi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o correspondem \u00e0s suas habilidades, privando empresas melhores de seus talentos e, portanto, mantendo-as menos produtivas do&nbsp;que seriam de outra forma. Em conson\u00e2ncia com o aumento das empresas zumbis, a rotatividade de empregos no mundo desenvolvido est\u00e1 em decl\u00ednio constante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, companhias que n\u00e3o conseguem pagar seus juros com os lucros correntes, mas seguem existindo gra\u00e7as ao refinanciamento constante de d\u00edvidas ou a condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias de cr\u00e9dito, levando consigo empresas at\u00e9 ent\u00e3o saud\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que dizem os dados internacionais<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos emp\u00edricos mostram que a presen\u00e7a crescente dessas empresas pode ter impactos relevantes sobre a produtividade e o dinamismo econ\u00f4mico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas do Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais (BIS) indicam que a participa\u00e7\u00e3o de empresas classificadas como zumbis entre companhias listadas nas economias avan\u00e7adas subiu de cerca de 2% nos anos 1980 para aproximadamente 12% nas d\u00e9cadas recentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 an\u00e1lises da OCDE apontam que a prolifera\u00e7\u00e3o dessas empresas tende a:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>reduzir o investimento agregado;&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>diminuir a produtividade m\u00e9dia das economias;&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>dificultar a realoca\u00e7\u00e3o eficiente de capital para empresas mais produtivas.&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Em muitas economias avan\u00e7adas, esse fen\u00f4meno foi associado ao longo per\u00edodo de juros muito baixos ap\u00f3s a crise financeira global de 2008, que permitiu a sobreviv\u00eancia de empresas pouco eficientes por meio de cr\u00e9dito abundante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O paradoxo brasileiro<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, entretanto, o problema assume contornos diferentes.&nbsp;Aqui&nbsp;n\u00e3o convivemos com cr\u00e9dito excessivamente barato. Pelo contr\u00e1rio. Nossa economia historicamente convive com juros estruturais extremamente elevados, e atualmente a taxa Selic se encontra pr\u00f3xima de 15% ao ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que o custo financeiro se torna um dos principais determinantes da sustentabilidade empresarial. Quando o custo do capital permanece elevado por muito tempo, empresas passam a:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>direcionar grande parte do fluxo de caixa ao servi\u00e7o da d\u00edvida;&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>adiar investimentos produtivos;&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>reduzir inova\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o.&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 um ambiente empresarial mais defensivo e menos din\u00e2mico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nem sempre s\u00e3o pequenas empresas<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 um problema restrito \u00e0s pequenas empresas. Mesmo grandes grupos (especialmente em setores intensivos em capital) podem enfrentar dificuldades quando o custo do dinheiro permanece elevado por per\u00edodos prolongados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Casos amplamente discutidos no mercado envolvendo empresas relevantes, como Grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, Ra\u00edzen ou Cosan, ilustram como estruturas empresariais complexas podem tornar-se vulner\u00e1veis em ambientes financeiros caracterizados por juros elevados e persistentes. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s&nbsp;micro,&nbsp;pequenas e&nbsp;m\u00e9dias ent\u00e3o, \u00e9 um verdadeiro desastre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-3-682x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-27530\" srcset=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-3-682x1024.png 682w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-3-200x300.png 200w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-3-768x1153.png 768w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-3-800x1201.png 800w, https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-3.png 849w\" sizes=\"(max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Um desafio para o crescimento<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o ambiente macroecon\u00f4mico induz empresas a priorizar a gest\u00e3o de passivos em vez do investimento produtivo, o impacto ultrapassa o balan\u00e7o das empresas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele atinge o pr\u00f3prio potencial de crescimento da economia. Uma estrutura produtiva enfraquecida financeiramente tende a:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>investir menos;&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>inovar menos;&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>crescer menos.&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Por isso, o debate sobre o custo do capital n\u00e3o \u00e9 apenas um tema financeiro. \u00c9 tamb\u00e9m um tema estrutural para o desenvolvimento econ\u00f4mico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que se coloca \u00e9 inevit\u00e1vel:&nbsp;por quanto tempo uma economia consegue conviver com juros reais entre os mais elevados do mundo sem comprometer a vitalidade de sua pr\u00f3pria estrutura produtiva?&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As varas especializadas em fal\u00eancias e recupera\u00e7\u00e3o judicial v\u00e3o ter muito trabalho; lamentavelmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nota: O que est\u00e1 claro \u00e9 que o tema precisa ser enfrentado. Estudos mais profundos devem ser feitos, por exemplo, usando dados dispon\u00edveis dos balan\u00e7os das empresas para vermos quanto do seu caixa est\u00e1 sendo direcionado para despesas financeiras, ao longo dos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Bank for International Settlements (BIS) \u2013 The rise of zombie&nbsp;firms:&nbsp;causes and consequences https:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1809g.htm&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>OECD \u2013 Zombie firms and weak productivity https:\/\/www.oecd.org\/economy\/growth\/zombie-firms-and-weak-productivity.htm&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>The Economist \u2013 Recessions have become ultra-rare. That is storing up trouble https:\/\/www.economist.com\/finance-and-economics\/2025\/11\/10\/recessions-have-become-ultra-rare-that-is-storing-up-trouble&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juros muito altos n\u00e3o apenas desaceleram a economia. Eles podem transformar empresas saud\u00e1veis em empresas zumbis.&nbsp; Por Haroldo da Silva, presidente do&nbsp;Corecon-SP e autor do livro A Ilus\u00e3o Neoliberal da Ind\u00fastria&nbsp; O que \u00e9 uma empresa zumbi?&nbsp; Uma empresa zumbi<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=27529\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":27531,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-27529","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27529"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27529"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27529\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27536,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27529\/revisions\/27536"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/27531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27529"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27529"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27529"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}