{"id":25826,"date":"2025-07-22T17:02:23","date_gmt":"2025-07-22T20:02:23","guid":{"rendered":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=25826"},"modified":"2025-07-22T17:04:19","modified_gmt":"2025-07-22T20:04:19","slug":"meta-de-inflacao-irreal-alimenta-juros-excessivos-e-freia-o-crescimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=25826","title":{"rendered":"Meta de infla\u00e7\u00e3o irreal alimenta juros excessivos e freia o crescimento\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Artigo da presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira, publicado originalmente no jornal O Tempo<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>As taxas de juros praticadas no Brasil est\u00e3o acima de qualquer n\u00edvel civilizado e, depois da reuni\u00e3o mais recente do Copom, chegaram a 15% ao ano, o patamar mais alto desde 2006. O Brasil, com frequ\u00eancia, aparece nos primeiros lugares do mundo no ranking de juros reais. Segundo a gestora Lev Asset Management, divulgado em 18 de junho, temos o segundo maior juro real (9,53%), atr\u00e1s apenas da Turquia. Estes n\u00fameros n\u00e3o representam somente uma estat\u00edstica desconfort\u00e1vel. S\u00e3o muito mais do que isso: uma anomalia estrutural, que tem consequ\u00eancias diretas na capacidade de investir e de criar os caminhos para o nosso futuro como na\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos discutir o que faz a taxa de juros ser t\u00e3o alta no Brasil. Mesmo em contextos de infla\u00e7\u00e3o sob controle e de baixo dinamismo econ\u00f4mico, a pol\u00edtica monet\u00e1ria adotada no nosso pa\u00eds segue uma l\u00f3gica restritiva, com foco quase exclusivo no controle da demanda. Mas nem toda infla\u00e7\u00e3o tem esta causa. Apenas para citar exemplos, a pandemia e a guerra na Ucr\u00e2nia trouxeram um impacto inflacion\u00e1rio sobre os pre\u00e7os de alimentos e energia que n\u00e3o ocorreu por conta de um choque de demanda, mas de oferta, por causa de um rearranjo nas cadeias produtivas. Mais recentemente, tivemos eventos clim\u00e1ticos como enchentes, queimadas e quebras de safra afetando os pre\u00e7os dos alimentos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O aumento da taxa de juros n\u00e3o tem efeito para combater esta press\u00e3o inflacion\u00e1ria. E, quando a oferta se normaliza, os pre\u00e7os caem. Aumento de juros nesta situa\u00e7\u00e3o resulta em estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, desemprego e perda do bem-estar social, ou seja, temos apenas os efeitos colaterais adversos, sem debelar a infla\u00e7\u00e3o ou mant\u00ea-la nos patamares previstos e esperados de acordo com a meta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos aspectos que norteiam a defini\u00e7\u00e3o das taxas de juros pelo Copom s\u00e3o as metas de infla\u00e7\u00e3o. Se as proje\u00e7\u00f5es de infla\u00e7\u00e3o est\u00e3o acima da meta, o Banco Central usa a taxa de juros como ferramenta para que a infla\u00e7\u00e3o volte ao patamar desejado. Durante o per\u00edodo de 2004 a 2018 tivemos uma meta de infla\u00e7\u00e3o de 4,5% ao ano, compat\u00edvel com os desafios de um pa\u00eds em desenvolvimento e permitia uma margem de manobra na pol\u00edtica monet\u00e1ria. No entanto, desde 2019 ela foi reduzida pouco a pouco, at\u00e9 chegar ao patamar de 3% ao ano. Um patamar t\u00e3o baixo acaba fazendo com que a pol\u00edtica monet\u00e1ria com juros altos se torne um fim em si mesma, e n\u00e3o uma ferramenta para melhorar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A infla\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 acima da meta atual e que, muitas vezes, \u00e9 tratada como se estivesse fora de controle, est\u00e1 dentro do patamar utilizado no per\u00edodo de 2004 a 2018. Ent\u00e3o, sejamos realistas: ela n\u00e3o est\u00e1 desancorada e j\u00e1 responde \u00e0 Selic alta. A consequ\u00eancia de termos uma meta t\u00e3o baixa e desalinhada com a realidade de um pa\u00eds em desenvolvimento \u00e9 uma taxa de juros de 15%. Esta realidade beneficia apenas os rentistas, e aqui \u00e9 preciso destacar que, desde a implanta\u00e7\u00e3o do plano real, ca\u00edmos na armadilha de depender excessivamente do capital financeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra discuss\u00e3o importante \u00e9 o impacto da taxa de juros sobre a d\u00edvida p\u00fablica. Levando em conta a quantidade de t\u00edtulos indexados a juros de curto prazo, cada ponto percentual da taxa Selic custa mais de R$ 50 bilh\u00f5es anuais em juros. Este fator tem s\u00e9rios impactos distributivos, porque os detentores dos t\u00edtulos s\u00e3o os bancos e os cidad\u00e3os mais ricos. A d\u00edvida, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 contra\u00edda para realizar investimentos, mas para cobrir o custo de juros bastante altos em benef\u00edcio de uma minoria de rentistas. Estamos promovendo uma transfer\u00eancia de renda do povo brasileiro em benef\u00edcio dos mais ricos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O custo desta transfer\u00eancia de renda por meio dos juros altos recai sobre quem mais precisa de cr\u00e9dito para empreender ou at\u00e9 mesmo para sobreviver. O resultado \u00e9 que n\u00f3s temos 78,5% das fam\u00edlias endividadas, e 28,8% de inadimplentes, segundo dados da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio de Bens, Servi\u00e7os e Turismo. Al\u00e9m disso, num momento em que o pa\u00eds precisa promover a inova\u00e7\u00e3o, gerar empregos e incentivar a produ\u00e7\u00e3o, estes juros travam a economia. A Selic elevada funciona, na pr\u00e1tica, como um desest\u00edmulo ao investimento em inova\u00e7\u00e3o, tecnologia e capacidade produtiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A taxa de juros no Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas um instrumento t\u00e9cnico relacionado \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria: \u00e9 tamb\u00e9m uma escolha com consequ\u00eancias profundas sobre quem pode investir, trabalhar e prosperar neste pa\u00eds. \u00c9 importante ter metas de infla\u00e7\u00e3o e persegui-las, mas o desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia autom\u00e1tica da estabilidade monet\u00e1ria. Ele requer decis\u00f5es pol\u00edticas, coragem institucional e uma concep\u00e7\u00e3o de economia que esteja a servi\u00e7o de todos, e n\u00e3o somente dos mais ricos. O Estado tem um papel fundamental na coordena\u00e7\u00e3o e no planejamento dos investimentos necess\u00e1rios para ocuparmos um papel de protagonismo no contexto da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e energ\u00e9tica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos bra\u00e7os que o Estado tem para executar este planejamento \u00e9 a pol\u00edtica monet\u00e1ria, que n\u00e3o pode estar somente a servi\u00e7o dos rentistas. Neste sentido, defendo a revis\u00e3o da meta de infla\u00e7\u00e3o para um n\u00edvel compat\u00edvel com o que se espera de um pa\u00eds em desenvolvimento. \u00c9 preciso incluir indicadores de emprego e crescimento econ\u00f4mico no mandato do banco central. O combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ocorrer somente por meio de instrumentos que estejam restritos \u00e0 taxa b\u00e1sica de juros. \u00c9 essencial levar em conta pol\u00edticas que coordenem instrumentos fiscais, monet\u00e1rios, industriais e ambientais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>* Tania Cristina Teixeira \u00e9 presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon). Graduada em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais, com doutorado em Economia Aplicada pela Universidade de Valencia (Espanha). Possui vasta trajet\u00f3ria docente na PUC Minas, onde \u00e9 Coordenadora de Extens\u00e3o do Departamento de Economia.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo da presidenta do Cofecon, Tania Cristina Teixeira, publicado originalmente no jornal O Tempo As taxas de juros praticadas no Brasil est\u00e3o acima de qualquer n\u00edvel civilizado e, depois da reuni\u00e3o mais recente do Copom, chegaram a 15% ao ano,<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=25826\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":25831,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[63],"class_list":["post-25826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-artigo-de-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25826"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25826"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25826\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25827,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25826\/revisions\/25827"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/25831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}