{"id":23982,"date":"2024-10-29T16:37:07","date_gmt":"2024-10-29T19:37:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=23982"},"modified":"2024-10-29T16:37:07","modified_gmt":"2024-10-29T19:37:07","slug":"mortalidade-e-sobrevivencia-empresarial-no-brasil-reflexoes-sobre-a-reestruturacao-e-a-recuperacao-de-empresas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=23982","title":{"rendered":"Mortalidade e sobreviv\u00eancia empresarial no Brasil: Reflex\u00f5es sobre a reestrutura\u00e7\u00e3o e a recupera\u00e7\u00e3o de empresas"},"content":{"rendered":"<p><em>Artigo de opini\u00e3o do economista Pedro Afonso Gomes*, presidente do Corecon-SP, publicado originalmente no Jornal GGN\u00a0<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 estat\u00edsticas divergentes quanto ao encerramento das atividades de empresas rec\u00e9m-criadas no nosso pa\u00eds: algumas fontes indicam que 40% n\u00e3o resistem cinco anos, ap\u00f3s sua constitui\u00e7\u00e3o; outras indicam que a mortalidade empresarial seria de 89%, nos cinco primeiros anos. \u00c9 poss\u00edvel discutir os crit\u00e9rios de um e outro levantamento, entretanto o que mais interessa \u00e9 perguntar o motivo para que esses alarmantes percentuais sejam alcan\u00e7ados e quais seriam as solu\u00e7\u00f5es para que tal n\u00e3o ocorresse.<\/p>\n<p>Para que uma empresa v\u00e1 \u00e0 insolv\u00eancia financeira ou econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 preciso muito tempo. Basta que seus parceiros percebam que ela n\u00e3o est\u00e1 com a mesma capacidade de honrar pedidos, pagamentos, sal\u00e1rios, empr\u00e9stimos, que eles deixam de atuar com ela ou reduzem suas exposi\u00e7\u00f5es ao risco. Ao contr\u00e1rio, para construir uma empresa respeitada, leva-se d\u00e9cadas. Por isso, com algum trabalho intenso e competetente, \u00e9 poss\u00edvel ganhar tempo para o Brasil, os s\u00f3cios\/acionistas, os trabalhadores, os fornecedores, os financiadores, adotando um processo de reestrutura\u00e7\u00e3o ou de recupera\u00e7\u00e3o empresarial, este podendo ser judicial ou extrajudicial.<\/p>\n<p>O sintoma mais evidente de que uma empresa est\u00e1 em dificuldades \u00e9 o financeiro: atraso ou falta de pagamento a fornecedores, bancos, funcion\u00e1rios e recolhimento de tributos. Certamente, o agravamento da crise tamb\u00e9m est\u00e1 associado aos alt\u00edssimos encargos exigidos pelos financiadores banc\u00e1rios e n\u00e3o-banc\u00e1rios, mas \u00e9 necess\u00e1rio considerar que o departamento financeiro costuma herdar os reflexos da inefici\u00eancia dos setores de compras, produ\u00e7\u00e3o, log\u00edstica, vendas, manuten\u00e7\u00e3o, gest\u00e3o de pessoal, etc.<\/p>\n<p>Ser crescentemente ineficiente, em certa medida, \u00e9 uma caracter\u00edstica humana, que pode estar associada \u00e0 falta ou a falhas do planejamento, como tamb\u00e9m da condu\u00e7\u00e3o e dos controles das atividades da empresa, que s\u00e3o relaxados ao longo do tempo. Sob esse enfoque, a reestrutura\u00e7\u00e3o empresarial n\u00e3o \u00e9 uma necessidade apenas quando a crise j\u00e1 est\u00e1 instalada, e sim um processo cont\u00ednuo ou ao menos peri\u00f3dico, enquanto ainda s\u00e3o menos custosos eventuais ajustes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos problemas internos, as empresas sofrem (ou aproveitam-se) do ambiente econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico, cultural, tecnol\u00f3gico em que est\u00e3o inseridas. Institui\u00e7\u00f5es empresariais que ultrapassaram d\u00e9cadas e s\u00e9culos de exist\u00eancia, sucumbiram em virtude de n\u00e3o conseguirem adaptar aos novos tempos e \u00e0quilo que o consumidor atual deseja obter. Por exemplo: tendem a desaparecer academias de dan\u00e7a que continuam buscando seu alunado entre as meninas com 6 ou 7 anos de idade, que no s\u00e9culo XXI t\u00eam muitas alternativas para aproveitar o seu tempo livre, se n\u00e3o abrirem as suas portas para adultos e idosos que sempre quiseram exercitar passos de dan\u00e7a e n\u00e3o puderam (ou deixaram de faz\u00ea-lo). Mudam os desejos, os gostos, e as empresas precisam tamb\u00e9m mudar, mantendo caracter\u00edsticas essenciais.<\/p>\n<p>Quando se fala de \u201cCusto Brasil\u201d, nem sempre \u00e9 ressaltado o patamar alt\u00edssimo das taxas de juros pagas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras e outros financiadores. Os encargos para manter o fluxo de caixa da empresa pesam significativamente nas despesas da empresa, e muito mais o que \u00e9 cobrado sobre d\u00edvidas anteriores. N\u00e3o se pode incluir no pre\u00e7o presente o quando se gasta com o endividamento pret\u00e9rito, de modo que, o lucro bruto atual deve ser suficiente para suportar esses encargos do passivo, o que nem sempre \u00e9 vi\u00e1vel. Uma iniciativa que j\u00e1 deu certo: organizar a empresa para n\u00e3o precisar de capital banc\u00e1rio, o que demanda algum tempo para implementar. Outra, poss\u00edvel mas incipientemente adotada: migra\u00e7\u00e3o dos recursos e empr\u00e9stimos das empresas para cooperativas de cr\u00e9dito, que exigem encargos menores.<\/p>\n<p>A reestrutura\u00e7\u00e3o de empresas \u00e9 um processo que n\u00e3o exige formalidade jur\u00eddica. Basta que os s\u00f3cios\/acionistas resolvam corrigir os problemas que costumeiramente existem em todos os departamentos, de prefer\u00eancia antes que se inicie o per\u00edodo de atrasos ou inadimpl\u00eancia para com terceiros. Quanto mais cedo, menos conflitos com fornecedores, clientes, bancos e trabalhadores. Mas \u00e9 preciso que quem o fa\u00e7a saiba lidar com crises, pois medidas emergenciais podem ser necess\u00e1rias, e quem est\u00e1 no dia-a-dia da companhia normalmente n\u00e3o pensa tem tais solu\u00e7\u00f5es, pois, se as tivesse, talvez n\u00e3o houvesse as dificuldades detectadas.<\/p>\n<p>J\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o, normatizada pela Lei 11.101\/2005, tanto pode ser proposto diretamente ao Judici\u00e1rio, como feito extrajudicialmente, com homologa\u00e7\u00e3o judicial do acordo firmado. O deferimento da recupera\u00e7\u00e3o judicial traz para a empresa o benef\u00edcio da suspens\u00e3o dos processos em curso contra ela, por 180 dias, at\u00e9 que possa ser aprovado o Plano de Recupera\u00e7\u00e3o Judicial. J\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o extrajudicial n\u00e3o tem esse favor, mas poderia t\u00ea-lo: se fosse introduzida na lei a possibilidade de a empresa pedir ao Judici\u00e1rio a suspens\u00e3o de processos contra ela, pelos mesmos 180 dias, informando que est\u00e1 entabulando com seus credores renegocia\u00e7\u00e3o de suas d\u00edvidas, o que resultaria em um processo judicial demorado a menos.<\/p>\n<ul>\n<li data-tadv-p=\"keep\">Para os casos de processos de recupera\u00e7\u00e3o judicial envolvendo valores mais significativos \u2013 o maior do Brasil envolve d\u00e9bitos da ordem de R$ 100 bilh\u00f5es \u2013 deveria ser obrigat\u00f3ria a nomea\u00e7\u00e3o do Gestor Judicial, que substituiria os diretores em sua fun\u00e7\u00e3o executiva. A raz\u00e3o \u00e9 simples: se a diretoria n\u00e3o conseguiu que a empresa chegasse ao ponto de insolv\u00eancia, \u00e9 prov\u00e1vel que ela tenha dificuldades de sair dela, e por isso necess\u00e1rio que profissionais preparados para gerir na crise sejam colocados \u00e0 frente da empresa.<\/li>\n<li data-tadv-p=\"keep\">Tamb\u00e9m seria necess\u00e1rio, ao menos quando se trata de muitos credores cuja soma de cr\u00e9ditos \u00e9 extremamente significativa, que houvesse investiga\u00e7\u00e3o sobre a conduta dos dirigentes, sob o enfoque criminal. Est\u00e1 em curso um processo de recupera\u00e7\u00e3o judicial em que dezenas de milhares de consumidores foram iludidos por uma empresa que praticamente s\u00f3 existe na nuvem, e mais de 80% dos valores a ela transferidos transformou-se em \u201cdespesas de marketing\u201d, o que precisa ser rigorosamente investigado e analisado o destino desses montantes.<\/li>\n<li data-tadv-p=\"keep\">Em outros casos, o encobertamento de condutas indevidas de determinados credores pode conduzir a um certo acordo de \u201cdeixa pra l\u00e1\u201d, que acaba por prejudicar aos demais. N\u00e3o se pode dizer, a priori, que, numa recupera\u00e7\u00e3o ou reestrutura\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o haja culpa dos credores, e todos sofrem por isso, inclusive e principalmente, aqueles que podem menos.<\/li>\n<li data-tadv-p=\"keep\">A chamada \u201cDeclara\u00e7\u00e3o de Direitos de Liberdade Econ\u00f4mica\u201d, que foi formalizada pela Lei 13.874\/2019, em alguns pontos, coloca no mesmo patamar micro, pequenas, m\u00e9dias e grandes empresas e conglomerados, como se todas tivessem o mesmo poder de negocia\u00e7\u00e3o e subs\u00eddios para decidir. Na realidade, tal n\u00e3o acontece. \u00c9 not\u00f3rio que grandes clientes imp\u00f5em as suas condi\u00e7\u00f5es a pequenos e m\u00e9dios fornecedores, assim como bancos estipulam, sem direito a discuss\u00e3o, as cl\u00e1usulas dos seus contratos. Em um trecho da lei, ela estabelece que o contrato firmado entre as partes sobrep\u00f5e-se ao que est\u00e1 determinado na legisla\u00e7\u00e3o pertinente. Ora, a lei estabelecida pelo Estado serve, justamente, para proteger os pequenos dos abusos dos grandes. Se abolido tal princ\u00edpio, \u00e9 mais prov\u00e1vel que haja mais quebras de empresas micro, pequenas e m\u00e9dias, posto que n\u00e3o conseguir\u00e3o ter resultado econ\u00f4mico e financeiro suficiente, se seguirem, sem poder recorrer dos abusos, ao Judici\u00e1rio ou \u00e0 Arbitragem.\n<p><em>*Pedro Afonso Gomes \u2013 Economista. Presidente do Conselho Regional de Economia da 2\u00aa. Regi\u00e3o (CORECON-SP)<\/em><\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de opini\u00e3o do economista Pedro Afonso Gomes*, presidente do Corecon-SP, publicado originalmente no Jornal GGN\u00a0 H\u00e1 estat\u00edsticas divergentes quanto ao encerramento das atividades de empresas rec\u00e9m-criadas no nosso pa\u00eds: algumas fontes indicam que 40% n\u00e3o resistem cinco anos, ap\u00f3s<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=23982\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-23982","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23982"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23982"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23982\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}