{"id":22291,"date":"2024-03-15T16:55:44","date_gmt":"2024-03-15T19:55:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=22291"},"modified":"2024-03-15T16:55:44","modified_gmt":"2024-03-15T19:55:44","slug":"reflexos-das-desigualdades-de-genero-raca-e-social-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=22291","title":{"rendered":"Reflexos das desigualdades de g\u00eanero, ra\u00e7a e social no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em evento no Cofecon, Shirley Bas\u00edlio e Lucilene Morandi enfatizaram a import\u00e2ncia da rede de apoio e do Estado de bem-estar social para garantir a plena participa\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De que forma se deu a luta por direitos das mulheres? Como as diferen\u00e7as de g\u00eanero impactam a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica? Por que, mesmo tendo mais escolaridade, elas ainda t\u00eam rendimentos, em m\u00e9dia, 21% menores? E qual a import\u00e2ncia da rede de apoio para vencer hoje? Estas e outras quest\u00f5es foram discutidas em um evento promovido pelo Cofecon no dia 14 de mar\u00e7o, \u00e0s 17 horas, em comemora\u00e7\u00e3o ao Dia Internacional da Mulher. Participaram do debate as economistas Shirley Bas\u00edlio e Lucilene Morandi.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Shirley Bas\u00edlio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Shirley iniciou sua fala apresentando alguns dados dos alunos de economia e da popula\u00e7\u00e3o brasileira com recorte de g\u00eanero e ra\u00e7a. \u201cApenas 17% dos cargos de CEO s\u00e3o ocupados por mulheres \u2013 e destas, 75% s\u00e3o brancas e apenas 18% s\u00e3o negras. Este n\u00famero \u00e9 constrangedor\u201d, apontou a economista. \u201cSe formos olhar na nossa profiss\u00e3o, veremos que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o da oportunidade, tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o da lideran\u00e7a. O desafio de trabalhar com essa pauta da diversidade, tanto de g\u00eanero quanto de ra\u00e7a, n\u00e3o pode ser um modismo. \u00c9 poss\u00edvel mudar essa cultura, mas leva tempo\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A economista contou sua trajet\u00f3ria, com 44 anos dedicados ao Grupo S\u00edlvio Santos. \u201cEscolhi o curso de economia porque ele iria me abrir portas para transitar dentro do grupo, dentro de diversos neg\u00f3cios\u201d, contou Shirley. \u201cSou vista como uma exce\u00e7\u00e3o porque esta n\u00e3o \u00e9 a realidade das mulheres. Elas t\u00eam que escolher entre a maternidade e a carreira. Sempre tive uma rede de apoio, meu marido me ajudou, tive apoio da minha m\u00e3e e minhas irm\u00e3s para cuidar dos meus filhos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo S\u00edlvio Santos tem uma gest\u00e3o familiar. Por isso, afirma a economista, havia uma maioria de homens nas mesas de reuni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPoucas mulheres. Mulher negra, nenhuma. Isso me chocava. Eu tinha o peso de estar ali n\u00e3o s\u00f3 por mim, mas para representar uma comunidade. Se para chegar a cargos de lideran\u00e7a a mulher branca precisa quebrar um teto de vidro, para a mulher negra este teto \u00e9 blindado\u201d, pontuou.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFui me capacitando, me aprimorando e abra\u00e7ando as oportunidades que surgiram. \u00c9 desta forma que batalhamos para conseguir nosso espa\u00e7o. Com educa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, cursos, workshops e uma rede de relacionamentos e de apoio para reduzir a sobrecarga. Sem esta rede, talvez eu n\u00e3o conseguisse metade do que consegui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, Shirley aponta que as empresas est\u00e3o valorizando mais a diversidade. \u201c\u00c9 o que eu desejo, principalmente para a nossa profiss\u00e3o, porque a inclus\u00e3o cria ambientes mais inovadores, nos quais o resultado \u00e9 maior\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lucilene Morandi<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs mulheres perceberam que para ter independ\u00eancia e autonomia de decis\u00e3o, precisariam ter, primeiro, cidadania. A primeira luta feminista foi a luta das sufragistas\u201d, iniciou a economista Lucilene Morandi, professora da Universidade Federal Fluminense. \u201cMuito da hist\u00f3ria das mulheres est\u00e1 apagada. Em 1791, Olympe de Gouges, em plena revolu\u00e7\u00e3o francesa, elaborou a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos da Mulher e da Cidad\u00e3. A carta foi lida na Assembleia Nacional, mas foi condenada e ela foi condenada \u00e0 morte. Este trabalho foi ignorado pol\u00edtica e academicamente e s\u00f3 foi redescoberto em 1986\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda luta por direitos e por maior liberdade foi pela educa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cAt\u00e9 1961 as mulheres, no Brasil, tinham curr\u00edculos diferenciados e aprendiam menos matem\u00e1tica. Havia textos tentando explicar que era uma perda de receita p\u00fablica ensinar mais do que o b\u00e1sico\u201d, comentou a economista.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1980, a quantidade m\u00e9dia de anos de escolaridade das mulheres superou a dos homens. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1990, as mulheres passaram a ser maioria no ensino superior. \u201cMas ainda h\u00e1 cursos feminilizados ou masculinizados. Nas exatas, as mulheres s\u00e3o minoria. Nos cuidados, s\u00e3o maioria. Na sa\u00fade elas est\u00e3o em fun\u00e7\u00f5es como auxiliar de enfermagem e enfermeiras e, mesmo quando s\u00e3o m\u00e9dicas, elas t\u00eam rendimentos menores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucilene tamb\u00e9m trouxe dados de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Em 2022, elas eram 49% das autoras ou coautoras de trabalhos cient\u00edficos (contra 38% em 2002), com este \u00edndice caindo para 45% nas \u00e1reas de ci\u00eancias, tecnologia, engenharia e matem\u00e1tica. \u201cMas a participa\u00e7\u00e3o feminina diminui conforme a carreira avan\u00e7a. Entre cientistas jovens, elas s\u00e3o 51%, mas com mais tempo de carreira este \u00edndice cai para 36%\u201d, explicou. \u201cFico preocupada quando entro numa loja de brinquedos, porque vejo que h\u00e1 uma se\u00e7\u00e3o para meninos e outra para meninos. Na de meninas tem bonecas e brinquedos similares; na de meninos, avi\u00f5es, tratores e outros. As mulheres s\u00e3o educadas para o lar, o interior e o cuidado; os homens s\u00e3o educados para conquistar o mundo e lutar da porta para fora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao apresentar um gr\u00e1fico com a diferen\u00e7a de rendimentos entre homens e mulheres (21% em 2022), ela questionou o motivo se, segundo a teoria econ\u00f4mica, o rendimento reflete a qualifica\u00e7\u00e3o. \u201cAs mulheres t\u00eam mais anos de estudo, s\u00e3o maioria, o que explica essa diferen\u00e7a? Uma parte tem a ver com o preconceito de olhar para a mulher como cuidadora, feita para o lar. Mas quando se d\u00e1 espa\u00e7o \u00e0s mulheres, elas avan\u00e7am\u201d, comentou. \u201cOs homens t\u00eam maior participa\u00e7\u00e3o na for\u00e7a de trabalho. A pesquisa da economia feminista vai explicar estas diferen\u00e7as\u201d, apontou.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o entre mulheres e homens com filhos tamb\u00e9m varia. Entre os que n\u00e3o possuem filhos, 82,8% est\u00e3o ocupados. Entre os que possuem filhos, este n\u00famero sobe para 89%. Os \u00edndices das mulheres para as mesmas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o de 56,6% e 66,2%, respectivamente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPara o homem, a crian\u00e7a \u00e9 um pr\u00eamio, e para a mulher \u00e9 um custo, ela perde participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Isso lhe tira rendimentos e autonomia\u201d, critica.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA viol\u00eancia de g\u00eanero em muitos casos tem a ver com a mulher ter uma crian\u00e7a pequena e n\u00e3o conseguir sair deste casamento abusivo. Com independ\u00eancia econ\u00f4mica ela sai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao abordar o trabalho dom\u00e9stico, a quantidade de horas m\u00e9dias das mulheres \u00e9 de 22, contra 10 dos homens. \u201cN\u00e3o importa se ela \u00e9 c\u00f4njuge, enteada, filha ou outra condi\u00e7\u00e3o, elas sempre t\u00eam mais horas\u201d, argumentou. \u201cO trabalho de cuidado \u00e9 di\u00e1rio. Requer tempo e hora. A crian\u00e7a tem que estar na escola no hor\u00e1rio e precisa se alimentar e tomar banho antes. N\u00e3o \u00e9 um trabalho que a mulher faz somente se quiser. A sociedade a v\u00ea como respons\u00e1vel\u201d. Paralelamente a este dado, Lucilene mostrou que as mulheres est\u00e3o em mais trabalhos de tempo parcial do que os homens, \u201co que significa menor rendimento m\u00e9dio e aposentadoria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a economista apresentou uma tela com os 5 R referentes ao cuidado: Reconhecer (que o cuidado faz parte da vida das pessoas, visibilizar, valorizar e divulgar), Redistribuir (entre homens e mulheres e desfamiliarizar), Reduzir (o peso dos servi\u00e7os sobre as mulheres), Recompensar (com direitos, porque pessoas que trabalham com cuidados recebem menos) e Representar (garantir voz e participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es sobre cuidados).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coment\u00e1rios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O evento teve apoio do Corecon-BA e sua presidente, Isabel Ribeiro, comentou que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201c\u00e9 doloroso falar de um pa\u00eds com tanta gente rica e tanta desigualdade. Estou tentando desde o dia 8 celebrar o Dia Internacional da Mulher, mas parece que todas as estat\u00edsticas que vemos v\u00eam para nos machucar\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ela apontou que a C\u00e2mara de Vereadores do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo possui uma Comiss\u00e3o da Mulher formada apenas por vereadores homens.<\/p>\n\n\n\n<p>Luciana Acioly, presidente do Corecon-DF (tamb\u00e9m apoiador do evento), falou que o setor financeiro \u00e9 um dos lugares mais demorados para as mulheres ascenderem. \u201cNos bancos que fazem fus\u00f5es, escritura\u00e7\u00f5es e outros, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 muito pequena. Em entrevistas para cargos de CEO, 23% das mulheres disseram que perderam oportunidades de trabalho por terem filhos; 17%, por estarem gr\u00e1vidas; 40% afirmaram que foram perguntadas se foram perguntadas, de um modo ou de outro, se pretendiam ter filhos num futuro pr\u00f3ximo\u201d, afirmou. \u201cNossa bolsa de valores tem 423 empresas e 61% delas n\u00e3o t\u00eam nenhuma mulher na diretoria estatut\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Luciana tamb\u00e9m comentou que a cobertura do Estado de bem-estar social faz com que a mulher se liberte em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho dom\u00e9stico e outras cargas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cQuando morei na Inglaterra, fui produtiva como nunca. Meus filhos tinham escola integral, eu estava num lugar seguro. Sem apoio do Estado, n\u00e3o tem arranjo familiar que d\u00ea conta de tanta responsabilidade\u201d.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em evento no Cofecon, Shirley Bas\u00edlio e Lucilene Morandi enfatizaram a import\u00e2ncia da rede de apoio e do Estado de bem-estar social para garantir a plena participa\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho De que forma se deu a luta por<\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=22291\">Leia Mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22293,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-22291","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22291"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22291"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22291\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}