{"id":22105,"date":"2024-02-06T15:23:44","date_gmt":"2024-02-06T18:23:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=22105"},"modified":"2024-02-06T15:23:44","modified_gmt":"2024-02-06T18:23:44","slug":"artigo-de-opiniao-a-nova-politica-industrial-e-suas-oportunidades-e-obstaculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=22105","title":{"rendered":"Artigo de opini\u00e3o &#8211; A Nova Pol\u00edtica Industrial e suas oportunidades e obst\u00e1culos"},"content":{"rendered":"<p><em>Artigo de opini\u00e3o do conselheiro regional Antonio Prado (Corecon-SP), publicado no portal Terapia Pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um ciclo de sabotagem ao desenvolvimento brasileiro e da Am\u00e9rica Latina. Ciclo no sentido de que h\u00e1 movimentos recorrentes que destroem avan\u00e7os conquistados por gera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se trata aqui de atribuir uma conspira\u00e7\u00e3o ou m\u00e1 f\u00e9 aos agentes do atraso, n\u00e3o que estas n\u00e3o estejam presentes, mas a um modo de pensar, um jeito de ser e de agir que nega as possibilidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ouvi h\u00e1 poucos dias um debate em que o professor L. G. Belluzzo revelava uma conversa de Celso Furtado e Eug\u00eanio Gudin nos corredores da FGV-RJ. Nesta ocasi\u00e3o, Gudin alertava Furtado de que a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira era fadada ao fracasso, pois nossa cultura de negros e mesti\u00e7os n\u00e3o gerava o ambiente adequado para esta empreitada.<\/p>\n<p>Gudin trazia arraigada em sua mentalidade a no\u00e7\u00e3o racista da indol\u00eancia dos rebentos da miscigena\u00e7\u00e3o. \u00c9 a ideia difundida pela piada derrotista de que Deus colocou maravilhas naturais no Brasil, mas um povinho de amargar.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o do desenvolvimento limitado ou potencializado pelos v\u00edcios ou virtudes culturais e raciais esteve presente durante muito tempo no pensamento social e econ\u00f4mico. Influenciou uma ideologia que negava a possibilidade do desenvolvimento dos povos inferiores do hoje chamado Sul Global por suas debilidades culturais intr\u00ednsecas. Ideologia sempre presente nas elites brasileiras.<\/p>\n<p>A luta pelo desenvolvimento passa n\u00e3o apenas por superar o derrotismo t\u00edpico das elites, que preferem explorar e humilhar o pr\u00f3prio povo e usufruir da modernidade de vitrine, mas impedir que esta elite do atraso sabote as pol\u00edticas que buscam nos tirar do ber\u00e7o espl\u00eandido da sociedade prim\u00e1rio-exportadora, que teima em voltar de tempos em tempos.<\/p>\n<p>A nova pol\u00edtica industrial, chamada de\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2024-01\/governo-anuncia-nova-politica-para-desenvolvimento-da-industria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NIB \u2013 Nova Ind\u00fastria Brasil<\/a>, \u00e9 uma importante iniciativa para nos colocar de volta aos trilhos do desenvolvimento. Est\u00e1 bem estruturada, mas deve superar v\u00e1rios obst\u00e1culos para ser bem sucedida.<\/p>\n<p>O primeiro j\u00e1 est\u00e1 bastante evidente: a sabotagem dos setores rentistas, que mobilizam intelectuais, jornalistas e pol\u00edticos para criticarem o que ainda nem leram. Uma pol\u00edtica industrial demanda uma mobiliza\u00e7\u00e3o social em sua defesa, n\u00e3o deve e n\u00e3o pode ser apenas uma constru\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Esta mobiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 vem da origem da pr\u00f3pria pol\u00edtica, elaborada no CNDI \u2013 Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios minist\u00e9rios, Confedera\u00e7\u00f5es de Empres\u00e1rios, Centrais Sindicais, Universidades e Centros de Pesquisa. Este n\u00facleo de elabora\u00e7\u00e3o pode e deve se tornar um n\u00facleo de difus\u00e3o e defesa do conte\u00fado da nova pol\u00edtica industrial.<\/p>\n<p>O segundo obst\u00e1culo \u00e9 a preval\u00eancia da mentalidade equivocada de que equil\u00edbrio fiscal precede o est\u00edmulo ao investimento. J\u00e1 sabemos, pela experi\u00eancia do Lula I e Lula II, que a sustentabilidade fiscal \u00e9 resultado do crescimento econ\u00f4mico e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A obsess\u00e3o por um d\u00e9ficit prim\u00e1rio zero nos levar\u00e1 a d\u00e9ficits negativos e a uma economia recessiva e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O terceiro obst\u00e1culo \u00e9 uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mal gerida que vem sustentando taxas de juros reais alt\u00edssimas e que nos coloca num ciclo vicioso de baixas taxas de investimento, produtividade decrescente e crescimento insustent\u00e1vel da d\u00edvida p\u00fablica, provocado pela pr\u00f3pria pol\u00edtica monet\u00e1ria. \u00c9 necess\u00e1rio interromper esta rota da insensatez. Estes grandes obst\u00e1culos precisam ser superados, mas mesmo assim, a Nova Ind\u00fastria Brasil tem por onde avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica industrial deve considerar dois tipos de efici\u00eancias: a efici\u00eancia keynesiana, que ocorre em mercados de demanda crescente e a efici\u00eancia schumpeteriana, que ocorre em mercados com inova\u00e7\u00f5es de produtos, processos.<\/p>\n<p>A NIB pode ser muito promissora em algumas das suas miss\u00f5es que exploram a efici\u00eancia keynesiana, particularmente aquelas que repousam sobre as compras p\u00fablicas de setores com or\u00e7amentos robustos. \u00c9 o caso do complexo industrial da sa\u00fade, onde o SUS garante demanda elevada e h\u00e1 um grande espa\u00e7o para substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Complexo Agroindustrial tamb\u00e9m pode dar bons resultados, considerando a demanda internacional e a estrutura de cr\u00e9dito do setor, viabilizados pelo sistema de bancos p\u00fablicos, principalmente Banco do Brasil e BNDES. Chamam a aten\u00e7\u00e3o as a\u00e7\u00f5es orientadas para a mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura familiar e o esfor\u00e7o para implantar os princ\u00edpios da economia circular, onde se pode agregar valor aos res\u00edduos da agricultura empresarial e agroind\u00fastria.<\/p>\n<p>Na infraestrutura urbana e gest\u00e3o das cidades tamb\u00e9m h\u00e1 muito espa\u00e7o para ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias: eletrifica\u00e7\u00e3o de transporte coletivo, ado\u00e7\u00e3o de energia solar em conjuntos habitacionais, sensoreamento de servi\u00e7os p\u00fablicos, polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, sonora, de \u00e1guas e ado\u00e7\u00e3o de sistemas de gerenciamento de obras, apoiados por intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m as possibilidades na \u00e1rea de defesa, onde o modelo de compras governamentais j\u00e1 se mostrou bem sucedido, na ind\u00fastria aeron\u00e1utica, naval e metal\u00fargica.<\/p>\n<p>As dificuldades podem ser significativas quando se trata de efici\u00eancia schumpeteriana. A ado\u00e7\u00e3o da chamada ind\u00fastria 4.0 n\u00e3o \u00e9 trivial. Neste caso, as empresas podem continuar adotando o padr\u00e3o que vem prevalecendo desde os anos 80 do s\u00e9culo passado, o da inova\u00e7\u00e3o incremental, defensiva, sem grandes pacotes de investimentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 oportunidades de grandes investimentos, principalmente na ind\u00fastria automobil\u00edstica, j\u00e1 que h\u00e1 uma press\u00e3o mundial pela ado\u00e7\u00e3o de energias alternativas, de baixa emiss\u00e3o de carbono. Mas, isto n\u00e3o significa uma ado\u00e7\u00e3o massiva das tecnologias da ind\u00fastria 4.0, pois podem ser necess\u00e1rias apenas em pontos espec\u00edficos da cadeia produtiva.<\/p>\n<p>O grande obst\u00e1culo no avan\u00e7o da ind\u00fastria 4.0 est\u00e1 na pol\u00edtica monet\u00e1ria restritiva, que desestimula expectativas positivas de crescimento sustentado da demanda e permite que as empresas fiquem muito confort\u00e1veis, valorizando sua acumula\u00e7\u00e3o interna a uma taxa de juros real de 6 a 7% ao ano.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica fiscal tamb\u00e9m pode ser um obst\u00e1culo relevante, pois a expectativa de cortes de gastos p\u00fablicos para atingir o d\u00e9ficit zero deprime as decis\u00f5es de investimento e gera fortes incertezas para os investimentos.<\/p>\n<p>Podemos ver que h\u00e1 oportunidades reais para a implementa\u00e7\u00e3o bem sucedida da Nova Ind\u00fastria Brasil e que, a depender da pol\u00edtica macroecon\u00f4mica, ela pode ter um ritmo maior ou menor, mas h\u00e1 espa\u00e7o para avan\u00e7os, apesar do negacionismo liberal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de opini\u00e3o do conselheiro regional Antonio Prado (Corecon-SP), publicado no portal Terapia Pol\u00edtica H\u00e1 um ciclo de sabotagem ao desenvolvimento brasileiro e da Am\u00e9rica Latina. 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