{"id":21529,"date":"2023-11-08T14:29:29","date_gmt":"2023-11-08T17:29:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=21529"},"modified":"2023-11-08T14:29:29","modified_gmt":"2023-11-08T17:29:29","slug":"vito-tanzi-mudancas-climaticas-trazem-problemas-economicos-novos-dificeis-de-resolver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=21529","title":{"rendered":"Vito Tanzi: \u201cMudan\u00e7as clim\u00e1ticas trazem problemas econ\u00f4micos novos, dif\u00edceis de resolver\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Economista italiano realizou a palestra magna do XXV Congresso Brasileiro de Economia, em S\u00e3o Lu\u00eds, na noite de abertura do evento<\/em><\/p>\n<p>Um novo futuro: planejamento, desenvolvimento e sustentabilidade. Al\u00e9m de ser o tema central do XXV Congresso Brasileiro de Economia, que acontece de 07 a 09 de novembro em S\u00e3o Lu\u00eds, Maranh\u00e3o, foi tamb\u00e9m o assunto abordado na palestra magna, proferida pelo economista italiano Vito Tanzi. Na noite desta ter\u00e7a-feira (07), ele contextualizou a origem das ideias de livre mercado, abordou a import\u00e2ncia do planejamento, destacou que o crescimento econ\u00f4mico das \u00faltimas d\u00e9cadas tem beneficiado mais as camadas de renda mais alta e mencionou que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas acrescentaram um elemento novo \u00e0 economia.<\/p>\n<p>Ele iniciou sua fala dizendo que para a economia de um pa\u00eds funcionar bem, n\u00e3o s\u00f3 no curto prazo, mas num per\u00edodo mais longo, os formuladores de pol\u00edticas devem evitar alguns erros que eles frequentemente cometem. \u201cVou citar tr\u00eas. Primeiro, eles devem promover pol\u00edticas que sejam economicamente eficientes, equitativas e sustent\u00e1veis. H\u00e1 um conflito entre pol\u00edticas que parecem ser boas no curto prazo, como aquelas que dependem de empr\u00e9stimos para aumentar os gastos, mas que aumentam o \u00f4nus da d\u00edvida, criando dificuldades futuras\u201d, expressou Tanzi. \u201cMuitas vezes, o endividamento durante as recess\u00f5es n\u00e3o \u00e9 pago suficientemente r\u00e1pido ap\u00f3s as mesmas e a d\u00edvida p\u00fablica permanece alta\u201d.<\/p>\n<p>O segundo erro, afirma Tanzi, \u00e9 que as pol\u00edticas n\u00e3o devem ser focadas em eventos que s\u00e3o estatisticamente arriscados. \u201cAlgum preparo geral deve ser feito. Por exemplo, as contas devem ser mantidas o mais em ordem poss\u00edvel para conservar o espa\u00e7o fiscal, espa\u00e7os hospitalares devem ser mantidos e outras a\u00e7\u00f5es similares podem ser tomadas\u201d, afirmou. E o terceiro erro a ser evitado, na vis\u00e3o do economista italiano, \u00e9 que as pol\u00edticas n\u00e3o devem se concentrar excessivamente no crescimento econ\u00f4mico ou na equidade. \u201cPa\u00edses que se concentram muito em um objetivo e ignoram o outro frequentemente cometem um erro s\u00e9rio. Dar muito destaque \u00e0 equidade pode prejudicar excessivamente os incentivos econ\u00f4micos e dar muito destaque \u00e0 efici\u00eancia pode criar outros problemas\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, Tanzi come\u00e7ou a abordar a import\u00e2ncia do planejamento e discorreu sobre a ideologia do \u201claissez-faire\u201d (livre mercado, com pouca ou nenhuma interven\u00e7\u00e3o do governo), muito presente na economia desde o s\u00e9culo XIX. Para contextualizar esta ideia, baseada na \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d de Adam Smith, Tanzi recordou que a pr\u00e1tica vigente na \u00e9poca era o mercantilismo. \u201cO governo desempenhava um papel importante, mas n\u00e3o positivo, na determina\u00e7\u00e3o do que os agentes econ\u00f4micos poderiam ou n\u00e3o fazer. Emitiam tamb\u00e9m diretrizes econ\u00f4micas e concediam algum poder de monop\u00f3lio, al\u00e9m de fornecer outros privil\u00e9gios econ\u00f4micos aos cidad\u00e3os favorecidos\u201d, explicou. \u201c\u00c9 preciso compreender que o laissez-faire n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o em como o mercado distribuiria a renda entre os cidad\u00e3os do pa\u00eds, mas se concentrava em recursos que maximizariam a produ\u00e7\u00e3o total. N\u00e3o se reconhecia um papel redistributivo do governo\u201d.<\/p>\n<p>Ficou evidente, comentou o economista, que o laissez-faire poderia levar a uma concentra\u00e7\u00e3o significativa de renda, o que fez com que um n\u00famero significativo de economistas come\u00e7asse a sugerir que os governos tinham quem desempenhar pap\u00e9is diferentes e crescentes nas economias. \u201cA fun\u00e7\u00e3o que desempenharam durante o mercantilismo era muito arbitr\u00e1ria e descoordenada para ser chamado de planejamento. O primeiro uso de planejamento completo aconteceu na R\u00fassia p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o de 1917\u201d, afirmou Tanzi. \u201cEle \u00e9 mais f\u00e1cil quando os pa\u00edses est\u00e3o produzindo poucos bens b\u00e1sicos e quando governos totalit\u00e1rios podem determinar o que ser\u00e1 produzido e como ser\u00e1 distribu\u00eddo. Fazendas coletivas e empresas p\u00fablicas n\u00e3o t\u00eam incentivos claros \u00e0 efici\u00eancia, mas ainda podem funcionar e gerar alguma produ\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia sovi\u00e9tica indica que o planejamento leva a problemas crescentes de efici\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Quanto mais avan\u00e7ada for uma economia, maior ser\u00e1 a necessidade de bens p\u00fablicos, de impostos para financi\u00e1-los e de regulamenta\u00e7\u00f5es. Por isso, \u201ca vis\u00e3o de indiv\u00edduos libert\u00e1rios, de que uma economia pode funcionar com pouco ou quase nenhum papel do governo, \u00e9 um sonho de ver\u00e3o\u201d, pontuou Tanzi. \u201cMuita interven\u00e7\u00e3o do governo pode prejudicar o mercado e contribuir para as dificuldades econ\u00f4micas. Mas pouca interven\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m gera problemas. A determina\u00e7\u00e3o do n\u00edvel \u00f3timo de interven\u00e7\u00e3o governamental \u00e9 um dos problemas mais dif\u00edceis na economia\u201d.<\/p>\n<p>No campo do desenvolvimento, Tanzi observou que, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu-se uma nova \u00e1rea da economia, o desenvolvimento econ\u00f4mico, como forma de buscar que os pa\u00edses pudessem crescer a taxas mais r\u00e1pidas reduzindo sua pobreza. Para isso, a cria\u00e7\u00e3o de infraestruturas ausentes e o crescimento do capital humano dispon\u00edvel nos pa\u00edses mais pobres foram identificados como fatores importantes. E para buscar estes objetivos, os governos precisariam aumentar os n\u00edveis de impostos. \u201cUma vasta literatura acad\u00eamica se desenvolveu para orientar os pa\u00edses em desenvolvimento a aumentarem seus n\u00edveis de impostos. O Brasil foi bem-sucedido neste objetivo e \u00e9 o pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina com maior n\u00edvel de impostos\u201d, observou.<\/p>\n<p>Mas o economista tamb\u00e9m aponta que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, houve uma tend\u00eancia geral de avaliar os resultados econ\u00f4micos quase que exclusivamente em termos de crescimento do PIB, e n\u00e3o em termos de bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. \u201cEm v\u00e1rios casos, o crescimento econ\u00f4mico registrado beneficiou apenas uma parcela relativamente pequena das popula\u00e7\u00f5es\u201d, apontou. \u201cNas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, o crescimento da renda dos pa\u00edses foi direcionado principalmente para aqueles no topo da distribui\u00e7\u00e3o de renda\u201d.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a quest\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico ganhou uma vari\u00e1vel: as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cElas geram custos que s\u00e3o reais, mas que tendem a ser ignorados pelas estat\u00edsticas oficiais de crescimento\u201d, criticou Tanzi. \u201cElas est\u00e3o criando problemas econ\u00f4micos novos e dif\u00edceis de resolver, com impactos significativos\u201d.<\/p>\n<p>Dentro deste contexto, ainda n\u00e3o existem institui\u00e7\u00f5es globais com poder para frear esse processo. Os pa\u00edses mais ricos continuam consumindo muito mais do que os pobres e continuam tendo mais poder pol\u00edtico dentro dos organismos multilaterais. \u201cNo \u00faltimo F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, em Davos, mais de mil pessoas viajaram em seus avi\u00f5es particulares. Se \u00e9 justo que os pa\u00edses ricos diminuam seu crescimento para controlar as emiss\u00f5es (de poluentes), por analogia tamb\u00e9m \u00e9 justo que as pessoas mais ricas tamb\u00e9m diminuam seu consumo, j\u00e1 que elas realizam muito mais emiss\u00f5es que as mais pobres\u201d.<\/p>\n<p>Neste sentido, o Brasil tem um papel importante, dada a fun\u00e7\u00e3o que suas florestas desempenham na modera\u00e7\u00e3o do clima mundial \u2013 mas, enquanto os benef\u00edcios poderiam ser sentidos no mundo todo, a responsabilidade e os custos acabam recaindo somente sobre o Brasil. \u201cOs custos totais de promover pol\u00edticas que preservariam a Floresta Amaz\u00f4nica s\u00e3o arcados pelo Brasil, enquanto uma grande parte dos benef\u00edcios iriam para o resto do mundo. \u00c9 natural que esse resultado reduza o incentivo do Brasil para preservar a floresta\u201d, observou. E apesar disso, o crescimento econ\u00f4mico continua sendo um objetivo importante para a maioria dos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Tanzi finalizou sua palestra falando que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas para estes problemas complexos e que o Brasil &#8211; um pa\u00eds maravilhoso, que ele mencionou como um dos mais bonitos do mundo &#8211; deve prestar aten\u00e7\u00e3o nos erros de pol\u00edtica mencionados no in\u00edcio da palestra, de modo a n\u00e3o comet\u00ea-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":21548,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-21529","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21529"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21529"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21529\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/21548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21529"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21529"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21529"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}