{"id":19238,"date":"2022-11-21T12:14:16","date_gmt":"2022-11-21T15:14:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cofecon.org.br\/?p=19238"},"modified":"2022-11-21T12:14:16","modified_gmt":"2022-11-21T15:14:16","slug":"carta-de-dois-simples-economistas-aos-notorios-fraga-malan-e-bacha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cofecon.org.br\/cofecon\/?p=19238","title":{"rendered":"Carta de dois simples economistas aos not\u00f3rios Fraga, Malan e Bacha"},"content":{"rendered":"<p><em>Artigo de opini\u00e3o publicado originalmente na <strong><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/opiniao\/carta-de-dois-simples-economistas-aos-notorios-fraga-malan-e-bacha\/\">Carta Capital<\/a><\/strong>. Por Guilherme Lacerda e Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Alves J\u00fanior\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>As mensagens de voc\u00eas s\u00e3o velhas e fortes, mas erradas<\/em><\/p>\n<p>Ol\u00e1 colegas,<\/p>\n<p>Voc\u00eas s\u00e3o reconhecidos intelectuais que j\u00e1 deram relevantes contribui\u00e7\u00f5es ao pa\u00eds. Suas opini\u00f5es ressoam nos ambientes ass\u00e9pticos dos mercados financeiros e pautam textos de articulistas e editorias dos grandes canais da m\u00eddia corporativa.<\/p>\n<p>N\u00f3s, somos modestos economistas. Talvez o que dizemos n\u00e3o tenha o alcance do que voc\u00eas dizem. Tamb\u00e9m compartilhamos, contudo, da busca por um pa\u00eds menos desigual. Nossa vis\u00e3o da din\u00e2mica econ\u00f4mica e da realidade nacional, por\u00e9m, \u00e9 distinta da de voc\u00eas. A palavra-chave que nos diferencia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela \u201cpercep\u00e7\u00e3o\u201d, um termo central na carta de voc\u00eas. \u00c9 tamb\u00e9m pelos princ\u00edpios.<\/p>\n<p>O teor da carta de voc\u00eas ao futuro presidente Lula nos estimula a fazer algumas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 certo que \u201ca responsabilidade fiscal n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo ao nobre anseio de responsabilidade social\u201d.\u00a0 Pelo que foi a pol\u00edtica econ\u00f4mica dos dois mandatos do Presidente que agora retorna, estamos seguros de que tal princ\u00edpio n\u00e3o ficar\u00e1 em segundo plano. Fiquem tranquilos quanto a isso.<\/p>\n<p>Segundo, voc\u00eas afirmam que o teto de gastos foi \u201cuma tentativa de for\u00e7ar uma organiza\u00e7\u00e3o de prioridades\u201d. Aqui, \u00e9 melhor seguirmos devagar com o andor, que o santo \u00e9 de barro. Voc\u00eas se lembram do que foi o ano de 2016? Sabem como foi cunhado e amplificado o sofism\u00e1vel conceito de \u2018contabilidade criativa\u2019 e de \u2018pedaladas fiscais\u2019? Porque o time que tanto admira voc\u00eas, de repente, ali pelos idos de 2014, passaram a pensar s\u00f3 em d\u00edvida bruta e n\u00e3o em d\u00edvida l\u00edquida? Os cr\u00e9ditos p\u00fablicos eram de baixa liquidez? Como eles se comportaram nos anos seguintes?<\/p>\n<p>E vamos deixar de lado \u2013 para n\u00e3o incomodar os leitores com tecnicidades \u2013 a refer\u00eancia \u00e0s \u201copera\u00e7\u00f5es estruturadas\u201d do BC. Aqui, sim, temos um movimento da gest\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica t\u00e3o peculiar, brasileir\u00edssimo, e com elevado poder corrosivo de nossas finan\u00e7as p\u00fablicas. Mas isso voc\u00eas n\u00e3o debatem \u2013 e desdenham daqueles que o fazem.<\/p>\n<p>Um ponto nos traz curiosidade. Voc\u00eas afirmam que, por aqui, o governo \u00e9 tido como um mau pagador. Como assim? H\u00e1 menos de um ano a curva de juros real estava abaixo de um ter\u00e7o do que passou a estar em uma escalada de eleva\u00e7\u00e3o t\u00e3o veloz para corrigir o tal \u201chiato inflacion\u00e1rio\u201d? A infla\u00e7\u00e3o que se manifestou foi derivada de uma press\u00e3o de demanda cujo rem\u00e9dio inexor\u00e1vel teria de ser na dose em que foi aplicado? Havia dificuldade antes para a administra\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica? Podem nos explicar os fundamentos associados \u00e0s vari\u00e1veis do modelo que levaram \u00e0s medidas tomadas? Sabem quanto a mais de recursos p\u00fablicos est\u00e1 sendo sugado do or\u00e7amento P\u00daBLICO? Ou essa explica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito complexa e n\u00e3o faz sentido demonstrar que tal percep\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma constata\u00e7\u00e3o da realidade? Ipsum factum est.<\/p>\n<p>Estamos de acordo que o mercado burs\u00e1til \u00e9 importante para a economia, como fonte de financiamento. Mas, convenhamos, voc\u00eas n\u00e3o precisavam incens\u00e1-lo tanto. At\u00e9 um aluno do 2\u00ba ano do bacharelado de nossa sinistra ci\u00eancia conhece a rela\u00e7\u00e3o entre a economia real e o circuito financeiro \u2013 e, se estudar direitinho concluir\u00e1 ao final do curso que a financeiriza\u00e7\u00e3o de nossa economia \u00e9 distorcida frente aos par\u00e2metros internacionais. E n\u00e3o foi por indisciplina fiscal entre 2003 e 2013.<\/p>\n<p>Outra coisa nos chama a aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o vimos carta de voc\u00eas diante dos feitos implac\u00e1veis do receitu\u00e1rio guediano. Voc\u00eas realmente acham que estamos vivendo uma mera troca de bast\u00e3o? Dif\u00edcil acreditar. Onde voc\u00eas estavam diante de mais de R$ 700 bilh\u00f5es de gastos \u201cextra teto\u201d em quatro anos, a maior parte ap\u00f3s o auge da pandemia, diretamente para se criar uma nova percep\u00e7\u00e3o (de novo, ela) e tentar ganhar um jogo \u201cna m\u00e3o grande\u201d?<\/p>\n<p>Ilustres economistas, j\u00e1 faz muito tempo um de voc\u00eas cunhou a express\u00e3o \u201cBel\u00edndia\u201d para expressar a vergonhosa realidade daquele tempo em nosso pa\u00eds. Passadas mais de cinco d\u00e9cadas, o que temos? A gera\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, a nossa gera\u00e7\u00e3o, fracassou. Temos que reconhecer isso. Os postulados de voc\u00eas s\u00e3o os mesmos de antes. N\u00e3o deu certo. O grande f\u00edsico dizia que burrice \u00e9 \u201ccontinuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.\u201d\u00a0 Ent\u00e3o, tenham um pouco mais de cuidado ao formular suas prescri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As mensagens de voc\u00eas s\u00e3o velhas e fortes, mas erradas. Elas est\u00e3o conectadas \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio est\u00e1tico, walrasiano, na linha do que a hist\u00f3ria mostra ter sido na \u201cera vitoriana\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, achamos, sinceramente, que a missiva de voc\u00eas \u00e9 impr\u00f3pria e est\u00e1 fora de lugar. Querem impor princ\u00edpios de pol\u00edtica econ\u00f4mica a um l\u00edder pol\u00edtico que, pela sua hist\u00f3ria e pelo que alcan\u00e7ou, merecia um pouquinho mais de respeito.<\/p>\n<p>A carta de voc\u00eas nos remete a lembrar do grande Saramago, quando se comemora o seu centen\u00e1rio. Ele se notabilizou t\u00e3o bem em mostrar os \u201cdesgovernos do mundo\u201d a partir dos impulsos humanos, alguns de grandes alcances, outros nem tanto.<\/p>\n<p>Fiquem calmos: nosso pa\u00eds ser\u00e1 reconstru\u00eddo a partir de <em><strong>\u201ccredibilidade, estabilidade e previsibilidade\u201d<\/strong><\/em>. Tr\u00eas palavras singelas, expressadas por quem tem autoridade de sobra para consolidar \u201cnovas percep\u00e7\u00f5es\u201d para o mercado, mas muito mais relevante para se perseguir a constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o representa, necessariamente, a opini\u00e3o de CartaCapital.<\/p>\n<p>Guilherme Lacerda &#8211; Economista e professor universit\u00e1rio<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Alves J\u00fanior &#8211; Doutor em Economia e professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Foi chefe da Assessoria Econ\u00f4mica do Minist\u00e9rio do Planejamento, Or\u00e7amento e Gest\u00e3o, entre 2004 e 2005; consultor do Banco Mundial em 2009; e chefe do Departamento de Rela\u00e7\u00f5es com o Governo no BNDES, entre 2009 e 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de opini\u00e3o publicado originalmente na Carta Capital. Por Guilherme Lacerda e Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Alves J\u00fanior\u00a0 As mensagens de voc\u00eas s\u00e3o velhas e fortes, mas erradas Ol\u00e1 colegas, Voc\u00eas s\u00e3o reconhecidos intelectuais que j\u00e1 deram relevantes contribui\u00e7\u00f5es ao pa\u00eds. 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